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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 3 de maio de 2016

ASCENSÃO DO SENHOR-C

ASCENSÃO DO SENHOR


8 de Maio de 2016

1ª Leitura - At 1,1-11

Salmo - Sl 46,

2ª Leitura - Ef 1,17-23

Evangelho - Lc 24,46-53




Jesus prometeu o envio do Espírito Santo, o qual para revestir os apóstolos do poder do Alto. Leia mais.



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Preparação para a missão
Em todos os evangelhos, a Ascensão de Jesus aparece como o início da missão da Igreja (cf. ano A e B). Isso fica especialmente claro no relato do arrebatamento de Jesus no fim do evangelho de Lc, antecipando a Ascensão narrada no início dos Atos dos Apóstolos. Jesus explica aos Onze a reta compreensão das Escrituras, o verdadeiro sentido do messianismo de Jesus (messias padecente, mas exaltado por Deus). Explica-lhes também que agora está na hora de cumprirem-se as profecias de Isaías a respeito da missão universal do povo de Deus: ser luz das nações, propagar a salvação até os confins da terra (Is. 2,3; 49,6; 42,6; cr. At. 1,8;). Assim como Jesus foi “luz das nações” desde sua primeira apresentação em Jerusalém (Lc. 2,32), a Igreja o será, a partir de Jerusalém, cumprindo a missão daquele que agora é seu Senhor (24,47). Deus visitou seu povo e seu templo (Ml 3). Agora, Jerusalém torna-se, apesar da incredulidade de seus chefes, o centro de onde sai a salvação para o mundo inteiro (cf. Is. 49,21-22; 55,4-5; 56,7; 60,1ss etc.). Para isso, porém, é preciso que os Apóstolos recebam a força do Altíssimo: o Espírito (cf. At. 2).
Quando os Apóstolos, depois da ascensão de Jesus, voltam a Jerusalém, eles passam o tempo em oração: preparam-se para receber “a força do Alto”, o Espírito que impelira Jesus em sua missão. Como ele sempre orava, assim rezam eles agora.
A missão de Jesus tornou-se a de sua Igreja. Depois dele, a Igreja deve ser a luz para as nações, “saindo de Jerusalém”. Hoje, Jerusalém já fica longe para trás, e a Roma dos imperadores também. A Igreja do Cristo glorioso chegou à periferia do mundo, aos “confins da terra” (At. 1,8; 1ª leitura). Na “periferia do mundo ” brilha a luz das comunidades-testemunha, que por sua fraternidade, solidariedade, justiça e amor atestam que Jesus é verdadeiramente o Senhor da Glória.
Johan Konings "Liturgia dominical"




O Evangelho deste domingo traz o último relato do Evangelho de Lucas, idêntico ao início do livro dos Atos dos Apóstolos, onde Jesus volta para a casa do Pai. Lucas termina seu Evangelho no mesmo lugar onde começou, no Templo. Local onde Zacarias recebeu o anuncio da vinda de João Batista, que viria preparar o caminho para a chegada de Jesus, e agora termina com os Apóstolos reunidos em louvor esperando a vinda do Espírito Santo de Deus, para lhes fortalecer no cumprimento da missão de levar a Palavra de Deus a todas as nações.
Jesus antes de Sua ascensão entrega a seus onze Apóstolos a grande missão, de anunciar Sua mensagem a todas as nações, começando por Jerusalém que se torna com isso o local de onde parte a Salvação para o mundo inteiro, cumprindo assim as Escrituras (Is. 2,3; 49,6). Por esta razão a ascensão de Jesus marca o início da missão da Igreja em continuidade à Sua própria, devendo com isso ser Luz para as nações.
Com a Ascensão de Jesus fecha-se o ciclo do Mistério Pascal (Morte, Ressurreição e ascensão). Jesus volta para a casa do Pai, o que não significa distanciamento, e sim uma maior proximidade, pois Ele se encontra no mais íntimo de cada pessoa, sendo fonte de água viva a todo aquele que dela desejar beber.
A Ascensão do Senhor é a coroação da sua Ressurreição, após as humilhações que sofreu no Calvário. É a volta ao Pai, por Ele anunciada.
E a reação de alegria, de reconhecimento e de expectativa dos discípulos à Ascensão é semelhante à reação do povo no Antigo Testamento quando ‘a glória do Senhor apareceu para todo o povo… que O aclamou e se prostou com o rosto por terra em sinal de adoração’ (Lv. 9,23-24). Eles reconhecem que Jesus realizou o Projeto do Pai, e por isso é digno de adoração. E a alegria dos discípulos é, também, por saberem que Jesus não lhes foi tirado, mas que Ele se manifestará no seu Espírito, a fonte de sustentação para a caminhada dos cristãos.
Pequeninos do Senhor



Eis que a boa nova se completa
Jesus recorda aos seus discípulos a trajetória redendora de sua vida como cumprimento das Escrituras: era necessário que padecesse. O caminho incluiu sofrimento que, na dimensão bíblico-teológica, resultou na ressurreição.
Eis que, agora, os discípulos estão legitimados para a missão: pregar a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações.
A missão visa a conversão e o perdão dos pecados. Dádiva, Graça da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Sob a força do Prometido de seu Pai, os discípulos, entendem a missão, adoram o seu Mestre e Redentor e dirigem-se à Jerusalém, cheios de júbilo.
padre Jaldemir Vitório


Promessa do envio do Espírito Santo
É a ascensão do Senhor que lhes permite afirmar que ele, por sua ressurreição, está junto do Pai, sentado à sua direita. Tanto no Evangelho de Lucas como nos Atos dos Apóstolos, que é a segunda parte da obra lucana, o relato da Ascensão é precedido da promessa do envio do Espírito Santo e da missão confiada aos discípulos de serem testemunhas de Jesus Cristo (Lc. 24,47-49; At. 1,8).
Se o Evangelho dá uma breve notícia, dizendo simplesmente que “afastou-se deles e foi levado ao céu” (Lc. 24,51), os Atos dedicam um espaço maior à ascensão (At. 1,9-11).
O Cristo Ressuscitado continua a ter palavra e a ensinar os apóstolos, mas não de viva voz, e sim pelo Espírito Santo, que faz na comunidade dos discípulos a memória de Jesus, atualiza e esclarece suas palavras e move ao testemunho. Pela ação do Espírito, a presença do Senhor podia e pode ser sentida e reconhecida em todos os âmbitos da vida. É no cotidiano da existência humana que o Senhor se deixa encantar. A sua “elevação” é sentida em todos os lugares e em todo tempo.
Os três versículos que narram a ascensão nos Atos têm por finalidade instruir os discípulos. Em primeiro lugar, a ascensão é uma profissão de fé: tendo ressuscitado dos mortos, Jesus Cristo foi elevado ao céu. Nesse sentido, o relato não se oferece ao exercício ótico nem deve aguçar a imaginação, perguntando-se como se deu esta elevação. A imagem apresentada é ajuda para a intelecção da fé.
Em segundo lugar, o relato da ascensão visa responder à pergunta pelo onde e como encontrar o Ressuscitado elevado ao céu. O verbo “elevar” no passivo – “foi elevado” (v. 9.11), chamado de passivo divino, indica que foi Deus, o Pai, quem o elevou. “Uma nuvem o envolveu” (v. 9). A nuvem é, na tradição bíblica, símbolo da presença de Deus (ver: Ex. 13,22). Jesus entra no mistério de Deus; no que é seu, antes da criação do mundo.
Os dois mensageiros celestes auxiliam na compreensão do mistério: “Esse Jesus que vocês viram ser elevado ao céu, virá, assim, do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (v. 11). Agora, não depois, o modo da presença de Jesus Ressuscitado é envolto no mistério. Ele se oferece para o reconhecimento na nossa própria humanidade e nas vicissitudes do tempo e da história: “Por que ficais parados, olhando pra o céu?” (v. 11). Neste novo tempo é a fé que permite ver.
Na fé a “elevação” de Jesus não é sentida como ausência, mas como uma forma de presença. O fruto desta presença é a alegria: “Em seguida olharam para Jerusalém, com grande alegria” (Lc. 24,52).
Carlos Alberto Contieri,sj




