SANTÍSSIMA TRINDADE
DOMINGO 26 DE M AIO
Comentário Prof.Fernando
Introdução
-SANTÍSSIMA TRINDADE -
José Salviano
O
mistério da Trindade Santa não poder ser entendido pela razão ou pela
inteligência, humana, mas sim, pela FÉ. Sem fé não é possível compreender e
aceitar o mistério de um Deus Uno e Trino.
Pela inteligência o ser humano não tem condições de penetrar nos
mistérios de Deus, de conhecer a sua essência, de entender plenamente como Deus
é. Continua...
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TRINDADE:
MODELO DE VIDA PARA A VIDA DA COMUNIDADE! Olívia Coutinho
DOMINGO DA SANTÍSSIMA
TRINDADE
Dia
26 de Maio de 2012
Evangelho de Jo 16,12-15
Mais uma vez, nos unimos no mesmo
espírito de fé, para com muita alegria, celebrar a festa da Santíssima
Trindade! É a festa do amor, quando a Igreja nos
convida a contemplar o mistério inefável e insondável da Trindade Santa!
Mergulhar na profundidade deste mistério, é fazer a experiência da imensidão do
amor de Deus, que para relacionar-se conosco, quis se fazer família: como Pai,
Ele nos criou, como Filho nos redimiu e, como Espírito Santo nos
santifica.
Ao Colocar esta festa no domingo
seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo
é uma festa da Santíssima trindade, pois o domingo é o dia do
Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos
santificou, descendo sobre a igreja nascente. Por tanto, todo domingo, devemos
contemplar este mistério Trinitário!
No antigo testamento, não se fala da
Família Trinitária, é Jesus quem a revelou a nós, entreabrindo o véu que
encobria de nossos olhos a grande alegria de poder fazer parte da família de
Deus: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
No evangelho de hoje, vemos mais uma vez, a preocupação de Jesus
com os discípulos, que tinham muita dificuldade em compreender os
acontecimentos que estavam por vir! Na sua grande compreensão, Jesus
insiste em fazer brotar em seus corações,
sentimentos positivos, garantindo-lhes que tudo que até então, era de difícil
compreensão para eles, lhes tornaria claro, quando eles tivessem
revestidos da presença iluminadora do Espírito Santo.“Tenho ainda
muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreender agora. Quando,
porém vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá a verdade.” Estas palavras
de Jesus, dirigidas aos discípulos, nos estimulam, a estarmos
sempre abertos a ação do Espírito Santo e embebidos no amor de Deus
Pai, que tudo fez para não nos deixar órfãos!
Na celebração deste domingo, a palavra
central que deve ressoar nos nossos ouvidos e entrar no nosso
coração, é a “confiança”, confiança na família Trinitária, onde
encontramos o amparo do Pai, a segurança do Filho e a força iluminadora
do espírito Santo!
O Espírito Santo, é a permanente presença de Jesus em nós, é Ele que nos
faz entender, nas mais diferentes circunstâncias de nossa vida, o
sentido das palavras de Jesus que guardamos em nosso coração. Daí, a
importância de guardarmos sempre as suas palavras, ainda que não
tenhamos entendido-as no momento.
É o Espírito Santo que nos revela a verdade que é Jesus, que
nos faz enxergar o sentido de suas palavras e perceber a sua manifestação
nos acontecimentos. O Espírito Santo é o guia que nos remete ao
Senhor, que nos faz pertencer a família trinitária! A sua presença em nós,
é tão forte, que nos faz enxergar até mesmo o que está oculto aos olhos
do mundo.
As palavras, os sinais de Jesus, estão
constantemente diante dos nossos olhos, seja na Sagrada Escritura, nos
acontecimentos do nosso dia a dia, pena, que nem sempre captamos a sua
mensagem, falta-nos a abertura ao Espírito Santo. Sem esta abertura,
todos os ensinamentos de Jesus, se tornam em vão, passam desapercebidos aos
nossos sentidos, não entram no nosso coração!
“O Espírito Santo não falará por si mesmo,
mas dirá tudo que tiver ouvido...” Esta afirmação de Jesus, vem nos dizer
que nenhuma pessoa da trindade Santa, age individualmente, um
exemplo que deve ser seguido por cada um de nós!
Professar a nossa fé na Santíssima
Trindade, não significa somente reconhecê-la, mas tomá-la como modelo
para nossa vida pessoal e comunitária.
Quando traçamos sobre nós, o sinal da
cruz, invocando a Santíssima Trindade, podemos ter certeza, que novos
horizontes se abrirão para nós e tudo que nos parecer obscuro, tornará
claro!
Viver a vida trinitária é fazer a mesma
trajetória de Jesus, é viver comunitariamente, priorizando sempre os valores do
Reino!
FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia
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Evangelhos Dominicais
Comentados
26/maio/2013 – Santíssima
Trindade
Evangelho: (Jo 16, 12-15)
Muitas coisas ainda tenho para dizer-vos, mas não as podeis
compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a
verdade, porque não falará de si mesmo, mas do que ouvir, e vos anunciará as
coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos
anunciará. Tudo que o Pai tem é meu. É por isso que eu disse: receberá do que é
meu e vos anunciará.
COMENTÁRIO
Hoje a
Igreja comemora uma grande festa, que nos enche de alegria. Comemoramos hoje a
unidade. Celebramos a Festa da Santíssima Trindade: Deus, que é Pai, que é
Filho, e que é Espírito Santo.
O dia de
hoje nos recorda aquele primeiro catecismo, de perguntas e respostas, do tempo
de catequese. Lembra-nos daquela pergunta que a catequista nos fazia: “O Pai é
Deus? O Filho é Deus? O Espírito Santo é Deus?”
A resposta
era dada de forma cantada. Mal acabava de perguntar e respondíamos com toda
força -Siiim! -e novamente a catequista perguntava - então são três deuses? -
Nãão! - gritávamos - são três pessoas distintas, mas um só Deus.
As três
pessoas da Santíssima Trindade são um só Deus, porque todas três têm uma só e a
mesma natureza divina. Não é fácil entender essa verdade que está muito acima
da nossa inteligência. Porém, muito mais importante do que tentar entender, é
aceitar e amar a Trindade Divina.
Para
tentar explicar o mistério da Santíssima Trindade, alguns catequistas a
comparam a um bolo. Os três ingredientes básicos; a farinha, o ovo e o fermento
têm características diferentes, porém juntos, formam uma mistura homogênea.
É
impossível separá-los e um complementa o outro. Talvez esse exemplo ajude, mas
crer na Santíssima Trindade não é uma questão de culinária, de matemática e nem
de lógica, é uma questão de fé.
Jesus, o
Filho, fala que tem ainda muitas coisas para dizer aos discípulos, e que eles
não seriam capazes de entender, pois ainda não haviam recebido o Espírito
Santo. Diz também que, tudo que Deus Pai possui é seu, e que o Espírito da
Verdade os ensinará a entenderem tudo isso.
Temos aqui
a presença da Santíssima Trindade. Um só Deus em três pessoas. Deus que é Pai,
que é Filho e que é Espírito Santo. Um mistério profundo, inexplicável. A razão
não consegue entendê-lo, mas a fé, esta sim, pode aceitá-lo; porque a fé é um
dom de Deus.
Ao Pai, se
atribui de modo especial a obra da criação; ao Filho é atribuída a redenção da
humanidade; e ao Espírito Santo, a renovação da vida. O Espírito Santo é o amor
que une o Pai ao Filho. As três Pessoas divinas estão presentes em tudo. É
consolador sabermos que Deus não é egoísta, nem solitário. É um Deus comunidade
de amor, é família, são três pessoas unidas no amor.
