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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 28 de junho de 2016

SÃO PEDRO E SÃO PAULO-C

SÃO PEDRO E SÃO PAULO
SOLENIDADE

3 de Julho – c

1ª Leitura - At 12,1-11

Salmo 33

2ª Leitura - 2Tm 4,6-8.17-18


Evangelho - Mt 16,13-19


Hoje a Igreja celebra a festa de Pedro e Paulo, duas colunas básicas da nossa fé. Depois de Jesus, são eles que representam a força da nossa crença. Por que a fé que professamos hoje, é uma herança do trabalho missionário dos apóstolos, especialmente de Pedro e de Paulo. Continua


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VÍDEO – PEDRO E PAULO
IRMÃ ROSÁRIA E IRMÃ JÚLIA
“Eis os santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”.
Estas palavras que o missal propõe como antífona de entrada desta solenidade, resumem admiravelmente o significado de são Pedro e são Paulo. A Igreja chama a ambos de “corifeus”, isto é líderes, chefes, colunas. E eles o são.
Primeiramente, porque são apóstolos. Isto é, são testemunhas do Cristo morto e ressuscitado. Sua pregação plantou a Igreja, que vive do testemunho que eles deram. Pedro, discípulo da primeira hora, seguiu Jesus nos dias de sua pregação, recebeu do Senhor o nome de Pedra e foi colocado à frente do colégio dos Doze e de todos os discípulos de Cristo. Generoso e ao mesmo tempo frágil, chegou a negar o Mestre e, após a ressurreição, teve confirmada a missão de apascentar o rebanho de Cristo. Pregou o Evangelho e deu seu último testemunho em Roma, onde foi crucificado sob o imperador Nero. Paulo não conhecera Jesus segundo a carne. Foi perseguidor ferrenho dos cristãos, até ser alcançado pelo Senhor ressuscitado na estrada de Damasco. Jesus o fez se apóstolo. Pregou o Evangelho incansavelmente pelas principais cidades do império romano e fundou inúmeras igrejas. Combateu ardentemente pela fidelidade à novidade cristã, separando a Igreja da sinagoga. Por fim, foi preso e decapitado em Roma, sob o imperador Nero.
O que nos encanta nestes gigantes da fé não é somente o fruto de sua obra, tão fecunda. Encanta-nos igualmente a fidelidade à missão. As palavras de Paulo servem também para Pedro: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Ambos foram perseverantes e generosos na missão que o Senhor lhes confiara: entre provações e lágrimas, eles fielmente plantaram a Igreja de Cristo, como pastores solícitos pelo rebanho, buscando não o próprio interesse, mas o de Jesus Cristo. Não largaram o arado, não olharam para trás, não desanimaram no caminho... Ambos experimentaram também, dia após dia, a presença e o socorro do Senhor. Paulo, como Pedro, pôde dizer: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar...”
Ambos viveram profundamente o que pregaram: pregaram o Cristo com a palavra e a vida, tudo dando por Cristo. Pedro disse com acerto: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”; Paulo exclamou com verdade: “Para mim, viver é Cristo. Minha vida presente na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. Dois homens, um amor apaixonado: Jesus Cristo! Duas vidas, um só ideal: anunciar Jesus Cristo! Em Jesus eles apostaram tudo; por Jesus, gastaram a própria vida; da loucura da cruz e da esperança da ressurreição de Jesus, eles fizeram seu tesouro e seu critério de vida.
Finalmente, ambos derramaram o sangue pelo Senhor: “Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. Eis a maior de todas a honras e de todas as glórias de Pedro e de Paulo: beberam o cálice do Senhor, participando dos seus sofrimentos, unido a ele suas vidas até o martírio em Roma, para serem herdeiros de sua glória. Eis por que eles são modelo para todos os cristãos; eis por que celebramos hoje, com alegria e solenidade o seu glorioso martírio junto ao altar de Deus! Que eles intercedam por nós na glória de Cristo, para que sejamos fiéis como eles foram.
Hoje também, nossos olhos e corações voltam-se para a Igreja de Roma, aquela que foi regada com o sangue dos bem-aventurados Pedro e Paulo, aquela, que guarda seus túmulos, aquela, que é e será sempre a Igreja de Pedro. Nós sabemos que ela é a esposa do Cordeiro, imagem da Jerusalém celeste. Conhecemos e veneramos o ministério que o Senhor Jesus confiou a Pedro e seus sucessores em benefício de toda a Igreja: ser o pastor de todo o rebanho de Cristo e a primeira testemunha da verdadeira fé naquele que é o “Cristo, Filho do Deus vivo”. Sabemos com certeza de fé que a missão de Pedro perdura nos seus sucessores em Roma. Hoje, a missão de Pedro é exercida por Bento XVI. Ao santo Padre, nossa adesão filial, por fidelidade a Jesus, que o constituiu pastor do rebanho. Não esqueçamos: o papa será sempre, para nós, o referencial seguro da comunhão na verdadeira fé apostólica e na unidade da Igreja de Cristo. Quando surgem, como ervas daninhas, tantas e tantas seitas cristãs e pseudo-cristãs, nossa comunhão com Pedro é garantia de permanência seguríssima na verdadeira fé. Quando o mundo já não mais se constrói nem se regula pelos critérios do Evangelho, a palavra segura de Pedro é, para nós, uma referência segura daquilo que é ou não é conforme o Evangelho.
Rezemos, hoje, pelo nosso santo Padre, Bento. Que Deus lhe conceda saúde de alma e de corpo, firmeza na fé, constância na caridade e uma esperança invencível. E a nós, o Senhor, por misericórdia, conceda permanecer fiéis até a morte na profissão da fé católica, a fé de Pedro e de Paulo, pala qual, em nome de Jesus, “Cristo Filho do Deus vivo”, os santos apóstolos derramaram o próprio sangue.
Ao Senhor, que é admirável nos seus santos e nos dá a força para o martírio, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Solenidade de são Pedro e são Paulo
Hoje celebramos o glorioso martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo, aqueles“santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. Pedro, aquele a quem o Senhor constituiu como fundamento da unidade visível da sua Igreja e a quem concedeu as chaves do Reino; Paulo, chamado para ser apóstolo de um modo único e especial, tornou-se o Doutor das nações pagãs, levando o Evangelho aos povos que viviam nas trevas. Um pela cruz e o outro pela espada, deram o testemunho perfeito de Cristo, derramando seu sangue e entregando a vida em Roma, por volta do ano 67 da nossa era.
Esta solenidade hodierna dá-nos a oportunidade para algumas ponderações importantes.
A Igreja é apostólica. Esta é uma sua propriedade essencial. João, no Apocalipse, vê a Jerusalém celeste fundada sobre doze alicerces com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (cf. 21,14). Eis: a Igreja não pode ser fundada por ninguém, a não ser pelo próprio Senhor, que a estabeleceu sobre o testemunho daqueles Doze primeiros que ele mesmo escolheu. Seu alicerce, portanto, sua origem, seu fundamento são o ministério e a pregação apostólicas que, na força do Espírito Santo, deverão perdurar até o fim dos tempos graças à sucessão apostólica dos bispos católicos, transmitida na consagração episcopal. Dizer que nossa fé é apostólica significa crer firmemente que a fé não pode ser inventada nem tampouco deixada ao bel-prazer das modas de cada época; crer que a Igreja tem como fundamento os apóstolos significa afirmar que não somos nós, mas o Cristo no Espírito Santo, quem pastoreia e santifica a Igreja pelo ministério dos legítimos sucessores dos apóstolos. O critério daquilo que cremos, a regra da nossa adesão ao Senhor Jesus, a norma da nossa fé é aquilo que recebemos dos santos apóstolos uma vez para sempre. Só a eles e aos seus legítimos sucessores o Senhor confiou a sua Igreja, concedendo-lhes a autoridade com a unção do Espírito para desempenharem o ofício de guiar o seu rebanho pelos séculos a fora. Olhemos para Pedro e Paulo e renovemos nosso firme propósito de nos manter alicerçados na fé católica e apostólica que eles plantaram juntamente com os demais discípulos do Senhor. Hoje, quando surgem tantas comunidades cristãs que se auto-intitulam “igrejas” e se auto-denominam “apostólicas”, estejamos atentos para não perder a comunhão com a verdadeira fé, transmitida de modo ininterrupto e fiel na única Igreja de Cristo, santa, católica e apostólica.
Um outro aspecto importante é o significado de ser apóstolo: ele não é somente aquele que prega Jesus, mas, sobretudo, aquele que, escolhido pelo Senhor, com ele conviveu, nele viveu e, por ele, entregou sua vida. Os apóstolos testemunharam Jesus não somente com a palavra, mas também com o modo de viver e com a própria morte. Por isso mesmo, seu martírio é uma festa para a Igreja, pois é o selo de tudo quanto anunciaram. O próprio são Paulo reconhecia: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor. Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila para que esse incomparável poder seja de Deus e não nosso. Incessantemente trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo. Assim, a morte trabalha em nós; a vida, porém, em vós” (2Cor. 4,5.7.10.12). Eis o sinal do verdadeiro apóstolo: dar a vida pelo rebanho, com Jesus e como Jesus, gastando-se, morrendo, pra que os irmãos vivam no Senhor! Por isso a alegria da Igreja na festa de hoje: Pedro e Paulo não só falaram, não só viveram, mas também morreram pelo seu Senhor; e já sabemos pelo próprio Cristo-Deus que não há maior prova de amor que dá a vida por quem amamos! Bem-aventurado é Pedro, bendito é Paulo, que amaram tanto o Senhor a ponto de darem a vida por ele! Nisto são um exemplo, um modelo, uma norma de vida para todos nós. Aprendamos com eles!
Um terceiro aspecto que hoje podemos considerar é a ação fecunda da graça de Cristo na vida dos seus servos. O exemplo de Pedro, o exemplo de Paulo servem muito bem para nós. Bento XVI, ao ser eleito, afirmou humildemente que se consolava com o fato de Deus saber trabalhar com instrumentos insuficientes: quem era Simão, chamado Pedro? Um pescador sincero, mas rude, impulsivo e de temperamento movediço. No entanto, foi fiel à graça, e tornou-se Pedra sólida da Igreja, tão apegado ao seu Senhor, a ponto de exclamar, cheio de tímida humildade: “Senhor tu sabes tudo; tu sabes que te amo” (Jo 21,17). Quem era Saulo de Tarso, chamado Paulo? Um douto, mas teimoso e radical fariseu, inimigo de Cristo. Tendo sido fiel à graça, tornou-se o grande Apóstolo de Jesus Cristo, tão apaixonado pelo seu Senhor, a ponto de nos desafiar: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo!” (1Cor. 11,1). Eis, caros meus, abramo-nos também nós à graça que o Senhor nos concede para a edificação da sua obra, para a construção do seu Reino, e digamos como são Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou, e sua graça em mim não foi em vão” (1Cor. 15,10).
Ainda um derradeiro aspecto, amados no Senhor. Nesta hodierna solenidade somos chamados a refletir sobre o ministério de Pedro na Igreja. Simão por natureza foi feito Pedro pela graça. Pedro quer dizer pedra. Eis, portanto, Simão Pedra. “Tu és Pedro e sobre esta Pedra eu edificarei a minha Igreja. Eu te darei as chaves do Reino” (Mt. 16,16 ss). O ministério petrino é mais que a pessoa de Pedro. Seu serviço será sempre o de confirmar os irmãos na fé em Cristo, Filho do Deus vivo, mantendo a Igreja unida na verdadeira fé apostólica e na unidade católica. É este o ministério que até o fim dos tempos, por vontade do Senhor, estará presente na Igreja na pessoa do sucessor de Pedro, o bispo de Roma, a quem chamamos carinhosamente de papa, pai. O papa é o Pastor supremo da Igreja de Cristo porque somente a ele o Senhor entregou de modo supremo o seu rebanho. Aquilo que entregou aos doze e a seus sucessores, os bispos, entregou de modo especial a Pedro e a seus sucessores, o papa: “Tu me amas mais que estes? Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15). Estejamos atentos, caríssimos: nossa obediência, nossa adesão, nosso respeito, nossa veneração pelo santo Padre não é porque o achamos simpático, sábio, ou de pensamento igual ao nosso, mas porque ele é aquele a quem o Senhor confiou a missão de confirmar os irmãos. Nossa certeza de que ele nos guia em nome de Cristo vem da promessa do próprio Senhor: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos” (Lc. 22,31-32). É porque temos certeza da eficácia da oração de Jesus por Pedro e seus sucessores, que aderimos com fé ao ensinamento do santo Padre. Estejamos certos de uma coisa: quem não está em comunhão com o papa está fora da plena comunhão visível com a Igreja de Cristo, que é a Igreja católica.
dom Henrique Soares da Costa - www.padrehenrique.com


