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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

22º DOMINGO TEMPO COMUM-C

22º DOMINGO TEMPO COMUM


28 de Agosto de 2016 – Ano C

1ª Leitura - Eclo 3,19-21.30-31 (gr. 17 -18.20.28-29)

Salmo 67

2ª Leitura - Hb 12,18-19.22-24a


Evangelho - Lc 14,1.7-14




Jesus nos ensina a modéstia, a humildade, a adotar uma postura de acolhimento e não de autossuficiência diante dos demais.    Continuar a ler



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“QUEM SE ELEVA SERÁ HUMILHADO, QUEM SE HUMILHA, SERÁ ELEVADO.” – Olivia Coutinho

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 28 de Agosto de 2016

Evangelho de Lc14,1.7-14

 Numa sociedade onde impera o individualismo, a competitividade, o povo vai se distanciando cada vez mais do projeto de Deus, deixando de lado os valores do evangelho, da ética e da moral.
Enquanto caminhou por este chão, Jesus nos ensinou com a própria vida, que a grandeza de uma pessoa,  não está em títulos, em ser o primeiro e sim, em estar  a serviço do Reino, no lugar onde Deus o plantou,  para produzir frutos!
Como Mestre de toda a história, Jesus serviu-se de meios humanos bem simples, para nos ensinar, que é na gratuidade e  na humildade, que  seremos classificados por Deus, como  primeiros no Reino dos céus.
O evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, que mesmo sendo Deus, não quis ocupar  o primeiro lugar aqui na terra, deixando-o para os pequenos!
 “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-7).
O texto começa dizendo, que Jesus, num dia de sábado, foi comer na casa de um dos chefes  dos fariseus. Percebendo  que os convidados escolhiam   os primeiros lugares, Jesus conta uma parábola, no sentido de chamar a atenção das pessoas, sobre a importância da humildade, não, uma humildade de fachada, mas uma humildade de sentirmos verdadeiramente  pequenos, necessitados de Deus.
Quando nos colocamos diante  Deus, vazios do nosso “eu,” Deus toma o nosso “nada” e nos eleva, preenchendo o nosso coração da sua divindade! Divinizados, tornamos mais humanos, mais humanos, tornamos mais  próximos do outro e simultaneamente mais próximos de Deus!
 Com esta parábola, Jesus tenta mudar a mentalidade de muitas pessoas, que ainda hoje, gostam de ser incensados pelo o povo, de serem notadas admiradas, bajuladas...
 São muitos, os que  escondem  atrás do manto da bondade,  se mostrando  pessoas honradas quando na verdade não o são. Estes,  querem sempre ocupar os primeiros lugares, lugares denominados pelo mundo como lugar de honra!
Para o mundo, ser  humilde, é ser bobo, para Deus, ser humilde, é ser grande!  
 “O primeiro no reino dos Céus é aquele que serve.”  Estas palavras de Jesus, nos  leva a um questionamento: O que é mais importante: sermos aplaudidos pelo o mundo, ou abraçados por Deus na eternidade?
No conceito dos homens, ser grande, é possuir bens, é ter poder, fama, enquanto que para  Deus, ser  grande, é  ser o último, é ser àquele  que serve!
Com o seu testemunho, Jesus  nos ensina, que o caminho que nos leva a salvação,  perpassa pelo o caminho da humildade, caminho que Ele mesmo  percorreu,  ora se misturando com os pobres  e marginalizados, ora sentando à mesa da refeição com os seus adversários.
A nossa vida cristã, deve ser  marcada sim, mas não por títulos,  e sim, pela vida de comunhão e acima de tudo, de humildade!
 A humildade é  a característica marcante  de um  verdadeiro seguidor de Jesus, é a virtude que mais nos aproxima da perfeição, que nos torna parecidos com Jesus!  
 Uma pessoa não é humilde de nascença, ela vai tornando humilde à medida que em que ela vai reconhecendo a suas imperfeições, a sua pequenez diante do Senhor!
No final do evangelho, Jesus nos recomenda: “... quando deres um banquete, convide os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois eles não te podem  retribuir!”
Façamos o que Jesus nos recomenda,  mas não fiquemos somente no Banquete lá  da nossa casa,  façamos a diferença, nos   misturando com os excluídos, dentro do espírito da  igualdade no  banquete  da partilha.  

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Deus se revela aos pequenos
Num sábado, dia festivo para os judeus, Jesus foi convidado para almoçar na casa de um ilustre fariseu.
Jesus, cuja fama o precedia, era o convidado de honra e, sendo assim, esperavam que ele se manifestasse de alguma maneira.
Nos banquetes, davam-se aos convidados os lugares à mesa, segundo a dignidade e o prestígio. Notando Jesus que os convidados disputavam os primeiros lugares (v. 7), procurou através de uma parábola expressar uma verdade sobre o Reino de Deus.
No banquete da vida, ensinou Jesus, o homem deve ocupar seu devido lugar. Deve evitar que a ambição o leve a buscar os primeiros lugares, numa espécie de ansiedade de sucesso, querendo chegar lá a qualquer preço, mesmo sem ter as devidas qualificações.
Mas, para entrar no Reino de Deus, o caminho da salvação passa pelo “ser pequeno”, reconhecendo-se pobre diante da grandeza infinita de Deus, isto é, pela vivência da simplicidade, humildade e serviço.
Simplicidade: aquele que busca a Deus deve ter uma conduta transparente, sincera, sem subterfúgios em seu modo de agir e falar, evitando toda duplicidade.
Humildade: a ansiedade em ocupar os primeiros lugares parece fazer parte da própria natureza humana, seja na família, na sociedade, no mundo da política, no trabalho, nos esportes, enfim, em todos os níveis da atuação humana. A humildade leva o homem a conhecer-se a si mesmo, dependente em tudo de Deus. Liberta da angústia de querer ser sempre o primeiro, levando a abrir o coração para Deus e para o irmão. A atitude à mesa, à qual se refere Jesus (v. 8-11), não envolve apenas uma simples cortesia, regras de boas maneiras, mas abrange o mistério do Reino de Deus, do banquete divino.
Deus é o centro de tudo e nada lhe deve ser subtraído. “Ser pequeno” é uma dimensão espiritual de grandeza que o mundo atual pouco valoriza (cf. Lc. 6,20). É a primeira condição para alguém entrar no Reino dos Céus.
Serviço: na Última Ceia Jesus deu uma profunda lição de humildade e serviço: “Qual é o maior? O que está à mesa ou aquele que serve? É o que está à mesa? Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (cf. Lc. 22). “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mc. 10,45).
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Em que consiste a verdadeira humildade? Sigo o exemplo de Jesus no serviço aos irmãos? Deixo-me levar por uma falsa humildade quanto aos dons recebidos? Procuro sempre os primeiros lugares? Sirvo ao próximo com amor abnegado dando sem nada esperar em troca? Meu modo de agir é autêntico, sincero e transparente? Meu coração está aberto para o irmão necessitado?
frei Floriano Surian, ofm

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Jesus é um destes hóspedes que não ficam reféns de seus anfitriões. Já o mostrou a Marta; mostra-o também hoje (evangelho).
O anfitrião é um chefe dos fariseus. A casa está cheia de seus correligionários, não muito bem-intencionados (14,2). Para começar, Jesus aborda o litigioso assunto do repouso sabático, defendendo uma opinião bastante liberal (14,3-6). Depois, numa parábola, critica a atitude dos fariseus, que gostam de ser publicamente honrados por sua virtude, também nos banquetes, onde gostam de ocupar os primeiros lugares.
Alguém que ocupa logo o primeiro lugar num banquete não pode mais ser convidado pelo anfitrião para subir a um lugar melhor; só pode ser rebaixado, se aparecer alguma pessoa mais importante. É melhor ocupar o último lugar, para poder receber o convite de subir mais. Alguém pode achar que isso é esperteza. Mas o que Jesus quer dizer é que, no Reino de Deus, a gente deve estar numa posição de receptividade, não de auto-suficiência.
A segunda parábola relaciona-se também com o banquete: não convidar os que nos podem convidar de volta, mas os que não têm condições para isso. Só assim nos mostraremos verdadeiros filhos do Pai, que nos deu tudo de graça. Claro que esta gratuidade pressupõe a primeira atitude: o saber receber.
Portanto, a mensagem de hoje é: saber receber de graça (humildade) e saber dar a graça (gratuidade). A 1ª leitura sublinha a necessidade da humildade, oposta à auto-suficiência. A 2ª leitura não demonstra muito parentesco temático com a 1ª e o evangelho. Contudo, complementa o tema da gratuidade, mostrando como Deus se tornou, gratuitamente, acessível para nós, em Jesus Cristo. O tom da leitura é de gratidão por este mistério.
Graça, gratidão e gratuidade são os três momentos do mistério da benevolência que nos une com Deus. Recebemos sua “graça”, sua amizade e bem-querer. Por isso nos mostramos agradecidos, conservando seu dom em íntima alegria, que abre nosso coração. E deste coração aberto mana uma generosa gratuidade, consciente de que há mais felicidade em dar do que em receber (cf. At. 20,35). O que não quer dizer que a gente não pode gostar daquilo que recebe. Significa que só atingirá a verdadeira felicidade quem souber dar gratuitamente. Quem só procura receber, será um eterno frustrado.
Com vistas à comunicação na magnanimidade, a humildade não é a prudência do tímido ou do incapaz, nem o medo de se expor, que não passa de egoísmo. A verdadeira humildade é a consciência de ser pequeno e de ter que receber, para poder comunicar. Humildade não é tacanhice, mas o primeiro passo da magnanimidade. Quem é humildade não tem medo de ser generoso, pois é capaz de receber. Gostará de repartir, porque sabe receber; e de receber, para poder repartir. Repartirá, porém, não para chamar a atenção para si, como o orgulhoso que distribui ricos presentes, e sim, porque, agradecido, gosta de deixar seus irmãos participar dos dons que recebeu.
Podemos também focalizar o tema de hoje com uma lente sociológica. Torna-se relevante, então, a exortação ao convite gratuito. Jesus manda convidar pessoas bem diferentes daquelas que geralmente se convidam: em vez de amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos, convidem-se pobres, estropiados, coxos e cegos – ou seja, em vez do círculo social da gente, os marginalizados. E na parábola seguinte, do grande banquete, o “senhor” convida, finalmente, exatamente as quatro categorias mencionadas (Lc. 14,21).
O amor gratuito é limitação do amor de Deus. A autenticidade do amor gratuito se mede pela pouca importância dos beneficiados: crianças, inimigos, marginalizados, enfermos (cf. tb. Mt. 25,31-46). Jesus não proíbe gostar de parentes e vizinhos. Mas realmente imitar o amor gratuito, a hésed de Deus, a gente só o faz na “opção preferencial” pelos que são menos importantes.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Jesus é convidado pela terceira vez à casa de um fariseu. Eles não o convidavam pelo prazer de sua companhia ou por acreditar em suas palavras, o fazem para armar ciladas tentando com isso pegá-lo de surpresa, mas Jesus comparece todas as vezes que é convidado e aproveita para ensinar-lhes o que é realmente importante diante do Pai.
Ao mesmo tempo em que os fariseus observam Jesus para questioná-lo sobre alguma atitude que eles acham impróprias, Jesus também os observa e percebe duas situações importantes, na primeira a preocupação de cada um em sentar-se no melhor lugar à mesa, e dá uma importante lição de humildade, pois quem não se acha o melhor pode ser exaltado, mas quem já se acha melhor que todos, quando aparecer alguém que seja melhor que ele, este será rebaixado.
Na segunda situação Jesus se dirige diretamente ao fariseu que o convidou, e orienta-o a convidar para sua casa os mais humildes, aqueles que não têm como retribuir o convite, pois nesse caso, sim, o convite é de doação e não de barganha.
Esse texto remete a Lc. 6,32-53 onde Jesus convida o povo a um relacionamento de doação, e não ao amor baseado na troca, pois qual o grande mérito de ser amado por quem ama? Até os criminosos mais cruéis têm esse vínculo de afeto. O mérito está em amar com doação a quem não retribui, e esta é a mesma comparação que Jesus faz neste evangelho.
Pequeninos do Senhor