Assim
também somos nós. Quando vivemos a união e o amor fraterno, a partilha e a
solidariedade. Quando realmente vivemos tudo isso na família, no ambiente de
trabalho, na comunidade, seja onde for, estamos dando testemunho da presença do
Deus Trindade.
Portanto,
tudo o que fizermos na vida, vamos fazê-lo em nome da Ssma Trindade. Sempre que
fazemos o sinal da cruz, é o nosso Deus, uno e trino que estamos invocando.
Vamos sempre fazer o sinal do cristão com muita convicção. Fazer o sinal da
cruz em público, ao passar em frente a uma igreja na rua ou no ônibus, é uma
forma de evangelizar, é uma demonstração de fé e coragem.
Vamos nos
aproximar do Deus Trino e como Maria santíssima, viver em nós a plenitude da
presença das três pessoas. Maria, humildemente, deixou o coração se sobrepor à
razão. Acreditou e aceitou o pedido do seu Pai, desposou o Espírito Santo e
tornou-se a mãe do Filho. Veja que boa notícia: O batismo fez de nós Templos de
Deus e morada da Santíssima Trindade.
Com muita
alegria vamos encerrar este nosso momento de fé, dando glórias ao Pai, ao Filho
e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, amém!!!
(1999 - 1170)
jorge.lorente@miliciadaimaculada.org.br – 26/maio/2013
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Terminado
o tempo pascal com a solenidade de Pentecostes, a liturgia celebra a Santíssima
Trindade. Após proclamar nos santos mistérios que o Pai entregou o Filho por
amor ao mundo na potência do Espírito Santo e, no mesmo Espírito Eterno, o
ressuscitou dos mortos para nossa salvação, a Solenidade de agora é um modo que
a Igreja encontra para louvar, engrandecer e adorar na proclamação exultante, o
amor sem fim da Trindade Santa.
Estejamos
atentos: por confessar a fé na Santa Trindade, os cristãos têm um modo
absolutamente original de compreender Deus. Os judeus sabem que Deus é um só;
aquele que os arrancou da terra do Egisto, da casa da servidão. Ouvimos falar
dele na primeira leitura: Reconhece hoje e grava em teu coração, que o Senhor é
o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além
dele". Os muçulmanos afirmam que não há outro Deus a não ser o único Deus
de Abraão. Neste sentido, esta é também a nossa fé. Deus é um só, uma Essência
eterna, infinita, onipotente, imutável. Deus é absolutamente um, que não pode
ser multiplicado nem dividido: ele é Amor todo inteiro, inteiro na Beleza,
inteiro na Infinitude, inteiro na Onipotência e na Onipresença. Pois bem, como
os judeus e como os muçulmanos nós confessamos firmemente que só há um Deus,
absolutamente uno, Senhor do céu e da terra, diferente e para além de tudo
quanto existe, de tudo quanto possamos compreender e imaginar.
No
entanto, caríssimos, contemplando Jesus ressuscitado, todo glorificado, todo
divinizado na sua natureza humana por obra do Espírito de Deus, nós proclamamos
com o Novo Testamento e todas as gerações cristãs, que o nosso Salvador, o
nosso Jesus amado, é Deus bendito pelos séculos, enviado pelo Pai, que é Deus,
para nossa salvação; enviado na potência do Espírito que é também divino e
divinizante, Paráclito que não é algo de Deus, mas Alguém de Deus, uma Pessoa,
na qual o Pai ressuscitou o Filho Jesus e, habitando em nós, dá testemunho da
divindade do Pai e do Filho, enche-nos de vida divina, guia-nos, sustenta-nos,
ilumina-nos. Ouviram, amados, as palavras de São Paulo na segunda leitura?
Davam testemunho das Três divinas pessoas: do Pai que enviando em nós o
Espírito do Filho nos faz filhos no bendito e único filho Jesus. Eis o que
dizia o Apóstolo: "O próprio Espírito se une ao nosso espírito para nos
atestar que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros de
Deus e co-herdeiros de Cristo"... Então, eis a nossa fé, que transborda a
humana lógica, transcende o balbuciar de nossa pobre linguagem, ultrapassa
nossos limitados e tateantes paradigmas: Deus é um só, absolutamente. Enquanto
a natureza humana, apesar de genericamente uma só, se multiplica nos indivíduos
humanos, a natureza divina é absolutamente una, indivisível e imultiplicável,
una não só genérica, mas também numericamente; e, no entanto, essa natureza é,
ao mesmo tempo e perfeitamente, Pai, Filho e Santo Espírito. A natureza divina
está todinha no Pai e, incompreensivelmente, todinha no Filho e, ainda, todinha
no Espírito Santo. A unidade em Deus é incompreensível, absolutamente perfeita
e eterna. Assim sendo, em Deus não há três vontades iguais, mas uma só vontade;
não há três poderes iguais, mas um só poder, não três consciências iguais, mas
uma só consciência. Mais uma vez: Deus é absolutamente UM! E, no entanto, os
três divinos são absolutamente diversos: só o Pai gera, só o Filho é gerado, só
o Espírito é a própria Geração; só o Pai é o Amante, só o Filho é o Amado, só o
Espírito é o Amor.
E
neste amor que circula de modo eterno, perfeito e feliz, o Pai, eterno Amante,
tudo criou através do Filho, eterno Amado, na potência do Espírito Santo,
eterno Amor. E, por isso, o mundo existe, as estrelas brilham, a vida brota e,
sobretudo, nós existimos. Vimos do Pai, pelo Filho, no Espírito; vivemos no Pai
pelo Filho no Espírito; vamos para o Pai, através do Filho no Espírito,
Trindade Santa, nossa vida e plenitude eterna. É assim que os cristãos
confessam o seu Deus como eterno amor, amor vivo e circulante que, gratuita e
livremente, se derrama sobre o mundo e sobre a nossa vida. De fato, nós
conhecemos o amor de Deus e sua vida íntima porque o Pai amou tanto o mundo, a
ponto de enviar o seu Filho e, pelo Filho, derramou no nosso coração o Espírito
do Filho que, em nós, clama Abbá, Pai. Por isso, podemos dizer que Deus é amor
e, quem não ama, não conhece a Deus! E toda esta vida divina, amados, nos é
dada desde o Batismo, quando fomos mergulhados no nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo; e cresce em nós a cada dia, nos sacramentos e na vida cristã,
preparando-nos para nosso destino eterno: plenos do Espírito, sermos totalmente
inseridos no Cristo e nele configurados, para contemplar eternamente o Pai!
Eis
um pouquinho, um balbuciar do mistério da santa, consubstancial e eterna
Trindade, a quem a glória e o louvor pelos séculos dos séculos.
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É
estranho celebrar com uma festa litúrgica a Santíssima Trindade, pois a
Trindade Santa é celebrada em toda a vida cristã e, particularmente, em toda e
cada Eucaristia. Recordemos que a Missa é glorificação da Trindade Santíssima,
na qual o Filho se oferece e é por nós oferecido ao Pai no Espírito Santo, para
a salvação nossa e do mundo inteiro. Mas, aproveitando a festa hodierna,
façamos algumas considerações que nos ajudem na contemplação e adoração desse
Mistério tão santo, que nos desvela a vida íntima do próprio Deus.
Poderíamos
começar com uma pergunta provocadora: como a Igreja descobriu a Trindade?