Celebramos hoje a Ascensão do Senhor: Cristo não somente foi ressuscitado pelo Pai, que derramou sobre ele o Espírito
Santo, Senhor que dá a vida, mas também, neste mesmo Espírito, recebeu do Pai, como verdadeiro homem, todo o poder no céu e na terra. É este o sentido da festa de hoje. Mas, vejamo-lo por partes.
Cristo Jesus, ao ressuscitar, saiu da morte e entrou na glória do Pai. A ressurreição e a ascensão são dois momentos, dois aspectos de um único acontecimento: a glorificação do Cristo feito homem e entregue à morte. Jesus não ressuscita, passa quarenta dias aqui na terra e, somente depois, vai para o Pai. Não. Ele já ressuscita no Pai, sua páscoa é passar deste mundo, atravessando o vale da morte, para entrar no Pai, saindo da morte. O que os Atos dos Apóstolos narram na primeira leitura de hoje, não é a ida de Jesus ao Pai, mas a despedida solene de Jesus, o fim daquele período de encontros do Ressuscitado, glorificado com o Pai, com os seus logo após a ressurreição.
Então, qual a diferença entre a ressurreição e a ascensão? Na ressurreição, contemplamos o Cristo totalmente glorificado pelo Pai na força do Espírito. Toda a sua natureza humana, corpo e alma, foi divinizada, impregnada pela vida divina, que é o Espírito Santo. Jesus, agora, é um homem totalmente novo, totalmente “espirituado”, totalmente glorificado, divinizado na sua humanidade. É este o mistério da ressurreição. Mas, há mais: ao ser glorificado, ele, que é uma pessoa divina, é entronizado com todo o poder no céu e na terra: ele, ressuscitado, é constituído Senhor do universo, Senhor da história, Senhor da nossa vida. É isto que a Escritura e a Tradição querem dizer ao afirmar que ele está “sentado à direita de Deus Pai”: ele tem o mesmo poder do Pai, ele recebeu o senhorio sobre tudo. Mas, não já o tinha antes? Não! Tinha como Verbo eterno e divino; mas, agora, é o Verbo como Filho feito homem que recebe tal poder! É este o significado da ascensão. Um de nossa raça está dentro da Trindade, um de nossa raça é Senhor do céu e da terra, um de nossa raça é Senhor dos anjos, um de nossa raça está no topo de todas as coisas. É o que dirá a oração após a comunhão da Missa de hoje: “Deus eterno e todo-poderoso... fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade”.
São Lucas exprime esta realidade, nos Atos dos Apóstolos, afirmando que Jesus “foi elevado ao céu” e “uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. Não pensemos aqui numa subida espacial, como se o Senhor Jesus fosse fazer uma viagem pelo espaço sideral, de um lugar para o outro. O “subir”, aqui, tem um sentido qualitativo: subiu para uma vida superior, para uma plenitude que não é deste mundo. Ele, agora, está totalmente imerso no mundo de Deus. É este o significado da nuvem que o encobre. Ela é símbolo do Espírito que, divinizando-o completamente, coloca-o diretamente no âmbito de Deus Pai. Por isso já não podemos mais vê-lo com os olhos da carne.
Mas, a partida de Jesus não é um afastamento de nós. Ele estará, para sempre, interior e realmente, presente no coração da Igreja e de cada fiel através da potência do seu Espírito Santo. É o mistério que celebraremos no domingo próximo. Na glória, sentado à direita do Pai, ele agirá sempre como “Cabeça da Igreja, que é seu corpo”, vivificando-a, sustentando-a, e conduzindo-a sempre mais a ele, até que venha “do mesmo modo como o vistes partir”.
Para nós, a solenidade hodierna tem dois aspectos muito importantes. O primeiro, a certeza que, por mais incerta e sem sentido que muitas vezes a realidade e a nossa vida apareçam, há um Senhor no céu, há o Cristo, que tudo tem, amorosa e poderosamente, em suas mãos. Recordemos o que diz a segunda leitura: o Pai “manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro”. Não há o que temer, cristão: teu Senhor é aquele que tudo dirige, tudo conduz e tudo plenifica. Tu e o mundo em que vives, tu e a história em que caminhas, estão nas mãos daquele que se senta no trono, à direita do Pai. Finalmente, ao olhar para o céu, contemplamos, glorioso, aquele que é nossa Cabeça, aquele de cujo Corpo somos membros. Pois bem, a sua glória é antecipação e garantia da nossa, como dizia a oração inicial da Missa: “membros do seu Corpo, somos chamados a participar da sua glória”.
Caríssimos, não tenhamos medo! Ainda que com os olhos da carne não possamos contemplar aquele que é o nosso Senhor e reina sobre tudo, sustentados pelo Espírito Santo e com os olhos da fé, temos a certeza que este mundo e nossa vida têm um sentido e são conduzidos pelo Crucificado que foi glorificado à direita do Pai. Renovemos o nosso ânimo e recordemos que o Senhor nos convida a voltar cheios de alegria, como os apóstolos, e sermos testemunhas suas em toda a terra. Sejamos fiéis ao mandato do Senhor, fortalecidos pela esperança que a festa de hoje suscita em nós. É assim que glorificaremos o Cristo, bendito para sempre.
dom Henrique Soares da Costa




