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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O Bom Pastor

4º DOMINGO DA PÁSCOA

Evangelho - Jo 10,11-18


-JESUS, O PASTOR VERDADEIRO-José Salviano


26 de Abril de 2015

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          Jesus é o  Bom Pastor.  Muito mais que bom. Ele é o perfeito, O VERDADEIRO Pastor.  Tão generoso, bondoso, compreensivo, amoroso, que deu sua vida pelas suas ovelhas. CONTINUA

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“CONHEÇO AS MINHAS OVELHAS E ELAS ME CONHECEM”. – Olívia Coutinho

4º DOMINGO DA PÁSCOA

Dia 26 de Abril de 2015

Evangelho Jo 10,11-18


Fazemos a experiência do amor de Deus, quando  deixamos- nos  conduzir pelo o Bom Pastor!
Deus  Pai, no seu infinito amor, nos entregou aos cuidados do seu  Filho, o Pastor zeloso  que nos acolheu com o mesmo amor do Pai, colocando-nos  acima de sua própria vida! 
Quando ouvimos falar do Bom Pastor, logo  nos vem  a imagem de um  protetor, de alguém que cuida nós, que nos carrega no colo enquanto atravessamos  os desertos de nossa vida! Sob o olhar do   Bom Pastor,  estaremos sempre  em segurança!
A figura do Bom Pastor,  é uma das imagens mais bela e conhecida das pregações de Jesus! Como o Bom Pastor, Ele se  apresenta como a única porta que nos conduz ao coração do Pai!
O amor do Pastor pelo seu rebanho, é um amor incondicional, um amor tão grande que o levou ao extremo, a dar a  sua vida pelo resgate das  ovelhas que se dispersaram caindo nas mãos dos mercenários!
”Dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão” Jo 10,28. Eis aí, a  comunicação do amor de  Deus, por meio de Jesus à  humanidade, é  o seu amor que nos devolve à vida !
No evangelho de hoje, Jesus revela a sua intimidade com o Pai e a sua fidelidade e disposição em levar em frente a missão que a Ele fora confiada. Ao se colocar como o Bom Pastor, Jesus deixa claro que Ele é um Pastor totalmente diferente daqueles que se diziam pastores, mas que deixavam as suas  ovelhas se perderem. Ao contrário destes pastores, Jesus não quer perder nenhuma das ovelhas que o Pai confiou aos seus cuidados, e se por ventura, alguma delas, desviar do caminho, seduzida pelos falsos pastores, Ele vai ao seu encontro, toma-a nos ombros e lhe traz de volta ao rebanho! Ao entregar a sua vida pelas ovelhas do rebanho do Pai, que somos nós,  Jesus nos deu uma grande  prova de amor!  Qual  tem sido a nossa resposta a este amor sem limites? O que temos feito da nossa vida,  que custou a vida de Jesus?
 Escutar e colocar  em prática os ensinamentos de Jesus, é dar continuidade a  presença  amorosa do Bom Pastor, cuidando uns dos outros! 
 A todos nós, que confiamos em Jesus, fica um alerta: Tenhamos cuidados para não cairmos nas ciladas do inimigo, os falsos pastores que estão misturados no meio de nós como lobos vorazes,  tentando  abafar a voz do Bom Pastor!
Jesus é a fonte de água viva que sacia a nossa sede, Ele é a Luz que nos ilumina, o Pão que nos sustenta, o Pastor que nos conduz!


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Este quarto domingo da Páscoa é conhecido como domingo do Bom Pastor, pois nele se lê sempre um trecho do capítulo 10 de são João, onde Jesus se revela como o Bom Pastor. Mas, o que isso tem a ver com o tempo litúrgico que ora estamos vivendo? A resposta, curta e graciosa, encontra-se na antífona de comunhão que o missal romano traz: “Ressuscitou o Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas e quis morrer pelo rebanho!” Aqui está tudo!
“Eu sou o bom pastor” – disse Jesus. O adjetivo grego usado para “bom” significa mais que bom: é belo, perfeito, pleno, bom. Jesus é, portanto, o pastor por excelência, aquele pastor que o próprio Deus sempre foi. Pela boca de Ezequiel profeta, Deus tinha prometido que ele próprio apascentaria o seu rebanho: “Eu mesmo cuidarei do meu rebanho e o procurarei. Eu mesmo apascentarei o meu rebanho, eu mesmo lhe darei repouso” (34,11.15). Pois bem: Jesus apresenta-se como o próprio Deus pastor do seu povo!
Mas, por que ele é o belo, o perfeito, o pleno Pastor? Escutemo-lo: O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida; eu a dou por mim mesmo! Tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la novamente; esse é o preceito que recebi do meu Pai”.
São palavras de intensidade inexaurível, essas! Jesus é o pastor perfeito porque é capaz de dar a vida pelas ovelhas: ele as conhece, ou seja, é íntimo delas, as ama, e está disposto a dar-se totalmente pelo rebanho, por nós! E, mesmo na dor, faz isso livremente, em obediência amorosa à vontade do Pai por nós! Por amor, morre pelo rebanho; por amor ressuscita para nos ressuscitar! Nós jamais poderemos compreender totalmente este mistério! Jesus diz que conhece suas ovelhas como o Pai o conhece e ele conhece o Pai! É impossível penetrar em tão grande mistério! Conhecer, na Bíblia, quer dizer, ter uma intimidade profunda, uma total comunhão de vida. A comunhão de vida entre o Pai e o Filho é total, é plena. Pois bem, Jesus diz que essa mesma comunhão ele tem com suas ovelhas. E é verdade! No batismo, deu-nos o seu Espírito Santo, que é sua própria vida de ressurreição; na eucaristia, dá-se totalmente a nós, morto e ressuscitado, pleno desse mesmo Espírito, como vida da nossa vida! De tal modo é a união, de tal grandeza é a comunhão, de tal profundidade é a intimidade, que ele está em nós e nós estamos mergulhados, enxertados e incorporados nele! De tal modo, que somos uma só coisa com ele, seja na vida seja na morte! De tal sorte ele nos deu o seu Espírito de Filho, que são João afirma na segunda leitura de hoje: “Somos chamados filhos de Deus. E nós o somos!”
Compreendamos: somos filhos de verdade, não só figurativamente! Somos filhos porque temos em nós a mesma vida, o mesmo Espírito Santo que agora plenifica o Filho ressuscitado! E são João continua, provocante: “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai!” Ou seja: se, para o mundo, nós somos apenas uns tolos, uns nada, se o mundo não consegue compreender essa maravilhosa realidade – que somos filhos de Deus – é porque também não experimentou, não conheceu que Deus é o Pai de Jesus, o Filho eterno, o Bom Pastor, que nos faz filhos como ele é o Filho único, agora tornado primogênito de muitos irmãos! Mas, a Palavra de Deus nos consola e anima: “Quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é!” Este é o destino da humanidade, este é o nosso destino: ser como Jesus ressuscitado, trazer sua imagem bendita, participar eternamente da sua glória! Para isso Deus nos criou desde o princípio! Não chegar a ser como Jesus ressuscitado, não ressuscitar com ele – nesta vida já pelos sacramentos, e na outra, na plenitude da glória – é frustrar-se. E isso vale para todo ser humano, pois “em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos!” Por isso mesmo, Jesus afirma hoje, pensando nos não-cristãos: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor!”
Voltemos o nosso olhar para Aquele que foi entregue por nós e por nós ressuscitou. Olhemos seu lado aberto, suas mãos chagadas. Quanto nos ama, quanto se deu a nós! Agora, escutemo-lo dizer: ”Eu sou o bom pastor! Eu conheço as minhas ovelhas! Eu dou a minha vida pelas ovelhas!” Num mundo de tantas vozes, sigamos a voz de Jesus! Num mundo de tantas pastagens venenosas, deixemos que o Senhor nos conduza às pastagens verdadeiras, que nos dão vida plena e sacia nosso coração! Num mundo que nos tenta seduzir com tantos amores, amemos de todo coração Aquele que nos amou e por nós se entregou ao Pai!
Hoje é também jornada mundial de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas. Peçamos ao Senhor, Bom Pastor, que dê à Igreja e ao mundo pastores segundo o seu coração, pastores que, nele e com ele, estejam dispostos a fazer da vida uma total entrega pelo rebanho; pastores que tenham sempre presente qual a única e imprescindível condição para pastorear o rebanho do Bom Pastor: “Simão, tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15s). Eis a condição: amar o Pastor! Quem não é apaixonado por Jesus não pode ser pastor do seu rebanho! Não se trata de competência, de eficiência, de vedetismo ou brilhantismo; trata-se de amor! Se tu amas, então apascenta! Como dizia santo Agostinho, “apascentar é ofício de quem ama”.
Que o Senhor nos dê os pastores que sejam viva imagem dele; que Cristo nos faça verdadeiras ovelhas do seu rebanho.
dom Henrique Soares da Costa

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O Bom Pastor dá sua vida
O tema central da liturgia de hoje (evangelho) é a alegoria do Bom Pastor. Na primeira parte da alegoria, João comparou Jesus com a porta do redil, porta pela qual entra o pastor e pela qual sai o rebanho conduzido pelo pastor. Quem não entra pela porta que é Jesus não é pastor, mas assal­tante. Na segunda parte, lida hoje, Cristo é o próprio pastor, em oposição aos mercenários: imagens tomadas de Ez. 34. Os mercenários não dão sua vida pelo rebanho. Jesus, sim. Todo mundo entende esta comparação. O sentido é obvio: Jesus deu, na cruz, sua vida por nós. Para Jo, porém, ela esconde um sentido mais profundo: a vida que Jesus dá não é apenas a vida física que ele perde em nosso favor, mas a vida de Deus que ele nos comunica (exatamente ao perder sua vida física por nós). Esta idéia constitui a ligação com a imagem precedente (a porta): em Jo 10,10b, Jesus diz que ele veio para “dar a vida”, e dá-la em abundância; e continua, em 10,11, apontando sua própria vida como sendo esta vida em abundância que ele dá. Nos v. 17-18 aparece, então, que ele dá essa vida com soberania divina (ele tem o poder de retomá-la; ninguém lha rouba): doando-se por nós, nos faz participar da vida divina, porque entramos na comunhão do amor de Jesus e daquele que o enviou (estas idéias são elaboradas em Jo 14-17, esp. 15,10.13; 17, 2.3.26 etc.).
A vida que Jesus nos dá é o amor do Pai, que nos faz viver verdadeiramente e nos torna seus filhos. Já agora temos certa experiência disso, a saber, na prática deste amor que nos foi dado. Mas essa experiência é ainda inicial; manifestar-se-á plenamente quando o Cristo for completamente manifestado na sua glória: então, seremos semelhantes a ele. Desde já, nossa participação desta vida divina nos coloca numa situação à parte: na comunidade do amor fraterno, que o mundo não quer conhecer e, por isso, re­jeita (1Jo 3,lc). É a “diferença cristã” (2ª leitura).
Porém, a diferença cristã não é fechada, mas aberta. É uma identidade não au­to-suficiente, mas comunicativa. Jo insiste várias vezes neste ponto: Jesus é a vítima de expiação dos pecados não só de nós, mas do mundo inteiro (1Jo 2,2); Jesus tem ainda outras ovelhas, que não são “deste redil” (10 10,16). O amor, que é a vida divina comunicada pelo Pai na doação do Filho, verifica-se na comunidade dos fiéis batizados, confessantes e unidos. Mas não se restringe a essa comunidade. Não só porque existem ou­tras comunidades, mas porque a salvação é para todos.
A atuação dos primeiros cristãos em Jerusalém (1ª leitura) deve ser entendida neste mesmo sentido. Formam uma comunidade que, sociologicamente falando, pode ser caracterizada como seita. Porém, não é uma seita auto-suficiente, mas transbordan­te de seu próprio princípio vital, o “nome” de Jesus Cristo (= toda a realidade que ele representa). Quando um aleijado, na porta do templo, dirige a Pedro seu pedido de ajuda, este comunica-lhe o “nome” de Jesus (At. 3,6). Daí se desenvolve todo um testemu­nho (narrado na liturgia de domingo passado). Este testemunho leva à intervenção das autoridades, sempre desconfiadas dos pequenos grupos testemunhantes. Pedro e João são presos e levados diante do Sinédrio, que pergunta em que nome eles agem assim. “No nome de Jesus Cristo Nazareno, crucificado por vós, mas ressuscitado por Deus… Em nenhum outro nome há salvação, pois nenhum outro nome foi dado sob o céu por quem possamos ser salvos” (At. 4,10-12; cf. Jo 17,3: “A vida eterna é esta: que te conheçam … e àquele que tu enviaste”). É essa a conclusão do sinal do aleijado da Porta Formosa: a cura que lhe ocorreu significava a “vida” em Jesus Cristo. Esta deve tam­bém ser a conclusão de todo agir cristão no mundo: dar a vida de Cristo ao mundo, pelo testemunho do amor. Tal testemunho convida a participar do amor do qual Jesus nos fez participar, dando sua vida “por seus amigos”. Isto é pastoral.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Jesus já se autoproclamara a porta do redil das ovelhas, pela qual entra o pastor. Agora se declara como o bom pastor. É ele quem conduz para a vida plena. A imagem do pastor e das ovelhas é comum nos textos dos profetas no Primeiro Testamento, sendo o povo de Israel as ovelhas de Javé. O mercenário, alusão aos fariseus e chefes religiosos de Jerusalém que rejeitaram Jesus (cf. primeira leitura), não se importa com as ovelhas. O que lhe importa é o dinheiro que o beneficia em S. Filipe e S. Tiago, Apóstolos sua função de pastor. Jesus é o bom pastor que dá a vida por suas ovelhas. Toda sua vida foi dom e comunicação do amor que vivifica. Neste dom não há temor nem fuga diante da morte. Em Jesus habita o Pai, e o amor que o une ao Pai é uma fonte de vida que transborda para todos, homens e mulheres que vivem no mundo. Como bom pastor, ele conhece suas ovelhas e elas o conhecem. O conhecimento é fruto do convívio e do diálogo, e gera o amor.
Para Jesus não existe massa humana amorfa. Ele mantém uma relação pessoal e amorosa com cada um. Chama cada um pelo nome e para cada um fala ao coração. A relação de conhecimento e amor entre Jesus e suas ovelhas é da mesma natureza que a relação entre Jesus e o Pai. Pelo conhecimento e pelo amor a Jesus nos inserimos na vida divina trinitária com o dinamismo da união entre o Pai e o Filho, no Amor. As relações de conhecimento e amor de Jesus não se restringem a um único rebanho, a um único grupo de eleitos. O dom da vida de Jesus tem um alcance universal. João, já no prólogo de seu Evangelho, caracteriza a dimensão universal deste dom: Jesus é a luz verdadeira que ilumina todo ser humano, e a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,9.12).
O vínculo de unidade em torno de Jesus é amor que liberta, promove a justiça e gera a vida, e não é restrito a nenhuma profissão de fé particular. Deus é a plenitude do amor e da vida. A vida de Jesus está, por sua natureza divina, toda perdida e reencontrada nesta plenitude. Presente entre nós, ele quer que sejamos mergulhados em sua vida divina. Entregando nossa vida a Jesus, em comunhão de conhecimento e amor, fazendo a vontade do Pai, nos tornamos filhos de Deus (segunda leitura) e participamos da vida eterna.
padre Jaldemir Vitório