Descobriu, como duas pessoas se descobrem: revelando-se! Duas pessoas somente
se conhecem de verdade se conviverem, se forem se revelando no dia-a-dia, se se
amarem. Só há verdadeiro conhecimento onde há verdadeiro amor. É costume
dizer-se que ninguém ama o que não conhece; pois, que seja dito também: ninguém
conhece o que não ama. O amor é a forma mais profunda e completa de
conhecimento! Foi, portanto, por puro amor a nós, à nossa pobre humanidade, que
Deus quis dirigir-se a nós, revelar-se, convivendo conosco, abrindo-nos seu
coração, dando-nos a conhecer e a experimentar seu amor... E fez isso
trinitariamente! Então, desde o início, a Igreja experimentou Deus na sua vida
concreta, e o experimentou trinitariamente, como Pai, como Filho e como
Espírito Santo. Antes de falar sobre a Trindade, a Igreja experimentou a
Trindade!
Primeiramente,
o Senhor Deus incutiu no coração do povo de Israel e da própria Igreja que ele
é um só: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é um só!” Um porque não
pode haver outro ao seu lado, Um porque não pode ser multiplicado, Um porque
não pode ser dividido e Um porque deve ser o único horizonte, o único apoio, a
única rocha de nossa existência: ele, o Senhor Deus, é o único absoluto, o
único que é, sem princípio e sem fim, sem mudança e sem limite! Jamais
poderemos imaginar tal grandeza, tal plenitude, tal suficiência de si mesmo!
Deus É – e basta! Tudo o mais apenas existe porque vem dele, daquele que É!
Mas, ele não é um Deus frio: sempre apresentou-se ao povo de Israel como um
Deus amante, um Deus de misericórdia e compaixão, um Deus que não sossega
enquanto não levar à plenitude da vida as suas criaturas. Por isso, com
paciência e bondade, conduziu o seu povo de Israel, formando-o, educando-o,
orientando-o e prometendo um futuro de bênção e plenitude, de eternidade e
abundância de dons, que se concretizaria com um personagem que ele enviaria: o
Messias, seu Ungido.
Esse
Messias prometido, nós, cristãos, o reconhecemos em Jesus, nosso Senhor. Ele é
o enviado de Deus, do Deus único, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, Deus do
povo de Israel. A esse Deus tão grande e tão santo, Jesus chamava de Abbá –
Papai: o meu Papai! A si mesmo, Jesus se chamava “o Filho” – Filho único,
unigênito de Deus, Filho Amado! Mais ainda: o próprio Jesus, que veio para nós
e por amor de nós, agiu neste mundo, em nosso favor, com uma autoridade que
ultrapassava de longe a autoridade de um simples ser humano: ele agia como o
próprio Deus. Não só interpretava a Lei de Moisés, como também a modificou e a
ultrapassou; perdoava os pecados, exigia um amor e uma obediência absolutos à
sua pessoa... amor que somente Deus pode exigir. Jesus se revelava igual ao
Pai, absolutamente unido a ele: “Eu e o Pai somos uma coisa só! Quem me vê, vê
o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em mim”. Após a ressurreição, a Igreja
compreendeu, impressionada, maravilhada: Jesus não somente é o enviado daquele
Deus a quem chamava de “Pai”, mas ele é igual ao Pai: ele é Deus como o Pai, é
eterno como o Pai, é o Filho amado pelo Pai desde toda a eternidade. Então, o
Deus de Israel é Pai, Pai eterno, Pai eternamente, que eternamente gera no amor
o Filho amado. Por amor, ele nos enviou este Filho: “Verdadeiro homem,
concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a condição
humana, menos o pecado. Anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a
liberdade, aos tristes, a alegria”. E para realizar o plano de amor do Pai,
“entregou-se à morte e, ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou a
vida”.
Mas,
há ainda mais: o Filho, ressuscitado e glorificado, derramou sobre seus
discípulos o Espírito Santo, que é o próprio Amor que o liga ao Pai. Este
Espírito de Amor não é uma coisa, não é simplesmente uma força, não é algo: é
Alguém, é o Amor que une o Pai e o Filho, e agora é, na Igreja de Cristo, o
Paráclito-Consolador, Aquele que dá testemunho de Jesus morto e ressuscitado,
Aquele que vivifica e orienta a Igreja, Aquele que renova em Cristo todas as
coisas. Ele é o Dom que o Filho ressuscitado recebeu do Pai e derramou sobre a
Igreja, para santificar todas as coisas. Este Espírito permanece no nosso meio
na Palavra e nos sacramentos; este Espírito conserva a Igreja unida na mesma fé
e na mesma caridade fraterna, este Espírito é a Força divina, a Energia
criadora que nos ressuscitará, como ressuscitou o Filho Jesus para a glória do
Pai.
É
assim que a Igreja confessa um só Deus, imutável, indivisível, perfeito, eterno,
absolutamente um só. Mas confessa e experimenta igualmente que este Deus único
é real e verdadeiramente Pai, Filho e Espírito Santo, numa Trindade de amor
perfeito e perfeitíssima Unidade. A oração inicial da Missa de hoje, exprime
este Mistério: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade, que
é o Filho, e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério.
Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e
adoremos a Unidade onipotente”.
Continuemos,
então, a nossa Eucaristia, na qual torna-se presente sobre o Altar a oferta do
Filho que, por nós, entregou-se ao Pai num Espírito eterno.
Ao
Pai, ao Filho e ao Santo Espírito, Trindade santa a consubstancial, a glória e
o louvor pelos séculos dos séculos.
dom
Henrique Soares da Costa
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A fé em Deus
Trindade nos leva a reconhecer a beleza e a profundidade da realidade humana.
Deus é UM em três pessoas, mistério de amor e comunhão, perfeita unidade na
diversidade. A comunidade humana encontrará a sua verdadeira realização à
medida que buscar conviver numa relação de igualdade entre todos os seus
membros, respeitando as diferenças. Pela fé tivemos acesso a essa revelação.
Pela fé conhecemos a Deus e entramos na sua intimidade. O caminho que nos
conserva na comunhão com Deus e com os irmãos é o da sabedoria. Ela é a
primeira de todas as obras divinas, a que orienta o destino de tudo e de todos
(I leitura). Dessa relação íntima com Deus e com o próximo provêm a paz, a perseverança
nas tribulações e a firmeza no amor, derramado em nossos corações pelo Espírito
Santo (II leitura). Ele nos dá a conhecer toda a verdade revelada em Jesus
Cristo (evangelho). Essa certeza nos faz assumir com convicção e destemor a
missão de testemunhar, no meio deste mundo, o amor que torna possível a
inclusão de todos os seres numa sociedade justa e fraterna, imagem e semelhança
da Trindade santa.
2º leitura
(Rm. 5,1-5): A esperança não decepciona
Um dos temas
prioritários que Paulo se dedica a aprofundar, especialmente na carta aos
Romanos, é o da justificação pela fé. Para ele, não é o cumprimento das leis
nem qualquer obra humana que nos tornam justos diante de Deus. Se assim fosse,
a justificação teria por base os méritos pessoais. Paulo parte da premissa de
que todos somos radicalmente pecadores e, portanto, necessitados da intervenção
gratuita de Deus. Ela se deu em Jesus Cristo, o libertador de todos os pecados.
Por meio dele, Deus realizou sua ação misericordiosa de salvação para todo o gênero
humano.
Percebe-se
que Paulo indica um processo de amadurecimento no caminho da fé, até que, de
livre vontade e com consciência lúcida, aceitemos a Jesus como nosso salvador e
vivamos, como ele nos ensinou, na vontade divina. Pelo seu sangue ele nos reconciliou
com Deus e nos concede a paz em plenitude. A paz de que o texto nos fala
carrega o sentido do termo hebraico shalom, o qual indica o estado de perfeita
intimidade e harmonia entre os seres humanos, com a natureza e com Deus. Dele
provêm todas as bênçãos que garantem uma vida de dignidade, de bem-estar e de
profunda alegria.
A fé,
portanto, não se reduz ao assentimento racional a um sistema doutrinário.