A solenidade da Ascensão de Jesus que hoje celebramos sugere que, no final de um caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, em comunhão com Deus. Sugere, também, que Jesus nos deixou o testemunho e que somos agora nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projecto libertador de Deus para os homens e para o mundo.
O Evangelho apresenta-nos as palavras de despedida de Jesus que definem a missão dos discípulos no mundo. Faz, também, referência à alegria dos discípulos: essa alegria resulta do reconhecimento da presença no mundo do projecto salvador de Deus e resulta do fato de a ascensão de Jesus ter acrescentado à vida dos crentes um novo sentido.
Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo caminho de Jesus. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projeto de Jesus.
A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa esperança de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside nesse “corpo”.
1ª leitura: Atos 1,1-11 - AMBIENTE
O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar- se, de forma plena e inequívoca, o projeto salvador de Deus?
É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projeto de salvação e libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.
MENSAGEM
O nosso texto começa com um prólogo (vs. 1-2) que relaciona os “Atos” com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são, também, apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.
Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vs. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentadas no próprio dia da Páscoa – cf. Lc. 24). O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.
As palavras de despedida de Jesus (vs. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus  ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O último tema é o da ascensão (vs. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.
Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (v. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.
Temos, depois, a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex. 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.
Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (v. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projeto de libertação do homem e do mundo.
Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (v. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o caminho de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.
ATUALIZAÇÃO
♦ A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos que uma vida vivida na fidelidade aos projetos do Pai é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo caminho de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.
♦ A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?
♦ O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia?
Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa atividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?
♦ Não é invulgar ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus vivem a olhar para o céu e ignoram os dramas da terra. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens?
2ª leitura: Ef. 1,17-23 - AMBIENTE
A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60. Alguns vêem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia.
Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da carta e faz parte de uma acção de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam com todos os irmãos na fé.
MENSAGEM
À ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf. Col. 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”. O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A ideia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1Cor. 6,12-20;10,16-17;12,12-27; Rm. 12,3-8); mas nas cartas do cativeiro, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para refletir, sobretudo, sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.
Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).
Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa, ainda, que a Igreja/“corpo” está submetida à obediência a Cristo/“cabeça”: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.
Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação onde Cristo Se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).
ATUALIZAÇÃO
♦ Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição de Cristo é a garantia da nossa própria ressurreição. Formamos com Ele um “corpo”, destinados à vida plena. Esta perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse caminho do amor e da entrega total que Cristo percorreu.
♦ Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo corpo, alimentados pela mesma vida.
♦ Dizer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude o projeto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela ação dos crentes, Cristo for “um em todos”.
Evangelho: Lc. 24,46-53 - AMBIENTE
O Evangelho de hoje situa-nos no dia de Páscoa. Cristo já se manifestou aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo (cf. Lc 24,36-43). No texto que nos é proposto, apresentam-se as últimas instruções de Jesus (cf. Lc 24,44-49) e a ascensão (cf. Lc 24,50-53).
Ao contrário dos “Atos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e ascensão são colocados – aqui – no mesmo dia, o que parece mais correto do ponto de vista teológico: ressurreição e ascensão não se podem diferenciar; são apenas formas humanas de falar da passagem da morte à vida definitiva junto de Deus.
MENSAGEM
O nosso texto está dividido em duas partes: despedida dos discípulos (vs. 46-49) e ascensão (vs. 50-53).
Na primeira parte temos, portanto, as palavras de despedida de Jesus. Os discípulos que fizeram a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas, a pregar a conversão (“metanoia” – a transformação radical da vida, da mentalidade, dos valores) e o perdão dos pecados (ou seja, o anúncio de que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência para iniciarem uma vida de Homens Novos). Para esta tarefa ingente, os discípulos contam com a ajuda e a assistência do Espírito. Temos também, aqui, todos os elementos daquilo que será a futura missão da Igreja. O testemunho apostólico terá como tema central a morte e ressurreição de Jesus, o Messias libertador anunciado pelas escrituras (vs. 44.46). Desde Jerusalém, esta proposta deve ser anunciada a todas as nações. Este “percurso” será explicitado no livro dos “Atos”.
Na segunda parte, Lucas descreve a ascensão, situada em Betânia. Há duas indicações de Lucas que importa realçar. A primeira é a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai: essa bênção sugere um dom que vem de Deus e que afeta positivamente toda a vida e toda a ação dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus. A segunda é a alegria dos discípulos: a alegria é o grande sinal messiânico e escatológico; indica que o mundo novo já começou, pois o projeto salvador e libertador de Deus está em marcha.
ATUALIZAÇÃO
♦ A ressurreição/ascensão de Jesus convida-nos a ver a vida com outros olhos – os olhos da esperança. Diz-nos que o sofrimento, a perseguição, o ódio, a morte, não são a última palavra para definir o quadro do nosso caminho; diz-nos que no final de um caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até às últimas consequências, está a vida definitiva, a vida de comunhão com Deus. Esta esperança permite-nos enfrentar o medo, os nossos limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos fazedores de pecado e permite-nos olhar com serenidade para esse qualquer coisa de novo que nos espera, para esse futuro de vida plena que é o nosso destino final.
♦ A ascensão de Jesus e, sobretudo, as palavras finais de Jesus, que convocam os discípulos para a missão, sugerem a nossa responsabilidade na construção desse mundo novo onde habita a justiça e a paz; sugerem que a proposta libertadora que Jesus fez a todos os homens está agora nas nossas mãos e que é nossa responsabilidade torná-la realidade; sugerem que nós, os seguidores de Jesus, temos de construir, com o esforço de todos os dias, o novo céu e a nova terra. Sentimos, de fato, esta responsabilidade? Preocupamo-nos em tornar realidade no mundo os gestos libertadores de Cristo? Procuramos construir, no dia a dia, esse mundo novo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz?
♦ A alegria que brilha nos olhos e nos corações desses discípulos que testemunham a entrada definitiva de Jesus na vida de Deus tem de ser uma realidade que transparece na nossa vida. Os seguidores de Jesus, iluminados pela fé, têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que os espera, no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que o projeto salvador e libertador de Deus está a atuar no mundo, está a transformar os corações e as mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o Homem Novo.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


quarta-feira, 27 de abril de 2016

6º DOMINGO DA PÁSCOA-DIA DO TRABALHO-C

6º DOMINGO DA PÁSCOA

DIA DO TRABALHO

1 de Maio de 2016

Evangelho - Jo 14,23-29



Hoje é o dia mundialmente dedicado ao trabalhador.  Aquele que acorda cedo e sai de casa ainda escuro, e quando volta para casa já está escuro novamente.  Leia mais


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“SE ALGUÉM  ME AMA, GUARDARÁ  A MINHA PALAVRA...” – Olivia Coutinho