Tu és Pedro...
O diálogo com os discípulos introduz as palavras dramáticas com que Jesus anuncia pela primeira vez sua paixão e faz sua proposta: o dom da vida (vv. 21-28).
Quem dizeis que eu sou? (vv. 13-16). Se em nossos dias Jesus nos perguntasse: “Quem sou eu para você?”, certamente responderíamos com as palavras de Pedro, pois olharíamos para ele com satisfação, como fazem os alunos que estão convencidos de ter superado com sucesso a prova do exame. Mas ele, provavelmente, insistiria: isto não é o que você pensa, é ainda o que você ouviu os outros dizerem, os padres, as irmãs, os catequistas; mas para você, pessoalmente, quem sou eu? Que influência eu tenho na sua vida, quais as mudanças que a fé em mim operou em você?
Na segunda parte da passagem de hoje, vemos que Jesus diz a Simão: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...”. Então, o que é que Jesus entende quando afirma: “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”? Ele se refere à fé nele professada por Pedro. Essa fé constitui o fundamento sólido da Igreja. Torna-a invencível e capaz de dominar as forças contrárias. Todos aqueles que, como Pedro, professam a fé em Jesus Cristo Filho do Deus vivo passam a fazer parte deste edifício solidíssimo que jamais ruirá.
A expressão “as portas do inferno” não deve ser entendida em sentido material. Indica as forças do mal, o que é contrário à vida e ao bem do homem. Nada poderá impedir a Igreja, que acredita firmemente em Cristo, de realizar sua missão de salvação.
Pedro recebe também “as chaves e o poder de ligar e de desligar”. Antes de procurar entender o significado dessas duas imagens, notemos que o poder de ligar e de desligar não é reservado a Pedro, é conferido, logo depois, a toda a comunidade (Mt. 18,18; cf. Jo 20,23).
Essas imagens, usadas frequentemente pelos rabinos do tempo de Jesus, indicam a autoridade de transmitir os ensinamentos do mestre e de decidir o que é conforme e o que é contrário ao evangelho.
Pedro, que apenas manifestou sua fé em Cristo, representa os apóstolos e todos os cristãos que professam a mesma fé.
Mas qual é seu ministério específico? É este o ponto que divide as comunidades cristãs de todo o mundo. Essa divisão é provocada certamente pelo pecado dos homens, não pela palavra de Jesus. Para reconstruir a unidade, não podemos pretender que sejam os outros que se devam converter para nós, nem os irmãos das outras confissões exigir que nos convertamos a eles. Todos devemos converter-nos: para Cristo e para a sua palavra.
No Novo Testamento, esse apóstolo aparece sempre em primeiro lugar e é ele que deve confirmar a fé dos outros (Mt 10,2; Lc 22,32; Jo 21,15-17). Isso indica que a Igreja tem, no bispo de Roma, o encarregado de manter a unidade na fé em Cristo, professada por Pedro.
“O Mílite”



No mês de junho celebram-se alguns dos santos mais queridos da devoção popular: santo Antônio, são João Batista e são Pedro. São festas marcadas por elementos de sabor folclórico, como as fogueiras, as quadrilhas, as comidas típicas: as festas juninas. A Igreja olha tudo isso com maternal compreensão, dentro daquela linha pedagógica ensinada por Jesus: não apagar a mecha que ainda está fumegando, nem quebrar o caniço que está apenas rachado (cf. Mt. 12,20). Ela sabe que por debaixo dessas manifestações menos "canônicas" há sempre implícito algum traço de fé. E os santos festejados acabam sendo uma espécie de padrinhos da fé, que levam o povo à Igreja nos dias de suas festas.
Mas evidentemente a Igreja espera e deseja resgatar cada vez mais o verdadeiro valor dessas festas, para que apresentem aos fiéis o sentido da vida desses santos na caminhada do Povo de Deus. Agora, por exemplo, estamos celebrando São Pedro - transferido de 29 de junho. Na verdade, a festa é de são Pedro e são Paulo, os dois apóstolos que estão nas raízes da Igreja de Roma e do mundo, como está anunciado no cântico de sua festa, lembrando o martírio dos dois, na perseguição de Nero: “Roma feliz, tornada cor de púrpura - destes heróis no sangue tão fecundo". Mas, por motivos óbvios, prevalece nesta data a homenagem a são Pedro, ficando são Paulo para ser mais festejado no dia de sua conversão, que é 25 de janeiro.
Hoje festejamos, então, são Pedro. Aquele que Jesus constituiu chefe visível da Igreja na terra, quando lhe disse: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja" (Mt. 16,18); e a quem confiou a guarda universal do rebanho, na aparição à beira do lago de Tiberíades, depois da Ressurreição: "Apascenta as minhas ovelhas ...apascenta os meus cordeiros" (Jo 21,15.16). E é importante conferir no Evangelho e nos Atos dos Apóstolos a indiscutível posição primacial de Pedro entre os Apóstolos. Como - só para dar um exemplo - quando ele convocou a comunidade para escolher um apóstolo que ocupasse o lugar de Judas, o traidor.
E, na festa de são Pedro, a Igreja espontaneamente volta seu olhar para o Papa, o sucessor de Pedro no governo da Igreja. E é uma porfia de orações, "para que o Senhor o conserve, lhe dê longa vida, e o faça feliz na terra, e jamais permita que as forças inimigas prevaleçam contra ele" .E é uma tomada de consciência sobre o sentido da autoridade do Papa na Igreja.
Começa pela figura da "pedra", de que se serviu Jesus, mudando até o nome de “Simão" para "Cefas", palavra hebraica que significa "pedra" , possibilitando o jogo de palavras na fórmula da promessa do primado, que em nossas línguas ocidentais encontra similar em francês, onde "Pierre" é Pedro, e "pierre" é pedra. Pedra é sinônimo de unidade e de firmeza. A autoridade do Papa é como um robusto bloco de granito, que simboliza a firmeza e a unidade da Igreja; e que dá aos fiéis uma profunda sensação de segurança, em face das investidas do erro e da violência. O Papa João Paulo gosta de usar a expressão consagrada pelo Vaticano II: "(Cristo) propôs aos demais apóstolos o bem-aventurado Pedro, e nele instituiu o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade de fé e comunhão (LG 18/41 a).
Essas duas palavras - fé e comunhão - foram sabiamente escolhidas para definir a natureza da autoridade do Papa. Ela é uma autoridade de fé. Para que se conserve na Igreja sem confusão nem dubiedades a pureza da doutrina que Jesus nos ensinou. É a autoridade de magistério que o Papa exerce na Igreja. Para nossa total confiança. Jesus dissera a Pedro: "Eu roguei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos na fé" (Lc. 22,32). Sua palavra é para nós sinal da verdade. Mesmo fora dos casos em que ele declare estar praticando um ato definitivo de pastor e mestre supremo da Igreja - caso em que ele goza pessoalmente da infalibilidade que Cristo prometeu a sua Igreja - sua palavra é sempre luz que guia o Povo de Deus pelo caminho da verdade.
E a sua é uma autoridade de comunhão. Que une a Igreja como uma grande família. O papa é o vigário do amor pastoral de Cristo. Cristo lhe confiou o seu rebanho. E, antes desse gesto de entrega de tão grande poder, quis ouvira declaração de Pedro: "Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo" (Jo 21,29). E nossa obediência ao papa é uma obediência de filhos. Uma obediência de amor. Não a subserviência de bajuladores. Nem mesmo a obediência fria de meros observadores de leis. É a entrega nas mãos da paternidade universal do Santo Padre.
padre Lucas de Paula Almeida, CM