Também não consiste apenas em momentos de oração. A fé é a atitude de entrega
total e confiante a Deus, que nos salva mediante seu Filho, Jesus Cristo. Por
meio dele, pela fé, temos acesso à graça da salvação, nos mantemos e nos
alegramos nela.
Tudo isso
nos motiva a nos gloriar em Deus mesmo nas tribulações, pois “a tribulação
produz a perseverança, a perseverança produz a fidelidade comprovada e a
fidelidade comprovada produz a esperança”. Trata-se da esperança militante,
manifestada por meio do empenho cotidiano em acolher e fazer frutificar o amor
de Deus derramado pelo Espírito Santo em nossos corações. Essa esperança “não
engana”.
Evangelho
(Jo 16,12-15): O Espírito da verdade
O texto faz
parte do “livro da comunidade”, também conhecido como o “livro da glorificação”
(Jo 13-17). Após o gesto do lava-pés, Jesus faz um longo discurso de despedida.
De modo afetuoso, anuncia aos discípulos a sua partida iminente. É um discurso
que possui caráter de testamento. De coração aberto, Jesus revela tudo o que
recebera de seu Pai e demonstra a íntima relação entre ambos. Os discípulos,
porém, demonstram incompreensão diante das palavras de Jesus. Apesar de
conviverem com Jesus por um bom tempo, permanecem num estágio de imaturidade
espiritual. São incapazes de apreender o sentido verdadeiro do testamento de
Jesus. Necessitam de ajuda.
O texto faz,
então, referência ao Espírito Santo, que dará prosseguimento à missão de Jesus.
Ele instruirá os discípulos e os libertará das amarras que impedem o
reconhecimento do Salvador. É o Espírito que conduz à verdade plena que é o
próprio Jesus Cristo, Deus encarnado, conforme já havia anteriormente se
revelado: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). A verdade é, pois,
a própria realidade divina manifestada no amor de Jesus, que entrega sua
própria vida em resgate da vida de todos. Jesus reza para que os discípulos
sejam santificados na verdade (17,17.19) e possam viver na perfeita unidade,
assim como ele e o Pai são UM (17,21-23).
A comunidade
de João demonstra a sua caminhada de amadurecimento na fé em Jesus Cristo. As
novas circunstâncias que emergem do contexto ao redor do final do século I
exigem novas reflexões e novas posturas. Cresce a compreensão a respeito de
Jesus, de sua íntima relação com o Pai e de sua missão de amor neste mundo.
Ilumina-se, com maior profundidade, o sentido da morte e ressurreição de Jesus.
Ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (10,10).
Os
discípulos e discípulas são convidados a abrir-se às novas interpretações e
exigências suscitadas pelo Espírito Santo no contexto histórico em que vivem.
Prestar atenção no Espírito é assumir os desafios da história e viver, com
novas expressões e novo ardor, o mesmo amor revelado em Jesus.
As três
pessoas divinas são manifestamente citadas no texto. Entre elas há perfeita
comunicação e perfeito entendimento. Essa realidade divina, em toda sua beleza
e profundidade, é comunicada por Jesus aos seus discípulos. O Pai deu tudo ao
Filho; assim também o Filho dá a conhecer tudo o que recebeu do Pai aos seus
filhos e filhas. Podemos aqui trazer presente o que são Paulo escreve: “Todos
os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. E vocês não
receberam um espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um
Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai! O próprio
Espírito assegura ao nosso espírito que somos filhos e filhas de Deus. E, se
somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com
Cristo...” (Rm. 8,16-17).
1º leitura
(Pr. 8,22-31): A exaltação da sabedoria
O livro dos
Provérbios apresenta a sabedoria como uma personagem. Ela já estava com Deus
mesmo antes da criação do mundo. Ou melhor: ela é a primeira obra da criação e
toma parte ativa em todas as outras coisas criadas por Deus, como se fosse
mestre de obras ou arquiteto. Deus e a sabedoria, portanto, estão em íntima
comunhão; Deus é a própria sabedoria personificada.
O texto quer
ressaltar que todas as coisas têm sua fonte em Deus; cada ato criador é
manifestação de sua sabedoria eterna e soberana; cada criatura é comunicação de
seu próprio ser infinito. O livro da Sabedoria diz que ela “tudo atravessa e
penetra”, é o próprio “hálito do poder de Deus e a pura emanação da glória do
Onipotente” (Sb. 7,24-25).
O último
versículo desta 1ª leitura revela a imensa satisfação que a Sabedoria encontra
na superfície da terra e o seu prazer de estar entre os seres humanos. A terra
e seus habitantes são obras divinas. A relação íntima da Sabedoria com o
Criador, desde toda a eternidade, ocorre agora com as criaturas. Da mesma
maneira que esteve presente nos atos da criação de Deus, está presente para
governar o universo, conservar a ordem e dirigir a vida dos habitantes da
terra. Vemos que a Sabedoria guarda uma ligação muito estreita com a missão do
Espírito Santo, conforme vai ser concebida no Segundo Testamento.
PISTAS PARA
REFLEXÃO
A festa da
Santíssima Trindade é momento especial para refletir sobre nossa própria
identidade e missão no mundo. Somos a família humana, formada por povos
diversos e de culturas diferentes. Somos homens e mulheres chamados a nos
acolher no respeito mútuo e na igualdade de direitos. Somos diferentes uns dos
outros: na diferença nos completamos. Somos diversos: na diversidade nos
unimos.
No texto da
carta aos Romanos, ouvimos que o amor de Deus se revela com total benevolência
e gratuidade. De nossa parte, resta-nos acolhê-lo com gratidão e perseverar na
fidelidade a esse amor sem limites. A justificação pela fé não legitima
atitudes de egoísmo e acomodação, mas nos incentiva a viver segundo o modo de
Deus agir em nós: na doação plena e gratuita. É um caminhar na esperança
militante que nos faz viver, aqui e agora, a vida plena que nos será dada por
Deus, sabendo que a “esperança não decepciona”.
O livro dos
Provérbios fala da Sabedoria que convive intimamente com Deus. Tudo o que ele
faz é expressão de seu próprio ser; portanto, o universo, com tudo o que nele
existe, é penetrado pelo espírito da sabedoria divina. Todas as coisas são
revestidas de dignidade e devem ser respeitadas, conforme nos orienta a
verdadeira sabedoria. De acordo com o modo pelo qual nos relacionamos entre nós
e com todas as coisas criadas, colhemos frutos de bênção ou de maldição, de
vida ou de morte...
No
evangelho, Jesus nos promete o Espírito Santo para nos ajudar a viver conforme
o modelo da Trindade santa, a perfeita comunidade. “O mistério da Trindade é a
fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja... Uma autêntica proposta de
encontro com Jesus Cristo deve estabelecer-se sobre o sólido fundamento da
Trindade-Amor. A experiência de um Deus uno e trino, que é unidade e comunhão
inseparável, permite-nos superar o egoísmo para nos encontrarmos plenamente no
serviço para com o outro”. Neste sentido, as comunidades eclesiais de base
caracterizam-se como “casas e escolas de comunhão” (DAp 155, 170 e 240).
– A
celebração da festa da Santíssima Trindade é uma boa oportunidade de valorizar
as diferentes manifestações do amor de Deus na comunidade e no mundo: os
serviços e ministérios, as etnias, as denominações e tradições religiosas, os
movimentos e organizações sociais, as iniciativas diversas em favor da vida, da
ecologia etc.
Celso
Loraschi
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O Deus-conosco se revela na práxis da comunidade cristã
O texto é a
conclusão do Evangelho de Mateus. Pode ser dividido em três momentos: a. Um
relato de aparição (vv. 16-17); b. instrução de Jesus aos discípulos (vv.