6º DOMINGO DA PÁSCOA

Dia 1º de Maio de 2016

Evangelho de Jo 14,23-29

Ao nos enviar Jesus, Deus manifestou o seu desejo de participar da nossa vida! E Jesus, por sua vez, quer que nós, ligados a Ele, participemos da vida do outro, no sentido de criar laços de fraternidade e de cumplicidade  entre irmãos!
Acolher a palavra de Jesus e colocá-la em prática é dar a Ele uma resposta de amor! Viver a dinâmica da escuta e da resposta a esta palavra de vida, é estar continuamente em comunhão com o Filho e com o Pai! 
Não são com palavras bonitas, com longas orações, que daremos testemunho do nosso amor a Jesus e sim, com as nossas atitudes do dia a dia!
De nada adianta, erguermos as nossas mãos para louvar o Senhor da vida,  se não nos dispusermos  em  ser as  mãos de Jesus,  para reerguer o irmão que está no chão!
Quando damos passos no sentido de dar vida a palavra de Jesus, estamos preparando o nosso coração para ser a sua morada, o santuário, de onde Ele poderá agir no mundo em favor do outro!
O amor é a presença de  Deus  em nós, e Jesus é a revelação deste amor!
Ninguém se realiza longe do amor, o amor é vital em nossas vidas, é a força que nos move o alimento que nos sustenta!  A falta de amor nos paralisa, pode até nos causar doenças!
A nossa adesão a Jesus, parte da nossa disposição em permanecer no seu amor sendo fiel aos seus mandamentos, como Ele fora fiel ao querer do Pai!
Quem ama, faz a vontade da pessoa amada, portanto, se amamos verdadeiramente Jesus, faremos a vontade de Deus, como Jesus sempre fez!
No evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, Jesus, continuando o seu discurso de despedida, visa fazer brotar nos corações dos discípulos, sentimentos positivos, garantindo-lhes que mesmo na sua ausência física, eles não estariam sós!
As palavras consoladoras de Jesus, dirigidas aos discípulos, nos consolam também, chegam até a nós, como uma injeção de ânimo a nos encorajar, afinal, Ele nos garantiu que nós  nunca estaremos sós!
Respondendo a uma pergunta feita por Judas, não, o Iscariotes, (Jo14,22) Jesus, disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra e o meu Pai o amará...”
A vida cristã, deve ser alicerçada no acolhimento à palavra de  Jesus! Ele  só se manifesta à aqueles que o ama, pois estes, guardam as sua palavra.  Ao mundo, Jesus  não se manifesta, porque o mundo despreza a sua palavra!
A palavra de Jesus, não encontra ressonância no coração de quem não o ama!
Guardar a palavra de Jesus é o mesmo que trazer para nossa vida, o seu modo de viver! 
Quem guarda a  palavra de Jesus, caminha com segurança sem temer os desafios, pois sabe, que ele  poderá contar sempre com a ajuda do Espírito Santo, que o fará recordar a palavra guardada, palavra,  que o orientará nas encruzilhadas da vida!
Ter a palavra de Jesus, guardada no coração, é ter segurança, é ter permanentemente à nossa disposição, um “manual” de instrução a nos orientar! 
O amor foi e é, a fonte inspiradora de Jesus, quem observa e põe em prática a sua palavra, com certeza, O ama verdadeiramente!
Só um amor que pressupõe vínculos estreitos de relação com Jesus, a ponto de nos transformar, pode garantir o êxito da nossa caminhada de fé!
A melhor escola de amor para todos nós, é sem dúvida, o exemplo  de Jesus! E ao trazer para nossa vida o exemplo de Jesus, nós criamos caminhos de fraternidade!
“Deixo-vos a paz, minha paz vos dou...” Estas palavras de Jesus que encorajaram os discípulos, nos encorajam também, nos tira do comodismo e nos coloca na dinâmica do Reino!
Quando falamos de paz, pode nos vir a ideia de uma situação externa, onde não há conflitos abertos, no entanto, a paz verdadeira, é um estado interior de contentamento  mesmo nas adversidades!
 No final do texto, Jesus assegura aos discípulos de que, os acontecimentos que estavam por vir, não poriam fim na relação entre eles! A nós também, Jesus assegura: se guardarmos as sua palavra, nada nos separará Dele!
Quanto maior a nossa intimidade com a palavra de Jesus,  maior é a nossa identificação com Ele na vivencia do amor!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Quem ama Jesus ouve sua palavra. Meditada e praticada em comunidade, a Palavra produz muitos e bons frutos. O Espírito Santo, dom de Deus, recorda aos discípulos tudo o que o Mestre ensinou. Uma comunidade que ama é, por excelência, o espaço sagrado, pois nela habita a Trindade. Onde mora Deus, há a verdadeira paz (evangelho). O Espírito Santo também inspira e fortalece os discípulos de Jesus para continuarem sua missão. Como anunciadores da verdade do evangelho, encontram oposições por parte dos que seguem as propostas do mundo. A paz de Deus é diferente da paz que o mundo dá. A paz de Deus não é ausência de conflitos. No dinamismo do Espírito Santo, os seguidores de Jesus precisam encontrar-se, dialogar, discernir e decidir pelo melhor caminho (1ª leitura). As comunidades cristãs são convidadas a acolher a “nova Jerusalém”, a cidade da paz, que desce do céu, fruto da graça divina e da fidelidade dos que ouvem sua palavra. É a nova humanidade, cujos alicerces se encontram no testemunho dos apóstolos, os quais viram, acolheram e transmitiram a palavra da vida: Jesus Cristo morto e ressuscitado (2ª leitura). Iluminados e encorajados pelo mesmo Espírito Santo, continuamos a testemunhar a fé em Jesus, reunindo-nos para rezar, para comungar a palavra-eucaristia, para dialogar, discernir e viver o amor, conscientes de que a Trindade fez sua morada no meio de nós.
Evangelho: Jo 14,23-29
Ser humano, morada de Deus
A redação do Evangelho de João se dá ao redor do ano 100. Constitui-se numa reflexão pós-pascal das comunidades joaninas. O texto deste domingo faz parte do discurso de despedida de Jesus junto aos seus discípulos. Percebe-se íntima relação entre Jesus e Moisés. Assim como Moisés fora enviado para guiar o seu povo rumo à terra prometida, Jesus foi enviado por Deus para dar a vida à humanidade. Assim como Deus se manifestou no Êxodo por meio de dez sinais, Jesus realiza sete sinais libertadores. Assim como Deus revelou, por meio de Moisés, os Mandamentos como estatutos para o povo de Israel, Jesus revela o Mandamento do Amor, estatuto do novo povo de Deus, conforme o texto do domingo passado.
Há, porém, uma novidade radical, sintetizada no texto da liturgia de hoje. É fruto da experiência de fé, ao longo da caminhada das comunidades joaninas, que iluminou a compreensão da pessoa e da proposta de Jesus: ele e o Pai vivem intimamente unidos. O que Jesus diz e faz é a própria expressão de Deus Pai. Jesus e o Pai são UM. A intimidade amorosa entre ambos estende-se às pessoas que praticam o amor. Nelas Deus faz sua morada. O mesmo foi dito do Espírito Santo (v. 17). Então, a pessoa que crê torna-se morada da Trindade. Cumpre-se a antiga promessa da habitação de Javé no meio de seu povo: “Estabelecerei a minha habitação no meio de vós e não vos rejeitarei jamais. Estarei no meio de vós, serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Lv 26,11s). Em João, porém, é ainda mais profundo: a habitação divina não se dá apenas “no meio”, mas “dentro”. É uma experiência única e maravilhosa.