1) Pedro: Simão responde pela fé dos seus irmãos (evangelho). Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro, que significa sua vocação de ser pedra, rocha, para que Jesus edifique sobre ele a comunidade daqueles que aderem a ele na fé. Pedro deverá dar firmeza aos seus irmãos (cf. Lc. 22,32). Esta “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (= cidade, reino) do inferno (o poder do mal, da morte) não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do “Reino do Céu” (de Deus).
A libertação da prisão ilustra esta promessa (1ª leitura). Jesus lhe confia também “o poder das chaves”, i.é, o serviço de “mordomo” ou administrador de sua casa, de sua família, de sua comunidade ou “cidade”. Na medida em que a Igreja é realização (provisória, parcial) do Reino de Deus, Pedro e seus sucessores, os Papas, são “administradores” dessa parcela do Reino de Deus (dos “Céus” no sentido de “Deus”... nada a ver com a figura de Pedro como porteiro do céu no sentido do “além”..).
Eles têm a última responsabilidade do serviço pastoral. Pedro, sendo aquele que “responde pelos Doze”, administra ou governa as responsabilidades da evangelização (não a administração material...). Quem exerce este serviço hoje é o papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma (de Roma, por causa das circunstâncias históricas).
Pedro recebe também o poder de “ligar e desligar” - o poder da decisão, de obrigar ou deixar livre -, exatamente como último responsável da comunidade (em Mt. 18,18, esse poder é dado à comunidade como tal, evidentemente sob a coordenação de quem responde por ela). Não se trata de um poder ilimitado, mas da responsabilidade pastoral, que concerne à orientação dos fiéis para a vida em Deus, no caminho de Cristo.
2) Paulo: Se Pedro aparece como fundamento institucional da Igreja, Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão do Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, transforma-se em mensageiro de Cristo; “apóstolo”. É ele que realiza, por excelência, a missão dos apóstolos, de serem testemunhas de Cristo “até aos extremos da terra” (At. 1,8).
As cartas a Tímóteo, escritas da prisão em Roma, são a prova disto, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o Evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Ele é o “apóstolo das nações”. No fim da sua vida, pode oferecer sua vida como “oferenda adequada” a Deus, assim como ele ensinou (Rm 12,1). Como Pedro, ele experimenta Deus como um Deus que liberta da tribulação (2ª leitura).
Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os fundadores da Igreja universal. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.
Essa complementaridade pode provocar tensões (cf. Gl. 2); as preocupações de uma “teologia romana” podem não ser as mesmas que as de uma “teologia latino-americana”. A recente polêmica em tomo da Teologia da Libertação mostrou que tal tensão pode ser extremamente fecunda e vital para a Igreja toda.
Hoje, celebra-se especialmente o “Dia do Papa”. Enseja uma reflexão sobre o serviço da responsabilidade última. Importa libertar-nos de um complexo antiautoritário de adolescentes. Devemos crescer para a obediência adulta, sem mistificação da autoridade, nem anarquia. O “governo” pastoral é um serviço legítimo e necessário na Igreja. Mas importa observar também que aquele que tem a última palavra deve escutar as penúltimas palavras de muita gente.
padre Johan Konings, sj



A liturgia de hoje, celebra são Pedro e são Paulo, os dois pilares de fundação da Igreja que, de formas diferentes e complementares, edificaram a Igreja de Jesus. É a festa da fé de são Pedro que reconheceu, antes de qualquer outro, Jesus como o Messias, e foi escolhido por Ele para ser a pedra fundamental da Igreja, por isso comemoramos também hoje o dia do papa, e de são Paulo que passou de perseguidor a perseguido por aceitar a missão para qual Jesus o convidou, de levar seus ensinamentos a todos: pagãos, reis e também ao povo de Israel, missão esta que ele cumpriu com dedicação e especial criatividade missionária.
Pedro, um homem simples, um pescador sem cultura que ao longo dos evangelhos se revela cheio de contrastes, se recusa a ter os pés lavados por Jesus, mas de imediato pede que Ele o lave por completo; diz que jamais abandonaria Jesus, mas em seguida quando Jesus é condenado, ele o nega três vezes. No entanto, o poder do Espírito Santo transforma esse homem simples e intempestivo em um líder sensato e dinâmico que, juntamente com seus irmãos em Cristo, funda a igreja de Jesus e a comanda com firmeza, como uma rocha. Jesus confiou também a ele as chaves do Reino dos céus, conferindo-lhe autoridade para governar Sua igreja, Seu povo. Já o poder de ligar e desliga, é o poder de tomar decisões e de absolver ou não os pecados.
Paulo, por sua vez, não era um discípulo que caminhou com Jesus durante sua vida terrena, ou se quer era seu seguidor, na verdade perseguia os cristãos e, no caminho de Damasco, na sua última perseguição a eles, Jesus o convida a conversão, e mais do que isto, quer que ele seja Seu apóstolo para levar a Sua palavra a todas as nações, missão esta que Paulo cumpre com coragem e determinação. Mas, seu marco principal é a criatividade de sua catequese, que faz brotar a fé em Cristo em todos os que o escutam, quer seja oralmente ou através de suas cartas repletas do Espírito Santo. Perto de sua morte, Paulo deixa em sua segunda carta a Timóteo 4,7, o seu mais belo ensinamento: “Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé”, pois não importa as adversidades que se tem no dia a dia, a Fé deve ser sempre conservada.
São Pedro e são Paulo eram muito unidos na missão, e o compromisso de Evangelizar eles cumpriram à risca, correndo risco de vida, sem medo, iluminados com a força do Espírito de Jesus que os fortalecia a cada dia, em todos os lugares.

Pequeninos do Senhor


Fé e missão
A missão de liderança confiada a Pedro exigiu dele uma explicitação de sua fé. Antes de assumir o papel de guia da comunidade, foi preciso deixar claro seu pensamento a respeito de Jesus, de forma a prevenir futuros desvios.
Se tivesse Jesus na conta de um messias puramente humano, correria o risco de transformar a comunidade numa espécie de grupo guerrilheiro, disposto a impor o Reino de Deus a ferro e fogo. A violência seria o caminho escolhido para fazer o Reino acontecer.
Se o considerasse um dos antigos profetas reencarnados, transformaria a Boa-Nova do Reino numa proclamação apocalíptica do fim do mundo, impondo medo e terror. De fato, pensava-se que, no final dos tempos, muitos profetas do passado haveriam de reaparecer.Se a fé de Pedro fosse imprecisa, não sabendo bem a quem havia confiado a sua vida, correria o risco de proclamar uma mensagem insossa, e levar a comunidade a ser como um sal que perdeu seu sabor, ou uma luz posta no lugar indevido.
Só depois que Pedro professou sua fé em Jesus, como o “Messias, o Filho do Deus vivo”, foi-lhe confiada a tarefa de ser “pedra” sobre a qual seria construída a comunidade dos discípulos: a sua Igreja. Entre muitos percalços, esse apóstolo deu provas de sua adesão a Jesus, selando o seu testemunho com a própria vida, demonstração suprema de sua fé. Portanto, sua missão foi levada até o fim.
padre Jaldemir Vitório