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A primazia dos excluídos
Os excluídos e deserdados estiveram sempre no centro das atenções de Jesus. Este aproveitava todas as oportunidades para dispor os discípulos a acolhê-los e mostrar-se solícitos para com eles, diferentemente do comportamento típico da época.
A refeição na casa do fariseu ofereceu-lhe uma ocasião favorável para isto. Em geral, convida-se para uma ceia, em família, os próprios familiares, as pessoas às quais se quer bem, ou alguém de uma certa importância. Existe quem se preocupa em convidar os ricos, com o intuito de receber também um convite, em contrapartida.
Quiçá fosse esta a mentalidade do chefe dos fariseus, pois é a ele que Jesus dirige a advertência de romper com este esquema. Como? Chamando para o banquete os pobres, estropeados, coxos e cegos. Em suma, os desprezados deste mundo, dos quais seria impossível esperar algo como recompensa. Isto sim, seria a expressão da mais absoluta pureza de coração, característica de quem o tem centrado em Deus. Seria um ato de amor misericordioso, próprio de quem não se deixa escravizar pelo egoísmo.
Tal gesto de bondade não passa despercebido aos olhos do Pai. Por ocasião da ressurreição, quem agiu assim receberá a recompensa devida. Diz o provérbio bíblico: "Quem dá aos pobres, empresta a Deus". Pois bem, quem se mostra generoso com os excluídos deste mundo, pode estar seguro de estar atraindo sobre si a misericórdia divina.
padre Jaldemir Vitório


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“Jesus ocupou de tal forma o último lugar que ninguém lho pode tirar.” Este pensamento foi desenvolvido por um padre na igreja de santo Agostinho, em Paris, na França. padre Huvelin, assim ele se chamava, e era um homem santo e um grande pregador. Meditando o Evangelho, ele via como Jesus procurava sempre o último lugar. O Bem-aventurado Irmão Carlos de Jesus ouviu uma das pregações desse padre sobre o último lugar. Mais tarde, meditando sobre a encarnação do Filho de Deus, o Irmão Carlos escreveu: “A encarnação tem sua fonte na bondade de Deus, mas uma coisa aparece logo tão maravilhosa, reluzente e espantosa, a brilhar como um sinal ofuscante: é a humildade infinita que tal mistério contém. Deus, o ser, o infinito, o perfeito, o criador todo-poderoso, imenso, soberano mestre de tudo, fazendo-se homem, unindo-se a uma alma e a um corpo humanos, aparecendo na terra como um homem, e como o último dos homens.... Eu devo procurar sempre o último dos últimos lugares, para ser tão pequeno quanto meu mestre, para estar com ele, para caminhar atrás dele, passo a passo, como um servo fiel, fiel discípulo... para viver com meu Deus que assim viveu toda a sua vida e me dá o exemplo em seu nascimento...”.
Em outra oportunidade, Irmão Carlos escreveu: “Ele desceu com ele e foi a Nazaré. Toda sua vida ele só fez descer, descer ao se encarnar, descer fazendo-se criança, descer obedecendo, descer tornando-se pobre, abandonado, exilado, perseguido, supliciado, pondo-se sempre no último lugar”.
O último lugar é o lugar de Jesus. Ele mesmo nos ensina a não procurar o primeiro lugar, porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado. Em consequência, nossas atitudes terão a marca da gratuidade: nada fazer em vista de recompensa e reconhecimento. As ações gratuitas se fazem por puro amor. O exemplo da festa para a qual se convidam os pobres, os coxos e os aleijados, e não parentes, amigos, ou vizinhos ricos, é um exemplo, não um preceito, mas um exemplo claro e forte de atitude gratuita.
O livro do Eclesiástico exalta a sabedoria da humildade. O último lugar e a gratuidade são próprios de pessoas sábias e simples, capazes de se situarem em qualquer lugar e relacionarem-se com qualquer pessoa. O que sabem e o que têm estão a serviço dos demais, por isso sua atitude despretenciosa. Do último lugar elas veem o conjunto e podem tornar-se sempre mais prestativas. Como não pretendem nada, a não ser a glória de Deus e o bem do próximo, sua presença é humilde e agradável, gratuita e significativa. A gratuidade de sua amizade as tornam sinceras e verdadeiras. Do último lugar é possível ver o conjunto, o monte Sião e a cidade de Deus, a reunião festiva de milhões de anjos, a assembleia dos que têm seu nome escrito nos céus. Esta visão dá segurança e desfaz qualquer ilusão, reanimando a esperança. No último lugar cessam as ilusões e se ressalta a esperança. Cada coisa adquire o seu valor, e um novo valor, real, verdadeiro. O último lugar deixa de ser numérico ou geográfico. É um estado de vida, uma maneira de ser, e será o lugar mais importante porque você o ocupa.
cônego Celso Pedro da Silva



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Um convite à generosidade
Jesus continua sua subida para Jerusalém. À medida que faz seu caminho para o Pai, ele vai instruindo os seus discípulos. Um israelita de verdade mantém os ouvidos sempre abertos, pois ele sabe que toda sabedoria vem de Deus, e se deixa instruir por Deus: “O homem sensato medita as máximas em sua oração, ouvido atento, eis o que o sábio deseja” (Eclo 3,29).
O episódio do evangelho deste domingo se dá durante uma refeição, “na casa de um dos chefes fariseus” (v. 1). Duas outras vezes Jesus foi, segundo Lucas, a uma refeição na casa de fariseus (7,36; 11,37). Há entre Jesus e os fariseus uma mescla de simpatia e resistência. Os fariseus, efetivamente, desejam viver fielmente sua religião e creem servir a Deus através de suas práticas, sobretudo, uma determinada prática da Lei.
Mas a rigidez quase obsessiva os cega, liga-os de modo estreito à letra do texto; a Lei de Deus é para eles um conjunto de regras e preceitos. Esse modo de cumprir a Lei, que eles julgavam ser o correto, fazia com que se esquecessem do essencial da Lei: o amor a Deus e o amor fraterno. Tal modo de interpretar a Lei os impedia de olhar para os outros com misericórdia e pôr em prática a palavra do Senhor: “É misericórdia que eu quero, e não sacrifícios” (Os. 6,6).
A refeição na casa de um dos chefes dos fariseus acontece num sábado, dia dado pelo Senhor para celebrar o dom da vida, através da obra da criação, e a libertação do país da escravidão.
Mesmo que em nosso relato os interlocutores sejam os que estavam na casa dos fariseus, são os discípulos os instruídos; é a comunidade cristã que deve aprender como se comportar no novo tempo. A instrução é motivada pela observação de “como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (v. 7). A parábola utiliza a imagem do casamento, em que os lugares já eram predeterminados.
Há duas lições: o lugar é recebido de quem convidou para a festa (cf. v. 8-11). Certamente é outro modo de dizer: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mt. 6,1; ver também: Pr. 25,6-7). A segunda é um convite à generosidade: “... quando deres um banquete, convida os [que] não têm como te retribuir!” (cf. vv. 12-14). É preciso renunciar ao anseio de recompensa ou retribuição: “Se amais os que vos amam, que graça alcançais? Até mesmo os pecadores agem assim. Se fazeis o bem aos que no-lo fazem, que graça alcançais? Até mesmo os pecadores agem assim… E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que graça alcançais?... Fazei o bem e empresteis sem esperar coisa alguma em troca” (Lc. 6,32-35).
Carlos Alberto Contieri,sj