A comunidade cristã, portanto, é a expressão viva de Deus-Amor. As pessoas participantes ouvem a sua palavra, que é o próprio Jesus feito carne, presente no meio delas. O Espírito Santo, dom do amor de Deus, recorda todos os ensinamentos de Jesus. Como ouvintes e praticantes da Palavra, unidas na fé e no amor, as comunidades cristãs transformam-se num espaço da paz e da alegria de Deus. O termo “paz”, na Bíblia, expressa a síntese dos bens necessários para uma vida plena, tanto temporais como espirituais.
1ª leitura: At. 15,1-2.22-29
Conflitos fazem parte da caminhada
Após a primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé permaneceram algum tempo na comunidade cristã de Antioquia da Síria. Ela se tornou importante centro irradiador da proposta cristã. A experiência que trouxeram da viagem foi partilhada e meditada na comunidade. O principal ponto polêmico levantado por Lucas, neste texto, é a questão da circuncisão. Trata-se de polêmica suscitada por judeu-cristãos que manifestam ainda muita dificuldade de desvencilhar-se da lei judaica como constitutiva da salvação. Alguns deles se deslocam de Jerusalém para Antioquia a fim de pregar a obrigatoriedade da circuncisão como manifestação de fidelidade à Lei de Moisés. A seu ver, somente assim se poderia obter a salvação.
Paulo e Barnabé, missionários junto às nações, não concordam com essa obrigatoriedade, pois a verdadeira fonte de salvação é Jesus Cristo. Com tal convicção dirigem-se à Igreja-mãe, Jerusalém. O conflito é evidente. Para discernir qual o caminho a ser seguido, é convocada uma assembleia. Realizou-se, então, o que é normalmente conhecido por “Concílio de Jerusalém”. Estamos no ano 49.
O relato de Lucas tem a preocupação de mostrar a disposição dos participantes desse “concílio” para salvar a unidade da Igreja. Percebe-se isso, especialmente, pela acolhida mútua e carinhosa entre os representantes da Igreja de Antioquia e os de Jerusalém. A unidade vem junto com a preocupação de inclusão de toda a gente, pois a salvação que Jesus trouxe é para todos os povos. O decreto final determina a abstenção de algumas atitudes que feriam profundamente a fé judaica: das “carnes sacrificadas aos ídolos”, pois isso significaria participar dos cultos pagãos, o que seria um sacrilégio; do “sangue e das carnes sufocadas”, pois o sangue expressa a própria vida, que só a Deus pertence (por isso, ao ser sacrificado, o sangue do animal deveria ser totalmente derramado – cf. Lv. 1,5); das “uniões ilegítimas” (cf. Lv. 18). Transparece claramente, nas decisões da assembleia, uma estratégia pastoral com o objetivo mais alto: proporcionar a acolhida do evangelho da salvação por todas as culturas.
2ª leitura: Ap. 21,10-14.22-23
A nova humanidade
Os dois últimos capítulos do Apocalipse apontam para a nova criação, em que já não há lugar para a maldade. O texto da liturgia deste domingo relata essa visão utópica que se dá num alto monte. Na tradição judaica, a montanha carrega um significado simbólico de muita importância. Basta lembrar a concessão dos Mandamentos a Moisés e a morte salvadora de Jesus. Também a Jerusalém histórica se situa no monte Sião.
O alto monte contrasta com o deserto para onde o visionário João havia sido levado anteriormente (cf. 17,3). Enquanto o deserto é, simbolicamente, a morada da meretriz, a montanha é o lar da Noiva de Cristo, a nova Jerusalém constituída pelo povo justo. A meretriz representa a “Babilônia”, nome simbólico de Roma, promotora da morte e da destruição. A nova Jerusalém é a cidade perfeita que desce do céu trazendo a própria glória de Deus. A muralha, grossa e alta, tendo os anjos como guardas, está totalmente protegida e segura.
O número doze é articulado no texto como expressão da nova realidade da qual participa o novo povo de Deus. É o número da perfeição teocrática que lembra as doze tribos de Israel, os doze apóstolos e, por extensão, o povo fiel a Jesus Cristo. Esse número cruza-se com o número três, referindo-se quatro vezes às portas abertas para os quatro cantos do mundo. É, portanto, a realidade-síntese de um mundo novo.
A cidade perfeita é dom de Deus. Nela já não há templo, pois toda ela é habitação divina. Essa perspectiva teológica do Apocalipse aponta para a realização plena do desígnio de Deus inaugurada com a vinda de Jesus, o Messias. Ele é o Cordeiro: a lâmpada que ilumina a cidade. A situação da humanidade transformou-se. Seu relacionamento com Deus se dá de forma íntima, perfeita e definitiva. A aliança é plenamente acolhida e vivida com fidelidade.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A utopia do “novo céu e da nova terra” exerceu um papel de resistência, de coragem e de perseverança nas comunidades cristãs do Apocalipse. As violentas perseguições pelas quais passaram as pessoas discípulas de Jesus, por causa do testemunho de fé em Jesus Cristo, desafiaram a sua fidelidade. Muitas foram mortas. O seu martírio, porém, é o sinal por excelência que ilumina e confirma o caminho do seguimento de Jesus.
O testemunho dos primeiros cristãos nos interpela profundamente. A fidelidade aos valores evangélicos permanece como caminho para um mundo novo. É neste mundo onde vivemos que Deus deseja estabelecer sua morada. Tudo, então, torna-se sagrado. Quando nossas palavras e nossas ações respeitarem a presença de Deus em cada ser humano, na natureza e em toda a sociedade, o mundo será outro...
No evangelho, Jesus anuncia e garante a presença de Deus Trindade nas pessoas que o amam e ouvem a sua palavra. Desta verdade decorre o nosso compromisso de contemplar cada pessoa como morada de Deus e, portanto, respeitá-la em sua dignidade. Daí decorre também o nosso compromisso de proteger e promover a vida em todas as suas dimensões. Como faz a mãe com relação aos seus filhos, amando-os sem discriminação, dando prioridade àquele que mais necessita, somos todos convidados a adotar esse mesmo jeito de amar em nossa comunidade e na sociedade por meio da participação nas pastorais, movimentos, organizações...
Por isso, iluminados pelas atitudes dos primeiros discípulos e missionários, reunimo-nos em comunidade para celebrar, realizar encontros e assembleias para discernir e decidir o que fazer, tendo em vista a vida digna sem exclusão...
Celso Loraschi