Mártires pelo testemunho do amor à pessoa de Jesus Cristo.
Ao celebrarmos a festa de Pedro e Paulo, celebramos a festa do que a Igreja é: Corpo de Cristo, testemunha de Jesus Cristo (At. 1,8), testemunha da vitória de Cristo sobre o mal e todas as suas manifestações e sobre a morte. Ao celebrarmos num mesmo dia a festa desses dois mártires, tão diferentes entre si mas unidos pelo mesmo amor à pessoa de Jesus, amor que os levou a entregar as próprias vidas, celebramos a diversidade da Igreja e o desafio de construir a comunhão eclesial. Um e outro puderam experimentar uma profunda e radical transformação em suas vidas. Pedro foi encontrado pelo Senhor às margens do mar da Galileia, enquanto com seu irmão André lavava as redes, depois de uma noite de pesca. A partir desse primeiro encontro, teve início um longo caminho de transformação radical da vida, que o levou a essa magnífica expressão de adesão radical a Jesus: “… Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo” (Jo 21,17). Paulo, de perseguidor implacável da Igreja de Cristo, foi iluminado pelo Senhor no caminho de Damasco. Essa iluminação, num primeiro momento, o cegou para fazê-lo compreender que todo o passado dele sem Cristo era uma grande cegueira. A luz que surpreendeu Paulo o cegou para dar a ele uma nova luz, a luz do Cristo ressuscitado, a iluminação que é dada como fruto da fé no Senhor, vencedor do mal e da morte.
A fé da Igreja está apoiada na rocha da fé de Pedro e no testemunho daqueles que com Pedro foram testemunhas oculares de tudo o que Jesus fez e ensinou. Pela fé a Igreja é revestida da luz do Cristo ressuscitado e, pela graça do mesmo Cristo, é herdeira de sua vitória (cf. Ap. 12,1-6). Deles e de todos os que viveram o tesouro da fé a ponto de darem suas vidas, pode-se dizer que nada foi capaz de separá-los do amor de Cristo (Rm. 8,35-37). Por razões diferentes, a Igreja de todos os tempos sempre foi perseguida e ameaçada. Sempre tivemos mártires. O nosso tempo, nesse aspecto, não faz exceção. Atrás do discurso da tolerância religiosa, esconde-se uma verdadeira rejeição aos valores verdadeiramente cristãos. Que Deus nos dê a graça e a força do Ressuscitado para que, apoiados na fé dos Apóstolos, possamos, não obstante o mundo que nos cerca, dar o verdadeiro testemunho de Cristo.
Carlos Alberto Contieri, sj

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Confissão de Pedro
Esta narrativa da "confissão de Pedro" se completa e encontra seu sentido pleno com a narrativa seguinte sobre o primeiro "anúncio da paixão", com o diálogo conflitivo entre Jesus e Pedro. Estas narrativas são encontradas nos três evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus, e Lucas, porém com destaques próprios em cada um destes evangelistas.
Marcos, que é o primeiro dos evangelhos canônicos a ser escrito, situa a passagem narrada no momento em que Jesus encerra seu ministério entre os gentios da Galiléia e das regiões vizinhas, iniciando o caminho para Jerusalém, em ambiente de exclusividade judaica, onde se dará o confronto final com os chefes de Israel. Marcos se preocupa em mostrar que Jesus rejeita o título messiânico, indicativo de ambição e poder, afirmando-se como o simples e humilde humano, cheio do amor de Deus e comunicador deste amor que dura para sempre. Um sinal de seu despojamento é a sua vulnerabilidade à morte programada pelos chefes do Templo e das sinagogas. Lucas, por sua vez, despreocupa-se com a situação temporal e geográfica do episódio narrado, colocando-o em um momento de oração de Jesus, e conclui sua narrativa, como Marcos, registrando a rejeição sumária de Jesus ao título messiânico.
No texto de Mateus, acima, encontramos duas de suas características dominantes. Mateus acentua a dimensão messiânica de Jesus e já apresenta sinais da instituição eclesial nascente. Mateus escreve na década de 80, quando os discípulos de Jesus oriundos do judaísmo estavam sendo expulsos das sinagogas que até então freqüentavam. Mateus pretende convencer estes discípulos de que em Jesus se realizavam suas esperanças messiânicas moldadas sob a antiga tradição de Israel. Daí o acentuado caráter messiânico atribuído a Jesus por Mateus. Os cristãos, afastados das sinagogas, começam a estruturar-se em uma instituição religiosa própria, na qual a figura de referência é Pedro, já martirizado em Roma. Embora no Segundo Testamento se perceba conflitos entre Pedro e Paulo (cf. Gl. 2,11-14), a liturgia os reúne em uma só festa. Pedro é lembrado pelo seu testemunho corajoso diante da perseguição e Paulo, por seu empenho missionário em territórios da diáspora judaica.
José Raimundo Oliva













quinta-feira, 23 de junho de 2016

13º DOMINGO TEMPO COMUM-C

13º DOMINGO TEMPO COMUM



26 de Junho de 2016

1ª Leitura - 1Rs 19,16b.19-21

Salmo - Sl 15

2ª Leitura - Gl 5,1.13-18

Evangelho - Lc 9,51-62



Samaritanos e judeus viviam em constantes atritos. Por isso Jesus não foi bem recebido naquele lugar. Os discípulos propuseram uma resposta de crueldade, porém foram repreendidos por Jesus, que nunca usou de violência para reprimir nenhuma injustiça.      Leia mais
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“O FILHO DO HOMEM NÃO TEM ONDE REPOUSAR A CABEÇA.” - Olivia Coutinho.