18-20a); c. promessa (v. 20b).
a. A
experiência do Ressuscitado (16-17)
Inicia-se
falando dos onze discípulos que se dirigem à Galileia, ao monte que Jesus havia
indicado (v. 16). A comunidade dos discípulos tomou o rumo certo: a Galileia. É
bom lembrar o que significa para o evangelista essa localização. Para
entendê-lo, devemos recordar o início da atividade de Jesus. Ele começa sua
missão na Galileia das nações (ler Mt. 4,12-17), no meio daquela gente pisada e
marginalizada, a fim de levar-lhe a boa notícia da libertação e da vida do
Reino. É para lá que os discípulos se dirigem. É o lugar do testemunho e ação
da comunidade cristã. Os discípulos, em Jesus e a partir dele, dão início à
práxis cristã.
Mateus fala
também de um monte como ponto de encontro de Jesus com sua comunidade. Não se
trata de localizar geograficamente esse ponto de encontro. É um monte que
recorda a atividade de Jesus. Nesse sentido, o monte é o das tentações
(4,8-10), o da transfiguração (17,1-6), mas sobretudo o monte sobre o qual
Jesus anunciou seu programa missionário: o monte das bem-aventuranças
(5,1-7,29). Agindo assim, a comunidade se torna autêntica discípula.
Identifica-se com Jesus e seu projeto (os discípulos se prostram diante dele).
Contudo, há
sempre o risco de não acolher plenamente o significado da prática de Jesus na
vida da comunidade: “ainda assim alguns duvidaram” (v. 17b). O verbo duvidar
(edistesan em grego), ao longo do Evangelho de Mateus, encontra-se somente aqui
e em 14,31, onde Pedro duvida e afunda na água. Duvidar, portanto, comporta a
falta de fé, mas também a falta de percepção maior da prática de Jesus que
vence todas as formas de morte e alienação. Dúvida é ter medo do risco e do
compromisso. É um alerta que acompanha constantemente a comunidade cristã,
impelindo-a a uma atitude de conversão permanente ao projeto de Deus.
b. O poder
de Jesus é passado à comunidade (vv. 18-20a)
Durante sua
vida terrena, Jesus agia como aquele homem ao qual Deus dera seu poder (cf.
9,6-8), fazendo que as pessoas glorificassem a Deus. Agora, ressuscitado,
possui “toda autoridade no céu e sobre a terra” (v. 18b). Essa autoridade plena
foi-lhe dada pelo Pai (o passivo “me foi dada” refere-se a Deus) e é muito
próxima aos homens (Jesus “se aproximou dos discípulos”, v. 18a). Não só está
próxima, como é entregue, por Jesus, à comunidade cristã: “Vão e façam que todos
os povos se tornem meus discípulos” (v. 19a). A Galileia é o ponto de partida,
e a meta é fazer que o projeto de Deus alcance a todos, tornando-os povo de
Deus e realizando assim a promessa feita a Abraão (Gn. 17,4s; 22,18). O botão
que acende a luz do projeto de Deus é a prática da justiça, pois é assim que
Jesus se apresenta no Evangelho de Mateus: “Devemos cumprir toda a justiça”
(Mt. 3,15).
Os meios
para fazer que todos os povos se tornem discípulos de Jesus, isto é, capazes de
uma prática de justiça que realize o Reino, são dois: o batismo em nome da
Trindade (v. 19b) e a catequese que visa à observância de tudo o que Jesus
ensinou (v. 20a).
• O batismo
é feito em nome da Trindade. Batiza-se em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. O texto grego de Mateus emprega a preposição eis, para não confundi-la
com a preposição en. Com isso, afirma que o batismo em nome da Trindade é a
vinculação pela qual o ser humano está plenamente comprometido com o projeto de
Deus revelado no Filho e atualizado na práxis cristã, iluminada pelo Espírito.
Ser batizado em nome da Trindade significa dedicação total, consagração, posse
da Trindade a serviço da justiça.
• O segundo
meio é a catequese que leva a observar tudo o que Jesus ensinou. O que foi que
Jesus ensinou? A síntese dos mandamentos de Jesus está no sermão da montanha
(5,1-7,29). É a esse código de práxis cristã que se referirá toda a catequese
da comunidade primitiva e das comunidades cristãs de hoje. Essa catequese não é
outra coisa senão a recordação da prática de Jesus, visando à prática cristã.
c. Jesus é
aquele que caminha conosco (v. 20b)
O Evangelho
de Mateus termina com uma promessa: “Eis que eu estarei com vocês todos os
dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Mateus havia iniciado o evangelho apresentando
Jesus como o Emanuel (Deus-conosco; cf. 1,23) e o conclui, mostrando-o
continuamente vivo e presente na vida da comunidade. Jesus não se afasta do
mundo; pelo contrário, firma sua indestrutível presença na história, ao mesmo
tempo história de Deus e dos homens a serviço da justiça que traz o Reino para
dentro da nossa caminhada.
Johan
Konings "Liturgia dominical"
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O
mistério da Santíssima Trindade era desconhecido no Antigo Testamento e,
somente à luz da Revelação podemos descobrir seu significado.
Ao
longo do tempo, Deus se dá a conhecer de diferentes formas. Primeiramente, Ele
se apresenta na figura do Pai, O Criador, Aquele que dá a vida, ensina os
caminhos e corrige os erros de seus filhos, mas, sobretudo os ama de forma
incondicional.
Todos
os ensinamentos do Deus Pai se realizam no Deus Filho, que vive no meio dos
homens, sente o que eles sentem e sofre a dor da mesma forma que eles. O Deus
Filho anuncia uma vida nova com um novo jeito de amar com a mesma intensidade com
que Ele amou, sem esperar nada em troca.
O
Deus Filho, ao voltar para o Deus Pai, depois da Sua ressurreição, deixa para o
seu povo, o Deus Espírito Santo (o mesmo Espírito que O animou em sua vida
terrena), para conduzi-lo ao verdadeiro projeto de Deus, dando continuidade à
missão de pregar e viver o Amor. O Espírito Santo é aquele que conduz a
comunidade à verdade completa que é o próprio Jesus que se auto-definiu como ‘a
Verdade’, ou seja, Ele é a expressão máxima da fidelidade de Deus, Aquele que caminha
com o povo, sendo parceiro e aliado fiel na caminhada.
O
Espírito Santo dá aos homens o entendimento dos ensinamentos de Jesus através
dos tempos e em diferentes lugares. Foi este mesmo Espírito que inspirou os
discípulos a compreenderem e reconhecerem a Jesus como o verdadeiro Filho de
Deus.
Tudo
é comum entre as três pessoas da Santíssima Trindade que é a expressão da
perfeita Comunidade.
Elas
possuem uma só natureza Divina, mas sem perder a própria identidade. Não é o
Pai maior que o Filho, nem o Filho maior que o Espírito Santo. Há entre as três
Pessoas uma perfeita comunhão de vida, verdade e amor.
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Através de Jesus Deus se revela na sua plenitude
É a primeira
festa litúrgica na retomada do tempo comum.
O termo “Trindade”
não parece nem no Antigo nem no Novo Testamento. Para a tradição bíblica, o que
Deus é, Uno e Trino, é dito narrativamente, isto é, na longa história da
revelação de Deus ao seu povo. É na história, com suas vicissitudes, e,
sobretudo, na história de Jesus Cristo, que Deus se revela como Pai, Filho e
Espírito Santo.
O que Deus é
desde toda eternidade, o que ele é desde o início, só pôde ser compreendido à
luz da Ressurreição do Cristo e da efusão do Espírito Santo. O último na ordem
da compreensão é o primeiro na ordem do ser, diz o axioma filosófico.