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A nova habitação do Altíssimo
Estamos terminando o alegre e jubiloso tempo pascal. No próximo domingo comemoramos a Ascensão do Senhor e em quinze dias estaremos festejando o Espírito que vem no vento e no fogo. Vamos aprofundando nossa fé no Ressuscitado.
O Apocalipse nos leva para o céu. O autor da página hoje proclamada é levado a uma alta montanha. O anjo lhe mostra uma nova Jerusalém, esplendorosa Jerusalém que desce do céu.  Com a subida de Jesus para junto do Pai o sinal de sua presença, o sacramento de sua presença no mundo será a Igreja, santa e em estado de conversão.  Sempre se interpretaram textos referentes à Nova Jerusalém como aplicáveis a essa Igreja que conserva a memória do Cristo e atualiza sua presença em sinais e gestos. O autor do Apocalipse não encontra imagens suficientemente deslumbrantes para descrever a beleza da  Cidade Nova.  Seu brilho era semelhante ao brilho da pedra de jaspe.  A Cidade Nova é cercada de muros  maciços e altos  com doze portas, os doze apóstolos. Curiosamente esta nova Cidade não tinha templo. O Cordeiro é seu centro.  “A muralha da cidade  tinha doze alicerces, e sobre eles estavam  escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.”  E o vidente não consegue enxergar templo.  O templo da  Cidade Nova é o próprio  Senhor e o Cordeiro. Eles constituem o templo. “A cidade não precisa de sol, nem de lua que iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz e a lâmpada é o cordeiro”. Assim, no seio da Igreja, a nova Jerusalém, vivemos em convivemos com o Cordeiro esperando sua última manifestação.
O texto do quarto evangelista tem o mesmo tema sob um outro ângulo.  Os que amam o Senhor atraem a presença do Senhor, passam a ser habitação do Altíssimo:  “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o meu Pai o amará e nos viremos a ele e faremos nele a nossa morada”.  Assim, para além dos templos de pedra há templos vivos da Trindade no meio das pessoas mais simples. Na medida em que pessoal, mas de modo especial em fraternidades, as pessoas amam o Senhor vão se constituindo em templos vivos do Senhor. Johan Konings afirma: “Na caridade fraterna,  Deus e o  “Cordeiro” moram conosco. A cidade de Deus não é uma grandeza de ficção científica, nem uma cristandade sociologicamente  organizada. Ela é uma realidade interior, atuante em nós e, naturalmente, produzindo modificações no mundo em que vivemos. Ela é obra do Espírito d Deus que nos impele”.
Essa Nova Jerusalém, a  Cidade Nova, é esposa do Cordeiro.
frei Almir Ribeiro Guimarães

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Viver na presença de Cristo e de Deus
A nova Jerusalém é a “morada de Deus com os homens”, dizia-nos a utopia que escutamos domingo passado. Mas uma utopia serve para mostrar o sentido da realidade presente. Hoje, a liturgia insiste na presença da utopia de Deus: a “inabitação” de Deus nos homens não acontece apenas na utópica Nova Jerusalém, mas em cada um que guarda a palavra do Cristo, seu mandamento de amor. Pois a palavra do Cristo não é sua, mas a do Pai que o enviou (Jo 13,24; evangelho).
Os discípulos não entenderam isso logo. Por isso, grande parte dos primeiros anos do cristianismo decorreu em “tensão escatológica”: aguardava-se a vinda de Cristo com o poder do alto, a Parusia, como instauração do Reino de Deus. Só aos poucos, o cristãos começaram a entender que a nova criação já tinha iniciado, na própria comunhão do amor fraterno, testemunho do amor de Cristo a todos os homens. Esta compreensão, esta “memória esclarecida” de Cristo é uma das realizações, talvez a mais importante, do Espírito Santo.
Neste tempo intermediário, não devemos ficar com medo ou tristes porque Cristo não está conosco. Ele permanece conosco, neste Espírito, que nos faz experimentar a inabitação em nós dele e do Pai – portanto, muito mais do que significa sua presença na terra, pois o Pai vale mais do que a presença física de Cristo (14,28). Ele permanece conosco também no dom messiânico que ele nos deixa, a “paz”, porém, não como o mundo a concebe (14,27). Escrevendo isso, Jo parece polemizar com a idéia de paz dos tratados políticos (3) e também com o conceito judaico da paz messiânica, a realização de um Reino de Deus mundano, dirigido pelas mesmas leis e mecanismos que dirigiram os reinos até agora, portanto, uma paz que prepara a guerra …
Antes de ver o que é, no concreto, a inabitação de Deus e de Cristo entre nós hoje, é bom olhar para a sugestiva descrição da nova Jerusalém, na 2ª leitura (cf. domingo passado). Observemos alguns detalhes: os nomes das doze tribos de Israel e dos doze apóstolos, símbolos do novo povo de Deus fundamentado sobre os apóstolos; a ausência do templo – idéia cara ao N.T., já que Cristo substituiu o templo de Jerusalém pelo de seu corpo ressuscitado (cf. Jo 2,18-22 etc.); sua “iluminação”: a glória de Deus, e o Cordeiro, sua lâmpada. Não se deve explicar muito essas imagens, importa captar o que querem sugerir, num espírito global. É uma cidade que tem doze portas com os nomes das doze tribos, para acolhê-las no dia em que elas forem reunidas dos quatro ventos, para viverem na paz messiânica, tendo por centro só e exclusivamente Deus e o Cordeiro. É a cidade para viver na presença de Deus e Cristo. E isto é a paz.
Nossa comunidade cristã deve ser a antecipação da Jerusalém celeste. Tendo Cristo por centro e luz, certamente haverá unidade e comunhão entre seus habitantes. A 1ª  leitura de hoje pode ilustrar isso. O conflito na comunidade era grave, certamente tão grave quanto hoje o conflito entre os defensores da cristandade e os de uma Igreja-testemunha, despojada, que vai ao encontro dos mais pobres. O problema era análogo: a Igreja devia ser concebida como uma instituição acabada, à qual os outros se deveriam agregar? Neste caso, ela podia conservar suas instituições tradicionais, que eram judaicas. Ou seria a Igreja um povo a ser constituído ainda, aberto para a forma que o Espírito lhe quisesse dar? Para este fim, Paulo e Barnabé procuraram a união dos irmãos em redor daquilo que o Espírito tinha obrado junto com eles. Conseguiram. Não esforçaram em vão (cf. Gl. 2,2). O “Concílio dos Apóstolos”, como se costuma chamar este episódio (At. 15), confirmou a prática de admitir pagãos sem passar pelas instituições judaicas (circuncisão, sábado etc.). Apenas, em nome da mesma união fraterna, os cristãos do paganismo deviam abster-se de quatro coisas que eram realmente tabu para os judeu-cristãos; não respeitar isso seria tornar a vida em comunidade impossível. A caridade fraterna acima de tudo!
Na caridade fraterna, Deus e “o Cordeiro” moram conosco. A cidade de Deus não é uma grandeza de ficção científica, nem uma cristandade sociologicamente organizada. Ela é uma realidade interior, atuante em nós e, naturalmente, produzindo também modificações no mundo em que vivemos. Ela é obra do Espírito de Deus que nos impele.
(3) - Cf. a pax romana, ideologia da supremacia romana no mundo mediterrâneo no tempo de Cristo e dos primeiros cristãos.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Espírito Santo e paz
Hoje, Jesus começa falando novamente do amor: “Quem me ama obedecerá a minha palavra, e meu Pai o amará.”, reforçando mais uma vez a importância do verdadeiro amor já descrito no Evangelho da semana passada (Jo 13,31-35), porém agora, destaca a necessidade da ação da obediência por parte de seus seguidores às palavras proferidas por Ele e que vêm do Pai.
Esta passagem tem intenção de testamento-herança: Este é o momento em que Jesus se despede de seus seguidores, mas não os deixa sozinhos na missão, pois o Pai lhes enviará Seu Espírito Santo, para lhes amparar, orientar e fortalecer. Os discípulos não compreendem de imediato a presença do Espírito Santo, e sentem-se abandonados, uma vez que Jesus não está mais presente fisicamente junto a eles. Esta presença física de Jesus é substituída pela espiritual, interior, prometida a todos que O amam. Por esta razão, nos primeiros anos do cristianismo, os seguidores de Jesus ficaram aguardando Sua volta, e só aos poucos compreenderam que a nova criação havia começado na comunhão do amor fraterno de Cristo com a humanidade, compreensão esta que só é possível com a presença do Espírito Santo.
Jesus deixa seu Espírito Santo, para auxiliar e defender Seu povo. Ele é a presença de Jesus sempre viva junto à comunidade, ajudando-a a compreender o sentido das ações e das mensagens que quer transmitir com elas, para assegurar ao Seu povo, através dos tempos, a verdadeira libertação. A função do Espírito na caminhada da comunidade é lembrar e ajudar a interpretar a palavra de Jesus à luz de sua morte e ressurreição.
No momento de sua morte, Jesus deixa como herança a Sua Paz. É difícil compreender este desprendimento de falar de paz e alegria num momento de dor e aflição e, só à luz do Espírito Santo esta mensagem pode ser compreendida, vendo a morte não como o fim, mas como o começo de uma nova vida; e a paz por Ele deixada, não é esta paz humana que precede a guerra, mas uma paz verdadeira que vem da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte. Uma Paz que nesta vida não dispensa o sofrimento, mas infunde coragem para enfrentar sem medo a luta para conservar a fé em Deus. 
Pequeninos do Senhor