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Engana-se quem pensa que o Evangelho de hoje é um guia de etiqueta e de boas maneiras em banquetes e recepções. Nada disso! Jesus pensa, aqui, no banquete do Reino, que é preparado pelo banquete da vida; sim, porque somente participará do banquete do Reino quem souber portar-se no banquete da vida!
E neste banquete, no daqui, no desta vida, o Senhor hoje nos estimula a duas atitudes, dois comportamentos profundamente evangélicos. Primeiramente, a humildade: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento (Tu foste: a festa das Núpcias de Cristo com a Igreja, festa da Nova Aliança do Reino), não ocupes o primeiro lugar... Vai sentar-te no último... Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’”. O que é ser humilde? Humildade deriva de humus, pó, lama, barro... Ser humilde é reconhecer-se dependente diante de Deus, é saber-se pobre, limitado diante do Senhor. Quem é assim, sabe avaliar-se na justa medida porque sabe ver-se à luz do Senhor! O humilde tem diante de si a sua própria verdade: é pobre, é indigente, mas infinitamente agraciado e amado por Deus. Por isso, o humilde é livre e, porque livre, manso. Tinha razão Santa Teresa de Jesus quando afirmava que a humildade é a verdade. O humilde vê-se na sua verdade porque vê-se como Deus o vê, vê-se com os olhos de Deus! Então, o humilde é aberto para o Senhor, dele reconhece que é dependente, e a ele se confia. Podemos, assim, compreender as palavras do Eclesiástico: "Filho, realiza teus trabalhos com mansidão; na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. O Senhor é glorificado nos humildes”. É assim, porque somente o humilde, que reconhece que depende de Deus, pode ser aberto, e acolher como uma criança o Reino que Jesus veio trazer.
A segunda atitude que o Cristo hoje nos ensina é a gratuidade: “Quando deres uma festa (Tu dás: a festa da vida que o Senhor te concedeu e, mais ainda da vida nova em Cristo, recebida no Batismo e celebrada na Eucaristia), convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”. A gratuidade é a virtude que dar sem esperar nada em troca, dar e sentir-se feliz, sentir-se realizada no próprio dar. Se prestarmos bem atenção, a gratuidade é filha da humildade. Só quem sabe de coração que em tudo depende de Deus e de Deus tudo recebeu gratuitamente (humilde), também sente-se impelido a imitar a atitude de Deus: dar gratuitamente! “De graça recebestes, de graça dai!” (Mt 10,8) ou, como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Viver de amor é dar sem medida, sem nesta terra salário reclamar; sem fazer conta eu dou, pois convencida de que quem ama já não sabe calcular!” Pois bem, quem faz crescer em si a humildade e cultiva a gratuidade, experimenta a Deus e seu Reino, pois aprende a sentir o coração do próprio Deus, que tudo nos deu gratuitamente. Quem cultiva a humildade e a gratuidade, deixa o Reino ir entrando em si e entrará, um dia, no Reino de Deus!
Mas, se pensarmos bem, nada disso é fácil, pois vivemos no mundo da auto-suficiência e dos resultados. O homem já não mais se sente dependente de Deus; deseja ele mesmo fazer a vida do seu modo. Assim, se fecha para Deus e, para ele se fechando, já não mais reconhece no outro um irmão e, não experimentando a misericórdia gratuita de Deus, já não sabe mais dar gratuitamente: tudo tem que ter retorno, tudo tem que apresentar contrapartida, tudo tem que, cedo ou tarde, dá lucro, tudo é pensado na lógica do custo-benefício. Como é triste a vida, quando é vivida assim... Mas, não será o nosso caso? Pensemos bem, porque se assim o for, jamais experimentaremos Deus de verdade, jamais conhecê-lo-emos de verdade. Nunca é demais recordar a advertência da Escritura: “Quem não ama não conhece a Deus!” (1Jo 4,8)
Aproximemo-nos de “Jesus, mediador da nova aliança”, e supliquemos a graça de um coração renovado, um coração convertido, um coração de pensamentos novos e novas atitudes! Que durante toda esta semana tenhamos a coragem de analisar e revisar nossas atitudes em casa, com os amigos e próximos, com os companheiros de trabalho e de estudo... e examinemo-nos diante do Cristo nosso Deus, no que diz respeito à humildade e à gratuidade. Recordemos que se tratam de duas atitudes de farão nosso coração pulsar em sintonia com o coração de Deus. Recordemos, como dizia São Bento, que pela humildade se sobe e pela soberba se desce! Para onde se sobe? Para o banquete do Reino de Deus. Para onde se desce? Para a penúria do anti-Reino, do reino de Satanás! Peçamos, suplicando, ao Senhor, a graça da conversão, que somente com nossas forças somos incapazes e impotentes para encetar! Que Deus no-la conceda.
dom Henrique Soares da Costa


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A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado.
O Evangelho coloca-nos no ambiente de um banquete em casa de um fariseu. O enquadramento é o pretexto para Jesus falar do “banquete do Reino”. A todos os que quiserem participar desse “banquete”, Ele recomenda a humildade; ao mesmo tempo, denuncia a atitude daqueles que conduzem as suas vidas numa lógica de ambição, de luta pelo poder e pelo reconhecimento, de superioridade em relação aos outros…
Jesus sugere, também, que para o “banquete do Reino” todos os homens são convidados; e que a gratuidade e o amor desinteressado devem caracterizar as relações estabelecidas entre todos os participantes do “banquete”.
Na primeira leitura, um sábio dos inícios do séc. II a.C. aconselha a humildade como caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para ter êxito e ser feliz. É a reiteração da mensagem fundamental que a Palavra de Deus hoje nos apresenta.
A segunda leitura convida os crentes instalados numa fé cômoda e sem grandes exigências, a redescobrir a novidade e a exigência do cristianismo; insiste em que o encontro com Deus é uma experiência de comunhão, de proximidade, de amor, de intimidade, que dá sentido à caminhada do cristão. Aparentemente, esta questão não tem muito a ver com o tema principal da liturgia deste domingo; no entanto, podemos ligar a reflexão desta leitura com o tema central da liturgia de hoje – a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado – através do tema da exigência: a  vida cristã – essa vida que brota do encontro com o amor de Deus – é uma vida que exige de nós
determinados valores e atitudes, entre os quais avultam a humildade, a simplicidade, o amor que se faz dom.
1º leitura: Sir. 3,19-21.30-31
Jesus Ben Sira é, no entanto, um judeu tradicional, orgulhoso da sua fé e dos valores israelitas. Consciente de que o helenismo ameaçava as raízes do seu Povo, vai escrever para defender o patrimônio religioso e cultural do judaísmo. Procura convencer os seus compatriotas de que Israel possui, na sua “Torah” revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
Aos israelitas seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira lembra a herança comum, procurando sublinhar a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
O texto que nos é proposto pertence à primeira parte do livro (cf. Ben Sira 1,1-23,38).
Aí fala-se da “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens. Nesta parte, dominam os “ditos” e “provérbios” que ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
MENSAGEM
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao seu filho. O tema fundamental desta “instrução” é o da humildade.
Para Jesus Ben Sira, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar. Garantir-lhe-á estima perante os homens e “graça diante do Senhor”.
Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados; mas trata-se de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar por aqueles que são considerados mais importantes. O autor não entra em grandes pormenores; limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la, sem grandes desenvolvimentos nem explicações. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo da “sabedoria”, do êxito, da felicidade.
ATUALIZAÇÃO
Para a reflexão e partilha, considerar os seguintes dados:
♦ Ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso lugar, pôr a render os nossos talentos, mas sem nunca humilhar os outros ou esmagá-los com a nossa superioridade. Significa pôr os próprios dons ao serviço de todos, com simplicidade e com amor. Quando somos capazes de assumir, com simplicidade e desprendimento, o nosso papel, todos reconhecem o nosso contribuição, aceitam-nos, talvez nos admirem e nos amem… É aí que está a “sabedoria”, quer dizer, o segredo do êxito e da felicidade.
♦ Ser soberbo significa que “a árvore da maldade criou raízes” no homem. O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta, injusto, auto-suficiente e despreza os outros. Deixa de precisar de Deus e dos outros homens; olha todos com superioridade e pratica, com frequência, gestos de prepotência que o tornam temido, mas nunca admirado ou amado. Vive à parte, num egoísmo vazio e estéril.
Embora seja conhecido e apareça nas colunas sociais, está condenado ao fracasso. É o “anti-sábio”.
♦ É preciso que os dons que possuímos não nos subam à cabeça, não nos levem a poses ridículas de orgulho, de superioridade, de desprezo pelos nossos irmãos. É preciso reconhecer, com simplicidade, que tudo o que somos e temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos méritos, mas do amor de Deus.
2º leitura: Hb. 12,18-19.22-24ª - AMBIENTE
Estamos na quinta parte da Carta aos Hebreus (cf. 12,14-13,19). Depois de pedir a perseverança e a constância nas provas (cf. Heb 12,1-13), o autor vai pedir uma conduta consequente com a fé cristã: os crentes são exortados a manter e cultivar relações harmoniosas, adequadas, justas, para com os homens e para com Deus.
Neste texto, em concreto, o autor convida os destinatários da carta à fidelidade à vocação cristã. Para isso, estabelece um paralelo entre a antiga religião (que os destinatários da carta conheciam bem) e a nova proposta de salvação que Cristo veio apresentar. Os crentes são, assim, convidados a redescobrir a novidade do cristianismo – essa novidade que, um dia, os atraiu e motivou – e a aderir a ela com entusiasmo… Recordemos – para que as coisas façam sentido – que o escrito se destina a uma comunidade instalada, preguiçosa, que precisa descobrir os fundamentos reais da sua fé e do seu compromisso, a fim de enfrentar – com coragem e com êxito – os tempos difíceis de perseguição e de martírio que se aproximam.
MENSAGEM
O autor estabelece um profundo contraste entre a experiência de comunhão com Deus que Israel fez no Sinai e a experiência cristã.
A experiência do Sinai é descrita como uma experiência religiosa que gerou medo, opressão, mas não relação pessoal, proximidade, amor, comunhão, intimidade, confiança – nem com Deus, nem com os outros membros da comunidade do Povo de Deus. O quadro da revelação do Sinai é um quadro terrífico, que não fez muito para aproximar os homens de Deus, num verdadeiro encontro alicerçado no amor e na confiança. Por isso, não há que lamentar o desaparecimento de um tal sistema.
Na experiência cristã, em contrapartida, não há nada de assustador, de terrível, de opressivo. Pelo batismo, os cristãos aproximaram-se do próprio Deus, numa experiência de proximidade, de comunhão, de intimidade, de amor verdadeiro… A experiência cristã é, portanto, uma experiência festiva, de verdadeira alegria. Por essa experiência, os cristãos associaram-se a Deus, o santo, o juiz do universo, mas também o Deus da bondade e do amor; foram incorporados em Cristo, o mediador da nova aliança, irmanados com Ele, tornados co-herdeiros da vida eterna; associaram-se aos anjos, numa existência de festa, de louvor, de ação de graças, de adoração, de contemplação; associaram-se aos outros justos que atingiram a vida plena, numa comunhão fraterna de vida e de amor.
A questão que fica no ar – mesmo se não é formulada explicitamente – é: não vale a pena apostar incondicionalmente nesta experiência e vivê-la com entusiasmo?
ATUALIZAÇÃO
A reflexão e a atualização podem fazer-se a partir das seguintes linhas:
♦ A questão fundamental deste texto e do ambiente que o enquadra é propor-nos uma redescoberta da nossa fé e do sentido das nossas opções, a fim de superarmos a instalação, o comodismo e a preguiça que nos levam, tantas vezes, a uma caminhada cristã morna, sem exigências, sem compromissos, que facilmente cede e recua quando aparecem as dificuldades e os desafios…
♦ Jesus intimou-nos a superar a perspectiva de um Deus terrível, opressor, vingativo, de Quem o homem se aproxima com medo; em seu lugar, Ele apresentou-nos a religião de um Deus que é Pai, que nos ama, que nos convoca para a comunhão com Ele e com os irmãos e que insiste em associar-nos como “filhos” à sua família. Tenho consciência de que este é o verdadeiro rosto de Deus e que o Deus terrível, de quem o homem não se pode aproximar, é uma invenção dos homens?
Evangelho: Lc. 14,1.7-14 - AMBIENTE
Esta etapa do “caminho de Jerusalém” põe Jesus à mesa, em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus. Deve tratar-se da refeição solene de sábado, que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Para ela deviam convidar-se os hóspedes; durante a refeição, continuava-se a discussão sobre as leituras escutadas durante o ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até o convidam para casa e se sentam à mesa com Ele (cf. Lc. 7,36; 11,37). É provável que se trate de uma realidade histórica, embora Marcos e Mateus apresentem os fariseus como os adversários por excelência de Jesus (Mateus apresenta tal quadro influenciado, sem dúvida, pelas polêmicas da Igreja primitiva com os fariseus).
Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos dos israelitas. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se a si próprios como “puros” (porque viviam de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, por causa da ignorância e da vida dura que levava, não podia cumprir integralmente os preceitos da Lei.
Conscientes das suas capacidades, da sua integridade, da sua superioridade, não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique o ambiente de luta pelos lugares de honra que o Evangelho refere.
Convém, também, ter em conta que estamos no contexto de um “banquete”. O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf. Mt. 11,19), mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do “reino”.
MENSAGEM
O texto apresenta duas partes. A primeira (vs. 7-11) aborda a questão da humildade; a segunda (vs. 12-14) trata da gratuidade e do amor desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do “Reino”: são atitudes fundamentais para quem quiser participar no banquete do “Reino”.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os lugares de honra não são novidade, pois já o Antigo Testamento aconselhava a não ocupar os primeiros lugares (cf. Pr. 25,6-7); mas o que aí era uma exortação moral, nas palavras de Jesus converte-se numa apresentação do “Reino” e da lógica do “Reino”: o “Reino” é um espaço de irmandade, de fraternidade, de comunhão, de partilha e de serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros; quem quiser entrar nele, tem de fazer-se pequeno, simples, humilde e não ter pretensões de ser melhor, mais justo, ou mais importante que os outros. Esta é, aliás, a lógica que Jesus sempre propôs aos seus discípulos: Ele próprio, na “ceia de despedida”, comida com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço – avisando que, na comunidade do “Reino”, os primeiros serão os servos de todos (cf. Jo 13,1-17).
Na segunda parte, Jesus põe em causa – em nome da lógica do “Reino” – a prática de convidar para o banquete apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos.
Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados para a mesa. Nas suas refeições, não convinha haver alguém de nível menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha estabelecer obrigatoriamente laços com gente desclassificada e pecadora (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”, ao “povo da terra”, desclassificado e pecador).
Por outro lado, também os fariseus tinham a tendência – própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas – de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma… A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.
Jesus denuncia – em nome do “Reino” – esta prática; mas vai mais além e apresenta uma proposta verdadeiramente subversiva… Segundo Ele, é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Os cegos, coxos e aleijados eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, e por isso estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2Sm. 5,8) para não profanar esse lugar sagrado (cf. Lv. 21,18-23). No entanto, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.
Já percebemos que, aqui, Jesus já não está simplesmente a falar dessa refeição comida em casa de um fariseu, na companhia de gente distinta; mas está já a falar daquilo que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do “Reino”.
Jesus traça aqui, portanto, os contornos do “Reino”. Ele é apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de familiaridade, de irmandade, de comunhão. Para esse “banquete”, todos – sem exceção – são convidados (inclusive àqueles que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui e marginaliza). As relações entre os que aderem ao banquete do “Reino” não serão marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço.
ATUALIZAÇÃO
♦ Na nossa sociedade, agressiva e competitiva, o valor da pessoa mede-se pela sua capacidade de se impor, de ter êxito, de triunfar, de ser o melhor… Quem tem valor é quem consegue ser presidente do conselho de administração da empresa
aos trinta e cinco anos, ou o empregado com mais índices de venda, ou o condutor que, na estrada, põe em risco a sua vida, mas chega uns segundos à frente dos outros… Todos os outros são vencidos, incapazes, fracos, olhados com comiseração. Vale a pena gastar a vida assim? Estes podem ser os objetivos supremos, que dão sentido verdadeiro à vida do homem?
♦ A Igreja, fruto do “Reino”, deve ser essa comunidade onde se torna realidade a lógica do “Reino” e onde se cultivam a humildade, a simplicidade, o amor gratuito e desinteressado. É-o, de fato?
♦ Assistimos, por vezes, a uma corrida desenfreada na comunidade cristã pelos primeiros lugares. É uma luta – para alguns de vida ou de morte – em que se recorre a todos os meios: a intriga, a exibição, a defesa feroz do lugar conquistado, a humilhação de quem faz sombra ou incomoda… Para Jesus, as coisas são bastante claras: esta lógica não tem nada a ver com a lógica do “Reino”; quem prefere esquemas de superioridade, de prepotência, de humilhação dos outros, de ambição, de orgulho, está a impedir a chegada do “Reino”. Atenção: isto talvez não se aplique só àquela pessoa da nossa comunidade que detestamos e cujo nome nos apetece dizer sempre que ouvimos falar em gente que só gosta de mandar e se considera superior aos outros; isto talvez se aplique também em maior ou menor grau, a mim próprio.
♦ Também há, na comunidade cristã, pessoas cuja ambição se sobrepõe à vontade de servir… Aquilo que os motiva e estimula são os títulos honoríficos, as honras, as homenagens, os lugares privilegiados, as “púrpuras”, e não o serviço humilde e o amor desinteressado. Esta será uma atitude consentânea com a pertença ao “Reino”?
♦ Fica claro, na catequese que Lucas hoje nos propõe, que o tipo de relações que unem os membros da comunidade de Jesus não se baseia em “critérios comerciais” (interesses, negociatas, intercâmbio de favores), mas sim no amor gratuito e desinteressado. Só dessa forma todos – inclusive os pobres, os humildes, aqueles que não têm poder nem dinheiro para retribuir os favores – aí terão lugar, numa verdadeira comunidade de amor e de fraternidade.
♦ Os cegos e coxos representam, no Evangelho que hoje nos é proposto, todos aqueles que a religião oficial excluía da comunidade da salvação; apesar disso, Jesus diz que esses devem ser os primeiros convidados do “banquete do Reino”.
Como é que os pecadores notórios, os marginais, os divorciados, os homossexuais, as prostitutas são acolhidos na Igreja de Jesus?