Os quatro
evangelhos, cada um a seu modo, apresentam a dificuldade dos discípulos de
compreenderem os gestos e palavras de Jesus e de fazerem a experiência de que
em Jesus e por ele é que se chega à verdade plena, isto é, ao que Deus é, pois
é ele quem descortina o mistério de Deus. O Espírito Santo continua a missão de
Jesus: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade”
(v. 13). A luz dada como dom do Ressuscitado permitirá compreender o que não
era possível até então: “Tenho muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes
de compreender agora” (v. 12; ver também: Lc. 24,25-26).
Nesse
contexto de João, o Espírito Santo é apresentado como um hermeneuta: “vos
guiará em toda a verdade” (v. 13), “dirá tudo quanto tiver ouvido” (v. 13). O
Espírito não fala por conta própria, pois ele é um com o Pai e o Filho; vivem
numa profunda comunhão.
O Espírito
Santo anuncia o que há de vir (cf. v. 13). O futuro do discípulo é a sua participação,
não obstante a perseguição e a morte, na vitória de Cristo sobre o mal e a
morte (1Cor. 15). É nessa esperança que a comunidade de fé é chamada a viver,
pois “a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos
corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm. 5,5).
Carlos
Alberto Contieri,sj
A solenidade
que hoje celebramos não é um convite a decifrar a mistério
que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite
a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os
homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
A primeira
leitura sugere-nos a contemplação do Deus criador. A sua bondade e o seu amor
estão inscritos e manifestam-se aos homens na beleza e na harmonia das obras
criadas (Jesus Cristo é “sabedoria” de Deus e o grande revelador do amor do
Pai).
A segunda
leitura convida-nos a contemplar o Deus que nos ama e que, por isso, nos
“justifica”, de forma gratuita e incondicional.
É através do Filho que os dons
de Deus/Pai se derramam sobre nós e nos oferecem a vida em plenitude.
O
Evangelho convoca-nos, outra vez, para
contemplar o amor do Pai, que se
manifesta na doação e na entrega do Filho e que continua a acompanhar a nossa
caminhada histórica através do Espírito. A meta
final desta “história de amor” é a nossa inserção
plena na comunhão com o Deus/amor, com o Deus/família, com o Deus/comunidade.
1ª leitura:
Pr. 8,22-31 - AMBIENTE
O Livro dos
Provérbios apresenta uma coleção de “ditos”, de “sentenças”,
de “máximas”, de “provérbios” (“mashal”), onde se cristaliza o resultado da
reflexão e da experiência (“sabedoria”) dos “sábios” antigos (israelitas e
alguns não israelitas), empenhados em definir as regras para viver bem, para
ter êxito, para ser feliz. Alguns dos materiais aí apresentados podem ser do
séc. X a. C.; outros, no entanto, são bem mais recentes.
O texto que
nos é hoje proposto faz parte de um bloco de “instruções” e “advertências” que
vai de 1,8 a 9,6. Trata-se da parte mais recente do “livro dos
Provérbios” (segundo os especialistas, não pode ser anterior ao séc. IV
ou III a. C.).
O capítulo
8 do “livro dos Provérbios” (do qual é retirado o texto
que hoje nos é proposto) apresenta-nos um discurso posto na boca da
própria “sabedoria”, como se ela fosse uma pessoa: trata-se
de um artifício literário, através do qual o autor
pretende dar força e intensidade dramática ao convite que ele
lança no sentido de acolher e amar a “sabedoria”. Na primeira parte desse
discurso (v. 1-11), o autor apresenta o “púlpito” de onde a “sabedoria” vai
discursar (o cume das montanhas, a encruzilhada dos caminhos, as entradas das
cidades, os umbrais das casas), os destinatários da mensagem (todos os homens)
e apela à escuta das palavras que ela vai pronunciar; na segunda parte (vs.
12-21), o autor apresenta as “credenciais” da “sabedoria” (ela possui a
ciência, a reflexão, o conselho, a equidade, a força) e o
prémio reservado àqueles que a acolhem; na terceira parte (vs. 8,22-31) – que é
a que nos interessa diretamente – o autor reflete sobre a origem da sabedoria e
a sua função no plano de Deus.
MENSAGEM
Em primeiro
lugar, diz-se que a “sabedoria” tem origem em Deus. O autor do texto põe na
boca da “sabedoria” a forma hebraica “qânâny” (“gerou-me”) para expressar a
responsabilidade de Deus na origem da “sabedoria” (v. 22).
Afirma
também que ela é a primeira das obras de Deus. Antes de serem lançadas as
estruturas do cosmos, a “sabedoria” já existia (vs. 24-29); mais, ela estava
lá, tendo um papel interveniente na criação: no v. 30, a
“sabedoria” é apresentada como “arquiteto” (“amon”), isto é,
como assistente ativo de Deus na obra criadora (embora certas versões
antigas leiam como “amun” – “criança” – o que
sugere a ideia da “sabedoria” como uma “criança” feliz que brinca e se
deleita no meio da obra criada). Em terceiro lugar, a “sabedoria” afirma que o
seu interesse e deleite é estar “junto dos filhos dos homens” (v. 31): ela
dirige-se aos homens e o seu objetivo é “ser para os homens”. Ela desempenha,
portanto, um papel em favor dos homens.
Qual é esse
papel? A perícope está dominada por três palavras, que aparecem no princípio,
no meio e no fim: “Jahwéh” (v. 22), “sabedoria” (“eu” – v. 30) e “homens” (v.
31). Esta “coluna vertebral” revela, desde já, o objetivo do autor do texto: ao
dizer que a “sabedoria” tem origem em Jahwéh, está em íntima relação com Deus e
se destina aos homens, está a sugerir-se que ela tem a capacidade de pôr os
homens em relação e contacto com Deus. Através dessa realidade criada que a
“sabedoria” viu nascer, ela espevita a inteligência dos homens, leva-os a Deus,
atrai- os para Deus. A “sabedoria”, presente desde sempre na criação, revela
aos homens a grandeza e o amor do Deus criador.
A tradição
judaica acabará por identificar esta “sabedoria” com a Torah (cf. Ba 3,38-4,1;
Pirkê Rabbí Eliezer, III, 2). Por outro lado, os autores neo-testamentários,
conhecedores dos livros sapienciais, atribuirão a Jesus algumas das
características que este texto atribui à “sabedoria”: Paulo chama a Jesus
“sabedoria” e “sabedoria de Deus” (cf. 1 Cor 1,24.30); considera também que
Jesus, como a “sabedoria” de Prov 8, existe antes de todas as coisas e
desempenhou um papel privilegiado na criação do mundo (cf. Cl. 1,16-17); por
sua vez, o “prólogo” do Quarto Evangelho atribui ao “Lógos”/Jesus os traços da
“sabedoria” criadora de Pr. 8 (diz que Jesus é anterior à criação – cf. Jo 1,1)
e que Ele deu existência a todas as obras criadas – cf. Jo 1,3).
Os Padres da
Igreja verão nesta “sabedoria”, pré-criada e anterior à restante obra de Deus,
traços de Jesus Cristo ou do Espírito Santo.
ATUALIZAÇÃO
♦ A
referência ao Deus que tudo criou para nós com sabedoria faz-nos pensar num Pai
providente e cuidadoso, que tem um projeto bem definido para os homens e para o
mundo. Contemplar a criação é descobrir, na beleza e na harmonia das obras
criadas, esse Pai cheio de bondade e de amor. Somos capazes de nos sentirmos
“provocados” pela criação de forma que, através dela, descubramos o amor
e a bondade de Deus?
♦ Olhando
para a obra de Deus, aprendemos que o homem não é um concorrente de Deus, nem
Deus um adversário do homem. Ao homem compete reconhecer o poder e a grandeza
de Deus e entregar-se, confiante, nas mãos desse Pai que tudo criou com
cuidado e que tudo nos entrega com amor. Entregamo-nos nas mãos d’Ele,
não como adversários, mas como crianças que confiam incondicionalmente no seu
pai?
♦O
desenvolvimento desordenado e a exploração descontrolada dos recursos da natureza
põem em causa a harmonia desse “mundo bom” que Deus criou e que nos confiou.
Temos o direito de pôr em causa, por egoísmo, a obra de Deus?
♦ A
contemplação da obra criada leva ao espanto e ao louvor. Somos capazes de nos
extasiarmos diante das coisas que Deus nos oferece e de deixarmos que a nossa
admiração se derrame em louvor e agradecimento?
2ª leitura:
Rm. 5,1-5 - AMBIENTE
Quando Paulo
escreve aos romanos, está a terminar a sua terceira viagem missionária e
prepara-se para partir para Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente
(cf. Rom 15,19-20) e queria levar o Evangelho ao ocidente. Sobretudo, Paulo
aproveita a carta para contatar a comunidade de Roma e apresentar aos romanos e
a todos os crentes os principais problemas que o ocupavam (entre os quais
sobressaía a questão da unidade – um problema bem presente na comunidade de
Roma, afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e
pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Paulo
aproveita, então, para sublinhar que o Evangelho é a força que congrega e que
salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Depois de notar
que todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20), Paulo
acentua que é a “justiça de Deus” que dá vida a todos sem distinção (cf. Rom
3,1-5,11). Neste texto, que a segunda leitura de hoje nos propõe, Paulo
refere-se à ação de Deus, por Cristo e pelo Espírito, no sentido de
“justificar” todo o homem.
MENSAGEM
Paulo parte
da ideia de que todos os crentes – judeus, gregos e romanos – foram
justificados pela fé. Que significa isto?
Na
linguagem bíblica, a justiça é, mais do que um conceito
jurídico, um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio,
à sua maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação.
Ora, se Jahwéh Se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da
misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele
aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras; significa,
sim, que a bondade, a misericórdia, o amor, próprios do “ser”
de Deus, se manifestam em todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi
correto no seu proceder. Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do
homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus,
recebe um veredicto de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo
totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido somente que acolha,
com humildade e confiança, uma graça que não depende dos seus
méritos e que se entregue completamente nas mãos de Deus. Este homem,
objeto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gl. 6,15): é o homem
ressuscitado para a vida nova (cf. Rm. 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rm.
8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rm. 8,17; Gl.
4,6-7).
Quais os
frutos que resultam deste acesso à salvação que é um dom de Deus? Em primeiro
lugar, a paz (v. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido psicológico
(tranquilidade, serenidade), mas no sentido teológico semita de relação
positiva com Deus e, portanto, de plenitude de bens, já que Deus é a fonte de
todo o bem.
Em
segundo lugar, a esperança (vs. 2-4). Trata-se desse dom que
nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a
um futuro glorioso de vida em plenitude. Não se trata de alimentar um otimismo
fácil e irresponsável, que permita a evasão do presente;
trata-se de encontrar um sentido novo para
a vida presente, na certeza de que as forças da morte não terão a última
palavra e que as forças da vida triunfarão.
Em terceiro
lugar, o amor de Deus ao homem (vs. 5-8). O cristão é, fundamentalmente, alguém
a quem Deus ama. Como prova desse amor que age em nós através do Espírito, está
Jesus de Nazaré a quem Deus “entregou à morte por nós quando ainda éramos
pecadores”.
Tudo aquilo
que enche a vida do crente, que lhe dá sentido, é um dom de Deus Pai que,
através de Jesus, demonstra o seu amor e que, pelo Espírito, derrama
continuamente esse amor sobre nós.
ATUALIZAÇÃO
♦ Na
Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um
Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir
ao nosso encontro, de fazer caminho conosco. Apesar de os homens insistirem,
tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência, no pecado,
Deus continua a amar e a fazer-nos
propostas de vida. Trata-se de um
amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas
que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.
♦ A
vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de
Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até
partilhar conosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência para
nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em
plenitude.
♦ A
presença do Espírito acentua no nosso tempo – o tempo da Igreja – essa
realidade de um Deus que continua presente e atuante, derramando o seu amor ao
longo do caminho que dia a dia vamos percorrendo e impelindo-nos à
renovação, à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo.
♦ Está
em moda uma certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas
propostas. Em geral, os homens de
hoje preocupam-se mais com os resultados da
última jornada do campeonato de futebol,
ou com as últimas peripécias da “telenovela das nove”
do que com Deus ou com o seu amor. Não será tempo de redescobrirmos o Deus que
nos ama, de reconhecermos o seu empenho em conduzir-nos rumo à felicidade plena
e de aceitarmos essa proposta de caminho que Ele nos faz?
Evangelho:
Jo 16,12-15 - AMBIENTE
Estamos no
contexto da última ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de
Jesus.
Depois de
constituir a comunidade do amor e do serviço (cf. Jo 13,1-17) e de
apresentar o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa comunidade
(cf. Jo 15,9-17), Jesus vai definir a missão da comunidade no mundo:
testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito (cf. Jo 15,26-27).
Jesus avisa,
no entanto, que o caminho do testemunho deparará com a
oposição decidida da religião estabelecida e dos poderes de morte que dominam o
mundo (cf. Jo 16,1-4a); mas os discípulos contarão com o Espírito: Ele
ajudá-los-á e dar-lhes-á segurança no meio da perseguição
(cf. Jo 16,8-11). De resto, a comunidade em
marcha pela história encontrar-se-á muitas vezes diante de circunstâncias
históricas novas, diante das quais terá de tomar
decisões práticas: também aí se verá a presença do
Espírito, que ajudará a responder aos novos desafios e a interpretar as
circunstâncias à luz da mensagem de Jesus (cf. Jo 16,12-15).
MENSAGEM
O tema
fundamental desta leitura tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito
aos discípulos em caminhada pelo mundo.
Jesus
começa por dizer aos discípulos que há muitas outras
coisas que eles não podem compreender de momento (v.
12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que
comunicará tudo o que ouvir a Jesus e que interpretará o que está
para vir (v. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que havia para
revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou incompleta?
De forma
nenhuma. As palavras de Jesus acerca da ação do Espírito referem-se ao tempo da
existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à
“parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a
captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta
de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta
continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade
e no coração de cada crente; além
disso, o Espírito ensinar-vos-á a entender a nova ordem
que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir das
circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder
para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma
doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da
comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada
circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde
irá o Espírito buscar essa verdade
que vai transmitir continuamente aos discípulos?
A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – v.
14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos,
comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar
a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.
A última
expressão deste texto (v. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o
Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto
nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por ação do
Espírito.
ATUALIZAÇÃO
♦ O
Espírito aparece, aqui, como presença divina
na caminhada da comunidade cristã, como essa realidade que
potencia a fidelidade dinâmica dos crentes às propostas que o Pai, através de
Jesus, fez aos homens. A Igreja de que fazemos parte tem sabido estar atenta,
na sua caminhada histórica, às interpelações do Espírito? Ela tem procurado,
com a ajuda do Espírito, captar a Palavra eterna de Jesus e deixar-se guiar por
ela? Tem sabido, com a ajuda do Espírito, continuar em comunhão com
Jesus? Tem-se esforçado, com a ajuda
do Espírito, por responder às interpelações da história
e por atualizar, face aos novos desafios que o mundo lhe coloca, a proposta de
Jesus?