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Sob a guia do paráclito
Pensando em sua ausência futura, Jesus tomou providências para que os seus discípulos não se sentissem abandonados, ao se verem entregues à missão, sem a presença física de seu Mestre. Esta sua falta, no entanto, haveria de ser compensada com a presença do Paráclito - o Defensor - que daria continuidade ao papel desempenhado por Jesus, junto aos discípulos.
O Paráclito iria ensinar-lhes todas as coisas, outrora transmitidas por Jesus, e recordar-lhes todas as orientações transmitidas. Ou seja, assumiria a função magisterial, antes desempenhada pelo Mestre. Os discípulos não teriam necessidade escolher um dos membros do grupo como mestre dos demais. Todos continuariam a ser discípulos do Mestre Jesus, pela mediação do Paráclito.
Por conseguinte, não deveriam esperar novidades por parte do Paráclito. Sua missão consistiria em fazê-los compreender, sempre mais e melhor, o que já havia sido transmitido por Jesus, mas, quiçá mal assimilado. O Espírito Santo iluminaria, aprofundaria e atualizaria as palavras do Filho de Deus, nos contextos plurais de desempenho da missão. Em cada circunstância concreta, as palavras do Senhor haveriam de revestir-se de apelos novos, pela luz oferecida pelo Paráclito.
O discípulo não pode dispensar o auxílio do Paráclito se deseja conservar sua fidelidade ao Senhor.
padre Jaldemir Vitório

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O Sopro de Deus em nós
O trecho do evangelho deste domingo é parte do discurso de despedida de Jesus (13,31–14,31). Trata-se, aqui, de encorajar os discípulos para que não desanimem ante as perseguições, paixão e morte de Jesus. A paz que o Senhor oferece para a missão e a constância dos discípulos é a sua própria vida, pois ele é o “fazedor de paz” (Mt. 5,9), o “príncipe da paz” que, entrando em sua cidade, Jerusalém, reconciliou pela sua entrega a humanidade com Deus. A paz é um dos primeiro dons do Cristo Ressuscitado. O Senhor promete a sua volta: “Voltarei a vós” (Jo 14,28). Não se trata de retorno à vida terrestre. A missão do Espírito Santo é tornar o Cristo presente a nós e sua palavra viva em nós. No Espírito Santo, a partida de Jesus não é sentida como ausência, pois ele estará conosco “todos os dias até os fins dos tempos” (Mt. 28,20). O Espírito Santo, dom de Deus, não permite que a palavra de Jesus fique sem sentido ou caia no esquecimento; o Sopro de Deus em nós ensina e recorda tudo o que Jesus disse. A fé é necessária para manter viva em nós a Palavra do Senhor e não sucumbirmos diante das dificuldades na realização da missão, que é participação na missão daquele que, enviado pelo Pai, passou por este mundo fazendo o bem, sofreu a paixão e morreu crucificado, mas ressuscitou ao terceiro dia.
O Apocalipse, livro escrito em fins do primeiro século, busca encorajar os cristãos a permanecerem firmes na fé e a guardarem a palavra de Cristo em meio à perseguição. A Igreja, lugar da habitação de Deus, é iluminada pelo Senhor: “A cidade não precisa de sol nem de lua que a iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz, e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap. 21,23). A Igreja, fiel ao Senhor, não tem o que temer, pois o Senhor está no seu meio qual uma luz. Sob essa luz nenhum mal pode se esconder, e não há o que possa levá-la a tropeçar. A luz de Deus e do Cordeiro desvela as armadilhas do mal, as falsas doutrinas que buscam se impor como verdadeiras e necessárias. A questão sobre a circuncisão dos pagãos, como, queriam alguns, necessária para a salvação, leva os apóstolos a darem uma resposta apostolicamente criativa e teologicamente brilhante. É um duplo problema que está presente na questão apresentada: o da unidade da Igreja e o da salvação. Para a unidade da Igreja é fundamental a aceitação da diferença – a unidade só é possível por causa da diferença. Em segundo lugar, não é a Lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo.
Que neste dia, o primeiro da semana, sejamos iluminados para que todos os demais dias sejam vividos neste mesmo clarão.
Carlos Alberto Contieri,sj