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA-C

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA
 SOLENIDADE

21 de Agosto de 2016 – Ano C

1ª Leitura - Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab

Salmo 44

2ª Leitura - 1Cor 15,20-26.28

Evangelho - Lc 1,39-56


·     Salvemos a grande Rainha a mãe do Senhor, a cheia de graças que ofereceu o seu corpo para a encarnação do Filho de Deus que veio até nós. Leia mais


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"BENDITA ÉS TU ENTRE AS MULHERES..." – Olivia Coutinho

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – SOLENIDADE

Dia 21 de Agosto de 2016

Evangelho de Lc1,39-56

              Com muita alegria, celebramos hoje, a solenidade da Assunção de Nossa Senhora! É importante não confundirmos assunção, com ascensão, a "assunção" é de Nossa Senhora, vem nos  falar que a Mãe de Jesus foi “levada” ao céu, ela não subiu por si mesma e sim, pelo poder de Deus! Enquanto que a "ascensão" é de  Jesus, vem nos falar da sua subida ao céu, Ele sim, sendo Deus, subiu ao céu pelo seu próprio poder.
A solenidade de hoje, nos convida a refletir, sobre o sentido da nossa vida, o para “quê” viemos ao mundo e como devemos conduzir a nossa vida. Maria, com o seu exemplo, nos ensina que só alcançaremos a nossa realização plena, se nos deixarmos conduzir pelo o seu Filho, realizando a vontade de Deus. Ela, mais do que ninguém, realizou a vontade de Deus, abrindo mão de todos os seus projetos pessoais para viver o projeto de Deus!
O evangelho que a liturgia desta solenidade nos convida a refletir, nos apresenta  Maria como modelo de vida cristã, um modelo que deve ser seguido por cada um de nós! Nossa vida, se pautada no seu exemplo, com certeza, será uma vida frutuosa!
Assim que recebera o anuncio, de que ela seria a mãe de Jesus, Maria ficou sabendo também da gravidez de sua prima Isabel. Movida pelo o amor ao próximo, ela não pensa mais em si, pensa primeiro, em Isabel, uma mulher de idade avançada que certamente precisaria de ajuda! Sem hesitar, ela  se põe à caminho, indo ao auxílio da prima! Com este gesto abnegado, Maria nos dá um grande exemplo de solidariedade, nos mostrando, que o amor é mais do que sentimento, muito mais do que palavras, o amor é gesto concreto, é decisão de ir ao encontro do outro, de inteirar-se de suas necessidades para poder ajudá-lo!
Subindo montanhas, carregando  Jesus em seu ventre, Maria se torna a primeira discípula de Jesus,  a primeira missionária do Pai a levar Jesus ao outro!
A narrativa nos fala ainda, de dois encontros marcantes, o encontro de duas mães: Maria e Isabel, uma se alegrando com a alegria da outra, e juntas agradecendo a Deus pelo dom da fecundidade, mostrando-nos que o poder de Deus é infinito!
No  encontro destas duas  mães, acontece também, o encontro de duas crianças que estavam sendo geradas  no ventre destas duas mulheres distintas, no ventre da jovenzinha de Nazaré, estava sendo gestado Jesus e no ventre antes estéril  de Isabel, joão Batista! Foi  um encontro invisível, porém sentido por estas crianças! "Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre.(Lc1, 41." 
"Bem aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor prometeu." Ao ouvir estas palavras de sua prima Isabel, Maria, diz: " A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva..." É o canto do MAGNIFICAT, quando Maria expressa de modo transbordante a sua gratidão pela imensidão de maravilhas que Deus realizou em sua vida! Realizações, que Ela reconhecia não serem somente em seu favor, mas em favor de todos, uma vez que, pelo o Filho que ela carregava no ventre, a salvação entraria na humanidade! O canto do MAGNIFICAT, é um canto de amor e de humildade, nele, Maria reconhece o poder, a majestade do Senhor e se submete humildemente à sua vontade, proclamando-se bem aventurada!
Com Maria, aprendemos que a humildade nos aproxima da perfeição e que ao dizermos "sim" a Deus, Ele nos transforma em “grandes” mesmo dentro da nossa pequinês!
Podemos também, assim como Maria, louvar a Deus, dizendo: A minha alma engrandece o Senhor, porque olhou para a humildade de seu servo ( a) “ O Todo Poderoso fez grandes coisas em meu favor...”
Ao se entregar inteiramente à serviço de Deus, Maria participou ativamente da história da salvação enfrentando todos os desafios, desde a concepção de Jesus, até a sua morte de cruz! E mesmo com o coração transpassado de dor, ela manteve-se de pé aos pés da cruz! 
O papel desempenhado por Maria na encarnação e na morte de Jesus, nos deixa um grande exemplo de mulher forte, de alguém que ama, que não se deixa abater pelo sofrimento, porque confia poder e na misericórdia de Deus!
Com o testemunho de Maria, aprendemos a sermos inteiros no amor, a dar passos ao encontro de Jesus, indo  ao encontro do outro!
Que nossos corações sejam iluminados com a luz da bondade que iluminou o coração de Maria, a grande defensora dos pobres e sofredores!
"Deus cativou Maria e ela se deixou cativar por Ele!" 
Com o seu "sim" Maria colocou o Filho de Deus no meu, no seu coração!