13º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 26 de Junho de 2016

Evangelho de Lc9,51-62

O Evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, é composto de duas partes. Na primeira parte, somos convidados a meditar sobre o início da caminhada de Jesus, rumo a Jerusalém! A caminho da morte, Jesus  ia  ensinando os discípulos o caminho da vida!
Como qualquer um de nós, os discípulos queriam facilidades, eles pensavam, que com Jesus, os seus caminhos estariam abertos, mas Jesus lhes diz o contrário: o caminho precisava ser feito!
Os discípulos viam em Jesus um Rei, um Rei que iria enfrentar os seus  inimigos com severidade, como faziam os  reis daquela época.  Na mente deles, os inimigos seriam  vencidos pela força física, mas Jesus lhes mostra o contrário ao repreendê-los, quando  eles, (Tiago e João) quiseram responder com violência a um desagravo por parte dos samaritanos.  Foi surpreendente para os discípulos, a forma de Jesus lidar com as ofensas, diferente deles, que eram  acostumados com o revide. A partir então, eles  começaram a entender as exigências do seguimento a Jesus, um entendimento que foi acontecendo através de um processo lento.
Com este episódio, Jesus deixou claro para os discípulos e hoje para nós, que na dinâmica do Reino não cabe vingança!
A segunda parte do evangelho,  nos apresenta três situações que nos mostram claramente, que não basta querer seguir Jesus, é preciso se enquadrar nas exigências deste seguimento! Na primeira situação, alguém manifesta seu desejo em seguir Jesus, mas não se dá conta da dimensão deste seguimento: “Eu te seguirei para  onde quer que fores.”  Na segunda situação, alguém é convidado a segui-lo, e  este, pede tempo: “Deixe-me primeiro ir enterrar meu pai.”  E na terceira situação, tudo se repete: alguém adia o seguimento a Jesus, com mais uma desculpa: “Eu te seguirei Senhor, mas deixa-me  primeiro despedir dos meu familiares.” Jesus, aproveita estas três situações, que retrata a postura de muitos mediante ao seu chamado,  para  nos deixar uma mensagem muito clara: o seguimento a  Ele, é exigente, implica em mudança radical de vida,  exige de nós muito mais do que boa vontade, do que entusiasmo, exige compromisso, fidelidade, desprendimento, disposição em  deixar muitas coisas para trás!
Estas três situações, chama a atenção de muitos de nós, que manifestamos o desejo de seguir Jesus, mas ficamos sempre adiando este seguimento,  nos escondendo atrás das mais variadas desculpas: vou aceitar o chamado de  Jesus, depois de terminar  meus estudos, depois que meus filhos crescerem, quando eu  me aposentar... E assim, vamos perdendo a oportunidade de viver  uma intimidade profunda com Jesus no serviço prestado ao Reino,  esquecendo,  de que o nosso tempo de vida terrena é curto e que às vezes, nem haja mais tempo para um novo chamado Dele!
Nossa opção por Jesus,  não pode subordinar-se a nenhuma outra, por isso, quem deseja de fato segui-Lo, deve apresentar-se a Ele completamente livre de qualquer apego.
O primeiro passo de quem quer seguir Jesus de fato, consiste em renunciar a si mesmo, em colocar o seguimento a Ele como prioridade absoluta em sua vida.
Jesus é o nosso modelo de vida, Ele é o caminho a verdade e a vida, a nossa opção por Ele tem que ser radical, do contrário, ficamos na superficialidade da fé, não adentramos na dinâmica do Reino!
Em momento algum, Jesus  iludiu os seus seguidores com facilidades, Ele sempre deixou claro que a caminhada do discípulo é desafiadora! Desafiadora, mas gratificante, pois quem o segue, terá como recompensa a vida eterna, vida eterna, que já podemos começar a usufruir no aqui e no agora, pois quem vive em Jesus e Jesus vive nele, já experimenta aqui na terra o gosto da vida em plenitude! 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Vocação: liberdade e fidelidade
A Bíblia relata muitos episódios de vocações: de Abraão, Moisés, Samuel, dos profetas e de muitos outros. Por meio dessas pessoas, Deus comunica seu plano de amor, estabelece aliança com seu povo e ensina o caminho da fidelidade. A vocação profética, de maneira especial, nasce de uma profunda experiência de Deus no meio da realidade de sofrimento em que o povo está imerso. Elias, considerado o pai dos movimentos proféticos, vive junto às vítimas do regime monárquico de Israel, solidarizando-se com elas. Anuncia a vontade de Deus, denuncia as falcatruas dos grandes e realiza sinais de libertação em meio aos pequeninos e pobres. O profeta é portador do projeto de Deus, o qual precisa ser continuado na história. A pessoa cumpre sua missão e passa, mas o projeto de Deus não pode passar. Eis, então, que surge a vocação do profeta Eliseu (I leitura). Jesus chama os discípulos para ficar com ele, ensina-lhes e revela-lhes a vontade do Pai, realiza diante deles sinais de libertação no meio do povo necessitado e envia-os para anunciar o Evangelho e libertar as pessoas de toda espécie de mal. Em que pese a missão recebida de Jesus, os discípulos manifestam dificuldades para entendê-lo e aderir plenamente ao seu seguimento. O apego a seguranças pessoais impede a liberdade necessária para seguir verdadeiramente a Jesus (Evangelho). Dentro de nós carregamos a tendência para os instintos egoístas. Podemos vencê-los se nos deixamos guiar pelo Espírito Santo. Ele nos torna livres em Cristo para uma vida nova na graça de Deus (II leitura). A vocação, portanto, é convite de Deus para a plena realização humana, somente possível se nos desvencilharmos de tudo o que impede a ação amorosa de Deus em cada um de nós e na humanidade inteira.
1 leitura (1Rs 19,16b.19-21): A profecia precisa continuar
O profeta Elias dedicou sua vida à causa da justiça divina, em favor das pessoas desprotegidas. Seu nome significa “Javé é meu Deus”. É portador do projeto do Deus que libertou o povo da escravidão do Egito e lhe deu uma terra “onde corre leite e mel”. Nessa terra, o povo, organizado em tribos, procurou viver a proposta de um poder descentralizado e de uma economia baseada na partilha, segundo a necessidade das famílias. Tudo mudou com o regime monárquico. Elias, cuja atuação profética se dá ao redor do ano 860 a.C., especialmente durante o governo de Acab, levanta a bandeira da proposta javista como caminho de restauração do direito e da justiça. Tendo a Javé como o seu Deus, Israel poderia libertar-se da corrupção e mudar a sua história.
Elias, inspirado por Deus, preocupa-se com a continuação de sua missão profética. A pessoa tem seu tempo histórico. O projeto de Deus, porém, não pode parar. O movimento profético vai continuar agora com Eliseu. A narrativa da sua vocação é reveladora. Transmite a intenção subjacente ao texto.
Eliseu é trabalhador da roça. Com 12 juntas de bois, cultiva a terra juntamente com outros trabalhadores. Ele conduz a última junta. A ligação simbólica com as 12 tribos é provável neste relato. Assim como Elias, também Eliseu é portador do ideal de uma sociedade governada segundo o projeto de Deus. Ao colocar sobre Eliseu o seu manto, Elias lhe transmite a autoridade profética. Imediatamente Eliseu deixa sua profissão e se despede de sua família. Sacrifica a junta de bois e partilha a carne com seus companheiros, aproveitando a madeira do arado para cozinhá-la. Depois, levanta-se e segue Elias. Está em plena liberdade para exercer a missão profética.
2. Evangelho (Lc 9,51-62): Ser livre para seguir a Jesus
O texto situa o exato momento em que Jesus toma a firme resolução de ir a Jerusalém. Inicia-se o “êxodo” de Jesus, cujo principal objetivo é educar seus discípulos, abrindo-lhes os olhos a respeito das condições e consequências do seu seguimento. No texto do domingo passado (9,18-24), os discípulos, por meio de Pedro, haviam declarado a Jesus que ele era o “Messias de Deus”. Não sabiam, porém, o verdadeiro significado dessas palavras. A concepção triunfalista de messianismo predominava em sua mente. Isso já ficou evidente pelo tipo de discussão que tiveram logo depois da confissão de Pedro: quem deles seria o maior? (cf. 9,46-48). Fica evidente também pela atitude de Tiago e João diante da hostilidade dos samaritanos. Estes são inimigos ferrenhos dos judeus. Certamente os dois mensageiros que Jesus havia enviado à sua frente deviam ter preparado os ânimos dos samaritanos. Mas parece que fracassaram. O que disseram e como fizeram? O fato é que sua missão não foi eficaz… Jesus repreende a Tiago e João e dirige-se para outro lugar (cf. Lc 9,51-56).
No caminho são descritas três espécies de vocações. Nelas os discípulos devem reconhecer-se. Em cada uma delas, Jesus define quais devem ser as verdadeiras atitudes dos seus seguidores e seguidoras. O texto é elaborado de tal modo, que situa no centro um chamado feito diretamente por Jesus. A primeira e a terceira personagens desejam seguir a Jesus por iniciativa própria. As três são personagens sem nome e, portanto, representativas de todas as pessoas discípulas de Jesus. Lucas quer enfatizar as exigentes condições para o seguimento.
A primeira demonstra disposição incomum: “Eu te seguirei para onde quer que tu fores”. A expressão faz lembrar as palavras de Pedro um pouco antes de negar Jesus: “Senhor estou pronto a ir contigo à prisão e à morte” (22,33). A resposta de Jesus à primeira personagem alerta para a necessidade de ruptura com as seguranças e confortos que impedem a prontidão permanente. As “tocas” e os “ninhos” estão ligados à acomodação do poder em suas instituições. Neste sentido, não é por acaso que Jesus vai chamar Herodes de “raposa” (13,32)…
A terceira personagem também se oferece espontaneamente para seguir a Jesus, com a condição de despedir-se primeiro do pessoal de sua casa. A expressão grega denota o sentido de desvencilhar-se de uma incumbência. A personagem demonstra indecisão, própria de quem tem dificuldades de desapegar-se dos seus negócios e de quem ainda está amarrado a laços afetivos prejudiciais à liberdade e à autonomia necessárias para responder ao chamado divino.
A personagem central é convidada por Jesus. Está, porém, ligada às tradições paternas. Jesus pede-lhe que deixe o passado para entrar na nova dinâmica do reino de Deus. Lembra a dificuldade manifestada pelos discípulos de desatrelar-se da ideologia judaica.
Os três tipos de vocações sintetizam as atitudes que devem caracterizar o verdadeiro discipulado. A liberdade deve ser radical para que a opção pelo Reino seja feita com inteireza.
2 leitura (Gl 5,1.13-18): Chamados à liberdade
Um dos problemas sérios que Paulo enfrenta em sua missão é a influência dos pregadores judaizantes, que insistiam na necessidade de os cristãos cumprirem certas normas judaicas, querendo obrigá-los a circuncidar-se. Diante dessas pregações persistentes, alguns membros das comunidades ficaram um tanto abalados e cheios de dúvidas. Geravam-se discussões e intrigas entre grupos com diferentes interpretações. Para Paulo, está totalmente superada a fase da Lei como condição para a salvação. O tempo da minoridade passou. Jesus Cristo nos libertou de todo tipo de escravidão, também a da Lei. Assim, todas as pessoas, independentemente da raça, recebem o privilégio de pertencer ao povo santo de Deus.
Há pessoas na comunidade, porém, que interpretam a liberdade como caminho de satisfação de interesses pessoais. Mas não! A liberdade em Jesus Cristo não é pretexto para satisfazer os instintos egoístas. Pelo contrário, é a qualidade que fundamenta o amor mútuo. A pessoa livre em Cristo põe-se inteiramente a serviço dos outros.
Paulo, então, contrapõe os instintos egoístas (ou os “desejos da carne”) às obras que provêm do Espírito Santo. São duas maneiras de viver. Os frutos são diferentes. A vida no Espírito é o jeito característico de quem foi libertado pela morte e ressurreição de Jesus. Assim como Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, viveu a vontade do Pai, entregando-se por inteiro para a vida do mundo, também os cristãos recebem a graça de uma vida nova que se manifesta no amor-serviço.
Pistas para reflexão
Todos nós somos chamados por Deus à vida e à santidade. A cada um Deus se revela de maneira original e convoca a viver segundo a sua vontade. Ele conta conosco para irradiar o seu plano de amor em atos e palavras. O profeta Elias é exemplo de disponibilidade e de dedicação ao projeto de Deus. Preocupa-se com a continuidade da missão profética e por isso, sob a inspiração de Deus, transmite o chamado a Eliseu. Como ele, podemos nos desapegar de todas as coisas que impedem a vivência plena da vocação que Deus nos dá.
Também o Evangelho de hoje nos alerta para a importância de cultivar as condições para seguir Jesus: não proteger-se em “tocas” nem acomodar-se nos “ninhos” dos interesses pessoais e das instituições de poder; libertar-se das amarras econômicas e afetivas para viver a necessária e saudável autonomia no compromisso vocacional; romper com as tradições passadas para abrir-se à novidade de Deus na história presente, novidade que se manifesta por meio de sinais que nos desafiam ao compromisso em torno de um mundo de fraternidade e paz.
Jesus deseja que sejamos pessoas prontas a superar o individualismo, a acomodação, a administração egoísta dos bens, a tendência a fazer somente o que nos agrada pessoalmente… São Paulo chama essas atitudes de “desejos da carne” ou de “instintos egoístas”. Sem perceber, podemos nos tornar escravos de coisas, de convenções, de aspirações que caracterizam o mundo pós-moderno… Corremos atrás do que a moda exige, mudamos constantemente de pensamento e de rumo, sob pretexto de realização pessoal… Há, porém, outro jeito de viver: sob a condução e a força do Espírito Santo. Ele nos torna livres para vivermos na simplicidade, na alegria de servir, na capacidade de amar como Jesus nos ensinou…
Podem-se lembrar as diversas vocações existentes na comunidade (e no mundo), seus serviços específicos e os frutos decorrentes da doação de tantas pessoas que respondem com generosidade ao chamado de Deus…
Celso Loraschi