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“Eu sou o Bom Pastor”
Jesus se dá esse título, e a liturgia coloca o Bom Pastor no centro do Tempo da Páscoa para nos dizer que o Ressuscitado é o Bom Pastor que cuida das suas ovelhas. Quem não se dedica às ovelhas é mercenário, que trabalha por interesse. Ele não defende as ovelhas em caso de perigo. O Bom Pastor, ao contrário, conhece as ovelhas e é conhecido por elas. A bondade de Jesus chega ao ponto de Ele dar a sua própria vida pelas ovelhas. Ele dá e a recebe de volta. Sua vida não é tirada por ninguém. Não precisamos procurar os responsáveis pela morte de Jesus. “Eu a dou por mim mesmo”, diz Jesus. Ele entrega sua vida e tem poder de recebê-la de novo. Por isso Jesus não permanece na morte. Ele ressuscita segundo a vontade do Pai.
Assim também nós. Ninguém tira a nossa vida quando a entregamos por amor. Nenhum mártir jamais foi perdedor, por isso sua canonização não precisa de comprovação de milagre. Jesus é o Pastor de todos nós, e todos nós em conjunto somos pastores para o mundo. Para exercermos bem esse serviço, há entre nós pastores ordenados que nos ajudam a não esmorecer. Assim como os sacramentos que existem na Igreja fazem com que ela seja o sacramento da salvação para o mundo, assim também os pastores ordenados existem para que toda a Igreja seja a Divina Pastora da humanidade.
Jesus é o único salvador e não há outro além d’Ele. No sermão diante do sinédrio por causa da cura de um aleijado, São Pedro afirma com convicção: “É pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, que este homem está curado. (...) Em nenhum outro há salvação, pois não existe nenhum outro nome pelo qual possamos ser salvos”. Não há outro Pastor, como não há outro sacerdote a não ser Jesus Cristo. Sua Igreja participa do seu único sacerdócio e de seu pastoreio. Por isso não podemos ser diferentes de Jesus. Nós nos importamos com as ovelhas, nós as conhecemos e somos capazes de dar a vida por elas. Ninguém vai tirar a nossa vida porque Jesus vai nos ressuscitar.
O mundo não nos conhece porque não conhece o Pai. Já somos filhos e ainda não se manifestou o que seremos. Eis aí a nossa tarefa: fazer com que o mundo conheça o Pai. Que todos saibam que há um Pai do qual todos são filhos, para que a qualidade do nosso relacionamento aumente de valor. Para que tenhamos neste mundo uma imagem correta do Pai, é preciso que os pais desta terra transmitam a seus filhos uma imagem que os faça descobrir o Pai do Céu. Jesus, na sua vida oculta de Nazaré, o Menino Jesus, formou em sua mente humana uma imagem do Pai adquirida no convívio com São José, um homem justo. Muitas vezes o pai transmite aos filhos uma imagem distorcida de sua missão. Eis aí um trabalho pastoral a ser feito: devolver ao homem sua dignidade, e ao homem pai abrir os horizontes de sua missão de Bom Pastor.
A imagem do Pastor se contrapõe em certo sentido à imagem do Dominador. Jesus é o Bom Pastor e o Senhor do Universo. Ele mesmo se apresenta como Pastor. A ideia de Senhor do Universo se construiu na medida em que seus amigos quiseram exaltá-lo e na medida em que a comunidade dos cristãos foi assimilando “esquemas do mundo”. A pintura do Pantocrator é bonita, mas é resultado da assimilação à corte bizantina. O Bom Pastor aparece antes nas catacumbas.
cônego Celso Pedro da Silva
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A dimensão universal do dom de Jesus
Jesus já havia proclamado: "Eu sou a porta do redil das ovelhas" (cf. 30 abr.). Agora se identifica com o bom pastor. Com estas proclamações, Jesus afirma-se como o modelo para os que têm a responsabilidade de estar à frente das comunidades.
Qualquer imagem é limitada para exprimir a realidade da missão de Jesus, que ultrapassa as nossas comuns experiências de vida. Em contraste à imagem do bom pastor é apresentada a imagem do "assalariado" (misthôtós). Esta imagem, que pode comportar certa ambiguidade, indica a situação de alguém que se coloca a serviço de outrem em troca de um salário, situação esta questionável do ponto de vista socioeconômico e dos direitos humanos. O termo pejorativo "mercenário" se aplica àquele que só se importa com o dinheiro que vai receber; na história é comum a formação de exércitos de mercenários para fazer a guerra, o que acontece, hoje, com os exércitos que estão sendo enviados para fazer a guerra no Oriente. Isto não significa que os assalariados, em geral, sejam mercenários, pois, diante da necessidade da sua sobrevivência, comumente eles se dedicam ao cumprimento dos deveres impostos pelos patrões.
Com a imagem do assalariado mercenário é feita uma alusão aos chefes das sinagogas e do Templo de Jerusalém que rejeitam Jesus e oprimem o povo, cuidando apenas do dinheiro que sua função proporciona. Na primeira leitura, Pedro, que havia sido encarcerado, ao ser trazido diante dos membros do Sinédrio, do sumo sacerdote, de anciãos e escribas, destemidamente, acusa-os de terem rejeitado Jesus e de o terem crucificado.
Esta imagem do mercenário é, também, uma advertência contra aqueles que, na comunidade, assumem posições de liderança por interesses pessoais, por vaidade, ou por desejo de poder. Na hora das dificuldades são omissos em seus compromissos com a comunidade.
A imagem do "bom pastor", na parábola, se aplica àquele que cuida das ovelhas fazendo a vontade do Pai em comunhão de amor. Jesus é o bom pastor. É ele quem comunica a vida plena. Em Jesus habita o Pai, e o amor que o une ao Pai é uma fonte de vida que transborda para todos os homens e mulheres que vivem no mundo. É por este amor que somos filhos de Deus, participantes da vida divina e eterna (segunda leitura).
Como bom pastor, Jesus conhece suas ovelhas e elas o conhecem. O conhecer as ovelhas, e ser conhecido por elas, é uma qualidade fundamental do pastor, sendo fruto do convívio e do diálogo, fortalecendo o amor. O conhecer leva à proximidade, à solidariedade, à comunhão. Ao dedicar sua vida a suas ovelhas, o pastor está comunicando vida a elas. E foi esta a missão que Jesus recebeu do Pai: como pastor, dar sua vida divina pelas ovelhas de todos os redis, sem fronteiras, sem eleições particulares e sem limites. João, já no prólogo de seu evangelho, caracteriza esta dimensão universal do dom de Jesus: Jesus é a luz verdadeira que ilumina todo homem, e a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,9.12).
Para Jesus não existe massa humana amorfa. Jesus mantém uma relação pessoal e amorosa com cada um. Chama a cada um pelo nome e a cada um fala ao coração. A relação de conhecimento e amor entre Jesus e suas ovelhas é de mesma natureza que a relação entre Jesus e o Pai. Pelo conhecimento e pelo amor a Jesus e ao nosso próximo, inserimo-nos na vida divina trinitária, em comunhão de vida com o Pai e o Filho, no Amor.
José Raimundo Oliva
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O 4º domingo da Páscoa é considerado o “domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe, neste domingo, um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”. É, portanto, este o tema central que a Palavra de Deus põe, hoje, à nossa reflexão.
O Evangelho apresenta Cristo como “o Pastor modelo”, que ama de forma gratuita e desinteressada as suas ovelhas, até ser capaz de dar a vida por elas. As ovelhas sabem que podem confiar n’Ele de forma incondicional, pois Ele não busca o próprio bem, mas o bem do seu rebanho. O que é decisivo para pertencer ao rebanho de Jesus é a disponibilidade para “escutar” as propostas que Ele faz e segui-l’O no caminho do amor e da entrega.
A primeira leitura afirma que Jesus é o único Salvador, já que “não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos” (neste “domingo do Bom Pastor” dizer que Jesus é o “único salvador” equivale a dizer que Ele é o único pastor que nos conduz em direção à vida verdadeira). Lucas avisa-nos para não nos deixarmos iludir por outras figuras, por outros caminhos, por outras sugestões que nos apresentam propostas falsas de salvação.
Na segunda leitura, o autor da primeira Carta de João convida-nos a contemplar o amor de Deus pelo homem. É porque nos ama com um “amor admirável” que Deus está apostado em levar-nos a superar a nossa condição de debilidade e de fragilidade. O objetivo de Deus é integrar-nos na sua família e tornar-nos “semelhantes” a Ele.
1ª leitura – At. 4,8-12 - AMBIENTE
O testemunho sobre Jesus e sobre a libertação que Ele veio oferecer aos homens, manifestado nos gestos (cura do paralítico, à entrada do Templo de Jerusalém – cf. At. 3,1-11) e nas palavras de Pedro (discurso à multidão, à entrada do Templo – cf. At. 3,12-26), provoca a imediata reação das autoridades judaicas e a consequente prisão de Pedro e de João. É a reação lógica dos que pretendem perpetuar os sistemas de escravidão e de opressão.
Assim, Pedro e João são presos e conduzidos diante do Sinédrio – a autoridade que superintendia à organização da vida religiosa, jurídica e econômica dos judeus. Presidido pelo sumo-sacerdote em funções, o Sinédrio era constituído por 70 membros, oriundos das principais famílias do país. Na época de Jesus, o Sinédrio era, ao que parece, dominado pelo grupo dos saduceus, os quais negavam a ressurreição. No Sinédrio havia, também, um grupo significativo de fariseus, os quais aceitavam a ressurreição… No entanto, os dois grupos vão pôr de lado as suas divergências particulares para fazerem causa comum contra os discípulos de Jesus. A pergunta posta aos apóstolos pelos membros do Sinédrio é: “com que poder ou em nome de quem fizestes isto?” (At. 4,7). O texto que a nossa primeira leitura nos apresenta é a resposta de Pedro à questão que lhe foi posta.
É mais do que provável que o episódio assente, em geral, em bases históricas… O testemunho sobre esse Messias crucificado pouco antes pelas autoridades constituídas devia aparecer como uma provocação e provocar uma natural reação dos líderes judaicos. No entanto, o episódio, tal como nos é apresentado, sofreu retoques de Lucas, empenhado em demonstrar que a reação negativa do “mundo” não pode nem deve calar o testemunho dos discípulos de Jesus.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto é, sobretudo, uma catequese destinada aos crentes, mostrando-lhes como se deve concretizar o testemunho dos discípulos, encarregados por Jesus de levar a sua proposta libertadora a todos os homens.
Antes de mais, Lucas observa que Pedro está “cheio do Espírito Santo” (v. 8). Os cristãos não estão sozinhos e abandonados quando enfrentam o mundo para lhes anunciar a salvação. É o Espírito que conduz os discípulos na sua missão e que orienta o seu testemunho. Cumpre-se, assim, a promessa que Jesus havia feito aos discípulos: “quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de dizer em vossa defesa, pois o Espírito Santo vos ensinará, no momento próprio, o que haveis de dizer” (Lc. 12,11-12).
“Cheio do Espírito Santo”, Pedro – aqui no papel de paradigma do discípulo que testemunha Jesus e o seu projeto diante do mundo – transforma-se de réu em acusador… Os dirigentes judaicos, barricados atrás dos seus preconceitos e interesses pessoais, catalogaram a proposta de Jesus como uma proposta contrária aos desígnios de Deus e assassinaram Jesus; mas a ressurreição demonstrou que Jesus veio de Deus e que o projeto que Ele apresentou tem o selo de garantia de Deus. Citando um salmo (cf. Sl. 118,2), Pedro compara a insensatez dos dirigentes judaicos à cegueira de um construtor que rejeita como imprestável uma pedra que vem depois a ser aproveitada por outro construtor como pedra principal num outro edifício (v. 11). Jesus é a pedra base desse projeto de vida nova e plena que Deus quer apresentar aos homens. A prova é esse paralítico, que adquiriu a mobilidade pela ação de Jesus (“é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença” – v. 10).
Na realidade, Jesus é a fonte única de onde brota a salvação – não só a libertação dos males físicos, mas a salvação entendida como totalidade, como vida definitiva, como realização plena do homem. Jesus (o nome hebraico “Jesus” significa “Jahwéh salva”) é o único canal através do qual a salvação de Deus atinge os homens (v. 12). Com esta afirmação solene e radical, Lucas convida os cristãos a serem testemunhas da salvação, propondo aos homens Jesus Cristo e levando os homens a aderirem, de forma total e incondicional, ao projeto de vida que Cristo veio oferecer.
Uma nota, ainda, para registrar a forma corajosa e desassombrada como Pedro dá testemunho de Jesus, mesmo num ambiente hostil e adverso. Lucas sugere que é desta forma que os discípulos hão-de anunciar Jesus e o seu projeto de salvação. Nada nem ninguém deverá parar e calar os discípulos, chamados a colaborar com Jesus no anúncio da salvação.
Em resumo: os discípulos receberam a missão de apresentar, ao mundo e aos homens, Jesus Cristo, o único Salvador. É o Espírito que os anima nessa missão e que lhes dá a coragem para enfrentar a oposição dessas forças da opressão que recusam a proposta libertadora de Jesus.
ATUALIZAÇÃO
• A catequese que Lucas nos propõe neste trecho do livro dos Atos dos Apóstolos, apresenta Jesus como o único Salvador, já que “não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”. Lucas avisa-nos, desta forma, para não nos deixarmos iludir por outras figuras, por outros caminhos, por outras sugestões que nos apresentam propostas falsas de salvação. Por vezes, o caminho de salvação que Jesus nos propõe, está em flagrante contradição com os caminhos de “salvação” que nos são propostos pelos líderes políticos, pelos líderes ideológicos, pelos líderes da moda e da opinião pública; e nós temos que fazer escolhas coerentes com a nossa fé e com o nosso compromisso cristão. Na hora de optarmos, não esqueçamos que a proposta de Jesus tem o selo de garantia de Deus; não esqueçamos que o caminho proposto por Jesus (e que, tantas vezes, à luz da lógica humana, parece um caminho de fracasso e de derrota) é o caminho que nos conduz ao encontro da vida plena e definitiva, ao encontro do Homem Novo.
• Depois de dois mil anos de cristianismo, parece que nem sempre se nota a presença efetiva de Cristo nesses caminhos em que se constrói a história do mundo e dos homens. O verniz cristão de que revestimos a nossa civilização ocidental não tem impedido a corrida aos armamentos, os genocídios, os atos bárbaros de terrorismo, as guerras religiosas, o capitalismo selvagem… Os critérios que presidem à construção do mundo estão, demasiadas vezes, longe dos valores do Evangelho. Porque é que isto acontece? Podemos dizer que Cristo é, para os cristãos, a referência fundamental? Nós cristãos fizemos d’Ele, efetivamente, a “pedra angular” sobre a qual construímos a nossa vida e a história do nosso tempo?
• Através do exemplo de Pedro, Lucas sugere que o testemunho dos discípulos deve ser desassombrado, mesmo em condições hostis e adversas. A preocupação dos discípulos não deve ser apresentar um testemunho politicamente correto, que não incomode os poderes instituídos e não traga perseguições à comunidade do Reino; mas deve ser um discurso corajoso e coerente, que tem como preocupação fundamental apresentar com fidelidade a proposta de salvação que Jesus veio fazer.
• Os discípulos de Jesus não estão sozinhos, entregues a si próprios, nessa luta contra as forças que oprimem e escravizam os homens. O Espírito de Jesus ressuscitado está com eles, ajudando-os, animando-os, protegendo-os em cada instante desse caminho que Deus lhes mandou percorrer. Nos momentos de crise, de desânimo, de frustração, os discípulos devem tomar consciência da presença amorosa de Deus a seu lado e retomar a esperança.
• Os líderes judaicos são, mais uma vez, apresentados como modelos de cegueira e de fechamento face aos desafios de Deus. São “maus pastores”, preocupados com os seus interesses pessoais e corporativos, que impedem que o seu Povo adira às propostas de salvação que Deus faz. O seu exemplo mostra-nos como a auto-suficiência, os preconceitos, o comodismo, levam o homem a fechar-se aos desafios de Deus e a recusar os dons de Deus. Eles são, portanto, modelos a não seguir.
2ª leitura – 1 Jo 3,1-2 - AMBIENTE
A primeira Carta de João é, como já dissemos nos domingos anteriores, um escrito polêmico, dirigido a comunidades cristãs nascidas no mundo joânico (trata-se, certamente, de comunidades cristãs de várias cidades situadas à volta de Éfeso, na parte ocidental da Ásia Menor). Estamos numa época em que as heresias começavam a perturbar a vida dessas comunidades, lançando a confusão entre os crentes e ameaçando subverter a identidade cristã. As principais questões postas pelos hereges eram de ordem cristológica e ética. Em termos de doutrina cristológica, negavam que o Filho de Deus tivesse encarnado através de Maria e que tivesse morrido na cruz; na sua perspectiva, o Cristo celeste apenas veio sobre o homem Jesus na altura do batismo, abandonando-o outra vez antes da paixão… Portanto, a humanidade de Jesus é um fato irrelevante; o que interessa é a mensagem do Cristo celeste, que Se serviu do homem Jesus para aparecer na terra. Do ponto de vista ético e moral, estes hereges não cumprem os mandamentos e desprezam especialmente o mandamento do amor ao irmão. Neste contexto, o autor da carta vai apresentar aos crentes as grandes coordenadas da vida cristã autêntica.
O texto que nos é proposto integra a segunda parte da carta (cf. 1 Jo 2,28-4,6). Aí, o autor lembra aos crentes que são filhos de Deus e exorta-os a viver no dia a dia de forma coerente com essa filiação. O contexto é sempre o da polêmica contra os “filhos do mal” que não fazem as obras de Deus, porque não vivem de acordo com os mandamentos.
MENSAGEM
Em jeito de introdução à segunda parte da carta, o autor recorda aos cristãos que Deus os constituiu seus “filhos”. O fundamento para essa filiação reside no grande amor de Deus pelos homens (v. 1a). O título de “filhos de Deus” que os crentes ostentam não é um título pomposo, mas externo e sem conteúdo; é um título apropriado, que define a situação daqueles que são amados por Deus com um amor “admirável” e que receberam de Deus a vida nova. Evidentemente, a condição de “filhos” implica estar em comunhão com Deus e viver de forma coerente com as suas propostas. Os “filhos de Deus” realizam as obras de Deus (um pouco mais à frente, num desenvolvimento que não aparece na leitura que a liturgia de hoje propõe, o autor da carta contrapõe aos “filhos de Deus” os “filhos do diabo” – que são aqueles que rejeitam a vida nova de Deus, não praticam “a justiça, nem amam o seu irmão” – cf. 1Jo 3,7-10).
A condição de “filhos de Deus”, que fazem as obras de Deus, coloca os crentes numa posição singular diante do “mundo”. Por isso, o “mundo” irá ignorar ou mesmo perseguir os “filhos de Deus”, recusando a proposta de vida que eles testemunham. Não é nada de novo nem de surpreendente: o “mundo” também recusou Cristo e a sua proposta de salvação (v. 1b).
Apesar de serem já, desde o dia do batismo (o dia em que aceitaram essa vida nova que Deus oferece aos homens), “filhos de Deus”, os crentes continuam a caminho da sua realização definitiva, do dia em que a fragilidade e a finitude humanas serão definitivamente superadas. Então, manifestar-se-á nos crentes a vida plena e definitiva, o Homem Novo plenamente realizado. Nesse dia, os crentes estarão em total comunhão com Deus e serão, então, “semelhantes a Ele” (v. 2). A filiação divina é uma realidade que atinge o crente ao longo da sua peregrinação por esta terra e que implica uma vida de coerência com as obras e as propostas de Deus; mas só no céu, após a libertação da condição de debilidade que faz parte da fragilidade humana, o crente conhecerá a sua realização plena.
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, o nosso texto recorda-nos que Deus nos ama com um amor “admirável” – amor que se traduz no dom dessa vida nova que faz de nós “filhos de Deus”. Neste domingo do Bom Pastor, o autor da primeira carta de João convida-nos a contemplar a bondade, a ternura, a misericórdia, o amor de um Deus apostado em levar o homem a superar a sua condição de debilidade, a fim de chegar à vida nova e eterna, à plenitudização das suas capacidades, até se tornar “semelhante” ao próprio Deus. Todos os homens e mulheres caminham pela vida à procura da felicidade e da vida verdadeira… O autor desta carta garante-nos: para alcançar a meta da vida definitiva, é preciso escutar o chamamento de Deus, acolher o seu dom, viver de acordo com essa vida nova que Deus nos oferece. É aí – e não noutras propostas efémeras, parciais, superficiais – que está o segredo da realização plena do homem.
• Como é que os “filhos de Deus” devem responder a este desafio que Deus lhes faz? No texto que nos é hoje proposto, este problema não é desenvolvido; contudo, a questão é abordada e refletida noutras passagens da Primeira Carta de João. Para o autor da carta, o “filho de Deus” é aquele que responde ao amor de Deus vivendo de forma coerente com as propostas de Deus (cf. 1Jo 5,1-3) – isto é, no respeito pelos mandamentos de Deus. De forma especial, recomenda-se aos crentes que vivam no amor aos irmãos, a exemplo de Jesus Cristo.
• O autor da carta avisa também os cristãos para o inevitável choque com a incompreensão do “mundo”… Viver como “filho de Deus” implica fazer opções que, muitas vezes, estão em contradição com os valores que o mundo considera prioritários; por isso, os discípulos são objeto do desprezo, da irrisão, dos ataques daqueles que não estão dispostos a conduzir a sua vida de acordo com os valores de Deus. Jesus Cristo conheceu e enfrentou a mesma realidade; mas a sua história mostra que viver como “filho de Deus” não é um caminho de fracasso, mas um caminho de vida plena e eterna. Os cristãos não devem, por isso, ter medo de percorrer o mesmo caminho.
Evangelho – Jo 10,11-18 – AMBIENTE
O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.
A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do 4º Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente Ez. 34 (onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”). Falando aos exilados da Babilônia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de morte e de desgraça; mas – diz Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele porá à frente do seu Povo um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida. A catequese que o 4º Evangelho nos oferece sobre o “Bom Pastor” sugere que a promessa de Deus – veiculada por Ezequiel – se cumpre em Jesus.
O contexto em que João coloca o “discurso do Bom Pastor” (cf. Jo 10) é um contexto de polêmica entre Jesus e alguns líderes judaicos, principalmente fariseus (cf. Jo 9,40; 10,19-21.24.31-39). Depois de ver a pressão que os líderes judaicos colocaram sobre o cego de nascença para que ele não abraçasse a luz (cf. Jo 9,1-41), Jesus denuncia a forma como esses líderes tratam o Povo: eles estão apenas interessados em proteger os seus interesses pessoais e usam o Povo em benefício próprios; são, pois, “ladrões e salteadores” (Jo 10,1.8.10), que se apossam de algo que não lhes pertence e roubam ao seu Povo qualquer possibilidade de vida e de libertação.
MENSAGEM
O nosso texto começa com uma afirmação lapidar, posta na boca de Jesus: “Eu sou o Bom Pastor”. O adjetivo “bom” deve, neste contexto, entender-se no sentido de “modelo”, de “ideal”: “Eu sou o modelo de pastor, o pastor ideal”. E Jesus explica, logo de seguida, que o “pastor modelo” é aquele que é capaz de se entregar a si mesmo para dar a vida às suas ovelhas (v. 11).
Depois da afirmação geral, Jesus põe em paralelo duas figuras de pastor: o “pastor mercenário” e o “verdadeiro pastor” (vs. 12-13).
Aquilo que distingue o “verdadeiro pastor” do “pastor mercenário” é a diferente atitude diante do “lobo”. O “lobo” representa, nesta “parábola”, tudo aquilo que põe em perigo a vida das ovelhas: os interesses dos poderosos, a opressão, a injustiça, a violência, o ódio do mundo.
O “pastor mercenário” é o pastor contratado por dinheiro. O rebanho não é dele e ele não ama as ovelhas que lhe foram confiadas. Limita-se a cumprir o seu contrato, fugindo de tudo aquilo que o pode pôr em perigo a ele próprio e aos seus interesses pessoais. Limita-se a cumprir determinadas obrigações, sem que o seu coração esteja com o rebanho. Ele tem uma função de enquadrar o rebanho e de o dirigir, mas a sua acção é sempre ditada por uma lógica de egoísmo e de interesse. Por isso, quando sente que há perigo, abandona o rebanho à sua sorte, a fim de salvaguardar os seus interesses egoístas e a sua posição.
O verdadeiro pastor é aquele que presta o seu serviço por amor e não por dinheiro. Ele não está apenas interessado em cumprir o contrato, mas em fazer com que as ovelhas tenham vida e se sintam felizes. A sua prioridade é o bem das ovelhas que lhe foram confiadas. Por isso, ele arrisca tudo em benefício do rebanho e está, até, disposto a dar a própria vida por essas ovelhas que ama. Nele as ovelhas podem confiar, pois sabem que ele não defende interesses pessoais mas os interesses do seu rebanho.
Ora, Jesus é o modelo do verdadeiro pastor (vs. 14-15). Ele conhece cada uma das suas ovelhas, tem com cada uma relação pessoal e única, ama cada uma, conhece os seus sofrimentos, dramas, sonhos e esperanças. Esta relação que Jesus, o verdadeiro pastor, tem com as suas ovelhas é tão especial, que Ele até a compara à relação de amor e de intimidade que tem com o próprio Deus, seu Pai. É este amor, pessoal e íntimo, que leva Jesus a pôr a própria vida ao serviço das suas ovelhas, e até a oferecer a própria vida para que todas elas tenham vida e vida em abundância. Quando as ovelhas estão em perigo, Ele não as abandona, mas é capaz de dar a vida por elas. Nenhum risco, dificuldade ou sofrimento O faz desanimar. A sua atitude de defesa intransigente do rebanho é ditada por um amor sem limites, que vai até ao dom da vida.
Depois de definir desta forma a sua missão e a sua atitude para com o rebanho, Jesus explica quem são as suas ovelhas e quem pode fazer parte do seu rebanho. Ao dizer “tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir” (v. 16a), Jesus deixa claro que a sua missão não se encerra nas fronteiras limitadas do Povo judeu, mas é uma missão universal, que se destina a dar vida a todos os povos da terra. A comunidade de Jesus não está encerrada numa determinada instituição nacional ou cultural. O que é decisivo, para integrar a comunidade de Jesus, é acolher a sua proposta, aderir ao projeto que Ele apresenta, segui-l’O. Nascerá, então, uma comunidade única, cuja referência é Jesus e que caminhará com Jesus ao encontro da vida eterna e verdadeira (“elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” – v. 16b).
Finalmente, Jesus explica que a sua missão se insere no projeto do Pai para dar vida aos homens (vs. 17-18). Jesus assume esse projeto do Pai e dedica toda a sua vida terrena a cumprir essa missão que o Pai lhe confiou. O que O move não é o seu interesse pessoal, mas o cumprimento da vontade do Pai. Ao cumprir o projeto de amor do Pai em favor dos homens, Ele está a realizar a sua condição de Filho.
Ao dar a sua vida, Jesus está consciente de que não perde nada. Quem gasta a vida ao serviço do projeto de Deus, não perde a vida, mas está a construir para si e para o mundo a vida eterna e verdadeira. O seu dom não termina em fracasso, mas em glorificação. Para quem ama, não há morte, pois o amor gera vida verdadeira e definitiva.
A entrega de Jesus não é um acidente ou uma inevitável fatalidade, mas um gesto livre de alguém que ama o Pai e ama os homens e escolhe o amor até às últimas conseqüências. O dom de Jesus é um dom livre, gratuito e generoso. Na decisão de Jesus em oferecer livremente a vida por amor, manifesta-se o seu amor pelo Pai e pelos homens.
ATUALIZAÇÃO
• Todos nós temos as nossas figuras de referência, os nossos heróis, os nossos mestres, os nossos modelos. É a uma figura desse tipo que, utilizando a imagem do Evangelho do 4º Domingo da Páscoa, poderíamos chamar o nosso “pastor”… É Ele que nos aponta caminhos, que nos dá segurança, que está ao nosso lado nos momentos de fragilidade, que condiciona as nossas opções, que é para nós uma espécie de modelo de vida. O Evangelho deste domingo diz-nos que, para o cristão, o “Pastor” por excelência é Cristo. É n’Ele que devemos confiar, é à volta d’Ele que nos devemos juntar, são as suas indicações e propostas que devemos seguir. O nosso “Pastor” é, de fato, Cristo, ou temos outros “pastores” que nos arrastam e que são as referências fundamentais à volta das quais construímos a nossa existência? O que é que nos conduz e condiciona as nossas opções: Jesus Cristo? As diretrizes do chefe do departamento? A conta bancária? A voz da opinião pública? A perspectiva do presidente do partido? O comodismo e a instalação? O êxito e o triunfo profissional a qualquer custo? O herói mais giro da telenovela? O programa de maior audiência da estação televisiva de maior audiência?
• Reparemos na forma como Cristo desempenha a sua missão de “Pastor”: Ele não atua por interesse (como acontece com outros pastores, que apenas procuram explorar o rebanho e usá-lo em benefício próprio), mas por amor; Ele não foge quando as ovelhas estão em perigo, mas defende-as, preocupa-Se com elas e até é capaz de dar a vida por elas; Ele mantém com cada uma das ovelhas uma relação única, especial, pessoal, conhece os seus sofrimentos, dramas, sonhos e esperanças. As “qualidades” de Cristo, o Bom Pastor, aqui enumeradas, devem fazer-nos perceber que podemos confiar integral e incondicionalmente n’Ele e entregar, sem receio, a nossa vida nas suas mãos. Por outro lado, este “jeito” de atuar de Cristo deve ser uma referência para aqueles que têm responsabilidades na condução e animação do Povo de Deus: aqueles que receberam de Deus a missão de presidir a um grupo, de animar uma comunidade, exercem a sua missão no dom total, no amor incondicional, no serviço desinteressado, a exemplo de Cristo?
• No “rebanho” de Jesus, não se entra por convite especial, nem há um número restrito de vagas a partir do qual mais ninguém pode entrar… A proposta de salvação que Jesus faz destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção. O que é decisivo para entrar a fazer parte do rebanho de Deus é “escutar a voz” de Cristo, aceitar as suas indicações, tornar-se seu discípulo… Isso significa, concretamente, seguir Jesus, aderir ao projeto de salvação que Ele veio apresentar, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, na entrega total aos projetos de Deus e na doação total aos irmãos. Atrevemo-nos a seguir o nosso “Pastor” (Cristo) no caminho exigente do dom da vida, ou estamos convencidos que esse caminho é apenas um caminho de derrota e de fracasso, que não leva aonde nós pretendemos ir?
• O nosso texto acentua a identificação total de Jesus com a vontade do Pai e a sua disponibilidade para colocar toda a sua vida ao serviço do projecto de Deus. Garante-nos também que é dessa entrega livre, consciente, assumida, que resulta vida eterna, verdadeira e definitiva. O exemplo de Cristo convida-nos a aderir, com a mesma liberdade mas também com a mesma disponibilidade, às propostas de Deus e ao cumprimento do projeto de Deus para nós e para o mundo. Esse caminho é, garantidamente, um caminho de vida eterna e de realização plena do homem.
• Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam. Podemos aceitar, sem problemas, que elas receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições; mas convém igualmente ter presente que o nosso único “Pastor”, aquele que somos convidados a escutar e a seguir sem condições, é Cristo. Os outros “pastores” têm uma missão válida, se a receberam de Cristo; e a sua atuação nunca pode ser diferente do jeito de atuar de Cristo.
• Para que distingamos a “voz” de Jesus de outros apelos, de propostas enganadoras, de “cantos de sereia” que não conduzem à vida plena, é preciso um permanente diálogo íntimo com “o Pastor”, um confronto permanente com a sua Palavra e a participação ativa nos sacramentos onde se nos comunica essa vida que “o Pastor” nos oferece.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho





quarta-feira, 15 de abril de 2015

A paz esteja convosco

3º DOMINGO DA PÁSCOA

Evangelho - Lc 24,35-48


 -A PAZ ESTEJA CONVOSCO-José Salviano


19 de Abril de 2015
Ano B

Exatamente como Jesus prometeu, ele cumpriu: "Assim está escrito: o Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia".Continua
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“POR QUE ESTAIS PREOCUPADOS E POR QUE TENDES DÚVIDAS NO CORAÇÃO?”- Olívia Coutinho

III DOMINGO DA PÁSCOA.

Dia 19 de abril de 2015

Evangelho de  Lc 24,35-48

Estamos vivendo o tempo Pascal!  Um tempo  forte, propício para um  reencontro com as raízes da nossa fé, e a partir daí, fazermos um confronto pessoal de crescimento, afim de que  possamos avaliar a qualidade da nossa fé e o quanto há de luz e sombras em nossas vida!
 “O Mistério Pascal é de tal importância na vida litúrgica da Igreja e na vida e atividade apostólica de todos os redimidos pelo Sangue de Cristo, que a sua celebração se prolonga por cinquenta dias, número cheio de significado, pois exprime a plenitude da salvação definitivamente alcançada por Jesus Ressuscitado e por Ele oferecida aos homens”.
A ressurreição de Jesus,  é um acontecimento marcante na vida de cada um de nós, um acontecimento que  não deve ser vivida somente nestes dias em que a igreja sabiamente nos oferece a oportunidade de saborearmos uma riqueza  litúrgica, que nos faz mergulhar no mistério do amor de Deus. A ressurreição,  deve ser vivida todos os dias de nossa vida!
A narrativa do evangelho de hoje, nos fala de mais uma aparição de Jesus! Enquanto os dois discípulos comentavam com os demais, sobre a experiência que fizera com Jesus ressuscitado, no caminho  para Emaús, Ele aparece no meio deles e os  saúda dizendo:” A paz esteja convosco!”   Assustados, os discípulos  chegaram a pensar  que se tratava de um fantasma, ainda havia dúvidas em seus corações, e mesmo depois de terem vistos as marcas da cruz nas mãos e nos pés de Jesus,  eles continuavam com dificuldades em  acreditar, afinal, tudo aquilo era grande demais para a compreensão deles que acabara  de ver Jesus  morto  na cruz!
Mesmo diante a apreensão dos discípulos,  que pareciam não acreditar no que estavam vendo,  Jesus não os repreendeu, pelo contrário,  Ele compreendeu a  dificuldade deles em assimilar tudo aquilo.  E numa atitude de amor, Jesus abriu-lhes a inteligência, possibilitando-os  entender as Escrituras, e se tornarem  testemunhas de sua ressurreição. A partir de então, os discípulos perderam o medo e assumiram a desafiante missão de testemunharem a ressurreição de Jesus, fato que as autoridades queriam abafar.
Hoje, somos nós, os convocados a dar testemunho da Ressurreição de Jesus, o que podemos fazer, não somente com palavras, mas principalmente, com as nossas atitudes!
 Neste encontro com os discípulos, Jesus transmitiu- lhes a sua paz! Foi  a paz de Jesus que os libertou do medo que os mantinha presos! Esta mesma Paz, chega a até a nós, é uma paz diferente daquela que o mundo nos  oferece através de armas. A paz de Jesus, é a paz de quem venceu a cruz, uma paz que nos  aquieta e ao mesmo tempo nos inquieta, que  nos faz  sairmos de nós mesmos para irmos ao encontro do outro!
Viver a ressurreição de Jesus,  é  ter o olhar transfigurado pelo Espírito Santo! É o Espírito Santo, que nos faz enxergar com clareza o que está oculto aos  olhos do mundo, que nos faz distinguir os clamores dos que sofrem em meio ao ruídos dissonantes de uma sociedade insensível  às suas necessidades. 
Só faz a experiência do Cristo ressuscitado, quem faz a experiência da cruz, da partilha e da entrega da vida! A paz de Cristo é o ponto fundamental para a nossa caminhada de fé!

 FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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A Palavra de Deus deste domingo do tempo pascal recorda-nos um fato histórico tremendo, ao mesmo tempo misterioso e doloroso: os judeus, povo que esperou o Messias, não acolheu o Messias! E tudo terminou num desastre: "Vós rejeitastes o Santo e o Justo. Vós matastes o Autor da vida. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos”. Eis, caríssimos: misteriosamente o Povo de Deus do Antigo Testamento não foi capaz de reconhecer o Messias que lhe fora enviado e o entregou a Pilatos, que o mandou crucificar. Não culpemos os judeus. A própria Palavra do Senhor afirma: “Eu sei que agistes por ignorância, assim como vosso chefes. Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer”. Que mistério, amados irmãos: na rejeição dos judeus, que terminou levando Cristo à cruz, o plano de Deus estava sendo cumprido! O próprio Senhor ressuscitado afirma a mesma coisa no Evangelho de hoje: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.
Mas, por que deveria ser assim? Por que o plano de Deus deveu passar pela cruz, tão feia, tão humilhante, dolorosa e sofrida? Com piedade e unção, procuremos contemplar um pouquinho tão grande e santo mistério. A cruz fazia parte do plano de Deus, caríssimos, primeiramente porque nela se manifesta o que o pecado fez com o homem e do que o homem pecador se tornou capaz: de matar Deus e se desgraçar. A humanidade pecadora – esta, que vemos hoje – de tal modo se fechou para Deus que o está matando (recordem a mais recente punhalada: uma obra de arte blasfema numa exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Lá apresentaram dois terços da Virgem Maria em forma de órgão genital masculino. Os católicos protestaram. E o ministro da cultura do Governo Lula, o Gilberto Gil ficou indignado com os católicos; e muitos artistas foram à rua protestar contra esses católicos reacionários. É a lógica do mundo atual: massacrar Deus, ridicularizá-lo, matá-lo no coração dos homens e do mundo). Desde o início da história temos matado Deus, renegando-o, desobedecendo-o, colocando-o em último lugar... Mas, quando fazemos isso, nos destruímos, nos desfiguramos, edificamos a nossa vida pessoal e social sobre a areia. Na cruz de Jesus, Deus nos mostra isso: a gravidade do nosso pecado, o desastre que é fechar-se para o Senhor. Num mundo que brinca com o pecado e já não leva a sério a gravidade de pecar, olhemos a cruz e veremos o que nosso pecado provoca! Não deixará nunca de impressionar a frase de São Pedro na primeira leitura de hoje: “Vós matastes o Autor da Vida!” – Eis! Com o nosso pecado, matamos aquele que é a Vida e nos matamos a nós!
Mas, a cruz revela também, com toda a força, até onde Deus é capaz de ir por nós: ele é capaz de se entregar, de dar sua vida por nós! No seu Filho o Pai nos entrega tudo de precioso que ele tem! No Filho feito homem de dores, humilhado e derrotado, nós podemos compreender o quanto somos amados por Deus, o quanto ele nos leva a sério, o quanto é capaz de descer para nos procurar! Contemplemos a cruz e sejamos gratos a Deus que se entrega assim!
Finalmente, a cruz revela a estupenda, desconcertante, fidelidade de Deus: nela descobrimos o verdadeiro nome do nosso Deus. E o seu nome é fidelidade, o seu nome é amor. Primeiramente fidelidade e amor do Pai em relação ao Filho. Ao Filho amado que se entregou ao Pai por nós, Deus-Pai o ressuscitou e deu-lhe toda glória. É o que anuncia a primeira leitura de hoje: “O Deus de nossos Pais glorificou o seu servo Jesus. Vós matastes o Autor da Vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos!” Que mistério! O Filho, entregue ao Pai com toda a confiança e todo o abandono, o Filho, feito homem de dores, agora é glorificado pelo Pai e colocado no mais alto da glória. Deus jamais abandona os que a ele se confiam. Podemos imaginar o Senhor Jesus dizendo as palavras do Salmo de hoje: “Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” O nosso Salvador adormeceu no sono da morte certo que o Pai o despertaria para a vida da glória! Sim, o Pai é fidelidade, o Pai é amor! Mas, é também fidelidade e amor para conosco. Efetivamente, tudo quanto aconteceu com o Filho na cruz foi por nós, para nossa salvação, para que o nosso pecado, a nossa situação de miséria, encontrasse expiação. Eis como a Palavra de Deus deste hoje insiste nisso: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. E o próprio Jesus afirma no Evangelho que “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Na cruz e ressurreição do Senhor, Deus, amorosamente nos concedeu o perdão dos pecados!
Então, que temos de fazer para corresponder a tanto amor, a tão grande graça? Três coisas: primeira: crer em Jesus, o Enviado do Pai, que por nós morreu e ressuscitou: “Convertei-vos para que os vossos pecados sejam perdoados!” Quem crer em Jesus, quem diante dele reconhecer-se pecador e o acolher como o Salvador e nele colocar a vida, nele encontrará o perdão que vem pela cruz e a ressurreição. Segunda coisa: viver na Palavra do Senhor: “Para saber se o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Naquele que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”. A fé, caríssimos, não é um sentimento nem uma teoria. Nossa fé em Jesus morto e ressuscitado deve levar a um compromisso sério e radical com o Senhor na nossa vida concreta. Quem não guarda os mandamentos, não crê! Quem não crê, fecha-se para a salvação! Terceira coisa: testemunhar Jesus morto e ressuscitado: “Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas!” E Jesus diz: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” Caros meus, nós não conhecemos Jesus de um modo teórico. Nós o experimentamos na força da sua Palavra e na graça dos seus sacramentos, sobretudo na participação na Eucaristia. Jesus, para nós, não é um fantasma! “Por que estais preocupados tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!" Sim, meus caros, quantas vezes tocamos Jesus, sentimo-lo vivo, caminhando conosco! Tenhamos, então a coragem de nele crer, de nele viver e dele dar testemunho onde quer que estejamos e onde quer que vivamos. Jesus não é um fantasma! Jesus está vivo! Jesus é Senhor! E que a sua paz, a sua vitória e o seu perdão estejam sempre conosco.
dom Henrique Soares da Costa