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Depois de ter sido ordenado diácono, um amigo meu foi pregar sobre Nossa Senhora e disse uma coisa muito curiosa: “A Nossa Senhora lhe chamam porta do céu e muitas outras coisas, eu vou chamá-la ‘janela’. Maria é a janela. Conta-se que certa vez são Pedro foi chamado à atenção por Nosso Senhor porque estavam entrando muitas pessoas pela porta do céu. Jesus lhe disse: ‘Pedro, é preciso ser um pouco mais rigoroso’. São Pedro respondeu: ‘Senhor, não adianta. Eu posso até ser rigoroso aqui na porta do céu, mas a tua mãe abre a janela e muitos estão passando por ela’”.
É uma grande alegria contemplar Nossa Senhora subindo ao céu. Ela, sendo porta do céu, está disposta a abri-nos também a janela do céu, contanto que lhe sejamos devotos. Imaginemos por um momento a cena: os apóstolos, ao saberem que a Santíssima Virgem morreu, ou dormiu, reúnem-se todos ao redor do seu corpo inanimado. Alguns inclusive, têm que fazer uma longa viagem até Éfeso, onde provavelmente estaria Maria, já que, ao parecer, era São João quem cuidava dela, pois segundo a tradição, Nossa Senhora foi morar nessa cidade da Ásia Menor. Outros, talvez, nem conseguiram vê-la, pois quando lá chegaram, ela já teria subido aos céus. Deve ter sido surpreendente vê-la subindo aos céus! Assim como os Apóstolos viram o Senhor subindo aos céus, parece conveniente que vissem também Nossa Senhora subir aos céus. Deve ter sido também doloroso para os mesmos saber que a Mãe de Jesus já não estaria no meio deles em carne mortal, sentiriam saudades da presença materna daquela que eles consideravam sua mãe. Como é doloroso ver a mãe morrer! Mas como é maravilhoso vê-la sendo glorificada. Hoje, temos dois sentimentos: saudade de Nossa Senhora que se foi e alegria porque ela foi para ser nossa advogada lá no céu, pertinho do seu Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo.
De muitos santos conservamos relíquias que nós veneramos com grande devoção, de Nossa Senhora não conservamos nenhuma relíquia, nenhum pedaço do seu corpo santo. O seu corpo não sofreu a corrupção. O santo Padre, o papa Pio XII, na definição desse dogma, o da assunção de Nossa Senhora, expressou-se da seguinte maneira: “(…) pela autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo e nossa, proclamamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado: a imaculada Mãe de Deus, sempre virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial. Por isso, se alguém, e que Deus não o permita, se atrevesse a negar ou voluntariamente colocar em dúvida o que por Nós foi definido, saiba que separou-se totalmente da fé divina e católica” (Constituição Dogmática “Munificentissimus Deus”, 01-11-1950). Aos dogmas da Maternidade divina, da sempre Virgem, da Imaculada, juntava-se esse novo: a Assunção em corpo e alma de Nossa Senhora aos céus.
Maria subiu aos céus. Como é a nossa devoção para com ela, nossa Mãe e advogada? Muitos irmãos nossos, que demonstram pouco amor à Mãe de Jesus, não devem nunca atrapalhar a nossa fé no que diz respeito aos privilégios de Maria Santíssima. Não devem ser escutados! Como é a nossa devoção mariana? Deixamo-nos influenciar por idéias não-católicas no que se refere à Santíssima Virgem? A minha devoção a Nossa Senhora deve ser terna, ou seja, uma devoção na qual o coração tenha o seu espaço. Preciso tratá-la como mãe com aquelas práticas de devoções tão valorizadas pela tradição cristã: pelo menos uma parte do rosário, as saudações aos quadros da Santíssima Virgem, o “anjo do Senhor” ao meio-dia, as três Ave-Maria da noite pedindo a santa pureza, e tantos outros atos de devoção rijos, não adocicados, que mantêm o nosso fervor para com aquela que é a Mãe de Deus e nossa.
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


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No dia 15 de agosto a Igreja celebra a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, ou Nossa Senhora da Glória.
Diz o prefácio da solenidade que proclama maravilhosamente o mistério celebrado: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança do vosso povo ainda em caminho, pois preservastes da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável o vosso próprio Filho feito homem, autor de toda a vida”.
Trata-se de uma verdade de fé, um dogma, proclamada pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950: “Terminando o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. Ali a esperava o seu Filho Jesus, com o seu corpo glorioso, tal como Ela o tinha contemplado depois da Ressurreição.
As leituras contemplam esta realidade. A 1ª leitura (Ap. 11,19; 12,1-10) apresenta uma mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés, e do Filho que ela deu à luz, um varão, que irá reger todas as nações. Nesta imagem a Mulher e o Filho representam Jesus Cristo e a Igreja, mais a mulher confunde-se também com Maria, pois nela realizou-se plenamente a Igreja.
A 2ª leitura (1Cor. 15,20-27) completa a idéia da 1ª. Paulo, falando de Cristo, primícias dos ressuscitados, termina dizendo que, um dia, todos os que crêem terão parte na Sua glorificação, mas em proporção diversa: “Primeiro, Cristo, como os primeiros frutos da seara; e a seguir, os que pertencem a Cristo” (1Cor. 15,23). Entre os cristãos, o primeiro lugar pertence, sem dúvida, a Nossa Senhora, que foi sempre de Deus, porque jamais conheceu o pecado. É a única criatura em quem o esplendor da imagem de Deus nunca se viu ofuscado; é a Imaculada Conceição, a obra prima e intacta da Santíssima Trindade em quem o Pai, o Filho e o Espírito Santo sentiram as suas complacências, encontrando nela uma resposta total ao Seu amor.
A resposta de Maria ao amor de Deus ressoa no Evangelho (Lc. 1,35-56), tanto nas palavras de Isabel que exaltam a grande fé que levou Maria a aderir, sem vacilação alguma à vontade de Deus, como nas palavras da própria Virgem, que entoa um hino de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizou nela.
Ela é a nossa grande intercessora junto do Altíssimo. Maria nunca deixa de ajudar os que recorrem ao seu amparo: “Nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tivesse recorrido à vossa proteção fosse por Vós desamparado”, rezava São Bernardo. Procuremos confiar mais na sua intercessão, persuadidos de que Ela é a Rainha dos céus e da terra, o refúgio dos pecadores, e peçamos-lhe com simplicidade: Mostrai-nos Jesus!
A Assunção de Maria é uma preciosa antecipação da nossa ressurreição e baseia-se na ressurreição de Cristo, que transformará o nosso corpo corruptível, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso. Por isso são Paulo recorda-nos (1Cor. 15,20-26): “Se a morte veio por um homem (pelo pecado de Adão), também por um homem, Cristo, veio a ressurreição. Por Ele, todos retornarão à vida, mas cada um a seu tempo: como primícias, Cristo; em seguida, quando Ele voltar, todos os que são de Cristo; depois , os últimos, quando Cristo devolver a Deus Pai o seu reino… Essa vinda de Cristo, de que fala o Apóstolo, disse o Papa João Paulo II, “não devia por acaso cumprir-se, neste único caso (o da Virgem), de modo excepcional, por dizê-lo assim, imediatamente, quer dizer, no momento da conclusão da sua vida terrena? Esse final da vida que para todos os homens é a morte, a Tradição, no caso de Maria, chama-o com mais propriedade dormição.  Para nós, a Solenidade de hoje é como uma continuação da Páscoa, da Ressurreição e da Ascensão do Senhor. E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da futura ressurreição”.
A solenidade de hoje enche-nos de confiança nas nossas súplicas. Pois, diz são Bernardo, “subiu aos céus a nossa advogada para, como Mãe do Juiz e Mãe de misericórdia, tratar dos negócios da nossa esperança.” Ela alenta continuamente a nossa esperança. Ensina são Josemaria Escrivá: “Somos ainda peregrinos, mas a nossa Mãe precedeu-nos e indica-nos já o termo do caminho: repete-nos que é possível lá chegarmos, e que lá chegaremos, se formos fiéis. Porque a Santíssima Virgem não é apenas nosso exemplo: é auxílio dos cristãos. E ante a nossa súplica – mostra que és Mãe – , não sabe nem quer negar-se a cuidar dos seus filhos com solicitude maternal.
Fixemos o nosso olhar em Maria, já assunta aos céus. Ela é a certeza e a prova de que os seus filhos estarão um dia com o corpo glorificado junto de Cristo glorioso. A nossa aspiração à vida eterna ganha asas ao meditarmos que a nossa Mãe celeste está lá em cima, que nos vê e nos contempla com o seu olhar cheio de ternura, com tanto mais amor quanto mais necessitados nos vê.
mons. José Maria Pereira


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Celebramos hoje – nesta solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria – o último mistério da vida terrena da Mãe de Deus e nossa Mãe.
Terminada a sua vida mortal, foi conduzida em corpo e alma, desta vida mortal ao mundo da imortalidade, revestida de glória.
Perante este acontecimento único, extraordinário, multiplicam-se as nossas perguntas: como se passou este mistério? Por que razão e com que finalidade o quis Deus?
Unamo-nos à alegria com que os bem-aventurados do Céu cantam os louvores da Mãe de Jesus e nossa Mãe.
Preparemo-nos para acolher a Palavra de Deus que nos ajudará a responder a todas estas perguntas.
Primeira Leitura: Apocalipse 11,19a 12, 1-6a.10ab
Sob a imagem da Arca (v. 19) e da mulher (vv. 1-17) é-nos apresentada, na intenção da Liturgia, a Virgem Maria. Entretanto os exegetas continuam a discutir, sem chegar a acordo, se estas imagens se referem à Igreja ou a Maria. Sem nos metermos numa questão tão discutida, podemos pensar com alguns estudiosos que a Mulher simboliza, num primeiro plano, a Igreja, mas, tendo em conta as relações tão estreitas entre a Igreja e Maria -«membro eminente e único da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade… sua Mãe amorosíssima» (Vaticano II, LG 53) – podemos englobar a Virgem Maria nesta imagem da mulher do Apocalipse. Tendo isto em conta, citamos o comentário de Santo Agostinho ao Apocalipse (Homilia IX):
4-5 - «O Dragão colocou-se diante da mulher…»: «A Igreja dá à luz sempre no meio de sofrimentos, e o Dragão está sempre de vigia a ver se devora Cristo, quando nascem os seus membros. Disse-se que deu à luz um filho varão, vencedor do diabo».
6 - «E a mulher fugiu para o deserto»: «O mundo é um deserto, onde Cristo governa e alimenta a Igreja até ao fim, e nele a Igreja calca e esmaga, com o auxílio de Cristo, os soberbos e os ímpios, como escorpiões e víboras, e todo o poder de Satanás».
Segunda leitura: 1 Coríntios 15, 20-27
É a partir deste texto e do de Romanos 5 que os Padres da Igreja estabelecem a tipologia baseada num paralelismo antiético, entre Eva e Maria: Eva, associada a Adão no pecado e na morte; Maria, associada a Cristo na obra de reparação do pecado e na ressurreição.
20-23 - São Paulo, começando por se apoiar no facto real da Ressurreição de Cristo, procura demonstrar a verdade da ressurreição dos já falecidos (vv. 1-19). Nestes versículos, diz que «Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram» (v. 20). As primícias eram os primeiros frutos do campo que se deviam oferecer a Deus e só depois se podia comer deles (cf. Ex. 28; Lv. 23,10-14; Nm. 15,20-21). De igual modo, Cristo nos precede na ressurreição. Nós (excetuando pelo menos a Virgem Maria) havemos de ressuscitar «por ocasião da sua vinda» (v. 23). Não se pode confundir esta ressurreição sobrenatural e misteriosa de que aqui se fala com a imortalidade da alma. O Credo do Povo de Deus de Paulo VI, no nº. 28, diz: «Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo - tanto as que ainda devem ser purificadas com o fogo do Purgatório, como as que são recebidas por Jesus no Paraíso logo que se separem do corpo, como o Bom Ladrão - constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída por completo no dia da Ressurreição, em que as almas se unirão com os seus corpos». Por seu turno, a S. Congregação para a Doutrina da Fé, na carta de 17-5-79, declara: «A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem depois da morte, exclui qualquer explicação com que se tirasse o seu sentido à Assunção de Nossa Senhora, naquilo que esta tem de único, ou seja, o facto de ser a glorificação que está destinada a todos os outros eleitos».
Evangelho: Lucas 1,39-56
Os estudiosos descobrem neste relato uma série de ressonâncias vetero-testementárias, o que corresponde não apenas ao estilo do hagiógrafo, mas sobretudo à sua intenção teológica de mostrar como na Mãe de Jesus se cumprem as figuras do A.T.: Maria é a verdadeira e nova Arca da Aliança (comparar Lc. 1,43 com 2Sm. 6,9 e Lc. 1,56 com 2Sm. 6,11) e a verdadeira salvadora do povo, qual nova Judite (comparar Lc. 1,42 com Jd. 13, 18-19) e qual nova Ester (Lc. 1,52 e Est. 1–2).
39 - «Uma cidade de Judá». A tradição documentada a partir do séc. IV diz que é Ain Karem (fonte da vinha), uma povoação a uns 6 km. a oeste da cidade nova de Jerusalém. De qualquer modo, ficaria a uns quatro ou cinco dias de caminho em caravana desde Nazaré (130 Km.). Maria empreende a viagem movida pela caridade e espírito de serviço. A «Mãe do meu Senhor» (v. 43) não fica em casa à espera de que os Anjos e os homens venham servir a sua rainha; e Ela mesma, que se chama «escrava do Senhor» (v. 38), «a sua humilde serva» (v. 48), apressa-se em se fazer a criada da sua prima e de acudir em sua ajuda. Ali permanece, provavelmente, até depois do nascimento de João, uma vez que Lucas nos diz que «ficou junto de Isabel cerca de três meses».
42 - «Bendita és Tu entre as mulheres». Superlativo hebraico: a mais bendita de todas as mulheres.
43-44 - «A Mãe do meu Senhor». As palavras de Isabel são proféticas: o mexer-se do menino no seu seio (v. 41) não era casual, mas «exultou de alegria» para também ele saudar o Messias e sua Mãe.
46-55 - O cântico de Nossa Senhora, o Magnificat, é um poema de extraordinária beleza poética e elevação religiosa. Dificilmente poderiam ficar melhor expressos os sentimentos do coração da Virgem Maria – «a mais humilde e a mais sublime das criaturas» (DANTE, Paraíso, 33, 2) –, em resposta à saudação mais elogiosa (vv. 42-45) que jamais se viu em toda a Escritura. É como se Maria dissesse que não havia motivo para uma tal felicitação; tudo se deve à benevolência, à misericórdia e à omnipotência de Deus. Sem qualquer referência ao Messias, refulge aqui a alegria messiânica da sua Mãe e a sua humildade num extraordinário hino de louvor e de agradecimento. O cântico está todo entretecido de reminiscências bíblicas, sobretudo do cântico de Ana (1Sm. 2,1-10) e dos Salmos (35,9; 31,8; 111,9; 103,17; 118,15; 89,11; 107,9; 98,3); cf. também Hb. 3,18; Gn. 29,32; 30,13; Ez. 21,31; Si. 10,14; Mi. 7,20. Ao longo dos tempos, muitos e belos comentários se fizeram ao Magnificat; mas também é conhecida a abordagem libertacionista, abundando leituras materialistas utópicas, falsificadoras do genuíno sentido bíblico, com base no princípio marxista da luta de classes. Com efeito, a transformação social que é urgente realizar, não se consegue com o inverter a ordem social, o «derrubar os poderosos dos seus tronos» e o «despedir os ricos de mãos vazias». Eis o comentário da Encíclica Redemptoris Mater, nº. 36: «Nestas sublimes palavras… vislumbra-se a experiência pessoal de Maria, o êxtase do seu coração; nelas resplandece um raio do mistério de Deus, a glória da sua santidade inefável, o amor eterno que, como um dom irrevogável, entra na história do homem».
Sugestões para a homilia
A Assunção de Maria é um dogma solenemente definido por Pio XII em 1 de Novembro de 1950, segundo o qual Nossa Senhora, no termo da sua vida mortal, foi elevada ao céu em corpo e alma.
Definido o dogma só em nossos dias, a sua festa começou logo no princípio da Igreja, a seguir à sua Assunção ao Céu.
A Assunção da Virgem Santa Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos (Catecismo da Igreja Católica, n.º 966).
Os Orientais celebram este mistério desde o século V com o nome de «Dormição de Maria». No calendário da Igreja latina celebra-se, com a categoria de solenidade, a 15 de agosto.
1. Maria, Sinal do Amor de Deus
Ao terminar a Sua missão na terra, Maria, a Imaculada Mãe de Deus, «foi elevada em corpo e alma à glória do céu» (Pio XII), sendo assim a primeira criatura humana a alcançar a plenitude da salvação.
Esta glorificação de Maria é uma consequência natural da Sua Maternidade divina: Deus «não quis que conhecesse a corrupção do túmulo Aquela que gerou o Senhor da vida».
É também o fruto da íntima e profunda união existente entre Maria e a Sua missão e Cristo e a Sua obra salvadora. Plenamente unida a Cristo, como Sua Mãe e Sua serva humilde, associada, estreitamente a Ele, na humilhação e no sofrimento, não podia deixar de vir a participar do mistério de Cristo ressuscitado e glorificado, numa conformação levada até às últimas consequências. Por isso, Maria é «elevada ao Céu em corpo e alma e exaltada por Deus como Rainha, para assim Se conformar mais plenamente com Seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte» (Concílio Vaticano II, Lumen Gentium n.º 59).
Este privilégio, concedido à Virgem Imaculada, preservada e imune de toda a mancha da culpa original, é «Sinal» de esperança e de alegria para todo o Povo de Deus, que peregrina pela terra em luta com o pecado e a morte, no meio dos perigos e dificuldades da vida. Com efeito, a Mãe de Jesus, «glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há-de consumar no século futuro» (LG. 68).
O triunfo de Maria, mãe e filha da Igreja, será o triunfo da Igreja, quando, juntamente com a humanidade, atingir a glória plena, da qual Maria já está a gozar.
A Assunção de Maria ao Céu, em corpo e alma, é a garantia de que o homem se salvará todo: também o nosso corpo ressuscitará! É o penhor seguro de que o homem triunfará da morte!
a) A Virgem do Apocalipse.
«Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça.»
O texto do Apocalipse emprega uma linguagem simbólica:
– Uma mulher revestida de sol. Maria é «a cheia de graça», como nome próprio, como A tratou o Arcanjo. Está revestida com o sol da graça. Encontramos aqui uma alusão à Imaculada Conceição, à Mulher do Apocalipse que venceu o dragão.
– Com a lua debaixo dos pés. Maria é Rainha de toda a criação, porque é a Mãe do Rei.
– E uma coroa de doze estrelas na cabeça. As doze estrelas aparecem como alusão às doze tribos de Israel. Em última análise, alude-se à Igreja, Povo de Deus da nova Aliança.
Maria é o grande sinal que apareceu no céu da nossa vida, enviado por Deus:
– Sinal da onipotência divina à nossa disposição para nos ajudar nas dificuldades da vida. Maria é a onipotência suplicante. Quando pedimos o que está em conformidade com a vontade de Deus, Maria alcança-no-lo.
– Sinal do Amor e da benevolência de Deus em nosso favor. Há uma tendência nas pessoas para ver em tudo ameaças de Deus. O Senhor não ameaça; atrai com o Seu Amor perseverante e paciente, esperando a nossa resposta generosa. Em qualquer momento que o desejemos, Ele acolhe-nos.
(Com quanto solicitude nos avisou Nossa Senhora de que não entraríamos em guerra! A irmã Lúcia e a beata Alexandrina foram as mensageiras desta carícia da Mãe).

b) Maria, nossa Advogada.
«Ela teve um filho varão, que há-de reger todas as nações com cetro de ferro.»
Deus quis dar-nos em Maria, nossa Mãe, a melhor das advogadas. Ao contemplá-la na sua maternidade, compreendemos melhor o amor misericordioso de Deus para conosco.
Por isso, a Igreja canta: «Lembrai-vos, ó Virgem-Mãe, quando estiverdes diante de Deus, de Lhe dizer coisas boas em nosso favor.»
Nós invocamo-l’A como medianeira, não porque Ela se oponha à vontade de Deus, para nos favorecer. Pelo contrário, como Mãe desvelada, ajuda-nos a cumprir a vontade do Senhor e alcança-nos as graças para o conseguirmos fazer.
Valemo-nos da sua intercessão, porque é a Mãe do Rei (são Luís Maria de Monforte explica-nos deste modo a mediação de Maria. Se um lavrador resolve oferecer uma cesta de maçãs ao rei e lhas faz chegar pela mão da Rainha, esta prepara-as, enriquecendo a sua aparência e torna-as mais agradáveis ao Rei pela simpatia que a rainha goza junto dele. Assim são as nossas boas obras, quando as apresentamos pelas mãos imaculadas de Maria).
Por isso aproximemo-nos cheios de confiança do trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia.

c) Ela vencerá!
«E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: ‘Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido‘.»
Quando olhamos para os acontecimentos desta vida apenas com os olhos do corpo e o pobre raciocínio que se vê incapaz de explicar tantos mistérios, corremos o risco de nos tornarmos pessimistas.
A vitória de Deus – na qual tomaremos parte – está prometida e garantida. A única interrogação é se queremos ou não participar nela por uma vida limpa e apostólica.
Não há, pois, lugar para pessimismos ou complexos de inferioridade. O importante é não deixarmos de fazer aquilo que nos está confiado. Foi esta negligência dos cristãos que deixou o mundo resvalar até às posições absurdas que se assumem nas nossas leis.
A confiança na vitória de Maria não pode justificar a nossa preguiça. É verdade que sofremos, desde sempre, uma tentação: esperar que Deus faça tudo, para podermos continuar a dormir.
Quando o Senhor nos pede colaboração para o bem não é porque se veja incapaz de o fazer, mas porque nos quer enriquecer num trabalho de mãos dadas com Ele, intensificando cada vez mais a nossa vida em comunhão.
Confiança Em Deus, por Maria, e trabalho generoso é, pois, o que o Senhor nos pede nesta solenidade da Assunção de Maria.
2. O itinerário de Maria para a glorificação
No cântico do Magnificat entoado por Maria em casa de Isabel e que a Igreja não se cansa de repetir, encontramos a indicação do itinerário que Nossa Senhora nos ensina para alcançarmos a glória final.

a) Caridade ardente.
«Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá.»
O Arcanjo revela a Nossa Senhora, na Anunciação, que Zacarias e Isabel iam ver realizado o maior sonho da sua vida: ter um filho.
Dois pensamentos a fazem parir para a sua casa: felicitá-la por este dom de Deus e oferecer-lhe os seus préstimos no serviço domésticos, nos últimos tempos da gravidez.
O Evangelho descreve a sua ida como sendo feita apressadamente. Esta palavra sugere-nos a prontidão da caridade e a alegria com que se desempenha desta missão.
Uma das dimensões essenciais da vida do cristão é o amor aos outros que se exprime também em partilhar a alegria e oferecer uma ajuda.
Não é fácil viver esta exigência, porque fomos crescendo num cristianismo individualista que nada tem a ver com os ensinamentos de Jesus. O «salve-se quem puder» não faz sentido na vida cristã. Deus chama as pessoas uma a uma, dentro da família que é a Igreja, para que nos ajudemos mutuamente.
E, de facto, a visita de Nossa Senhora produz frutos admiráveis. «Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo». Leva a alegria àquela família – de tal modo que o menino exultou de alegria no seio de Isabel – e possibilita que Jesus, concebido no momento da Anunciação, santifique João Baptista.
Maria permanece ali até ao nascimento do Precursor, realizando os trabalhos humildes de uma dona de casa e enchendo de alegria aquela família.

b) Humildade profunda.
«Maria disse então: ‘A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome.’»
Maria não quer negar a grandeza a que o Senhor A elevou. A humildade é a verdade. Mas proclama com toda a simplicidade que tudo o que aconteceu se deve à misericórdia do Altíssimo.
Não devemos negar as qualidades que recebemos e as graças que o Senhor nos tem concedido. O erro poderia estar em olharmos para tudo isto como se fosse devido exclusivamente ao nosso esforço pessoal, sem nenhuma referência a Deus.
É muito importante que nesta solenidade da glorificação de Maria a Igreja nos lembre a virtude da humildade.
Deus conta connosco para a viver em todos os momentos.
– Na vida pessoal. Devemos afastar-nos de dois extremos, ambos fruto do orgulho: o pessimismo, como se contássemos só connosco, cultivando uma visão pessimista e nós mesmos; e um optimismo néscio, como se tudo se devesse aos nossos méritos.
– Na vida com os outros. Se não podemos ter complexos de inferioridade para connosco, também não havemos de ter complexos de superioridade em relação aos outros.
Não há duas classes de pessoas: uma de primeira escolha e outra de segunda. Há uma só raça: a dos filhos de Deus.
Esta verdade há-de levar-nos a um profundo respeito pelos outros, sabendo compreender as suas limitações. Só Deus sabe os talentos que deu a cada um.

c) Tudo para glória de Deus! «É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser aniquilado é a morte, porque Deus tudo colocou debaixo dos seus pés.»
Maria foi glorificada pelos méritos de Jesus Cristo, seu Filho. Foi em atenção a eles que o Pai antecipou a glorificação de Maria, pela sua ressurreição, logo que terminou a vida na terra.
Na Ressurreição de Cristo encontramos a garantia da nossa. Se Ele quis glorificar a Sua Mãe, não esperando para o fim dos tempos, foi pelo carinho infinito que lhe dedica.
Mas podemos ver neste facto mais uma razão: ao ver ressuscitar Jesus Cristo, poderíamos cair na tentação de pensar que a Sua Ressurreição era somente para Ele, porque é Deus. Ao glorificar Maria – a primeira criatura a assumir em corpo e alma a glorificação definitiva – aviva a nossa esperança, porque se trata de uma criatura como nós.
Para que a nossa ressurreição final fosse possível, Jesus deixou-nos um penhor e força infinita na Santíssima Eucaristia.
Por isso, a Igreja insiste com solicitude para que participemos da Missa Dominical e comunguemos com as necessárias disposições.
Seguindo o caminho de Maria, chegaremos à glorificação final.



Queridos irmãos e irmãs!
Celebramos hoje a solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria. Trata-se de uma festa antiga, que tem o seu fundamento último na Sagrada Escritura: de facto, ela apresenta a Virgem Maria estreitamente unida ao seu Filho divino e sempre solidária com Ele. Mãe e Filho mostram-se estreitamente associados na luta contra o inimigo infernal até à plena vitória sobre ele.
Esta vitória expressa-se, em particular, na superação do pecado e da morte, isto é, em vencer aqueles inimigos que São Paulo apresenta sempre em conjunto (cf. Rm 5, 12.15-21; 1 Cor 15, 21-26). Por isso, como a ressurreição gloriosa de Cristo foi o sinal definitivo desta vitória, também a glorificação de Maria no seu corpo virginal constitui a confirmação final da sua plena solidariedade com o Filho tanto na luta quanto na vitória.
Deste profundo significado teológico do mistério fez-se intérprete o Servo de Deus o Papa Pio XII ao pronunciar, a 1 de Novembro de 1950, a solene definição dogmática deste privilégio mariano. Ele declarava: «Deste modo a venerável Mãe de Deus, arcanamente unida a Jesus Cristo desde toda a eternidade com o mesmo decreto de predestinação, Imaculada na sua Conceição, Virgem ilibada na sua divina maternidade, generosa Sócia do Divino Redentor, que alcançou um triunfo pleno sobre o pecado e sobre as suas consequências, no final, como supremo coroamento dos seus privilégios, pôde ser preservada da corrupção do sepulcro e, tendo vencido a morte, como já o seu Filho, ser elevada em alma e corpo à glória do Céu, onde resplandece Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos» (Const. Munificentissimus Deus: AAS 42 [1950], 768-769).
Queridos irmãos e irmãs, elevada ao céu, Maria não se afastou de nós, mas permanece ainda mais próxima e a sua luz projecta-se sobre a nossa vida e sobre a história da humanidade inteira.
Atraídos pelo esplendor celeste da Mãe do Redentor, recorramos com confiança àquela que do alto nos guarda e nos protege. Todos temos necessidade da sua ajuda e do seu conforto para enfrentar as provas e os desafios de cada dia; precisamos de a sentir mãe e irmã nas situações concretas da nossa existência. E para poder partilhar um dia também para sempre o seu mesmo destino, imitemo-la agora no dócil seguimento de Cristo e no generoso serviço aos irmãos. Este é o único modo para saborear, já na nossa peregrinação terrena, a alegria e a paz que vive em plenitude quem alcança a meta imortal do Paraíso (papa Bento XVI, Angelus, 15 de agosto de 2007)
Fernando Silva - Geraldo Morujão

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Bendita és tu, Maria! Hoje, Jesus ressuscitado acolhe a sua mãe na glória do céu… Hoje, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça da sua mãe a coroa de doze estrelas…
Primeira leitura: Maria, imagem da Igreja.Como Maria, a Igreja gera na dor um mudo novo. E como Maria, participa na vitória de Cristo sobre o Mal.
Salmo: Bendita és tu, Virgem Maria!A esposa do rei é Maria. Ela tem os favores de Deus e está associada para sempre à glória do seu Filho.
Segunda leitura: Maria, nova Eva.Novo Adão, Jesus faz da Virgem Maria uma nova Eva, sinal de esperança para todos os homens.
Evangelho: Maria, Mãe dos crentes. Cheia do Espírito Santo, Maria, a primeira, encontra as palavras da fé e da esperança: doravante todas as gerações a chamarão bem-aventurada!
Resplandece a Rainha, Senhor, à Vossa destra!
A hodierna Liturgia põe-nos diante do fúlgido ícone da Assunção da Virgem ao céu, na integridade da alma e do corpo. No esplendor da glória celeste brilha Aquela que, em virtude da sua humildade, se fez grande diante do Altíssimo, a ponto de todas as gerações a chamarem bem-aventurada (cf. Lc. 1,48). Agora senta-se como Rainha ao lado do Filho, na eterna bem-aventurança do paraíso e do Alto olha para os seus filhos.
Com esta consoladora certeza, dirigimo-nos a Ela e invocamo-la para aqueles que são os seus filhos: para a Igreja e para toda a humanidade, a fim de que todos, imitando-a no fiel seguimento de Cristo, possam alcançar a pátria definitiva do céu.
Resplandece a Rainha, Senhor, à Vossa destra!
Primeira entre os remidos pelo sacrifício pascal de Cristo, hoje Maria resplandece como Rainha de todos nós, peregrinos rumo à vida imortal.
N'Ela, que foi elevada ao céu, é-nos manifestado o eterno destino que nos aguarda para além do mistério da morte: destino de felicidade total, na glória divina. Esta perspectiva sobrenatural sustém a nossa peregrinação quotidiana. Maria é a nossa Mestra de vida. Olhando para Ela, compreendemos melhor o valor relativo das grandezas terrenas e o pleno sentido da nossa vocação cristã.
Desde o nascimento até à gloriosa Assunção, a sua existência desenrolou-se ao longo do itinerário da fé, da esperança e da caridade. São estas as virtudes, florescidas em um coração humilde e abandonado à vontade de Deus, que adornam a sua preciosa e incorruptível coroa de Rainha. São estas as virtudes que o Senhor pede a cada fiel, para o admitir na glória da Sua própria Mãe.
O texto do Apocalipse, há pouco proclamado, fala do enorme dragão vermelho que representa a perene tentação que se apresenta ao homem: preferir o mal ao bem, a morte à vida, o prazer fácil do desempenho à exigente mas saciante via de santidade para a qual cada homem foi criado. Na luta contra «o grande Dragão... a antiga Serpente, o Diabo ou Satanás, como lhe chamam, o sedutor do mundo inteiro» (Ap. 12, 9), aparece o grandioso sinal da Virgem vitoriosa, Rainha de glória, sentada à direita do Senhor.
E nesta luta espiritual, a sua ajuda à Igreja é determinante para alcançar a vitória definitiva contra o mal.
Resplandece a Rainha, Senhor, à Vossa dextra!
Maria brilha sobre a terra, «enquanto não chegar o dia do Senhor... como sinal de esperança segura e de consolação aos olhos do povo peregrinante de Deus» (Lumen gentium, 68). Como Mãe solícita de todos, sustém o esforço dos crentes e encoraja-os a perseverar no empenhamento. Penso aqui de maneira muito particular nos jovens, que estão mais expostos ao fascínio e às tentações de mitos efêmeros e de falsos mestres.
Queridos irmãos, olhai para Maria e invocai-a com confiança!  Maria ajudar-vos-á a sentir-vos parte integrante da Igreja, encorajando-vos a não ter medo de assumir as vossas responsabilidades de testemunhas credíveis do amor de Deus.
Hoje, a Virgem elevada ao céu mostra-vos aonde conduzem o amor e a plena fidelidade a Cristo na terra: até à alegria eterna do céu.
Maria, Mulher revestida de sol, diante dos inevitáveis sofrimentos e das dificuldades quotidianas, ajuda-nos a fixar o olhar em Cristo.
Ajuda-nos a não ter medo de O seguir até ao fim, mesmo quando o peso da Cruz nos parecer excessivo. Faz-nos compreender que só este é o caminho que leva ao ápice da salvação eterna.
E do céu, onde resplandeces como Rainha e Mãe de misericórdia, vela sobre cada um dos teus filhos.
Orienta-os a amar, adorar e servir a Jesus, o bendito fruto do teu seio, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria!
papa João Paulo II


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A Mulher da Aliança
Ao abrir o livro do Apocalipse nos encontramos com uma mulher junto à arca da Aliança. Aliança é o que Jesus fez na Última Ceia e em cada uma das Eucaristias que fazemos em sua memória: os que formam seu grupo, os que se consideram discípulos seus até para dar a vida, os que se comprometem a fazer do Amor o objeto de sua vida, e o selam através do Corpo e do Sangue do Senhor. A Aliança é a entrega mutua dos homens e Deus.
Pois bem, aquela mulher que aparece aproximando-se da Aliança de Deus simboliza Maria, porém também toda a comunidade cristã: Ela é a Mulher da Aliança, como nos somos o Povo da Aliança nova e eterna:
que temos dado a mão a Deus e queremos lutar ao seu lado contra os dragões que podem ameaçar-nos;
que temos sido iluminados e coroados pelo Senhor, e queremos ir pintando o mundo de amor: de luz, de estrelas e de sol... eliminando as sombras e escuridões, e levantando os que encontramos caídos;
que temos reservado um bom lugar no céu ao lado de Deus.
Esta Mulher está vestida de sol.
É uma mulher brilhante, luminosa, vital, quente, como o sol espanta as sombras e ajuda a encontrar o caminho.
Que faz possível a vida, que provoca a vida e faz crescer a vida, e Ela mesma “dá a luz” a Vida, a Cristo Jesus.
Que envolve tudo com sua alegria, com sua energia, com sua vitalidade, como o sol.
Vestida por Deus, vestida de Deus, sustentada no mais alto por Deus, habitada por Deus coroada com 12 estrelas. Não é uma mulher solitária, afastada do resto dos homens, como se fosse uma criatura especial. As 12 estrelas da sua Coroa simbolizam o povo dos 12 apóstolos. Ela nasceu do nosso povo é o melhor da nossa raça - depois de Jesus - e chega até Deus de mãos dadas conosco, nos elevando em direção ao céu. Como nos chegamos a Deus dando-nos fraternalmente a mão.
O Evangelho a mostra CAMINHANDO DEPRESSA pela montanha. Não é uma mulher parada, escondida, escondida em sua casa; não parece que tenha se preocupado com a prudência de repousar sua gravidez, de sentir-se importante, de esperar que venham servi-la...  Não. Está mais preocupada com o que poderia precisar a sua prima grávida. Porque se é a escrava, a Serva de Deus, ela sabe que o Senhor sempre quer estar perto dos pequenos e necessitados.
É uma mulher lutadora, valente, rebelde, ousada. Nada a ver com essa Maria que normalmente nos presenteiam: Dócil, conformada, nas nuvens, passiva, ao lado dos ricos e poderosos e ela mesma com jóias e sentada em tronos. É a que enfrenta a cara do Dragão, símbolo do poderoso mal que sempre visa nos destruir, nos afastar de Deus para nos dominar como senhor, para nos manipular conforme seus interesses. O Dragão é a injustiça, a desigualdade, a manipulação, a violência, o ódio, o materialismo, etc. O Dragão então era o Império Romano perseguidor dos cristãos. Porém é também qualquer poder, qualquer sociedade, qualquer estrutura lesiva ao homem, ou a tentativa de manipular, de submeter, destruir.
É com quais ARMAS esta mulher enfrentava a cara do Dragão? Quais são as armas dos que querem enfrentar ao lado de Deus o mal que quer destruir a sociedade?
Sua arma (e a nossa) chama-se Jesus de Nazaré e seu Evangelho. Assim:
Ante a injustiça, ela proclama que o Senhor derruba do trono os poderosos, enche os famintos de bens, e os ricos os deixa sem nada. Ele quer que se estenda o Reino da justiça, da igualdade, da vida, da verdade e fraternidade.
Ante a violência do nosso mundo e de nossos corações, ela quer dar a luz ao Príncipe da Paz: "Eu desejo-vos a paz, Eu vos dou a minha paz..."
Quando surgem as divisões, os enfrentamentos, os conflitos pessoais; quando nos sentimos desorientados, com medo, na defensiva... Ela nos reúne em oração para pedirmos ao Espírito Santo que faça possível a comunhão, o perdão, a valentia, para nos sentir filhos e filhas do mesmo Pai e por isso irmãos...
Quando há tantos caminhos na sociedade, quando não estão claros os valores importantes, quando desejamos enveredar por estilos de vida egoístas, sem solidariedade, individualistas, ela nos recorda que a felicidade está nas Bem-aventuranças, em Jesus, que é Caminho, Verdade e Vida. Que “façamos o que Ele nos tem dito”. O que Ele nos diz.
E quando nos chega o sofrimento, quando à hora da morte se aproximar, ela é sinal luminosa no céu, esperança forte e sinal de triunfo do Cristo Ressuscitado sobre a dor, o mal e a morte. Ele foi o primeiro em vencer (segunda leitura) e depois triunfarão todos os seus. A primeira  - logicamente - sua mãe; e depois a seguirão os apóstolos, os mártires, os santos, e todos os que têm lutado contra o poder do Dragão:
os que tem dito com suas palavras e sua vida: “Aqui esta a escrava do Senhor”;
os que como ela tem guardado a Palavra no coração;
os que como ela nas bodas de Caná, se dão conta do que falta, falam primeiro com o Senhor, e logo se colocam em movimento para que façamos o que Ele nos diz;
os que têm escutado as Palavras de Jesus na cruz, e as tem recebido como sua Mãe, mãe da comunidade de discípulos, que sabem reunir-se para orar e buscar a vontade de Deus, pedindo continuamente o Espírito, um novo Pentecostes.
Então, hoje, celebramos a Festa da Assunção, isto é, uma Festa:
Dos lutadores contra os muitos dragões que também hoje atacam o homem e sua dignidade.
Dos que querem mudar o mundo desde o lado dos humildes, e fugir dos tronos e dos poderes.
Dos que trabalham para construir comunidades de irmãos
Dos que confiam em que seu destino é vestir-se de sol, receber a coroa do triunfo que nos tem preparado Cristo, e habitar no céu próximo de Deus.
Enrique Martínez



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«Dou-vos a minha paz» (Jo. 14,27)
A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. Com toda a exatidão e propriedade ela é chamada «obra da justiça» (Is. 32,7). É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por uma mais perfeita justiça. […] Por esta razão, a paz nunca se alcança duma vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. Além disso, como a vontade humana é fraca e ferida pelo pecado, a busca da paz exige o constante domínio das paixões de cada um e a vigilância da autoridade legítima. Mas tudo isto não basta. […] Absolutamente necessárias para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros homens e povos e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar.
A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, Príncipe da Paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os homens; restabelecendo a unidade de todos num só povo e num só corpo, extinguiu o ódio e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor. Todos os cristãos são, por isso, insistentemente chamados a, «praticando a verdade na caridade» (Ef. 4,15), unirem-se aos homens verdadeiramente pacíficos para implorarem e edificarem a paz. […]
Na medida em que os homens são pecadores, o perigo da guerra ameaça-os e continuará a ameaçá-los até à vinda de Cristo; mas na medida em que, unidos em caridade, superam o pecado, superadas ficam também as lutas, até que se realize aquela palavra: «com as espadas forjarão arados e foices com as lanças. Nenhum povo levantará a espada contra outro e jamais se exercitarão para a guerra» (Is. 2,4).
Concílio Vaticano II
«Gaudium et spes», § 78