Começa a caminhada de Jesus de volta a Jerusalém onde será preso, julgado e condenado. Morrerá na cruz, ressuscitará e subirá ao céu, encerrando assim a sua missão na terra. Essa é uma viagem teológica, pois todos os que estão nessa viagem com Jesus são intimados a escolher: estar com Ele, a favor da vida, ou estar contra Ele, contra a vida.
Durante toda a caminhada, da Galiléia a Jerusalém, Jesus prepara seus discípulos para enfrentar as diversidades que encontrarão quando já não estiver entre eles.
Ao longo do caminho há muitas pedras, e os discípulos terão que aprender a retirá-las como Jesus, com amor e perdão. Já no início dessa caminhada, Lucas relata a primeira missão, onde Jesus envia alguns discípulos à frente para preparar a hospedagem. Ao chegarem a um povoado, na região da Samaria, a presença de Jesus não é aceita, não por se tratar da pessoa Dele, mas pelo fato de os samaritanos serem inimigos dos Judeus. Desde seu surgimento, no sec. VIII a.C., os samaritanos viviam em conflitos de raça e religião com os judeus.
Os discípulos Tiago e João ficam indignados com a recusa da hospedagem (gesto extremamente grave naquela cultura), e pedem a Jesus que os autorize a destruir o povoado como acontecia no Antigo Testamento, onde no livro de Gêneses, por exemplo, o Senhor destrói as cidades de Sodoma e Gomorra salvando apenas a família de Ló, por ser o único fiel a Ele.
Jesus, porém, os ensina a perdoar e a ter paciência; atitudes que contrastam a intolerância religiosa dos discípulos com a Sua tolerância e Ele, ao invés de repreender os que lhe negam hospitalidade, repreende justamente os discípulos.
Mais tarde após Sua morte, a região da Samaria será uma das primeiras a ser evangelizada.
No evangelho do domingo passado Jesus convida a todos para assumirem cada um a sua cruz com renuncia, e hoje, Ele reforça esse convite. Ao longo da caminhada para Jerusalém muitos são os convidados a acompanhá-lo, mas se comparar o convite de Jesus com o de Elias a Eliseu, seu sucessor, é possível perceber que Jesus é mais exigente. Enquanto Elias mesmo fazendo fortes exigências a Eliseu permite-lhe festejar e despedir-se de sua família, Jesus exige renuncia total e imediata, não permitindo nem ao menos aos que se apresentam para segui-lo que enterrem seus mortos.
Quando um homem se apresenta a Jesus disposto a segui-Lo, mas primeiro quer despedir-se da família, Ele dá a seguinte resposta: “_ Quem começa a arar a terra, e olha para trás, não serve para o Reino de Deus.” Com estas palavras Jesus exige de seus seguidores o compromisso e a perseverança na missão, sem olhar para traz. O Reino de Deus exige coerência e dedicação, não dá para seguir a Deus verdadeiramente sem abdicar de alguns prazeres que o mundo oferece. A verdadeira alegria está em seguir a Deus, levar a sua Palavra a quem não O conhece e amar o próximo incondicionalmente. Esta é a missão que Jesus confia a cada um que se apresenta para ser seu seguidor.
Pequeninos do Senhor


Não à violência
O Reino apresenta-se, na vida das pessoas, como uma proposta a ser livremente acolhida ou rejeitada. Jamais poderá haver coerção sobre o destinatário da mensagem, sob pena de invalidar a opção que ele fez.
É tentador querer levar as pessoas a acolherem o Reino, independentemente de sua liberdade. Ou seja, impô-lo à força! Sem liberdade plena, o Reino não chegará a fincar raízes consistentes no coração humano, a ponto de transformá-lo em coração de discípulo.
A tentação de compelir as pessoas a abraçar o Reino pode levar o discípulo a recorrer à violência, caso elas o rejeitem. Foi o que aconteceu com os discípulos de Jesus em relação aos samaritanos. Porque se recusaram a acolher Jesus, de passagem para Jerusalém, Tiago e João sugeriram ao Mestre que mandasse fogo do céu para consumi-los, a exemplo do que aconteceu, no passado, com as cidades impenitentes.
Jesus censurou os dois discípulos, pois tinham uma mentalidade contrária à sua. Eles pensavam que, com a destruição dos samaritanos, pudessem dar uma lição a todos os demais impenitentes. Enganavam-se! Esse castigo mortal daria a entender que o Deus anunciado por Jesus era impaciente e incapaz de respeitar o ritmo das pessoas. Na verdade, ele é um Deus paciente e misericordioso, pronto a esperar o momento de ser livremente acolhido.


Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém. Decisão forte porque a subida vai terminar no alto da cruz. Para este ato final, a decisão precisava ser firme. Já no início da viagem aparece um obstáculo. Jesus envia mensageiros para prepararem sua chegada a uma aldeia de samaritanos, que não quiseram recebê-lo, porque sabiam que ele se dirigia a Jerusalém. Os samaritanos não se davam com os judeus. Tiago e João reagem e querem destruir aquela aldeia com fogo do céu. Houve um problema e problema se resolve com poder, pensam os dois discípulos iniciantes. Não é esse, porém, o pensamento de Jesus. Não é com poder que seus discípulos irão resolver os problemas que irão encontrando pela frente.
Os discípulos de Jesus não serão homens poderosos, que eliminam os obstáculos aniquilando as oposições. Jesus então ensina que quem quiser ser verdadeiramente seu discípulo deve saber que ele, o mestre, não tem nada, nem mesmo onde repousar a cabeça. Raposas e pássaros têm tocas e ninhos. Nem isso Jesus tem para oferecer aos que o seguem. Seus seguidores devem passar por uma conversão que se expressa em rupturas radicais. Nada de meias medidas, e sim entrega total ao Cristo e à sua causa, que é o Reino de Deus. Para exemplificar o caráter de tal ruptura, Jesus afirma que não haverá despedidas, nem do pai que morreu, nem do que está vivo em casa. Certamente não se trata de um preceito, mas de um exemplo elucidador. Elias permitiu a Eliseu que se despedisse de seus pais.
O evangelho mostra as dimensões do seguimento, até onde ele pode e deve chegar. Somos, porém, limitados e imperfeitos. Em nossas mãos, um copo transparente pode se tornar embaçado. Até mesmo as convicções e a firmeza na decisão tomada podem ser distorcidas por nós. Foi para sermos livres que Cristo nos libertou, ensina São Paulo, mas nossa liberdade deve ser vivida de forma radical. Nada nos pode prender, condicionar ou constranger, nem mesmo nossos pais ou um travesseiro para repousar a cabeça. Somos absolutamente livres. No entanto, até a radicalidade da nossa vida leva a marca da imperfeição humana. Liberdade pode se converter em libertinagem. A radicalidade pode nos tornar intransigentes e fazer de nós gente que se morde e se entredevora, assim como o elogio da simplicidade e da pobreza acariciam o nosso eu. Por nós mesmos não podemos muito, mas entregamo-nos ao Espírito, que nos conduz. Por nós mesmos podemos pouco, mas tudo será possível naquele que nos fortalece.
Cônego Celso Pedro da Silva