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No domingo passado, dizíamos que a Igreja é fruto da Páscoa do Senhor, que ela nasceu do lado do Cristo morto e ressuscitado, que ela vive e continua a nascer da água do Batismo e do sangue da Eucaristia, que o Senhor, na sua fidelidade, haverá de levá-la à plenitude, que até lá, a Igreja deve ser sinal vivo do Reino de Deus entre as provações da história e deve viver no amor – herança que o Senhor nos deixou...
No domingo presente, a Palavra de Deus continua a nos falar da Igreja, dessa Comunidade do Ressuscitado, Comunidade que peregrina já há dois mil anos na história humana, como um povo tão pobre, tão débil, humanamente falando, mas também tão rico e tão forte pela presença do Ressuscitado entre nós.
É ainda o Apocalipse que nos apresenta, de modo belíssimo, a glória da Jerusalém celeste, Esposa do Cordeiro, nossa Mãe católica: “Mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, brilhando com a glória de Deus” – Esta Jerusalém gloriosa é a Igreja! Ela não nasce do povo, não nasce de um projeto humano; ela nasce do coração do Pai, que, através do Filho Jesus, doador do Espírito, chamou-nos, reuniu-nos, salvou-nos e fez de nós um novo povo, uma nova cidade, uma nova aliança, início de uma nova humanidade. A Igreja é a verdadeira Jerusalém, a verdadeira Cidade de Deus, que desce do céu e que é santificada pelo sangue do Cordeiro e, um dia, será totalmente transfigurada na glória de Deus. Não na sua própria glória, mas na de Deus, aquela glória que já brilha na face do Cristo ressuscitado!
Ela é a herança e a realização plena do antigo povo de Israel, ela é a plenitude do povo de Israel, é o Israel da nova aliança. Por isso, “nas suas portas estavam escritos os nomes das doze tribos de Israel”. Mas, a Igreja é mais que Israel: ela é aberta a todos os povos, suas portas são abertas para todos os lados: “havia três portas do lado do oriente, três portas do lado norte, três portas do lado sul e três portas do lado do ocidente”. A nova Jerusalém é católica, é aberta a todos, aberta em todas as direções, pois nela todos os povos, todas as culturas terão abrigo. A Igreja não é simplesmente uma continuação do antigo Israel e a nova aliança não é simplesmente uma continuação da antiga! Não somos judeus! Em Cristo, tudo foi renovado: “Eis que eu faço novas todas as coisas!” (Ap. 21,5). Se a Igreja tem nas suas portas os nomes das doze tribos de Israel, tem, por outro lado, como alicerce, o doze apóstolos do Cordeiro: “A muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro”. Isso aparece muito claramente na primeira leitura da Missa de hoje: os apóstolos, assistidos pelo Espírito Santo, decidiram que os cristãos vindos do paganismo não necessitavam tornarem-se judeus, não precisavam cumprir a Lei de Moisés! Os cristãos não são uma seita judaica! É interessante como os apóstolos, ao tomarem uma decisão tão importante, tinham consciência de que eram assistidos pelo Espírito do Cristo ressuscitado: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...” - foi o que eles disseram... o que a Igreja ainda hoje diz, quando os bispos, sucessores dos apóstolos, decidem algo sobre a fé, em comunhão com o Sucessor de Pedro. A Igreja sabe e experimente que o seu Esposo ressuscitado não a abandona; não a abandonará jamais! Recordemos a promessa de Jesus no Evangelho de hoje: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará o que eu vos tenho dito”. Este Espírito Santo santifica continuamente a Igreja, guia-a, sustenta-a, vivifica-a, orienta-a! Ele é a própria vida do Ressuscitado em nós, seja pessoalmente, seja como comunidade de fé. Por isso Jesus olha para nós e pode dizer com toda verdade e segurança e com toda eficácia: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou! Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou e voltarei a vós!’” – É verdade: o Ressuscitado permanece conosco na potência do seu Espírito! Não precisamos ter medo, não precisamos nos sentir sozinhos, confusos, abandonados: na potência do Espírito, o Cristo estará sempre conosco!
É por isso que o Autor sagrado afirma ainda: "Não vi nenhum templo na cidade, pois o seu Templo é o próprio Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro. A cidade não precisa de sol, nem de luz que a iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro”. Que imagens, irmãos e irmãs! A Igreja, nova Jerusalém está toda imersa em Deus e no seu Cristo. Ela mesma é templo de Deus no Espírito Santo! Ela vive na luz do Cristo, apesar de caminhar nas trevas deste mundo! Para o mundo, que somente pode enxergar a Igreja na sua realidade exterior, ela é apenas mais uma instituição, entre tantas do mundo. Mas, para nós, que cremos, para nós somos Igreja viva, para nós que dela nascemos e nela vivemos, para nós que nos nutrimos de seus sacramentos, ela é muito mais, ela é este admirável mistério de fé! É isto que queremos dizer quando dizemos: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. Renovemos nossa fé na Igreja e mergulhemos cada vez mais no seu mistério, pois é aí, é aqui, que podemos viver na nossa vida o mistério e a salvação do Cristo, nosso Deus.
Gostaria de terminar com as palavras de Carlo Carreto: “Como és contestável para mim, Igreja! E, no entanto, como te amo!
Como me fizeste sofrer! E, no entanto, quanto te devo!
Gostaria de te ver destruída. E, no entanto, tenho necessidade de tua presença.
Deste-me tantos escândalos! E, no entanto, me fizeste compreender a santidade.
Nunca vi nada de mais obscurantista, mais comprometido e mais falso no mundo. Mas também nunca toquei em nada tão puro, tão generoso e tão belo!
Quantas vezes tive vontade de bater em tua cara a porta de minha alma! E quantas vezes orei para um dia morrer em teus braços seguros!
Não, não posso me libertar de ti, porque eu sou tu, mesmo não sendo completamente tu!
Além disso, aonde iria eu? Construiria outra?
Mas não poderia construí-la, senão com os mesmos defeitos, porque são os meus defeitos que levo para dentro dela.
E, se a construísse, seria a minha igreja e não a Igreja de Cristo!
E já estou bastante velho para compreender que não sou melhor que os outros.”
dom Henrique Soares da Costa