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Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como é que podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como é que podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação? É, fundamentalmente, a estas questões que a liturgia do 3° domingo da Páscoa procura responder.
O Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos. É precisamente nesse contexto eclesial - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço - que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Depois desse "encontro", os discípulos são convidados a dar testemunho de Jesus diante dos outros homens e mulheres.
A primeira leitura apresenta-nos, precisamente, o testemunho dos discípulos sobre Jesus. Depois de terem mostrado, em gestos concretos, que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação, Pedro e João convidam os seus interlocutores a acolherem a proposta de vida que Jesus lhes faz.
A segunda leitura lembra que o cristão, depois de encontrar Jesus e de aceitar a vida que Ele oferece, tem de viver de forma coerente com o compromisso que assumiu D Essa coerência deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana e num esforço de fidelidade aos mandamentos de Deus.
1ª leitura – At. 3,13-15.17-19 - AMBIENTE
A primeira leitura do 3° domingo da Páscoa situa-nos em Jerusalém, à entrada do templo. Pedro e João (esta "dupla" aparece, frequentemente associada na primeira parte do Livro dos Atos dos Apóstolos - cf. At. 4,7-8.13.19) tinham subido ao Templo para a oração da "hora nona" (três da tarde). Um homem, coxo de nascença, que estava à entrada do Templo a mendigar (junto da porta "chamada Formosa"), dirigiu-se aos dois apóstolos e pediu-lhes esmola. Pedro avisou-o de que não tinha "ouro nem prata" para lhe oferecer; mas, "em nome de Jesus Cristo Nazareno", curou-o. "Cheia de assombro e estupefata", a multidão reuniu-se "sob o chamado pórtico de Salomão" para ouvir da boca de Pedro a explicação para o estranho fato (cf. At. 3,1-11). O "assombro" e a "estupefação" traduzem o estado daqueles que testemunham a ação de Deus manifestada através dos apóstolos; é a mesma reação com que as multidões acolheram os gestos libertadores realizados por Jesus. A ação dos apóstolos aparece, assim, na continuidade da ação de Jesus. O nosso texto é parte do discurso que, segundo Lucas, Pedro teria feito à multidão (cf. At. 3,12-26).
Nas figuras de Pedro e João, Lucas apresenta-nos o testemunho da primitiva comunidade de Jerusalém, apostada em continuar a missão de Jesus e em apresentar aos homens o projeto salvador de Deus. Lucas está convencido de que esse testemunho se concretiza, não só através da pregação, mas também da ação dos discípulos. As palavras e os gestos das "testemunhas" de Jesus mostram como o mundo muda quando a salvação chega e como o homem escravo passa a ser um homem livre. O "testemunho" dos discípulos irá provocar, naturalmente, a oposição daqueles que, instalados nos velhos esquemas, recusam os desafios de Deus. Por isso os discípulos de Jesus, arautos desse mundo novo, irão conhecer a perseguição (cf. At. 4,1-22).
MENSAGEM
Pedro, dirigindo-se aos israelitas, dá-lhes a entender que o gesto libertador que beneficiou o homem coxo foi realizado em nome de Jesus. Ele mostra que o projeto de Jesus continua a realizar-se e demonstra que Jesus está vivo. Enquanto percorreu os caminhos da Palestina, Jesus manifestou, em gestos concretos, a presença da salvação de Deus entre os homens e essa salvação continua a derramar-se sobre os homens doentes e privados de vida e de liberdade, é porque Jesus continua presente, oferecendo aos homens a vida nova e definitiva. Os discípulos são os agentes através dos quais Jesus continua a sua obra libertadora e salvadora no mundo.
No seu "testemunho", Pedro começa por se referir aos dramáticos acontecimentos que culminaram na morte de Jesus, explicando-os como o resultado da rejeição da proposta salvadora de Deus por parte dos israelitas e Deus ofereceu-lhes a vida e eles escolheram a morte; preferiram preservar a vida de alguém que trouxe morte e condenar à morte alguém que oferecia a vida ("negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação de um assassino. Destes a morte ao Príncipe da vida” – vs. 14-15a). Deus, no entanto, ressuscitou Jesus, demonstrando como a proposta que Jesus veio apresentar é uma proposta geradora de vida. A ressurreição de Jesus é a prova de que o projeto de Deus - projeto apresentado por Jesus e que os israelitas rejeitaram - é uma proposta geradora de vida e de vida que a morte não pode vencer (v. 15b). Estará tudo terminado para Israel? O Povo não terá mais oportunidade de corrigir a sua má escolha e de fazer uma nova opção, uma opção pela vida? A oferta de Deus terá caducado, face à intransigência dos chefes de Israel em acolher os dons de Deus?
Não. Pedro "sabe" (e se Pedro "sabe" é porque Deus também o sabe) que o Povo agiu por ignorância. O comportamento do Povo, em geral, e dos líderes judaicos, em particular, face a Jesus tem, pois, atenuantes. Na legislação religiosa de Israel, as faltas "involuntárias" tinham um tratamento especial e mereciam um tratamento diferente das faltas "voluntárias" (cf. Lv. 4). Assim Deus, na sua imensa bondade, continua a oferecer ao seu Povo a possibilidade de corrigir as suas opções erradas e de escolher a vida, aderindo a Jesus e ao projeto por Ele apresentado. A prova disso é que o homem coxo recebeu de Deus o dom da vida.
O que é preciso fazer para que essa oferta de salvação que Deus continua a fazer se torne efetiva? É necessário "arrepender-se" e "converter-se". Estes dois verbos definem o movimento de reorientar a vida para Deus, de forma a que Deus passe a estar no centro da vida do homem e o homem passe a "dar ouvidos" às propostas de Deus e a viver de acordo com os projetos de Deus. Ora, uma vez que Cristo é a manifestação de Deus, "arrepender-se" e "converter-se" significa aderir à pessoa de Cristo, crer n'Ele, acolher o projeto que Ele traz, entrar no Reino que Ele anuncia e propõe. Os israelitas podem, portanto, "apanhar a carruagem" da salvação, se deixarem a sua auto-suficiência, os seus preconceitos, o seu comodismo (que os levaram a rejeitar as propostas de Deus) e se aderirem a Jesus e à vida que Ele continua a propor (através do testemunho dos discípulos).
ATUALIZAÇÃO
• Para os cristãos, Jesus não é uma figura do passado, que a morte venceu e que ficou sepultado no museu da história; mas é alguém que continua vivo, sempre presente nos caminhos do mundo, oferecendo aos homens uma proposta de vida verdadeira, plena, eterna. Como é que os nossos irmãos que caminham ao nosso lado podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma experiência de encontro com Cristo ressuscitado? Através de documentos históricos que demonstrem cientificamente a realidade da ressurreição? Para Lucas, o fator decisivo para que os homens descubram que Cristo está vivo é o testemunho dos discípulos. Jesus está vivo e apresenta-se aos homens do nosso tempo nos gestos de amor, de partilha, de solidariedade, de perdão, de acolhimento que os cristãos são capazes de fazer; Jesus está vivo e atua hoje no mundo, quando os cristãos se comprometem na luta pela paz, pela justiça, pela liberdade, pelo nascimento de um mundo mais humano, mais fraterno, mais solidário; Jesus está vivo e continua a realizar aqui e agora o projeto de salvação de Deus, quando os seus cristãos oferecem aos coxos a possibilidade de avançar em direção a um futuro de esperança, oferecem aos que vivem nas trevas a capacidade de encontrar a luz e a verdade, oferecem aos prisioneiros a possibilidade de ter voz e de decidir livremente o seu futuro. Os meus gestos anunciam aos irmãos com quem me cruzo nos caminhos deste mundo que Cristo está vivo?
• A existência humana é uma busca incessante de vida - de vida eterna, plena, verdadeira. Essa busca, contudo, nem sempre se desenrola em caminhos fáceis e lineares. Por vezes é cumprida num caminho onde o homem tropeça com equívocos, com falhas, com opções erradas. Aquilo que parece ser garantia de vida gera morte; e aquilo que parece ser fracasso e frustração é, afinal, o verdadeiro caminho para a vida. Lucas garante-nos, neste texto, que a proposta que Jesus veio apresentar é uma proposta geradora de vida, apesar de passar pelo aparente fracasso da cruz. É de vida vivida na doação, na entrega, no amor total a Deus e aos irmãos, a exemplo de Jesus, que brota a vida eterna e verdadeira para nós e para aqueles que caminham ao nosso lado.
• O apelo ao arrependimento e à conversão que aparece no discurso de Pedro lembra-nos essa necessidade contínua de reequacionarmos as nossas opções, de deixarmos os caminhos de egoísmo, de orgulho, de comodismo, de auto-suficiência em que, por vezes, se desenrola a nossa existência. É preciso que, em cada instante da nossa vida, nos convertamos a Jesus e aos seus valores, numa disponibilidade total para acolhermos os desafios de Deus e a sua proposta de salvação.
2ª leitura - 1Jo 2,1-5ª - AMBIENTE
A liturgia do terceiro Domingo da Páscoa continua a propor à nossa consideração a primeira Carta de João.
Já vimos no passado domingo que este escrito de tom polêmico - destinado provavelmente às comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor - procura combater doutrinas heréticas pré-gnósticas e apresentar aos cristãos o caminho da autêntica vida cristã.
Os adeptos das heresias em causa pretendiam "conhecer Deus" (1Jo 2,4), "ver Deus" (1Jo 3,6), viver em comunhão com Deus (1Jo 2,3) e, não obstante, apresentavam uma doutrina e uma conduta em flagrante contradição com a revelação cristã. Recusavam-se a ver em Jesus o Messias (cf. 1Jo 2,22), o Filho de Deus (cf. 1Jo 4,15) e recusavam a encarnação (cf. 1Jo 4,2). Para estes hereges, o Cristo celeste tinha-se apropriado do homem Jesus de Nazaré na altura do batismo (cf. Jo 1,32-33), tinha-O utilizado para levar a cabo a revelação e tinha-O abandonado antes da paixão, porque o Cristo celeste não podia padecer. As doutrinas destes hereges punham em causa a teologia da encarnação e a cristologia cristã.
O comportamento moral destes hereges não era menos repreensível: pretendiam não ter pecados (cf. 1Jo 1,8.10) e não guardavam os mandamentos (cf. 1Jo 2,4), em particular o mandamento do amor fraterno (cf. 1Jo 2,9).
São estas pretensões que o texto que hoje nos é proposto denuncia. Quem diz que não comete pecados, é mentiroso; e, ao mesmo tempo, faz Deus mentiroso. Que necessidade teria Deus de enviar ao mundo o seu Filho com uma proposta de salvação, se o pecado não fosse uma realidade universal (cf. 1Jo 1,8-10)?
MENSAGEM
Na primeira parte do nosso texto (vs. 1-2), o autor critica veladamente esses hereges que consideravam não ter pecados e sugere aos cristãos a atitude correta que Deus espera de cada crente, a propósito desta questão.
O cristão é chamado à santidade e a viver uma vida de renúncia ao pecado. Deus chama-o a rejeitar o egoísmo, a auto-suficiência, a injustiça, a opressão (trevas) e a escolher a luz. No entanto, o pecado é uma realidade incontornável, que resulta da fragilidade e da debilidade do homem. O cristão deve ter consciência desta realidade e reconhecer o seu pecado. Não fazer isto é fechar-se na auto-suficiência, é recusar a salvação que Deus oferece (quem sente que não tem pecado, também não sente a necessidade de ser salvo) e é, portanto, "pecar".
O cristão é aquele que reconhece a sua fragilidade, mas não desespera. Ele sabe que Deus lhe oferece a sua salvação e que Jesus Cristo é o "advogado" (literalmente, "parakletos", que podemos traduzir por "defensor") que o defende. Ele veio ao mundo para eliminar o pecado - o pecado de todos os homens.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 3-5a), o autor da carta refere-se à pretensão dos hereges de conhecer a Deus, mas sem se preocuparem em guardar os seus mandamentos. Na linguagem bíblica, "conhecer Deus" não é ter de Deus um conhecimento teórico e abstrato, mas é viver em comunhão íntima com Deus, numa relação pessoal de proximidade, de familiaridade, de amor sem limites. Ora, quem disser que mantém uma relação de proximidade e de comunhão pessoal com Deus, mas não quer saber das suas propostas e indicações para nada, está a mentir. Não se pode amar e não considerar as propostas da pessoa que se ama. O "conhecer Deus" exige atitudes concretas que passam pelo escutar, acolher e viver as propostas de salvação que Deus faz, através de Jesus.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental que o nosso texto põe é a da coerência de vida. O cristão é uma pessoa que aceitou o convite de Deus para escolher a luz e que tem de viver, dia a dia, de forma coerente com o compromisso que assumiu Não pode comprometer-se com Deus e conduzir a sua vida por caminhos de orgulho, de auto-suficiência, de indiferença face a Deus e às suas propostas. A vida do crente não pode ser uma vida de "meias-tintas", de comodismo, de opções volúveis, de oportunismos, mas tem de ser uma vida conseqüente, comprometida, exigente. Na minha vida procuro viver, com coerência e honestidade, os meus compromissos com Deus e com os meus irmãos, ou deixo-me levar ao sabor da corrente, das situações, das oportunidades?
• Essa coerência de vida deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana. O pecado não é algo "normal", para o crente (o pecado é sempre um "não" a Deus e às suas propostas e isso deve ser visto pelos crentes como uma "anormalidade"); mas é uma realidade que o crente reconhece e que sabe que está sempre presente ao longo da sua caminhada pelo mundo. Hoje, fala-se muito da falta de consciência do pecado e falta de consciência do pecado cria homens insensíveis, orgulhosos e auto-suficientes, que acreditam não precisar de Deus e da sua oferta de salvação. O autor da Carta de João convida-nos a tomar consciência da nossa realidade de pecadores, a acolher a salvação que Deus nos oferece, a confiar em Jesus, o "advogado" que nos entende (porque veio ao nosso encontro, partilhou a nossa natureza, experimentou a nossa fragilidade) e que nos defende. Reconhecer a nossa realidade pecadora não pode levar-nos ao desespero; tem de levar-nos a abrir o coração aos dons de Deus, a acolher humildemente a sua salvação e a caminhar com esperança ao encontro do Deus da bondade e da misericórdia que nos ama e que nos oferece, sem condições, a vida eterna.
• A coerência que o autor da primeira Carta de João nos pede deve manifestar-se, também, na identificação entre a fé e a vida. A nossa religião não é uma bela teoria, separável da nossa vida concreta. É uma mentira dizer que se ama Deus e, na vida concreta, desprezar as suas propostas e conduzir a vida de acordo com valores que contradizem de forma absoluta a lógica de Deus. Um crente que diz amar Deus e, no dia a dia, cria à sua volta injustiça, conflito, opressão, sofrimento, vive na mentira; um crente que diz "conhecer Deus" e fomenta uma lógica de guerra, de ódio, de intransigência, de intolerância, está bem distante de Deus; um crente que diz ter "a sua fé" e recusa o amor, a partilha, o serviço, a comunidade, está muito longe dos caminhos onde se revela a vida e a salvação de Deus. A minha vida concreta, as minhas atitudes para com os irmãos que me rodeiam, os sentimentos que enchem o meu coração, os valores que condicionam as minhas ações, são coerentes com a minha fé?
Evangelho – Lc. 24,35-48 - AMBIENTE
O episódio que Lucas nos relata no Evangelho deste domingo situa-nos em Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos e já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro (cf. Lc. 24,34), bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc. 24,35).
Apesar de tudo, o ambiente é de medo, de perturbação e de dúvida. A comunidade, cercada por um ambiente hostil, sente-se desamparada e insegura. O medo e a insegurança vêm do fato de os discípulos não terem, ainda, feito a experiência de encontro com Cristo ressuscitado.
Nesta última secção do seu Evangelho, Lucas procura mostrar como os discípulos descobrem, progressivamente, Jesus vivo e ressuscitado. Ao evangelista não interessa tanto fazer uma descrição jornalística e fotográfica das aparições de Jesus aos discípulos; interessa-lhe, sobretudo, afirmar aos cristãos de todas as épocas que Cristo continua vivo e presente, acompanhando a sua Igreja, e que os discípulos, reunidos em comunidade, podem fazer uma experiência de encontro verdadeiro com Jesus ressuscitado.
Para a sua catequese, Lucas vai utilizar diversas imagens que não devem ser tomadas à letra nem absolutizadas. Elas são, apenas, o invólucro que apresenta a mensagem. O que devemos procurar, neste texto, é algo que está para além dos pormenores, por muito reais que eles pareçam: é a catequese da comunidade cristã sobre a sua experiência de encontro com Jesus vivo e ressuscitado.
MENSAGEM
A ressurreição de Jesus terá sido uma simples invenção da Igreja primitiva, ou um piedoso desejo dos discípulos, esperançados em que a maravilhosa aventura que viveram com Jesus não terminasse no fracasso da cruz e num túmulo escavado numa rocha em Jerusalém?