Não há coisa mais radical e louca que ser cristão; não há maior aventura... Pena que os cristãos estejam perdendo essa percepção e o Evangelho muitas vezes apareça como algo certinho, cômodo e domesticado. Tantas vezes considerou-se que para ser um bom cristão bastaria ser bem comportado! Ora, não é isto que a Palavra do Senhor nos ensina!
Jesus durante toda a sua vida caminhou para o Pai, teve no Pai sua única meta, pelo Pai e o seu Reino, fez loucuras. Por isso, já no capítulo nove do seu evangelho, São Lucas no-lo apresenta subindo para Jerusalém, para sua partida para o Pai: “Quando chegou o tempo de Jesus ser levado para o céu, então tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Ao pé da letra, são Lucas diz: ele voltou decididamente o rosto para Jerusalém... Este é o caminho de Cristo: ir subindo até a Cidade Santa, e de Jerusalém, para o Pai, atravessando o mistério da paixão, da cruz e da morte, para chegar à ressurreição. Ele vai à frente, no caminho, o seu caminho, e nos desafia a segui-lo. Quem quiser ser seu discípulo, deve segui-lo neste caminho! Basta recordar o domingo passado: deixar tudo... renunciar-se... tomar a cruz de cada dia... e segui-lo. Hoje, no caminho, ele nos previne: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. E exige que coloquemos tudo abaixo dele, até pai e mãe... É assim que Jesus quer seus discípulos: totalmente comprometidos com ele, absolutamente! E afirma claramente: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está pronto para o Reino de Deus”.
Jesus é tão claro! Ele exige tanto de nós porque somente ele nos pode dar tudo: o sentido da vida, o amor de Deus, a paz verdadeira e perene e a vitória sobre a morte. Ele nos revela e nos dá um Deus que é todo amor, todo carinho, todo perdão, todo piedade, um Deus que é o rochedo de nossa existência. Mas, também, um Deus exigentíssimo! Não se pode ser cristão pela metade! São Paulo, na segunda leitura de hoje, exprime muito bem esta realidade: Cristo nos libertou para a liberdade de uma vida nova, vida na graça de Deus, vida impulsionada pelo Espírito do Ressuscitado. É esta a liberdade do discípulo de Jesus; uma liberdade diversa do conceito de liberdade que o mundo apregoa. O cristão é livre não porque faz o que quer; é livre porque quer somente a vontade de Deus manifestada em Cristo Jesus: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!” E, aí, o Apóstolo nos previne: “Não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne”. “Carne” é tudo quanto pertence ao homem velho, tudo quanto manifesta o velho egoísmo de uma vida centrada em si mesmo e não em Deus, que se dá no Cristo Jesus! “Carne” é tudo aquilo que é lógica deste mundo e não lógica do Evangelho! Pode ser a lógica da ganância, da sensualidade e da imoralidade, da religião interesseira à procura de milagres, curas e benefícios materiais... tudo isso é carne: a descrença, a impiedade, a vulgaridade e o comodismo no modo de viver...
Há, portanto, dois modos de construir nossa existência. Um, segundo a carne, isto é, segundo o homem velho, com seu modo de pensar, com sua razão entregue a si mesma, com uma lógica meramente humana e, muitas vezes, pecaminosa. O outro, a vida segundo o Espírito do Ressuscitado. É a vida do cristão que, impulsionando e sustentado pelo Espírito do Senhor, abre-se para Deus, superar-se a si mesmo e seu modo meramente humano de pensar, e caminha incessantemente para o Cristo, até alcançar a estatura do homem novo, “o estado do Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13)
A medida e o ideal de vida do cristão não podem ser aqueles apresentados pela moda e pelo pensamento dominante do mundo atual. Nosso caminho é Cristo, nosso critério é Cristo, nossa medida é Cristo, nosso modo de viver deve ser o de Cristo Jesus! O grande desafio dos cristãos de hoje é redescobrirem que sua vida, seu modo de ser e de agir devem ser diferentes, simplesmente porque eles são discípulos do Senhor Jesus!
Mas estejamos bem atentos: isso somente é possível quando encontramos de verdade o Senhor em nossa vida, quando por ele nos encantamos, quando somos invadidos pelo seu amor. Observemos que nos evangelho de hoje – e de sempre – o cristianismo nasce de um encontro no caminho... um encontro marcante e transformador com Jesus. Só esta experiência é capaz de nos fazer entrar no caminho e aceitar as exigências do Senhor. Em outras palavras: o cristão, ou é um amigo de Cristo ou não é cristão; ou tem uma experiência de amizade com o Senhor ou jamais vai compreendê-lo de fato. É preciso insistir nisso, mais que nunca: o cristianismo não é uma doutrina, não é uma moral, não é uma ideologia, não é uma proposta política de justiça social para o mundo! Tudo isso é secundário! O que nos faz cristãos, é ter sido encontrados por Cristo no caminho, ter sido seduzidos por ele e tê-lo seguido, dizendo, meio responsáveis, meio loucos; “Senhor, eu te seguirei para onde quer que vás”. Que o Senhor nos conceda a graça da paixão por ele, a graça de segui-lo, a graça de testemunhá-lo com a carne da nossa vida de cada dia, como nossos irmãos de há dois mil anos atrás, quando ele tomou o caminho de Jerusalém, para a cruz e a ressurreição. Amém.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia de hoje sugere que Deus conta connosco para intervir no mundo, para transformar e salvar o mundo; e convida-nos a responder a esse chamamento com disponibilidade e com radicalidade, no dom total de nós mesmos às exigências do “Reino”.
A primeira leitura apresenta-nos um Deus que, para atuar no mundo e na história, pede a ajuda dos homens; Eliseu (discípulo de Elias) é o homem que escuta o chamamento de Deus, corta radicalmente com o passado e parte generosamente ao encontro dos projetos que Deus tem para ele.
O Evangelho apresenta o “caminho do discípulo” como um caminho de exigência, de radicalidade, de entrega total e irrevogável ao “Reino”. Sugere, também, que esse “caminho” deve ser percorrido no amor e na entrega, mas sem fanatismos nem fundamentalismos, no respeito absoluto pelas opções dos outros.
A segunda leitura diz ao “discípulo” que o caminho do amor, da entrega, do dom da vida, é um caminho de libertação. Responder ao chamamento de Cristo, identificar-se com Ele e aceitar dar-se por amor, é nascer para a vida nova da liberdade.
LEITURA I – 1 Re 19,16b.19-21
Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Naqueles dias,
disse o Senhor a Elias:
«Ungirás Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meola,
como profeta em teu lugar».
Elias pôs-se a caminho
e encontrou Eliseu, filho de Safat,
que andava a lavrar com doze juntas de bois
e guiava a décima segunda.
Elias passou junto dele e lançou sobre ele a sua capa.
Então Eliseu abandonou os bois,
correu atrás de Elias e disse-lhe:
«Deixa-me ir abraçar meu pai e minha mãe;
depois irei contigo».
Elias respondeu:
«Vai e volta,
porque eu já fiz o que devia».
Eliseu afastou-se,
tomou uma junta de bois e matou-a;
com a madeira do arado assou a carne,
que deu a comer à sua gente.
Depois levantou-se e seguiu Elias,
ficando ao seu serviço.

AMBIENTE
Esta passagem do Primeiro Livro dos Reis leva-nos até ao séc. IX a.C. Estamos na época dos dois reinos divididos.
Os profetas Elias e Eliseu, aqui referenciados, exerceram o seu ministério profético no reino do norte (Israel), no tempo dos reis Acab e Ocozias (Elias), Jorão e Jehú (Eliseu). É uma época de grande desnorte, em termos religiosos: a fé jahwista é posta em causa pela preponderância que os deuses estrangeiros assumem na cultura religiosa de Israel.
Uma grande parte do ministério de Elias desenrola-se durante o reinado de Acab (874-853 a.C.). O rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Astarte e prostra-se diante das estátuas desses deuses. Estamos diante de uma tentativa de abrir Israel ao intercâmbio com outras culturas; mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel. Nessa época, Elias torna-se o grande campeão da fé jahwista (cf. 1 Re 18 – o episódio do “duelo” religioso entre Elias e os profetas de Baal, no monte Carmelo), defendendo a Lei em todas as suas vertentes (inclusive na vertente social – cf. 1 Re 21 – o célebre episódio da vinha de Nabot), contra uma classe dirigente que subvertia a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Jahwéh.
A luta de Elias no sentido de preservar os valores fundamentais da fé jahwista será continuada nos reinados seguintes por um dos seus discípulos – Eliseu. A leitura que nos é proposta apresenta-nos, precisamente, o chamamento de Eliseu.

MENSAGEM
O texto propõe-nos uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem.
O quadro inicial da nossa leitura situa-nos no Horeb, a montanha da revelação de Deus ao seu Povo (cf. 1 Re 19,8). Porquê no Horeb? Porque aí, no lugar onde começou a Aliança, Deus vai definir os instrumentos do restabelecimento da Aliança: Elias é convidado a ungir Eliseu como profeta; ele será (juntamente com Jehú, futuro rei de Israel e de Hazael, futuro rei de Damasco) o instrumento de Deus na aniquilação de Acab, o rei infiel a Jahwéh e à Aliança. Trata-se da única vez que o Antigo Testamento refere a “unção” de um profeta.
Após a apresentação inicial, o autor deuteronomista desenha o quadro do chamamento de Eliseu. Ele está no campo, com os bois, a lavrar a terra quando Elias o encontra e o convida a ser profeta: o profeta não é alguém que, repentinamente, cai do céu e invade de forma anormal o mundo dos homens; também não é alguém que se torna profeta porque não serve para outra coisa; mas é sempre um homem normal, com uma vida normal, a quem Deus chama, indo ao seu encontro e falando-lhe na normalidade do trabalho diário, para lhe apresentar o seu desafio.
Elias lança sobre Eliseu o seu “manto”. Este gesto tem de ser entendido à luz da crença de que as roupas ou os objetos pertencentes a uma pessoa representavam essa pessoa e continham qualquer coisa do seu poder: dessa forma, Elias comunica a Eliseu o seu poder e o seu espírito proféticos (cf. 2 Re 2,13-14; 4,29-31; Lc 8,44; Act 19,12).
Temos, depois, a resposta de Eliseu ao desafio que Deus lhe lança através do gesto de Elias: imolou uma junta de bois, queimou o arado, assou a carne dos bois e deu-a a comer à sua família; depois, seguiu Elias e ficou ao seu serviço.
O gesto de Eliseu significa, provavelmente, o abandono da vida antiga, a renúncia à antiga profissão, a ruptura com a própria família e a entrega total à missão profética. Exprime a radicalidade da sua entrega ao serviço de Deus.