♦ Sobretudo,
somos convidados a contemplar o mistério de um Deus que é amor e que,
através do plano de salvação/libertação do
Pai, tornado realidade viva e humana em Jesus, e
continuado pelo Espírito presente na caminhada dos crentes, nos conduz para a
vida plena do amor e da felicidade total – a vida do Homem Novo, a vida da
comunhão e do amor em plenitude.
♦ A
celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e
decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a
contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há
três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é
afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho
e o Espírito são três formas de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias
do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A
natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade,
expressa-se na nossa linguagem imperfeita das
três pessoas. O Deus família torna-se trindade de
pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa
linguagem finita e humana não consegue “dizer” o mistério de Deus.
♦ As
nossas comunidades cristãs são, realmente, a expressão desse
Deus que é amor e que é comunidade – onde
a unidade significa amor verdadeiro, que
respeita a identidade e a especificidade do outro, numa experiência verdadeira
de amor, de partilha, de família, de comunidade?
P.
Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
============================
Com
algo de frequência, ouve-se dizer que o mistério da SS.ma Trindade, que
celebramos neste domingo, não interessa muito para a vida cristã de todos os
dias. Três Pessoas e um só Deus; um Pai que desde sempre é Pai, um Filho que
desde sempre é engendrado, um Espírito Santo que eternamente procede do Pai e
do Filho; um Pai que em quanto Pessoa não é o Filho, mas que segundo a
divindade coincide absolutamente com o Filho, pois são uma única
substância...certamente, tudo isso é muito escuro para a nossa pobre mente
humana, é muito longe da nossa experiência de todos os dias e das nossas
prioridades práticas.
Neste
sentido, não deveríamos calar-nos respeitosamente ante o mistério de Deus,
reconhecer com toda humildade e sensatez que não podemos conhecer Deus,
precisamente porque é Deus? Para além de ser uma empresa fútil, não será um
pecado de soberba querer investigar e conhecer a “vida interior” de Deus, a
vida das Pessoas divinas e as suas relações?
A
tudo isso devemos responder que não, mesmo se, evidentemente, temos de
reconhecer que, sendo Deus o Mistério por excelência, só o podemos conhecer
nesta vida de modo muito limitado. Mas ao mesmo tempo, devemos apressar-nos a
dizer que foi Deus mesmo a querer revelar-nos o Mistério íntimo da sua Vida trinitária.
Podemos
constatá-lo nas leituras deste domingo. São Paulo, na segunda leitura, nos
assegura que “estamos em paz com Deus [Deus aqui quer dizer “Deus Pai”] por
Nosso Senhor Jesus Cristo”. E depois Paulo continua dizendo que “a esperança
não engana, porque o amor de Deus [Deus Pai] foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Num parágrafo, são Paulo mencionou a
Trindade e o papel que cada uma das Pessoas desempenhou na nossa salvação. Ora
sabemos que este homem não era um teórico, um homem amigo de especulações
filosóficas. O seu interesse nas cartas era sobretudo prático, ou seja, ajudar
os cristãos à altura da sua missão. Se ele menciona o mistério trinitário era
por ser convencido de sua importância para a vida dos crentes. De fato a Vida
trinitária é fundamental, pois para isso veio Cristo: para salvar-nos e para
introduzir-nos na Vida interior das Pessoas divinas.
São
João, no Evangelho, citando Cristo, é ainda mais explícito: O Espírito Santo
“me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o
Pai tem é meu. Por isso, vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo
anunciará”. Como é que Cristo pode dizer que “tudo o que o Pai tem é meu”? Só
se ele mesmo for Deus, pode dizer isso. No evangelho de Mateus, Cristo chega a
dizer que ninguém conhece o Pai se não o Filho e que ninguém conhece o Filho
senão o Pai. Mas quem pode conhecer Deus? Só Deus pode conhecer Deus.
Mas
voltemos à pergunta inicial, para completar a resposta: porquê Deus quis revelar-nos
a sua vida íntima, ou seja, a comunidade das três Pessoas divinas? Não é pouca
coisa...dar a conhecer o seu coração, é tornar-se vulnerável. Não revelamos a
nossa intimidade, senão a pessoas da mais alta confiança, porque dar o seu
coração a alguém é expor-se a grandes sofrimentos se esta pessoa usar mal os
conhecimentos que lhe demos ou então se ela nos tratar com indiferença. Como é
diverso ser desprezado por um desconhecido e ser tratado mal por um amigo que
nos conhece por dentro e por fora! Porquê Deus toma este risco de revelar-nos o
seu interior e de expor-se à indiferença de seres tão irresponsáveis como nós?
Radicalizemos ainda mais a questão com esta observação: como sacerdote, posso
celebrar a Missa e transformar o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo de
forma muito indigna, se quiser, até mesmo dentro de um ritual satânico, por
exemplo. E nem o papa pode retirar-me este poder... Porquê Deus expõe-se a tudo
isso?
A
resposta é só uma: por amor. Deus dá-se para salvar-nos. Poderia não fazê-lo,
mas Ele é amor. Então Deus revela-nos a sua Vida interior, não se fecha aos
nossos olhares, porque é amor. E por isso é tão importante o conhecimento das
três Pessoas da Trindade. Porque isso revela-nos o que significa o amor. Mas
não só isso: revela-nos que o amor é tudo.
Tudo
o que o Pai tem, dá ao Filho, tudo o que Filho tem dá ao Pai. Isso é o amor!
Mas não só, esse dar-se um ao outro é fecundo e desta fecundidade surge o
Espírito Santo. Por isso, por exemplo, a anticoncepção nunca poderá ser cristã.
O amor na sua essência, o amor tal como o vemos em Deus é fecundo e, se não o
for, torna-se pouco a pouco egoísta, pois pode ser tão egoísta o “amor privado”
a dois, como o puro amor do individuo a si mesmo. Como vemos, é muito
importante mirarmos Deus, para sabermos, até nas coisas mais práticas, como
devemos viver o amor, pois somos imagem de Deus, imitadores d’Ele.
Por
outro lado, se Deus é Trindade e, por isso, comunidade de amor, então o amor é
tudo. As outras religiões nunca o poderão entender como nós. Porque o divino,
nelas, é solitário, não pode ser qualificado de amor. “Mas e o politeísmo”?
podem perguntar. Os deuses do Olimpo e de qualquer “Olimpo”, são no fundo seres
bastante solitários, centrados cada um em si mesmo. Enquanto que, em Deus, no
Deus cristão, cada Pessoa dá tudo às outras. A partilha chega a tal
radicalidade que não são três deuses, três indivíduos separados, mas um só. Por
isso, também, o amor entre os homens, como imitação do divino, nunca será
demasiado radical, nunca ninguém de nós poderá sentar-se satisfeito e dizer
“basta já dei suficientemente aos outros”.
A
radicalidade da nossa vida cristã é tal que só se pode viver no abandono a
Deus, numa confiança total n’Ele. Sim, o amor que Deus nos pede é absolutamente
superior a todas as nossas forças. Mostra-o suficientemente a repugnância de
grande parte do mundo cristão para seguir integramente os ensinamentos da nossa
fé sobre a sexualidade, por exemplo. Para sermos realmente cristãos, devemos
entrar no mundo sobrenatural da fé, da oração frequente e do abandono a Deus,
devemos renascer completamente como criaturas novas, com uma mudança profunda
da nossa psicologia, mentalidade, esperanças, etc. O caminho é árduo, mas posso
dizer-lhes que os resultados são esplêndidos. A nova vida que Deus quer dar-nos
já aqui eclipsa por completo as aspirações e satisfações mundanas. E não
poderia ser de outra forma: Deus é Deus, só Ele tem a chave da vida.
padre Antoine Coelho, LC
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