É, fundamentalmente, a esta questão que Lucas procura responder. Na sua catequese, Lucas procura deixar claro que a ressurreição de Jesus foi um fato real, incontornável que, contudo, os discípulos descobriram e experimentaram só após um caminho longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e de incertezas.
Todos os relatos das aparições de Jesus ressuscitado falam das dificuldades que os discípulos sentiram em acreditar e em reconhecer Jesus ressuscitado (cf. Mt. 28,17; Mc. 16,11.14; Lc. 24,11.13-32.37-38.41; Jo 20,11-18.24-29; 21,1-8). Essa dificuldade deve ser histórica e significa que a ressurreição de Jesus não foi um acontecimento cientificamente comprovado, material, captável pela objetiva dos fotógrafos ou pelas câmaras da televisão. Nos relatos das aparições de Cristo ressuscitado, os discípulos nunca são apresentados como um grupo crédulo, idealista e ingênuo, prontos a aceitar qualquer ilusão; mas são apresentados como um grupo desconfiado, crítico, exigente, que só acabou por reconhecer Jesus vivo e ressuscitado depois de um caminho mais ou menos longo, mais ou menos difícil.
O caminho da fé não é o caminho das evidências materiais, das provas palpáveis, das demonstrações científicas; mas é um caminho que se percorre com o coração aberto à revelação de Deus, pronto para acolher a experiência de Deus e da vida nova que Ele quer oferecer. Foi esse o caminho que os discípulos percorreram. No final desse caminho (que, como caminho pessoal, para uns demorou mais e para outros demorou menos), eles experimentaram, sem margem para dúvidas, que Jesus estava vivo, que caminhava com eles pelos caminhos da história e que continuava a oferecer-lhes a vida de Deus. Eles começaram a percorrer esse caminho com dúvidas e incertezas; mas fizeram a experiência de encontro com Cristo vivo e chegaram à certeza da ressurreição. É essa certeza que os relatos da ressurreição, na sua linguagem muito própria, procuram transmitir-nos.
Na catequese de Lucas há elementos que importa pôr em relevo:
1. ao longo da sua caminhada de fé, os discípulos descobriram a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, no meio da sua comunidade. Perceberam que Ele continua a ser o centro à volta do qual a comunidade se constrói e se articula. Entenderam que Jesus derrama sobre a sua comunidade em marcha pela história a paz (o "shalom" hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranqüilidade, confiança, vida plena - verso 36).
2. Esse Jesus, vivo e ressuscitado, é o filho de Deus que, após caminhar com os homens, reentrou no mundo de Deus. O "espanto" e o "medo" com que os discípulos acolhem Jesus são, no contexto bíblico, a reação normal e habitual do homem diante da divindade (v. 37). Jesus não é um homem reanimado para a vida que levava antes, mas o Deus que reentrou definitivamente na esfera divina.
3. As dúvidas dos discípulos dão conta dessa dificuldade que eles sentiram em percorrer o caminho da fé, até ao encontro pessoal com o Senhor ressuscitado. A ressurreição não foi, para os discípulos, um fato imediatamente evidente, mas uma caminhada de amadurecimento da própria fé, até chegar à experiência do Senhor ressuscitado (v. 38).
4. Na catequese/descrição de Lucas, certos elementos mais "sensíveis" e materiais (a insistência no "tocar" em Jesus para ver que Ele não era um fantasma – vs. 39-40; a indicação de que Jesus teria comido "uma posta de peixe assado" – vs. 41-43) são, antes de mais, uma forma de ensinar que a experiência de encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado não foi uma ilusão ou um produto da imaginação, mas uma experiência muito forte e marcante, quase palpável. São, ainda, uma forma de dizer que esse Jesus que os discípulos encontraram, embora diferente e irreconhecível, é o mesmo que tinha andado com eles pelos caminhos da Palestina, anunciando-lhes e propondo-lhes a salvação de Deus. Finalmente, Lucas ensina também, com estes elementos, que Jesus ressuscitado não está ausente e distante, definitivamente longe do mundo em que os discípulos têm de continuar a caminhar; mas Ele continua, pelo tempo fora, a sentar-Se à mesa com os discípulos, a estabelecer laços de familiaridade e de comunhão com eles, a partilhar os seus sonhos, as suas lutas, as suas esperanças, as suas dificuldades, os seus sofrimentos.
5. Jesus ressuscitado desvela aos discípulos o sentido profundo das Escrituras. A Escritura não só encontra em Jesus o seu cumprimento, mas também o seu intérprete. A comunidade de Jesus que caminha pela vida deve, continuamente, reunir-se à volta de Jesus ressuscitado para escutar a Palavra que alimenta e que dá sentido à sua caminhada histórica (vs. 44-46).
6. Os discípulos, alimentados por essa Palavra, recebem de Jesus a missão de dar testemunho diante de "todas as nações, começando por Jerusalém". O anúncio dos discípulos terá como tema central a morte e ressurreição de Jesus, o libertador anunciado por Deus desde sempre. A finalidade da missão da Igreja de Jesus (os discípulos) é pregar o arrependimento e o perdão dos pecados a todos os homens e mulheres, propondo-lhes a opção pela vida nova de Deus, pela salvação, pela vida eterna (vs. 47-48).
Lucas apresenta aqui uma breve síntese da missão da Igreja, tema que ele desenvolverá amplamente no livro dos Atos dos Apóstolos.
ATUALIZAÇÃO
• Jesus ressuscitou verdadeiramente, ou a ressurreição é fruto da imaginação dos discípulos? Como é possível ter a certeza da ressurreição? Como encontrar Jesus ressuscitado? É a estas e a outras questões semelhantes que o Evangelho deste domingo procura responder. Com a sua catequese, Lucas diz-nos que nós, como os primeiros discípulos, temos de percorrer o nem sempre claro caminho da fé, até chegarmos à certeza da ressurreição. Não se chega lá através de deduções lógicas ou através de construções de caráter intelectual; mas chega-se ao encontro com o Senhor ressuscitado inserindo-nos nesse contexto em que Jesus Se revela - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço. É nesse "caminho" que vamos encontrando Cristo vivo, atuante, presente na nossa vida e na vida do mundo.
• É que Cristo continua presente no meio da sua comunidade em marcha pela história. Quando a comunidade se reúne para escutar a Palavra, Ele está presente e explica aos seus discípulos o sentido das Escrituras. Não sentimos, tantas vezes, a presença de Cristo a indicar-nos caminhos de vida nova e a encher o nosso coração de esperança quando lemos e meditamos a Palavra de Deus? Não sentimos o coração cheio de paz - a paz que Jesus ressuscitado oferece aos seus - quando escutamos e acolhemos as propostas de Deus, quando procuramos conduzir a nossa vida de acordo com o plano de Deus?
• Jesus ressuscitado reentrou no mundo de Deus; mas não desapareceu da nossa vida e não se alheou da vida da sua comunidade. Através da imagem do "comer em conjunto" (que, para o Povo bíblico, significa estabelecer laços estreitos, laços de comunhão, de familiaridade, de fraternidade), Lucas garante-nos que o Ressuscitado continua a "sentar-se à mesa" com os seus discípulos, a estabelecer laços com eles, a partilhar as suas inquietações, anseios, dificuldades e esperanças, sempre solidário com a sua comunidade. Podemos descobrir este Jesus ressuscitado que se senta à mesa com os homens sempre que a comunidade se reúne à mesa da Eucaristia, para partilhar esse pão que Jesus deixou e que nos faz tomar consciência da nossa comunhão com Ele e com os irmãos.
• Jesus lembra aos discípulos: "vós sois as testemunhas de todas estas coisas". Isto significa, apenas, que os cristãos devem ir contar a todos os homens, com lindas palavras, com raciocínios lógicos e inatacáveis que Jesus ressuscitou e está vivo? O testemunho que Cristo nos pede passa, mais do que pelas palavras, pelos nossos gestos. Jesus vem, hoje, ao encontro dos homens e oferece-lhes a salvação através dos nossos gestos de acolhimento, de partilha, de serviço, de amor sem limites. São esses gestos que testemunham, diante dos nossos irmãos, que Cristo está vivo e que Ele continua a sua obra de libertação dos homens e do mundo.
• Na catequese que Lucas apresenta, Jesus ressuscitado confia aos discípulos a missão de anunciar "em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém". Continuando a obra de Jesus, a missão dos discípulos é eliminar da vida dos homens tudo aquilo que é "o pecado" (o egoísmo, o orgulho, o ódio, a violência e propor aos homens uma dinâmica de vida nova.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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O dia do Senhor
I. “No dia chamado do sol, reúnem-se num mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos [...]. E reunimo-nos todos no dia do Sol porque é o primeiro da semana, aquele em que Deus criou o mundo, e porque nesse mesmo dia Jesus Cristo nosso Salvador ressuscitou dos mortos” (1). O sábado judeu deu lugar ao domingo cristão desde os começos da Igreja. A partir de então, comemoramos em cada domingo a Ressurreição de Cristo.
No Antigo Testamento, o sábado era o dia dedicado a Javé. Foi o próprio Deus que o instituiu (2), ordenando que nesse dia o povo israelita se abstivesse de certos trabalhos, para dedicar-se a honrá-lo (3). Era também o dia em que se congregava a família e em que se celebrava o fim do cativeiro no Egito. Com o decorrer do tempo, os rabinos complicaram o preceito divino, e no tempo de Jesus estavam em vigor inúmeras prescrições minuciosas e aflitivas que nada tinham que ver com o que o Senhor havia ordenado.
Os fariseus implicaram freqüentemente com Jesus por essas questões. Mas o Senhor não desprezou o sábado nem o suprimiu como dia dedicado a Javé; pelo contrário, parecia ser esse o seu dia predileto: é nesse dia que vai pregar às sinagogas, e muitos dos seus milagres foram feitos num sábado.
A Sagrada Escritura, em numerosas passagens, tinha formulado um conceito alto e nobre do sábado. Era o dia estabelecido por Deus para que o seu povo lhe prestasse culto público, e a dedicação integral da jornada ao Senhor configurava-se como uma obrigação grave4. Houve ocasiões em que os profetas denunciaram a violação do sábado como causa dos castigos de Deus sobre o seu povo.
De natureza estritamente religiosa, o descanso sabático manifestava-se e culminava na oblação de um sacrifício5. Como as demais festas de Israel, que estavam todas ligadas a um acontecimento salvífico, era sinal da aliança divina e um modo de o povo escolhido expressar o júbilo de saber-se propriedade do Senhor e objeto da sua eleição e do seu amor.
Com a Ressurreição de Jesus Cristo, o sábado dá lugar à realidade que prenunciava: a festa cristã. O próprio Jesus fala do Reino de Deus como uma grande festa oferecida por um rei para celebrar as bodas do seu filho6. Com Cristo surge um culto novo e superior, porque temos também um novo Sacerdote e se oferece uma nova Vítima.
II. Depois da ressurreição, os Apóstolos passaram a considerar o primeiro dia da semana como o dia do Senhor, dominica dies (7), porquanto foi nesse dia que Ele nos alcançou com a sua Ressurreição a vitória sobre o pecado e a morte. E esta tem sido a tradição constante e universal da Igreja, desde o tempo dos primeiros cristãos até os nossos dias. “Por uma tradição apostólica que tem a sua origem no próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra cada oito dias o mistério pascal, no dia que é muito justamente chamado o dia do Senhor ou domingo” (8).
Além do domingo, a Igreja estabeleceu as festas que comemoram os principais acontecimentos da nossa salvação: o Natal, a Páscoa, a Ascensão, o Pentecostes, outras festas do Senhor, bem como as festas de Nossa Senhora. E desde o princípio os cristãos celebraram também o dies natalis ou aniversário do martírio dos primeiros cristãos. As festas cristãs chegaram até a ordenar o próprio calendário civil. Com essa sucessão de festas, a Igreja “relembra os mistérios da Redenção, franqueia aos fiéis as riquezas do poder santificador e dos méritos do seu Senhor, de tal sorte que, de alguma forma, os torna presentes em todos os tempos, para que os fiéis entrem em contacto com eles e sejam repletos da graça da salvação” (9).
O centro e a origem da alegria da festa cristã encontra-se na presença do Senhor na sua Igreja, que é o penhor e a antecipação de uma união definitiva na festa que não terá fim (10). Daí a alegria que inunda a celebração dominical, como se percebe na oração sobre as oferendas da Missa de hoje: “Recebei, Senhor, as oferendas da vossa Igreja exultante de júbilo; e já que com a ressurreição do vosso Filho nos destes motivo para tanta alegria, concedei-nos que possamos participar desse gozo eterno”. Por isso, as nossas festas não são uma mera recordação de fatos passados, como pode ser a data de um acontecimento histórico, mas um sinal que nos manifesta Cristo e o torna presente entre nós.
A Santa Missa torna Jesus presente na sua Igreja e é o Sacrifício de valor infinito que se oferece a Deus Pai no Espírito Santo. Todos os outros valores humanos, culturais e sociais da festa devem ocupar um lugar secundário, cada um na sua ordem, de modo a não obscurecerem ou substituírem em momento algum o que deve ser fundamental. A par da Santa Missa, têm também um lugar importante as manifestações de piedade litúrgica e popular, como o culto eucarístico, as procissões, o canto, etc.
Temos de procurar, mediante o exemplo e o apostolado, que o domingo seja “o dia do Senhor, o dia da adoração e da glorificação de Deus, do santo Sacrifício, da oração, do descanso, do recolhimento, do alegre convívio na intimidade da família” (11).
III. Aclamai a Deus, toda a terra, cantai a glória do seu nome, rendei-lhe glorioso louvor, lemos na antífona de entrada (12).
O preceito de santificar as festas corresponde também à necessidade de prestar culto público a Deus, e não somente de modo privado. Alguns pretendem relegar o trato com Deus ao âmbito da consciência, como se não houvesse necessidade de manifestações externas. Mas o homem tem o direito e o dever de prestar culto externo e público a Deus, e seria uma gravíssima injustiça que os cristãos se vissem obrigados a ocultar-se para poderem praticar a sua fé e prestar culto a Deus, que é o seu primeiro direito e o seu primeiro dever.
O domingo e as festas determinadas pela Igreja são, antes de mais nada, dias para Deus e dias especialmente propícios para procurá-lo e encontrá-lo. “Quaerite Dominum. Nunca podemos deixar de procurá-lo. Mas há períodos que exigem que o façamos com mais intensidade, porque neles o Senhor está especialmente perto, e por conseguinte é mais fácil achá-lo e encontrar-se com Ele. Esta proximidade constitui a resposta do Senhor à invocação da Igreja, que se expressa continuamente através da liturgia. Mais ainda, é precisamente a liturgia que atualiza a proximidade do Senhor” (13).
As festas têm uma grande importância para ajudar os cristãos a receber melhor a ação da graça. Nesses dias, exige-se também que o fiel suspenda o seu trabalho para poder dedicar-se com maior liberdade ao Senhor. Mas, assim como não há festa sem celebração, pois não basta deixar de trabalhar para já se ter uma festa, assim também não há festa cristã se os fiéis não se reúnem para dar graças ao Senhor, louvá-lo, recordar as suas obras, etc. Por isso, seria sinal de pouco sentido cristão programar os domingos, as festas, os fins de semana... de maneira que se tornasse impossível ou muito difícil esse trato com Deus. Por esse caminho, alguns cristãos tíbios acabam por pensar que não têm tempo para assistir à Santa Missa, ou fazem-no de maneira precipitada, como quem se livra de uma obrigação tediosa.
O descanso não é apenas uma ocasião de repor as forças; é também sinal e antecipação do repouso definitivo na festa do Céu. Esta é a razão pela qual a Igreja quer que a celebração das suas festas inclua a suspensão do trabalho, algo a que, por outro lado, os fiéis cristãos têm direito como cidadãos iguais aos outros.
O descanso festivo não deve ser interpretado nem vivido como um simples não fazer nada – uma perda de tempo –, mas como um ocupar-se positivamente e um enriquecer-se pessoalmente em outras tarefas. Há muitas maneiras de descansar, e não convém ficar na mais fácil, que muitas vezes não é a que mais descansa. Se soubermos limitar, por exemplo, o uso da televisão, não repetiremos tanto a falsa desculpa de que “não temos tempo”. Pelo contrário, veremos que nesses dias podemos conviver mais com a família, cuidar melhor da educação dos filhos, cultivar o relacionamento social e as amizades, fazer uma visita a pessoas necessitadas ou que estão sozinhas ou doentes, etc. É talvez a ocasião que andávamos procurando de poder conversar com mais calma com um amigo; ou o momento em que o pai ou a mãe podem falar a sós com o filho que mais necessita disso e escutá-lo. Em geral, é necessário “ter o dia todo preenchido com um horário elástico onde não faltem como tempo principal – além das normas diárias de piedade – o devido descanso, a reunião familiar, a leitura, os momentos dedicados a um gosto artístico, à literatura ou a outra distração nobre, enchendo as horas com uma atividade útil, fazendo as coisas o melhor possível, vivendo os pormenores de ordem, de pontualidade, de bom-humor” (14).
Francisco Fernández-Carvajal

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Nós somos testemunhas
Fulton Sheen, na sua admirável "Vida de Cristo", tem um capítulo que se intitula "A chaga mais séria da terra". É onde ele fala do sepulcro de Jesus encontrado vazio na manhã do terceiro dia. Quando o anjo do evangelho de Mateus diz às mulheres: "Ele não está aqui. Ressuscitou, como havia dito" (Mt. 28,6). O mesmo que dizem os dois anjos resplandecentes da narração de Lucas: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou" (Lc. 24,5-6) O simples sepulcro vazio não seria ainda uma prova suficiente da ressurreição. A rigor, seria possível pensar em outra explicação. Aliás, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo subornaram os guardas para que espalhassem que o corpo tinha sido roubado pelos discípulos. E a notícia se divulgou por muito tempo (cf. Mt. 28,11-15). Foi a palavra dos mensageiros celestes que garantiu a explicação verdadeira: a ressurreição.
Mas a verdadeira prova, que funda nossa certeza de fé são as aparições, atestadas por Pedro, por Madalena, pelos discípulos. É tão Límpida, por exemplo, esta palavra de Pedro, no seu segundo discurso ao povo de Jerusalém: "O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus de vossos pais, glorificou o seu Filho Jesus, que vós entregastes e renegastes diante de Pilatos, quando este achava que o devia libertar. Vós negastes o Santo e o Justo. Vós pedistes graça para um assassino, enquanto fazíeis morrer o Autor da vida. Mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas" (At. 3,13-15). Pedro e os outros viram o Senhor ressuscitado. Não era uma visão. Não era um fantasma. Era o próprio Jesus que eles tinham conhecido em vida. Os relatos evangélicos insistem em elementos histórico - apologéticos, sobretudo no evangelho de Lucas, que escreveu para os gentios, que não admitiam ressurreição: olhar as chagas, tocar, palpar, e até tomar parte na refeição deles. Isto, que pode causar estranheza, tem esta bela explicação de Fulton Sheen: "Este corpo glorioso não comia à semelhança da planta que absorve a umidade da terra por necessidade, mas como o sol que a embebe com a sua intensidade" (o.c., cap. 53). Era um corpo glorioso. Ao mesmo tempo que se deixava ver e tocar, entrava sem que fosse preciso abrir-Ihe as portas e vencia distâncias instantaneamente. E ficava a certeza da Ressurreição. Ressuscitou, como tinha dito.
Na sua apresentação como ressuscitado, Jesus faz questão de dizer que tudo se cumpriu como estava nas Escrituras: "Que o Cristo haveria de sofrer, ressuscitaria dos mortos ao terceiro dia, e que a penitência seria pregada em seu nome, para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós dareis testemunho disso" (Lc. 24,45-48). Duas verdades estão aí bem explícitas. A primeira é que o Messias predito nas Escrituras, não é um messias triunfante, na glória de um poder político, como era muitas vezes entendido. Cristo era o descendente de Davi e herdeiro de seu trono, mas seu poder era todo espiritual. "Meu reino não é deste mundo", como proclamou diante de Pilatos (Jo 18,36). E é esse Reino que a Igreja deve difundir no mundo. Um reino de valores espirituais, embora com as mais benéficas influências nos valores temporais dos povos. Não devemos pensar numa Igreja triunfalista. Seu caminho será sempre marcado pelo sofrimento. Mas essa é sua verdadeira glória. E, ao longo dos séculos, o sangue de seus mártires - como disse Tertuliano - tem sido e será sempre semente de cristãos.
A segunda verdade que está explícita na palavra de Jesus ressuscitado é que a Ressurreição traz para o mundo uma mensagem de penitência. "Penitência" -"metanoia" -no seu sentido mais fundamental que é "mudança de vida". Aceitá-Io como Salvador e seguir sua doutrina. O mesmo São Pedro o vai dizer ainda mais claramente aos homens do Sinédrio :"Não há sob o céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos" (At. 4,12). Aliás, o nome de Jesus significa "Deus salva".
Onde, portanto, se estiver abraçando os ensinamentos de Jesus aí estará acontecendo a ressurreição. E a salvação. E estará , surgindo um mundo novo. "Um novo céu e uma nova terra", preludiando o definitivo céu novo e a definitiva nova terra da eternidade.
padre Lucas de Paula Almeida, CM

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"Testemunhas"
Nesse tempo de Páscoa, a liturgia nos apresenta as primeiras aparições de Cristo ressuscitado aos apóstolos, que tinham a missão de continuar a sua obra salvadora iniciada por Cristo.
Eles continuam tendo muitas dúvidas. Cristo vai ao encontro deles, para fortalecer a fé deles profundamente abalada.
No Evangelho o Ressuscitado aparece à comunidade e a convoca para ser sua testemunha (Lc. 24,35-48)
Cristo está vivo e continua a ser o centro da comunidade. Jesus toma a iniciativa: aparece aos apóstolos, desejando-lhes a "Paz": "a Paz esteja convosco".
A reação dos apóstolos: ficam apavorados pensando ser "um fantasma". Jesus apresenta provas de sua identidade:
- físicas: mostra os pés e as mãos… come com eles…;
- bíblicas: abre as inteligências para compreenderem as Escrituras: Jesus devia padecer e ressuscitar…
Aponta a missão: "Vós sereis minhas testemunhas"
Ser testemunha é conhecer, viver e anunciar a mensagem de amor, que Cristo trouxe. Cristo continuará vivo na Igreja, através deles.
Assim na 1ª leitura, vemos são Pedro, cumprindo essa missão:
- anunciando com coragem o Cristo Ressuscitado diante do povo: "O Cristo, que vós matastes, Deus o ressuscitou dos mortos. E disso nós somos testemunhas..."
- agindo: provando com sinais... que Jesus ainda estava vivo. Cura o coxo na porta do templo em nome de Jesus (At. 3,13-15.17-19)
Pedro testemunha Jesus com palavras e gestos e faz um apelo ao arrependimento e à conversão, para o perdão dos pecados.
E na 2ª leitura, João nos lembra que devemos testemunhar: vivendo o que se conhece e se anuncia: "Quem diz conhecer o Senhor e não vive a sua mensagem é mentiroso e a verdade não está nele...” (1Jo 2,1-5)
É um forte apelo à coerência entre fé e vida... É com a vida que demonstramos "conhecer" Deus. Se pecarmos, Jesus é o nosso intercessor junto do Pai...
No Evangelho, a Ressurreição de Jesus aparece como um fato real, mas assim mesmo os apóstolos não conseguiam acreditar facilmente. O caminho foi longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e incertezas. O caminho espiritual para chegar à fé continua o mesmo. Como os apóstolos, também nós podemos "ver" Cristo ressuscitado, no meio de muitas dúvidas, incertezas e medos.
Quando nos reunimos em comunidade, ele está sempre entre nós. Aos poucos os nossos olhos vão se abrindo e nós vamos descobrindo que, quem morre com ele, com ele entra na plenitude da vida de Deus.
Elementos importantes, que o texto nos apresenta:
1. Os discípulos descobriram a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, no meio da sua comunidade.
Cristo continua a ser o centro, onde a comunidade se constrói e se articula.
2. Esse Jesus ressuscitado é o filho de Deus, que reentrou no mundo de Deus, mas não apareceu da nossa vida, nem da vida da comunidade.
3. As dúvidas dos discípulos mostram a dificuldade que eles sentiram em percorrer o caminho da fé, até o encontro pessoal com o Senhor ressuscitado. Foi uma longa caminhada de amadurecimento da própria fé.
4. O gesto de tocar e comer nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável.
5. O Ressuscitado revela o sentido profundo das Escrituras.
A comunidade deve reunir-se com Jesus ressuscitado para escutar a Palavra, que sempre ilumina a nossa vida e nos ajuda a descobrir os caminhos de Deus na história...
6. Os discípulos recebem a missão de serem testemunhas de tudo isso...
A raiz da missão é o encontro com o Ressuscitado e a compreensão das Escrituras. Viver e anunciar essa novidade é a missão da comunidade eclesial, que vive do amor e da presença do Senhor em seu meio.
Cristo continua precisando ainda hoje de testemunhas…
E nós somos chamados a ser testemunhas da presença do Ressuscitado, através de nossas Palavras e ações.
Até que ponto, somos testemunhas de Cristo: conhecendo… vivendo… e anunciando… essa mensagem?
Não adianta proclamar que Jesus ressuscitou e não viver o projeto do Reino que ele anunciou e viveu.
Cristo ainda hoje continua nos lembrando: "Vocês também devem ser minhas testemunhas..."
O que pretendemos testemunhar nesta semana?
padre Antônio Geraldo Dalla Costa

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Eis-nos no terceiro domingo da Páscoa. No primeiro domingo da Páscoa, fomos conduzidos a tomar uma opção de fé diante do sepulcro vazio. No segundo domingo, a Palavra de Deus revelou-nos que Jesus ressuscitado se manifesta na comunidade. Este domingo, a Palavra coloca-nos uma nova e essencial questão: como posso experimentar Jesus Cristo ressuscitado? Terá sido a ressurreição de Jesus uma fantasia, um fracasso, uma ilusão?
O Evangelho de Lucas ajuda-nos a esclarecer essa questão. Depois de dois anjos anunciarem a ressurreição de Jesus (Lc. 24,4-5), depois de Jesus ter aparecido no caminho dos dois discípulos que iam a caminho de Emaús, e estes terem invertido caminho e regressado rapidamente a Jerusalém ao encontro dos Apóstolos, o Evangelho apresenta-nos uma nova aparição de Jesus aos onze apóstolos e discípulos (Lc. 24).
“A paz esteja convosco.” Os discípulos ao escutarem estas palavras de Jesus, enchem-se de medo, pois julgavam ver um espírito. A primeira experiência que os discípulos têm, diante de Jesus ressuscitado, é de medo, de perturbação, de dúvida no coração. Jesus não nos quer com medo. Tudo nos oferece para alcançarmos a confiança e a clarividência. Face à reação dos discípulos, que já tinham recebido a aparição do Senhor ressuscitado, Ele não os julgou, não desistiu deles, não os abandonou, chama-os a Si!
“Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho.” Jesus não se revela como um puro espírito, uma idéia, uma força, mas como um Ser bem real. Os discípulos, ao escutarem essas palavras de Jesus, continuando sem acreditar na Sua ressurreição, encheram-se duma enorme alegria e assombro, ficando fora de si! Os discípulos passaram do extremo do medo ao extremo da euforia, do desvaneio, do irreal. Jesus não nos quer iludir ou entreter com fantasias, nem sequer alhear-nos da realidade do mundo. Face à reação dos discípulos, Jesus não os julgou, não desistiu deles, não os abandonou, colocou-se à mesa com eles.
Jesus disse-lhes: “Tendes alguma coisa para comer?” Enquanto comia com eles, ensinava-lhes que n’Ele se cumpriam as Escrituras. Os discípulos, abrindo nesse momento o entendimento, compreenderam que Jesus deveria ressuscitar dos mortos. Os discípulos saindo do medo e da ilusão chegaram pelo entendimento à fé. Então Jesus, aquele que ao longo do relato sempre toma a iniciativa e o único que fala, é reconhecido como ressuscitado pelos seus discípulos.
A fé unida à razão! A fé é a experiência mais sublime da razão, e esta o meio para a alcançar. A fé e a razão são como duas asas daquela pomba que voa vinda de Deus, e nos leva a Deus. O que é necessário para viver da razão de Deus? É necessário arrependimento, conversão, metanoia, que não é outra coisa senão mudar a mente, abrir o entendimento, pensar como Deus. Quantas vezes insistimos nas nossas idéias e auto-defesas? Quantas vezes insistimos em manter a nossa ignorância ferindo o próximo e esquecendo-nos de Deus? A ignorância dos homens matou Jesus.
Ainda que a experiência da ressurreição de Jesus apareça unida ao entendimento, o evangelista não a apresenta como uma tarefa fácil ou imediata, nem sequer como um dado científico. Ao mesmo tempo, o autor é explícito que a experiência da ressurreição não é uma fantasia ou ilusão, mas algo bem real. O encontro com Jesus ressuscitado requer de nós assumir a nossa fragilidade, a nossa autenticidade, a nossa confiança em Deus. O encontro com Jesus ressuscitado une-se necessariamente à Sua paixão e aos seus mandamentos. Aquele que diz conhecer Deus e não observa os seus mandamentos é mentiroso. Aquele que observa a Sua palavra vive na perfeição o amor de Deus. Conhecer Deus é estar em comunhão com Ele, Tu a Tu, coração a coração, mente a mente. Conhecer Deus é deixar que Ele brilhe sobre nós a luz da Sua face.
Os discípulos reconhecem Jesus ressuscitado na escuta da Sua Palavra e à mesa com Ele. A Eucaristia é o lugar por excelência onde em comunidade reconhecemos Jesus ressuscitado. Jesus, o intérprete e o cumprimento das Escrituras, coloca-se no centro da comunidade, senta-se à sua mesa, alimenta-a, caminha a seu lado. Os discípulos, fortalecidos pela sua Palavra e alimento, reconhecem-nO e d’Ele recebem a missão de testemunhar a todas as nações a sua morte e ressurreição.
Jesus, enquanto se prepara para subir para o Pai, envia os discípulos aos homens. Assim fez Pedro, ao encontrar um homem coxo desde nascença no templo. Pedro, juntamente com João, olhando-o fixamente, disse-lhe: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou: Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e caminha!” E, segurando-o pela mão direita, ergueu-o. Pedro, passando do medo e da euforia ao entendimento de Deus, é enviado pelo poder de Deus a conduzir os homens a Deus.
Essa é a missão da Igreja: dizer à humanidade “caminha!”. Caminha para a casa do Pai, aquela que te formou. Caminha para a casa do Pai, aquela que te acolhe. Caminha para a casa do Pai, aquela que te espera. Por Jesus a humanidade recebe toda a fé, todo o amor e toda a esperança! A Igreja, enviada por Deus, realiza a sua missão quando diz ao homem, ao pai ou à mãe, ao irmão ou à irmã, à comunidade, ao mundo: caminha!
frei Bernardo

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A Paz esteja convosco
A centralidade do Mistério Pascal de Jesus Cristo exige de cada cristão, de forma responsável e dinâmica, um amadurecimento pessoal e comunitário deste imprescindível acontecimento de salvação.
É na morte e ressurreição de Cristo que Deus nos fala de uma forma bela, amorosa, e responde às questões mais pertinentes do Homem e de Deus.
Na primeira leitura, São Pedro, revela esse acontecimento central. Ele possui uma história de fragilidade e pecado, mas possui também uma experiência forte de acolhimento, de amor. O encontro com o Ressuscitado leva-o a proclamar e a testemunhar as maravilhas da misericórdia de Cristo ressuscitado. Recordemos que depois de ressuscitado, Cristo, tem um dos mais belos diálogos de amor, de vocação e chamamento a Pedro. O diálogo termina com: «segue-me».
Pedro oferece-nos o seu testemunho para que também nós, na nossa fragilidade, possamos ser tocados pela presença de Cristo ressuscitado e sentir a necessidade de amar. Amar somente e para sempre. E nesse amor descobrir a vocação, o chamamento e o compromisso do anúncio.
A experiência de João é também uma experiência de paz que nasce d’Aquele que é superior ao pecado e que intercede por nós. João, na sua fragilidade, também tocou esse amor e por isso nos pede que o guardemos como fonte permanente de conversão e de santidade.
A experiência do perdão do pecado leva-nos a tocarmos o mais profundo do amor de Deus, que tendo descido à nossa miséria nos introduz na santidade e beleza da Sua vida.
Ainda hoje, no sacramento da reconciliação eu toco o amor de Deus. Este sacramento, sinal da presença do ressuscitado, que me faz surgir homem novo, que reconstrói a minha vida é também dinamismo de confirmação da minha vocação e envio como testemunha da Sua pessoa e missão. E sobretudo o Sacramento da Eucaristia, a exemplo dos discípulos de Emaús: O reconhecem, se enchem de alegria e entusiasmo e O anunciam.
Sentimos muitas vezes necessidade de mostrar os nossos os nossos títulos, o nosso recheado curriculum, Mas temos receio de nos mostrar a nós próprios. Temos medo de mostrar a nossa fragilidade. Às vezes a santidade não é realidade em nossa vida porque não lemos os sinais da nossa fragilidade no encontro com o Amor, Jesus Cristo.
Cristo mostrou as mãos e os pés. Eles eram o sinal do seu amor, da sua doação e entrega, o sinal da cruz. Mostrou-se naqueles sinais transformados pelo amor mas que foram infligidos com força de ódio, de violência, de tentativa de destruição do próprio Deus feito Homem. Esses sinais são sinais de liberdade: «ninguém me tira a vida: eu é que a dou».
Mas este gesto de Lucas é a proclamação da fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: em tudo semelhante a nós. Não é fruto da nossa imaginação! É Ele mesmo, diferente, ressuscitado, mas Deus e Homem, uma só pessoa e duas naturezas. É Jesus Cristo em verdadeira comunhão com os seus discípulos, com a comunidade humana.
Todos somos convidados a vê-Lo, a toca-Lo com o profundo olhar da fé que na leva a amar de forma intensa e a comprometer a vida com o seu projeto. Tocaremos e veremos o Senhor Ressuscitado em muitos sinais da sua presença, o mais forte e máximo é a Eucaristia, e depois o irmão, e sobretudo o no mais frágil, os pequeninos, os doentes…
Na realidade é preciso vê-Lo e toca-Lo.
A Igreja vive do seu Senhor Ressuscitado. A experiência com Cristo Ressuscitado compromete o cristão, os seus discípulos: no anuncio, no testemunho, no envio, no compromisso com o seu projeto.
Testemunhas pela vida, pela palavra, pelas opções, pelo compromisso com as pessoas, com a Igreja, com a comunidade.
O dinamismo do mistério pascal de Cristo é uma constante até ao seu ponto final. Também em minha vida, na relação com Cristo vivo e ressuscitado, surge em mim, apesar da fragilidade, a novidade e a vitória do mistério pascal do Senhor. E também no mundo, embora este possa acentuar sinais contrários. Nada nem pode deter a vitória do amor e da vida: Cristo ressuscitado.
A liturgia da celebração deste domingo é um convite à disponibilidade da conversão que dimana do encontro com Cristo ressuscitado. Convite a um compromisso que nos torna suas testemunhas.
Para o cristão, o discípulo que encontrou Jesus Cristo, já não há lugar ao temor, ao medo, à paralisia egoísta, ao calculismo, à corrida aos primeiros lugares, à deturpação da verdadeira imagem de Deus.
É também um convite a amarmos profundamente a Igreja. É nela, comunidade dos crentes, a fazermos a experiência de Cristo ressuscitado e empenharmo-nos com sabedoria e esforço no Seu anúncio.
Maria Santíssima caminha com Igreja de Jesus, comunidade dos seus discípulos, e nos continua a dizer: «Fazei tudo o que Ele vos disser».
dom Antonio Carlos Rossi Keller