ATUALIZAÇÃO
Ter em conta, para a reflexão, os seguintes dados:
A história da salvação não é a história de um Deus que intervém no mundo e na vida dos homens de forma espalhafatosa, prepotente, dominadora; mas é uma história de um Deus que, discretamente, sem se impor nem dar espetáculo, age no mundo e concretiza os seus planos de salvação através dos homens que Ele chama. É como se Ele nos dissesse como fazer as coisas, mas respeitasse o nosso caminho e Se escondesse por detrás de nós. É necessário ter em conta que somos os instrumentos de Deus para construir a história, até que o nosso mundo chegue a ser esse “mundo bom” que Deus sonhou. Aceitamos este desafio?
O relato da “vocação” de Eliseu não é o relato de uma situação excepcional, que só acontece a alguns privilegiados, eleitos entre todos por Deus para uma missão no mundo; mas é a história de cada um de nós e dos apelos que Deus nos faz, no sentido de nos disponibilizarmos para a missão que Ele nos quer confiar, quer no mundo, quer na nossa comunidade cristã. Estou atento aos apelos de Deus? Tenho disponibilidade, generosidade e entusiasmo para me empenhar nas tarefas a que Ele me chama?
O chamamento de Deus chega a Eliseu através da acção de Elias… É preciso ter em conta que, muitas vezes, o desafio de Deus nos chega através da palavra ou da interpelação de um irmão; e que, muitas vezes, é preciso contar com o apoio de alguém para discernir o caminho e ser capaz de enfrentar os desafios da vocação.
Finalmente, somos chamados a contemplar a disponibilidade de Eliseu e a forma radical como ele acolheu o desafio de Deus. A referência à morte dos bois, ao desmantelamento do arado (cuja madeira serviu para assar a carne dos animais) e ao banquete de despedida oferecido à família significa que o profeta resolveu “cortar todas as amarras”, pois queria dar-se, radicalmente, ao projecto de Deus. É esse corte radical com o passado e essa entrega definitiva à missão que nos questiona e interpela.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)
Refrão: O Senhor é a minha herança.
Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.
Diga ao Senhor: «Vós sois o meu Deus».
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas vossas mãos o meu destino.
Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.
Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena na vossa presença,
delícias eternas à vossa direita.

LEITURA II – Gal 5,1.13-18
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas
Irmãos:
Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou.
Portanto, permanecei firmes
e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão.
Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.
Contudo, não abuseis da liberdade
como pretexto para viverdes segundo a carne;
mas, pela caridade,
colocai-vos ao serviço uns dos outros,
porque toda a Lei se resume nesta palavra:
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo».
Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente,
tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros.
Por isso vos digo:
Deixai-vos conduzir pelo Espírito
e não satisfareis os desejos da carne.
Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito,
e o Espírito desejos contrários aos da carne.
São dois princípios antagônicos
e por isso não fazeis o que quereis.
Mas se vos deixais guiar pelo Espírito,
não estais sujeitos à Lei de Moisés.

AMBIENTE
Continuamos a ler a Carta aos Gálatas. Já sabemos qual é o problema fundamental aí abordado: os Gálatas estão a ser perturbados por esses “judaízantes” para quem os rituais da Lei de Moisés também são necessários para chegar à vida em plenitude (“salvação”); e Paulo – para quem “Cristo basta” e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que os Gálatas não se sujeitem mais à escravidão, nomeadamente à escravidão dos ritos e das leis.
O texto que nos é proposto aparece na parte final da Carta. É o início de uma reflexão sobre a verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gal 5,1-6,10).

MENSAGEM
As palavras de Paulo são um convite veemente à liberdade. Logo no início deste texto (vers. 1), ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição – libertar para a liberdade – é, sem dúvida, um hebraísmo destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém voltar a cair no jugo da escravidão (mais à frente – vers. 2-4 – ele identifica essa escravidão com a Lei e com a circuncisão).
Os vers. 13-18 explicam em que consiste a liberdade para o cristão. Trata-se da faculdade de escolher entre duas coisas distintas e opostas? Não. Trata-se de uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie? Também não.
Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor (vers. 13-14). O que nos escraviza, nos limita e nos impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos verdadeiramente livres. Só é autenticamente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros.
Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – ou seja, com uma capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo (vers. 16).
Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, mais à frente, as obras de quem é escravo – cf. Gal 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, mais à frente, as obras daquele que é livre e vive no Espírito – cf. Gal 5,22-23).

ATUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, os seguintes elementos:
Os homens do nosso tempo têm em grande apreço esse valor chamado “liberdade”; no entanto têm, frequentemente, uma perspectiva demasiado egoísta deste valor fundamental. Quando a “liberdade” se define a partir do “eu”, identifica-se com “libertinagem”: é a capacidade de “eu” fazer o que quero; é a capacidade de “eu” poder escolher; é a capacidade de “eu” poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me impeça… Esta liberdade não gera, tantas vezes, egoísmo, isolamento, orgulho, auto-suficiência e, portanto, escravidão?
Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me agarro a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível – totalmente disponível – para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como explicar que só o amor nos faz totalmente livres?
Falar de uma comunidade (cristã ou religiosa) formada por pessoas livres em Cristo implica falar de uma comunidade voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta. É isso que realmente acontece com as nossas comunidades? Damos este testemunho de liberdade no dom da vida aos irmãos que nos rodeiam? As nossas comunidades são comunidades de pessoas livres que vivem no amor e na doação, ou comunidades de escravos, presos aos seus interesses pessoais e egoístas, que se magoam e ofendem por coisas sem importância, dominados por interesses mesquinhos e capazes de gestos sem sentido de orgulho e prepotência?

ALELUIA – 1 Sam. 3,9; Jo. 6,68c
Aleluia. Aleluia.
Falai, Senhor, que o vosso servo escuta.
Vós tendes palavras de vida eterna.

EVANGELHO – Lc. 9,51-62
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

AMBIENTE
Aqui começa, precisamente, a segunda parte do Evangelho segundo Lucas. Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia (1ª parte); mas, a partir de 9,51, Lucas põe Jesus a caminhar decididamente para Jerusalém. A “caminhada” que Jesus aqui inicia com os discípulos é mais teológica do que geográfica: não se trata tanto de fazer um diário da viagem ou de fazer a lista dos lugares por onde Jesus vai passar até chegar a Jerusalém; trata-se, sobretudo, de apresentar um itinerário espiritual, ao longo do qual Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do “Reino” e os vai presenteando com a plenitude da revelação de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz: ela vai trazer a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e nela vai irromper a salvação definitiva. Os discípulos são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus… Lucas propõe aqui à sua comunidade o itinerário que os autênticos crentes devem percorrer.

MENSAGEM
Lucas começa por apresentar as “exigências” do “caminho”. O nosso texto apresenta, nitidamente, duas partes, dois desenvolvimentos.
Na primeira parte (vers. 51-56), o cenário de fundo situa-nos no contexto da hostilidade entre judeus e samaritanos. Trata-se de um dado histórico: a dificuldade de convivência entre os dois grupos era tradicional; os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel procuravam evitar a passagem pela Samaria, utilizando preferencialmente o “caminho do mar” (junto da orla costeira), ou o caminho que percorria o vale do rio Jordão, a fim de evitar “maus encontros”.
A primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” vai para a atitude que os discípulos devem assumir face ao “ódio” do mundo. Que fazer quando o mundo tem uma atitude de rejeição face à proposta de Jesus? Tiago e João pretendem uma resposta agressiva, “musculada”, que retribua na mesma moeda, face à hostilidade manifestada pelos samaritanos (a referência ao “fogo do céu” leva-nos ao castigo que Elias infligiu aos seus adversários – cf. 2 Re 1,10-12); mas Jesus avisa-os que o seu “caminho” não passa nem passará nunca pela imposição da força, pela resposta violenta, pela prepotência (no seu horizonte próximo continua a estar apenas a cruz e a entrega da vida por amor: é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão). Isto é algo que os discípulos nunca devem esquecer, se estão interessados em percorrer o “caminho” de Jesus.
Na segunda parte (vers. 57-62), Lucas apresenta – através do diálogo entre Jesus e três candidatos a discípulos – algumas das condições para percorrer, com Jesus, esse “caminho” que leva a Jerusalém, isto é, que leva ao acontecer pleno da salvação. Que condições são essas?
O primeiro diálogo sugere que o discípulo deve despojar-se totalmente das preocupações materiais: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material.
O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se desses deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância (o dever de sepultar os pais é um dever fundamental no judaísmo), impedem uma resposta imediata e radical ao Reino.
O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da própria família, se for necessário), para fazer do Reino a sua prioridade fundamental: nada – nem a própria família – deve adiar e demorar o compromisso com o Reino.
Não podemos ver estas exigências como normativas: noutras circunstâncias, Ele mandou cuidar dos pais (cf. Mt 15,3-9); e os discípulos – nomeadamente Pedro – fizeram-se acompanhar das esposas durante as viagens missionárias (cf. 1 Cor 9,5)… O que estes ensinamentos pretendem dizer é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo aquilo que possa ser um obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino.

ATUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes elementos:
A nós, discípulos de Jesus, é proposto que O sigamos no “caminho” de Jerusalém, nesse “caminho” que conduz à salvação e à vida plena. Trata-se de um “caminho” que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o dom de nós próprios, com o amor até às últimas consequências. Aceitamos ser discípulos, isto é, embarcar com Jesus no “caminho de Jerusalém”?
Jesus recusa, liminarmente, responder à oposição e à hostilidade do mundo com qualquer atitude de violência, de agressividade, de vingança. No entanto, a Igreja de Jesus, na sua caminhada histórica, tem trilhado caminhos de violência, de fanatismo, de intolerância (as cruzadas, as conversões à força, os julgamentos da “santa” Inquisição, as exigências que criam em tantas consciências escravidão e sofrimento…). Diante disto, resta-nos reconhecer que, infelizmente, nem sempre vivemos na fidelidade aos caminhos de Jesus e pedir desculpa aos nossos irmãos pela nossa falta de amor. É preciso, também, continuar a anunciar o Evangelho com fidelidade, com firmeza e com coragem, mas no respeito absoluto por aqueles que querem seguir outros caminhos e fazer outras opções.
O “caminho do discípulo” é um caminho exigente, que implica um dom total ao “Reino”. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus… O que é que, na nossa vida quotidiana, ainda nos impede de concretizar um compromisso total com o “Reino” e com esse caminho do dom da vida e do amor total?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho