.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

segunda-feira, 2 de março de 2015

Jesus e os vendedores do Templo

3º DOMINGO QUARESMA
8 de Março de 2015
Ano  B

Evangelho - Jo 2,13-25


-JESUS É O NOVO TEMPLO-José Salviano


       No Evangelho deste domingo, deparamos com um Jesus indignado, irado (cheio de energia), revoltado de ver  a Casa de seu Pai que foi feita para a oração e a busca de Deus, estar sendo usada para o comércio.

Continua

============================
============================
Comecemos pela primeira leitura a nossa meditação da Palavra de Deus para este Domingo. Que nos apresenta o Livro do Êxodo? As Dez Palavras, os Mandamentos de Torah. A palavra “mandamento” tem, hoje um significado antipático. Não gostamos de mandamentos, de normas, de preceitos. No entanto, para um judeu – e também para um cristão -, os preceitos, os mandamentos do Senhor, são uma bênção, um sinal de carinho paterno de Deus, que se volta para nós e nos abre o seu coração, falando-nos da vida, mostrando-nos o caminho, iluminando a direção da nossa existência. Foi com esse sentido que o Senhor nosso Deus deu a lei, revelou os preceitos a Israel. A Lei não deveria ser vista como um feixe pesado e opressor de proibições, mas como setas que apontam para o caminho da vida e nos fazem descansar no coração de Deus. O próprio termo hebraico torah, que traduzimos por Lei, significa, na verdade instrução. Na Lei, na Instrução, Deus nos fala da vida porque deseja conviver com o seu povo. Sendo assim, os preceitos são uma bênção! O profeta Baruc afirma isso com palavras comoventes: Escuta, Israel, os mandamentos da vida; presta ouvidos, para conheceres a prudência. Por que Israel, por que te encontras na terra dos teus inimigos, envelhecendo em terra estrangeira? É porque abandonaste a fonte da Sabedoria. Ela é o livro dos preceitos de Deus, a Lei que subsiste para sempre: todos os que a ela se agarram destinam-se à vida, e todos os que a abandonam perecerão. Volta-se, Jacó, para recebê-la; caminha para o esplendor, ao encontro de sua luz! Não cedas a outrem a tua glória, nem a um povo estrangeiro os teus privilégios. Bem-aventurados somos nós, Israel, pois aquilo que agrada a Deus a nós foi revelado” (Br. 3,9-10.12; 4,1-4). Eis, pois, o que são os mandamentos: uma luz, um caminho de liberdade, porque nos faz conhecer o coração de Deus e os seus sonhos para nós. Viver na Palavra de Deus, mergulhar nos seus preceitos é viver o seu sonho para nós, é ser livre, maduro e feliz. Por isso o Salmista, hoje, canta: “A lei do Senhor Deus é perfeita, conforto para a alma! O testemunho do Senhor é fiel, sabedoria dos humildes. Os preceitos do Senhor são precisos, alegria ao coração. O mandamento do Senhor é brilhante, para os olhos é uma luz. suas palavras são mais doces que o mel, que o mel que sai dos favos!” E, no entanto, Israel violou a Lei de Deus, fechou-se para os preceitos do Senhor... E por quê? Porque não basta seguir um feixe de regras e normas para agradar a Deus. A Lei somente tem sentido se for vivida como uma relação de amor. Olhai bem como começa o Decálogo: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim”. Aqui está já dito tudo: por lado Deus, apaixonado, fiel, amoroso: tirou o seu povo da miséria de suas escravidões. Por outro lado, o povo: de quem ele espera um coração totalmente dedicado ao seu Deus: “Não terás outros deuses diante de mim!” É esta relação de amor que Israel quebrou, contentando-se muitas vezes com um legalismo vazio e frio.
A imagem dessa situação, vemo-la no Evangelho de hoje: o Templo, lugar do encontro de Deus com o seu povo, transformado numa espelunca, numa casa de comércio, um lugar de prostituição do coração, de idolatria É idolatria a ganância, é idolatria a impiedade, é idolatria reduzir a religião a um negócio lucrativo, é idolatria pensar que se pode manipular Deus com um dízimo, com um rito ou com um volume da Bíblia! O Senhor previne: “Eu sou o Senhor vosso Deus que não aceita suborno!” (Dt. 10,17) Por isso Jesus age de modo tão violento: Fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. Disse aos que vendiam pombas: ‘Tirai isso daqui! Não façais da Casa de meu Pai uma casa de comércio!’” que significa este gesto de Jesus? É uma pregação pela ação, uma ação profética, uma ação, um gesto que  vale por uma pregação. Jesus está revelando a santa ira de Deus contra o seu povo... Hoje em dia, com uma mania boboca de sermos politicamente corretos (coisa que nunca assentará num cristão), ficamos escandalizados com um Deus que se inflama de ira, com um Jesus que deveria ser mansinho, bonzinho, tolinho, aguadozinho, insossinho, e aparece, no entanto, firme, forte, radical... e irado! Esse é o Jesus de verdade: surpreendente, desconcertante! Sua ira nos previne no sentido de que não podemos brincar com Deus, não podemos fazer pouco dele! Correremos o risco de perdê-lo, de sermos rejeitados do seu coração! Em outras palavras: a conversão é uma exigência fundamental para quem deseja caminhar com Deus, sendo discípulo do Filho Jesus! Mas, os judeus, ao invés de compreenderem isso, com cinismo criticam Jesus e pedem-lhe um sinal: “Que sinal nos mostras para agir assim?” Vede bem, caríssimos: quando a infidelidade é grande, quando o nosso coração habituou-se no mal, corremos o risco de sermos tomados de tal cegueira, de tal dureza de coração, que já não vemos nem com a Luz! Jesus é a luz que brilha claramente. Sua atitude dura, recorda aos judeus o amor de Deus que foi traído, a Lei que foi deturpada, e eles ainda pedem por sinais... Jesus dá um sinal, terrível, decisivo: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”. Que significa isso? “Estais destruindo este Templo? Ele é um sinal, é um símbolo profético: ele é o lugar no qual o homem pode encontrar Deus, ele é imagem do meu corpo. Pois bem! Vós violastes a aliança, destruístes o sentido da relação com Deus: continuais, pois a destruir este Templo. Mas em três dias eu o erguerei para sempre: vai passar a imagem, virá o Templo indestrutível, o lugar onde um novo povo poderá para sempre encontrar Deus: o meu corpo morto e ressuscitado!” Eis o sinal, surpreendente, escandaloso: à infidelidade do seu povo, Deus responde entregando o seu Filho e fazendo dele o lugar da salvação e da graça, da vida e da vitória da humanidade! É o que São Paulo nos diz na segunda leitura deste hoje: “Os judeus pedem sinais, os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos”. O sinal que Deus apresenta para Israel, o remédio que Deus preparou para curar a violação da Lei é o seu Filho crucificado, morto e ressuscitado!
Olhemos para nós, o Novo Povo de Deus, o Povo nascido da morte e ressurreição de Cristo. Não somos mais obrigados a cumprir os detalhados preceitos da Lei de Moisés mas, somos convidados a olhar o Crucificado, cujo corpo macerado é o lugar do perdão e do encontro com Deus, o lugar da nova e eterna Aliança... olhando o Crucificado, ouçamos, mais uma vez, como Israel: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair da casa da escravidão, da miséria do pecado e da morte, da escuridão de uma vida sem sentido! Eu te dei o meu filho amado! Não terás outros deuses diante de mim!” Compreendeis, irmãos? Os preceitos do Antigo Testamento passaram; não, porém, a exigência de um coração todo de Deus, um coração que o ame, um coração sem divisão! E, para nós, a exigência é ainda maior, porque Israel não tinha ainda visto até onde iria o amor de Deus; quanto a nós, sabemos: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).
Convertamo-nos! Ergamos os olhos para o Crucificado, “Poder de Deus e Sabedoria de Deus”, e mudemos de vida! Que nossa fé não seja fingida, superficial, descomprometida; que nossa religião não seja simplesmente uma prática fria e sem desejo de real conversão ao Senhor nosso! Crer de verdade exige que nos coloquemos debaixo do preceito de amor do Senhor! Estejamos atentos à advertência final e tremenda do Evangelho de hoje: “Vendo os sinais que Jesus realizava, muitos creram no seu nome. Mas Jesus não lhes dava crédito, pois conhecia a todos... conhecia o homem por dentro”. - Ah, Senhor Jesus! Tem piedade de nós! Converte-nos a ti e, depois, olha o nosso coração convertido e dá-nos a tua salvação! Piedade, Senhor! Na tua misericórdia infinita, conduze-nos às alegrias da Páscoa! A ti a glória, Cristo-Deus, pelos séculos dos séculos!
dom Henrique Soares da Costa

============================

A liturgia do 3º domingo da Quaresma dá-nos conta da eterna preocupação de Deus em conduzir os homens ao encontro da vida nova. Nesse sentido, a Palavra de Deus que nos é proposta apresenta sugestões diversas de conversão e de renovação.
Na primeira leitura, Deus oferece-nos um conjunto de indicações (“mandamentos”) que devem balizar a nossa caminhada pela vida. São indicações que dizem respeito às duas dimensões fundamentais da nossa existência: a nossa relação com Deus e a nossa relação com os irmãos.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na lógica da cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.
No Evangelho, Jesus apresenta-Se como o “Novo Templo” onde Deus Se revela aos homens e lhes oferece o seu amor. Convida-nos a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.
1ª leitura – Ex. 20,1-17 – AMBIENTE
O texto que hoje nos é proposto como primeira leitura faz parte de um conjunto de tradições que referem uma Aliança entre Jahwéh e Israel (cf. Ex. 19-40). Essa Aliança é situada num monte, algures no deserto do Sinai, o mesmo monte onde Jahwéh se havia revelado a Moisés.
No texto bíblico não temos indicações geográficas suficientes para identificar o monte da Aliança. Em si, o nome “Sinai” designa uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 km. de extensão norte/sul, estendendo-se entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A norte, junto do Mediterrâneo, o Sinai apresenta uma faixa arenosa de 25 km de largura; mas à medida que descemos para sul, o território torna-se mais acidentado, com montanhas que chegam a atingir 2400 m de altura. A península inteira é um deserto árido; não há, praticamente, vegetação (exceto em alguns pequenos oásis) e as comunicações são difíceis. Nesta enorme extensão de areia e rochas, é difícil situar o “monte da Aliança”. Contudo, uma tradição cristã tardia (séc. IV d.C.) identifica o “monte” com o GebelMusah (o “monte de Moisés”), um monte com 2.244 m de altitude, situado a sul da península sinaítica. Embora a identificação do “monte da Aliança” com este lugar levante problemas, o GebelMusah é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.
A Aliança entre Jahwéh e Israel, celebrada no Sinai, vai ser apresentada pelos catequistas de Israel através de uma estrutura literária que é muito semelhante aos formulários jurídicos conhecidos no mundo antigo para apresentar os acordos políticos entre duas partes, nomeadamente entre um “senhor” e o seu “vassalo”. Nesses formulários, depois de recordar ao “vassalo” a sua ação, a sua generosidade, os seus benefícios, o “senhor” apresentava as “cláusulas da Aliança” – isto é, a lista das obrigações que o “vassalo” assumia para com o seu “senhor” (obrigações que o “vassalo” devia cumprir fielmente).
De entre as “cláusulas da Aliança” do Sinai, sobressai um bloco especial, onde são apresentadas as dez obrigações fundamentais que Israel vai assumir diante do seu Deus: os “dez mandamentos” ou as “dez palavras”. É esse texto que a nossa primeira leitura nos apresenta. Aí está, verdadeiramente, o “coração” da Aliança; aí se define o caminho que Israel deve percorrer para ser o Povo de Deus.
A lista dos “dez mandamentos” é uma lista irregular, com mandamentos enunciados com brevidade e secura, sem nenhuma justificação (“não matarás”; não roubarás”) e outros mais desenvolvidos, contendo um comentário explicativo (cf. Ex. 20,4.17), uma motivação (cf. Ex. 20,7) ou uma promessa (cf. Ex. 20,12). Por vezes Deus fala em primeira pessoa (cf. Ex. 20,2.5-6); noutras, fala-se de Deus em terceira pessoa (cf. Ex. 20,7.11.12). Dois mandamentos são formulados positivamente (cf. Ex. 20,8: “lembra-te”; Ex. 20,12: “honra”); todos os outros são formulados negativamente (“não matarás”; “não roubarás”). Estas irregularidades significam que o “decálogo” sofreu, através dos séculos, por motivos pastorais e catequéticos, retoques, acrescentos, comentários, modificações.
É provável que Moisés tenha uma certa relação com estas leis que estão no centro da Aliança entre Deus e o seu Povo; mas o texto, na sua forma atual, não vem de Moisés. É, certamente, um texto muito trabalhado, que sofreu muitas elaborações ao longo dos séculos. Ainda que esta lista de preceitos possa lembrar algumas listas de proibições encontradas na Babilônia e no Egito, ocupa um lugar à parte no conjunto dos formulários legais dos povos do Crescente Fértil: é um núcleo legal sóbrio e equilibrado, despojado de tudo aquilo que nos outros povos é magia, superstição, tabu.
MENSAGEM
O “decálogo” abarca os dois vetores fundamentais da existência humana: a relação do homem com Deus e a relação que cada homem estabelece com o seu próximo.
Os primeiros quatro mandamentos dizem respeito à relação que Israel deve estabelecer com Deus (vs. 3-11). Dois, sobretudo, são de uma tremenda originalidade (o mandamento que obriga Israel a não ter outro Deus, outro Senhor, outra referência; e o mandamento que proíbe construir imagens de Deus), pois não encontram paralelo em nenhuma das religiões antigas que conhecemos.
A questão essencial que sobressai, nestes quatro mandamentos, é esta: Jahwéh deve ser a referência fundamental da vida do Povo, o centro à volta do qual se constrói toda a existência de Israel. Nada nem ninguém deve ocupar, no coração do Povo, o lugar que só a Deus pertence. É preciso que Israel reconheça que só em Jahwéh está a vida e a salvação (v. 3: “não terás nenhum deus além de mim”); é necessário que Israel reconheça a absoluta transcendência de Jahwéh – que não pode ser reproduzida em qualquer criatura feita pelo homem – e não se prostre perante obras criadas pela mão do homem (v. 4: não farás para ti qualquer imagem esculpida… não hás-de prostrar-te diante delas, nem prestar-lhes culto”); é preciso que Israel reconheça que não deve manipular Deus e usá-l’O em apoio de projetos e interesses puramente humanos (v. 7: “não hás-de invocar o nome do Senhor teu Deus em apoio do que não tem fundamento”); é preciso que Israel reconheça que só o Senhor é o dono do tempo e que reserve espaço para o encontro e o louvor do Senhor (v. 8: “hás-de lembrar-te do dia de sábado, a fim de o santificares”).
s outros seis mandamentos dizem respeito às relações comunitárias (vs. 12-17). Procuram inculcar o respeito absoluto pelo próximo – a sua vida, os seus direitos na comunidade, os seus bens. São “a magna carta da liberdade, da justiça, do respeito pela pessoa e pela sua dignidade”. Recomendam que cada membro da comunidade reconheça a sua dependência dos outros e aceite a sua vinculação a uma família e a uma cultura (v. 12: “honra teu pai e tua mãe”); pedem que cada membro do Povo de Deus respeite a vida do irmão (v. 13: “não matarás”); recomendam que seja defendida a família e respeitadas as relações familiares (v. 14: “não cometerás adultério”); exigem que se respeite absolutamente quer os bens, quer a própria liberdade dos outros membros da comunidade (v. 15: “não tomarás para ti” – o que pode referir-se a pessoas ou a coisas. Pode traduzir-se por “não roubarás”, mas também por “não privarás de liberdade o teu irmão, não o reduzirás à escravidão”); pedem o respeito pelo bom nome e pela fama do irmão, nomeadamente dando sempre um testemunho verdadeiro diante do tribunal e garantindo a fiabilidade de uma justiça que é a base da correta ordem social (v. 16: “não levantarás falso testemunho contra o teu próximo”); exigem o respeito pelos “bens básicos” que asseguram ao irmão a sua subsistência e procuram evitar que o coração dos membros da comunidade do Povo de Deus seja dominado pela cobiça e pelos instintos egoístas (v. 17: “não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a mulher dele, nem o criado ou a criada, o boi ou o jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”).
Porque é que Deus apresentou estas propostas a Israel e lhe recomendou este caminho? Qual o interesse de Deus em que Israel viva de acordo com as regras aqui apresentadas? O que é que Deus “tem a ganhar” com a fidelidade do Povo a estas normas?
A resposta a esta questão está na primeira afirmação do Decálogo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da servidão” (v. 2). Jahwéh, o Deus libertador, está interessado em que Israel se liberte definitivamente da escravidão e se torne um Povo livre e feliz. Os “mandamentos” são, precisamente, uma contribuição de Deus para isso. Ao colocar estes “sinais” no percurso do seu Povo, Jahwéh não está a limitar a liberdade de Israel, mas está a propor ao Povo um caminho de liberdade e de vida plena. Os mandamentos pretendem ajudar Israel a deixar a escravidão do egoísmo, da auto-suficiência, da injustiça, do comodismo, das paixões, da cobiça, de exploração… Os mandamentos nascem do amor de Jahwéh a Israel e procuram indicar ao Povo o caminho para ser feliz. A resposta do Povo a essa preocupação de Deus será aceitar as indicações e viver de acordo com esses preceitos. Israel responderá, assim, ao amor de Deus e será feliz. É essa Aliança que Jahwéh quer fazer com o seu Povo, é esse o “interesse” de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Os mandamentos que dizem respeito à relação do homem com Deus sublinham a centralidade que Deus deve assumir no coração e na vida do seu Povo. Na vida de todos os dias somos, com frequência, seduzidos por outros “deuses” – o dinheiro, o poder, os afetos humanos, a realização profissional, o reconhecimento social, os interesses egoístas, as ideologias, os valores da moda – que se tornam o objetivo supremo, no valor último que condiciona os nossos comportamentos, as nossas atitudes e as nossas opções. Com frequência, prescindimos de Deus e instalamo-nos num esquema de orgulho e de auto-suficiência que coloca Deus e as suas propostas fora da nossa vida. A Palavra de Deus garante-nos: esse não é um caminho que nos conduza em direção à vida definitiva e à liberdade plena. Neste tempo de Quaresma, somos convidados a voltarmo-nos para Deus e a redescobrirmos o seu papel fundamental na nossa existência… Quais são os “deuses” que nos seduzem mais e que condicionam a nossa vida, as nossas tomadas de posição, as nossas opções? Que espaço é que reservamos, na nossa vida, para o verdadeiro Deus?
• Os mandamentos que dizem respeito à nossa relação com os irmãos convidam-nos a despir esses comportamentos que geram violência, egoísmo, agressividade, cobiça, intolerância, escravidão, indiferença face às necessidades dos outros. Tudo aquilo que atenta contra a vida, a dignidade, os direitos dos nossos irmãos, é algo que gera morte, sofrimento, escravidão, para nós e para todos os que nos rodeiam e é algo que contribui para subverter os projetos de vida e de felicidade que Deus tem para nós e para o mundo. O que é que, nos meus gestos, nas minhas atitudes, nos meus valores, é gerador de injustiça, de sofrimento, de exploração, de escravidão, de morte, para mim e para todos aqueles que me rodeiam?
• O que está aqui em jogo não é o respeitar regras “religiosamente corretas”, o evitar que Deus tenha razões de queixa contra nós, ou o fugir aos castigos divinos; mas é, antes de mais, o construir a nossa própria felicidade. É preciso aprendermos a não ver os “mandamentos” de Deus como propostas reacionárias, descabidas e ultrapassadas, inventados por uma moral obsoleta e antiquada, que apenas servem para limitar a nossa liberdade ou para impedir a nossa autonomia; mas é preciso ver os “mandamentos” como “sinais de trânsito” com os quais Deus, no seu amor e na sua preocupação com a nossa realização plena, nos ajuda a percorrer os caminhos da liberdade e da vida verdadeira.
2ª leitura – 1Cor. 1,22-25 - AMBIENTE
No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52).
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Cor. 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Cor. 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Cor. 1,19-2,10). Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Um dos graves problemas da comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com uma escola de sabedoria: os cristãos de Corinto – na linha do que acontecia nas várias escolas de filosofia que infestavam a cidade – viam várias figuras proeminentes do cristianismo primitivo como mestres de uma doutrina e aderiam a essas figuras, esperando encontrar nelas uma proposta filosófica credível, que os conduzisse à plenitude da sabedoria e da realização humana. É de crer que os vários adeptos desses vários mestres se confrontassem na comunidade, procurando demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: esta perspectiva punha em causa o essencial da fé.
Paulo vai esforçar-se, então, por demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à sabedoria, entendida à maneira dos gregos. Quem procura na mensagem cristã um sistema lógico, coerente, inquestionável à luz da lógica humana, é porque não percebeu nada do essencial da mensagem cristã, da “loucura da cruz”.
MENSAGEM
Judeus e gregos, cada um à sua maneira, buscam seguranças. Os judeus procuram milagres que garantam a veracidade da mensagem anunciada; os gregos procuram as belas palavras, a coerência do discurso, a lógica dos argumentos… Na verdade, Jesus não Se apresentou como um Deus espetacular, a exibir o seu poder e as suas qualidades divinas através de gestos estrondosos e milagrosos, como os judeus estavam à espera; nem Se apresentou como o “mestre” iluminado de uma filosofia capaz de se impor pelo brilho das suas premissas e pela sua lógica inatacável, como os gregos gostariam.
A essência da mensagem cristã está na “loucura da cruz” – isto é, na lógica ilógica de um Deus que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é aquela que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte. No entanto, foi precisamente dessa forma que Deus apresentou aos homens o seu projeto de salvação e de vida definitiva. Na cruz de Jesus manifestou-se, de forma plena, o poder salvador de Deus. Decididamente, considera Paulo, a lógica de Deus não é exatamente igual à lógica dos homens.
O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• O nosso texto convida-nos a descobrir e a interiorizar a lógica de Deus, que é bem diferente da lógica dos homens. Os homens sentem-se mais seguros e confortáveis diante de líderes vencedores, que se impõem pela força e que exibem o seu poder através de gestos espetaculares; e Deus aparece-lhes na figura de um obscuro carpinteiro galileu, condenado pelas autoridades constituídas, abandonado por amigos e discípulos, escarnecido pelas multidões, e morto numa cruz fora dos muros da cidade. Os homens gostam de ser convencidos por projetos intelectualmente brilhantes, que apresentem argumentos fortes e uma lógica inquestionável; e Deus oferece-lhes um projeto de salvação que passa pela morte na cruz, em plena e radical contradição com todos os esquemas mentais e toda a lógica humana. O apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.
• A força e a “sabedoria de Deus” manifestam-se na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza, na humildade. Sendo assim, não nos parecem ridículas, descabidas e pretensiosas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de êxito humano?
• “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios”. Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem anunciar a mensagem com verdade e radicalidade, renunciando à tentação de a suavizar, de a tornar mais “politicamente correta”, de a tornar menos radical e interpelativa. Às vezes, o invólucro “brilhante” com que envolvemos a Palavra torna-a mais atrativa, mas menos questionante e, portanto, menos transformadora.
Evangelho: Jo 2,13-25 - AMBIENTE
O episódio que hoje nos é proposto aparece na “secção introdutória” do Evangelho de João (cf. Jo 1,19-3,36), onde se diz quem é Jesus e se apresentam as grandes linhas programáticas do seu ministério.
A cena situa-nos no Templo de Jerusalém. Trata-se desse Templo majestoso, construído por Herodes para demonstrar as suas boas disposições para com o culto a Jahwéh e para conseguir a benevolência dos judeus. A construção do Templo iniciou-se em 19 a.C. e ficou essencialmente pronta no ano 9 d.C. (embora os trabalhos só tivessem sido dados por concluídos em 63 d.C.). No ano 27 d.C., efetivamente, o Templo estava a ser construído há 46 anos e ainda não estava terminado, conforme a observação que os dirigentes judeus fizeram a Jesus (cf. Jo 2,20).
João situa o episódio nos dias que antecedem a festa da Páscoa. Era a época em que as grandes multidões se concentravam em Jerusalém para celebrar a festa principal do calendário religioso judaico. Jerusalém, que normalmente teria à volta de 55.000 habitantes, chegava a albergar cerca de 125.000 peregrinos nesta altura. No Templo sacrificavam-se cerca de 18.000 cordeiros, destinados à celebração pascal.
Neste ambiente, o comércio relacionado com o Templo sofria um espantoso incremento. Três semanas antes da Páscoa, começava a emissão de licenças para a instalação dos postos comerciais à volta do Templo. O dinheiro arrecadado com a emissão dessas licenças revertia para o sumo-sacerdote. Havia tendas de venda que pertenciam, diretamente, à família do sumo-sacerdote. Vendiam-se os animais para os sacrifícios e vários outros produtos destinados à liturgia do Templo. Havia, também, as tendas dos cambistas que trocavam as moedas romanas correntes por moedas judaicas (os tributos dos fiéis para o Templo eram pagos em moeda judaica, pois não era permitido que moedas com a efígie de imperadores pagãos conspurcassem o tesouro do Templo). Este comércio constituía uma mais valia para a cidade e sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do Templo.
Vai ser neste contexto que Jesus vai realizar o seu gesto profético.
MENSAGEM
Os profetas de Israel tinham, em diversas situações, criticado o culto sacrificial que Israel oferecia a Deus, considerando-o como um conjunto de ritos estéreis, vazios e sem significado, uma vez que não eram expressão verdadeira de amor a Jahwéh; tinham, inclusive, denunciado a relação do culto com a injustiça e a exploração dos pobres (cf. Am 4,4-5; 5,21-25; Os 5,6-7; 8,13; Is 1,11-17; Jr. 7,21-26). As considerações proféticas tinham, de alguma forma, consolidado a idéia de que a chegada dos tempos messiânicos implicaria a purificação e a moralização do culto prestado a Jahwéh no Templo. O profeta Zacarias liga explicitamente o “dia do Senhor” (o dia em que Deus vai intervir na história e construir um mundo novo, através do Messias) com a purificação do culto e a eliminação dos comerciantes que estão “no Templo do Senhor do universo” – Zc. 14,21).
O gesto que o Evangelho deste domingo nos relata deve entender-se neste enquadramento. Quando Jesus pega no chicote de cordas, expulsa do Templo os vendedores de ovelhas, de bois e de pombas, deita por terra os trocos dos banqueiros e derruba as mesas dos cambistas (vs. 14-16), está a revelar-Se como “o messias” e a anunciar que chegaram os novos tempos, os tempos messiânicos.
No entanto, Jesus vai bem mais longe do que os profetas vétero-testamentários. Ao expulsar do Templo também as ovelhas e os bois que serviam para os ritos sacrificiais que Israel oferecia a Jahwéh (João é o único dos evangelistas a referir este pormenor), Jesus mostra que não propõe apenas uma reforma, mas a abolição do próprio culto. O culto prestado a Deus no Templo de Jerusalém era, antes de mais, algo sem sentido: ao transformar a casa de Deus num mercado, os líderes judaicos tinham suprimido a presença de Deus… Mas, além disso, o culto celebrado no Templo era algo de nefasto: em nome de Deus esse culto criava exploração, miséria, injustiça e, por isso, em lugar de potenciar a relação do homem com Deus, afastava o homem de Deus. Jesus, o Filho, com a autoridade que Lhe vem do Pai, diz um claro “basta” a uma mentira com a qual Deus não pode continuar a pactuar: “não façais da casa de meu Pai casa de comércio” (v. 16).
Os líderes judaicos ficam indignados. Quais são as credenciais de Jesus para assumir uma atitude tão radical e grave? Com que legitimidade é que Ele se arroga o direito de abolir o culto oficial prestado a Jahwéh?
A resposta de Jesus é, à primeira vista, estranha: “destruí este Templo e Eu o reconstruirei em três dias” (v. 19). Recorrendo à figura literária do “mal-entendido” (propõe-se uma afirmação; os interlocutores entendem-na de forma errada; aparece, então, a explicação final, que dá o significado exato do que se quer afirmar), João deixa claro que Jesus não Se referia ao Templo de pedra onde Israel celebrava os seus ritos litúrgicos (v. 20), mas a um outro “Templo” que é o próprio Jesus (“Jesus, porém, falava do Templo do seu corpo” – v. 21). O que é que isto significa? Jesus desafia os líderes que O questionaram a suprimir o Templo que é Ele próprio, mas deixa claro que, três dias depois, esse Templo estará outra vez erigido no meio dos homens. Jesus alude, evidentemente, à sua ressurreição. A prova de que Jesus tem autoridade para “proceder deste modo” é que os líderes não conseguirão suprimi-l’O. A ressurreição garante que Jesus vem de Deus e que a sua atuação tem o selo de garantia de Deus.
No entanto, o mais notável, aqui, é que Jesus Se apresenta como o “novo templo”. O Templo representava, no universo religioso judaico, a residência de Deus, o lugar onde Deus Se revelava e onde Se tornava presente no meio do seu Povo. Jesus é, agora, o lugar onde Deus reside, onde Se encontra com os homens e onde Se manifesta ao mundo. É através de Jesus que o Pai oferece aos homens o seu amor e a sua vida. Aquilo que a antiga Lei já não conseguia fazer – estabelecer relação entre Deus e os homens – é Jesus que, a partir de agora, o faz.
ATUALIZAÇÃO
• Como é que podemos encontrar Deus e chegar até Ele? Como podemos perceber as propostas de Deus e descobrir os seus caminhos? O Evangelho deste domingo responde: é olhando para Jesus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o seu amor, oferece aos homens a vida plena, faz-Se companheiro de caminhada dos homens e aponta-lhes caminhos de salvação. Neste tempo de Quaresma – tempo de caminhada para a vida nova do Homem Novo – somos convidados a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.
• Os cristãos são aqueles que aderiram a Cristo, que aceitaram integrar a sua comunidade, que comeram a sua carne e beberam o seu sangue, que se identificaram com Ele. Membros do Corpo de Cristo, os cristãos são pedras vivas desse novo Templo onde Deus Se manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a salvação. Esta realidade supõe naturalmente, para os crentes, uma grande responsabilidade… Os homens do nosso tempo têm de ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus; têm de experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; têm de encontrar, na preocupação dos cristãos com a justiça e com a paz, o anúncio desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens. Talvez o fato de Deus parecer tão ausente da vida, das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o fato de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua responsabilidade… O nosso testemunho pessoal é um sinal de Deus para os irmãos que caminham ao nosso lado? A vida das nossas comunidades dá testemunho da vida de Deus? A Igreja é essa “casa de Deus” onde qualquer homem ou qualquer mulher pode encontrar essa proposta de libertação e de salvação que Deus oferece a todos?
• Qual é o verdadeiro culto que Deus espera? Evidentemente, não são os ritos solenes e pomposos, mas vazios, estéreis e balofos. O culto que Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa auto-suficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta “litúrgica” adequada ao amor e à generosidade de Deus para conosco.
• Ao gesto profético de Jesus, os líderes judaicos respondem com incompreensão e arrogância. Consideram-se os donos da verdade e os únicos intérpretes autênticos da vontade divina. Instalados nas suas certezas e preconceitos, nem sequer admitem que a denúncia que Jesus faz esteja correta. A sua auto-suficiência impede-os de ver para além dos seus projetos pessoais e de descobrir os projetos de Deus. Trata-se de uma atitude que, mais uma vez, nos questiona… Quando nos barricamos atrás de certezas absolutas e de atitudes intransigentes, podemos estar a fechar o nosso coração aos desafios e à novidade de Deus.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

============================
O sentido da mortificação
I. Todos os atos da vida de Cristo são redentores, mas a redenção do gênero humano culmina na Cruz, para a qual o Senhor orienta toda a sua vida na terra: Tenho que receber um batismo, e como me sinto ansioso até que se cumpra!1, dirá aos seus discípulos a caminho de Jerusalém. Revela-lhes as ânsias irreprimíveis de dar a sua vida por nós, e dá-nos exemplo do seu amor à vontade do Pai morrendo na Cruz. E é na Cruz que a alma alcança a plenitude da identificação com Cristo. Este é o sentido mais profundo que têm os atos de mortificação e penitência.
Para sermos discípulos do Senhor, temos de seguir o seu conselho: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me2. Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. As palavras de Jesus Cristo têm plena vigência em todos os tempos, uma vez que foram dirigidas a todos os homens, pois quem não carrega a sua cruz e me segue – diz-nos Ele a cada um – não pode ser meu discípulo3.
Carregar a cruz – aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã – é condição indispensável para seguir o Mestre.
“Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual – devemos reconhecê-lo com plena sinceridade – temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com a sua morte, devolveu-nos a esperança, o direito à Vida...”4 Seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo”5.
Unidas ao Senhor, a mortificação voluntária e as mortificações passivas adquirem o seu sentido mais profundo. Não são atos dirigidos primariamente à nossa perfeição, ou uma maneira de suportarmos com paciência as contrariedades desta vida, mas participação no mistério divino da Redenção.
Aos olhos de alguns, a mortificação pode não passar de loucura ou insensatez, de um resíduo de outras épocas que não combinam com os avanços e o nível cultural do nosso tempo; como também pode ser pedra de escândalo para aqueles que vivem esquecidos de Deus. Mas nenhuma dessas atitudes deve surpreender-nos: São Paulo escrevia que a Cruz é escândalo para os judeus, loucura para os gentios6. E mesmo os cristãos, na medida em que perdem o sentido sobrenatural das suas vidas, não conseguem entender que só possamos seguir o Senhor através de uma vida de sacrifício, junto da Cruz.
Os próprios Apóstolos, que seguem o Senhor quando é aclamado pelas multidões, ainda que o amassem profundamente e estivessem dispostos a dar a vida por Ele, não o seguem até o Calvário, pois ainda eram fracos por não terem recebido o Espírito Santo. Há uma diferença muito grande entre seguir o Senhor quando isso não exige muito, e identificar-se plenamente com Ele através das tribulações, pequenas e grandes, de uma vida sacrificada.
O cristão que vive fugindo sistematicamente do sacrifício, que se revolta com a dor, afasta-se também da santidade e da felicidade, que se encontra muito perto da Cruz, muito perto de Cristo Redentor. “Se não te mortificas, nunca serás alma de oração” (7). E Santa Teresa ensina: “Pensar que (o Senhor) admite na sua amizade gente regalada e sem trabalhos é disparate” (8).
II. O Senhor pede a cada cristão que o siga de perto, e para isso é necessário acompanhá-lo até o Calvário. Nunca deveríamos esquecer estas palavras: Quem não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim9. Muito tempo antes de padecer na Cruz, Jesus já tinha dito aos seus seguidores que teriam de carregá-la.
Há um paradoxo na mortificação, um mistério, que só se pode compreender quando há amor: por trás da aparente morte, encontra-se a Vida; e aquele que, dominado pelo egoísmo, procura conservar a vida para si, esse acaba por perdê-la: Aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e aquele que a perder por minha causa achá-la-á (10). Para podermos dar fruto, amando a Deus e ajudando os outros de uma maneira efetiva, é necessário que nos abramos ao sacrifício. Não há colheita sem plantio: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só; mas se morre, produz muito fruto (11). Para sermos sobrenaturalmente eficazes, devemos morrer mediante a contínua mortificação, esquecendo-nos completamente da nossa comodidade e do nosso egoísmo. “Não queres ser grão de trigo, morrer pela mortificação e dar espigas bem graúdas? – Que Jesus abençoe o teu trigal!” (12)
Devemos perder o medo ao sacrifício, à mortificação voluntária, pois quem quer a Cruz para cada um de nós é um Pai que nos ama e que sabe o que mais nos convém. O Senhor quer sempre o melhor para nós: Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis paz para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu peso leve (13). Ao lado de Cristo, as tribulações e penas não oprimem, não pesam, e, pelo contrário, levam a alma a orar, a ver a Deus nos acontecimentos da vida.
Pela mortificação, elevamo-nos até o Senhor; sem ela, ficamos grudados à terra. Pelo sacrifício voluntário, pela dor oferecida e assumida com paciência, simplicidade e amor, unimo-nos firmemente ao Senhor. “É como se Ele nos disesse: vós todos que andais atormentados, aflitos e sobrecarregados com o fardo das vossas preocupações e apetites, deixai-os, vinde a mim, e eu vos recrearei, e encontrareis para as vossas almas o descanso que os vossos apetites vos tiram”14.
III. Para nos decidirmos a viver com generosidade a mortificação, convém que compreendamos bem as razões que lhe dão sentido: quando nos custa ser mais mortificados, é porque ainda não descobrimos ou não entendemos a fundo esse sentido.
Os motivos que impelem o cristão a ter uma vida mortificada são vários. O primeiro é esse que considerávamos anteriormente: o desejo de nos identificarmos com o Senhor e de segui-lo nas suas ânsias de redimir por meio da Cruz, oferecendo-se a Si mesmo em sacrifício ao Pai. A nossa mortificação tem assim os mesmos fins da Paixão de Cristo e da Santa Missa, e traduz-se numa união cada vez mais plena com a vontade de Deus.
Mas a mortificação é também meio de progredir nas virtudes. No diálogo que precede o Prefácio da Missa, o sacerdote levanta as mãos ao céu enquanto diz: Corações ao alto, e o povo fiel responde: O nosso coração está em Deus. O nosso coração deve estar permanentemente voltado para Deus, deve estar cheio de amor e com a esperança sempre posta no seu Senhor. É necessário, pois, que não esteja agarrado e preso às coisas da terra, que se vá purificando cada vez mais. E isto não é possível sem penitência, sem a contínua mortificação, que é “meio de progredir”15. Sem ela, a alma enreda-se nas mil coisas pelas quais os sentidos tendem a espalhar-se: apegos, impurezas, aburguesamento, desejos imoderados de conforto... A mortificação liberta-nos de muitos laços e capacita-nos para o amor.
A mortificação é meio indispensável de apostolado: “A ação nada vale sem a oração; a oração valoriza-se com o sacrifício”16. Estaríamos enganados se quiséssemos atrair os outros para Deus sem apoiar essa ação numa oração intensa, e se essa oração não fosse reforçada pela mortificação alegremente oferecida. Foi por isso que se afirmou de mil maneiras diferentes que a vida interior, manifestada especialmente na oração e na mortificação, é a alma de todo o apostolado (17).
Não esqueçamos, finalmente, que a mortificação serve também de reparação pelas nossas faltas passadas, pequenas ou grandes. Em muitas orações, a Igreja nos faz pedir ao Senhor que nos ajude a corrigir a vida passada: “Emendationem vitae, spatiumveraepaenitentiae... tribuatnobisomnipotensetmisericors Dominus”: que o Senhor onipotente e misericordioso nos conceda a emenda da nossa vida e um tempo de verdadeira penitência (18). Deste modo, pela mortificação, até mesmo as faltas passadas se convertem em fonte de nova vida. “Enterra com a penitência, no fosso profundo que a tua humildade abrir, as tuas negligências, ofensas e pecados. – Assim enterra o lavrador, ao pé da árvore que os produziu, frutos apodrecidos, ramos secos e folhas caducas. – E o que era estéril, melhor, o que era prejudicial, contribui eficazmente para uma nova fecundidade. Aprende a tirar das quedas, impulso; da morte, vida” (19).
Peçamos vivamente ao Senhor que, a partir de agora, saibamos aproveitar melhor a nossa vida: “Quando recordares a tua vida passada, passada sem pena nem glória, considera quanto tempo tens perdido e como o podes recuperar: com penitência e com maior entrega” (20). E, quando alguma coisa nos custar, virá à nossa mente algum destes pensamentos que nos moverão à mortificação generosa: “Motivos para a penitência? Desagravo, reparação, petição, ação de graças; meio para progredir...; por ti, por mim, pelos outros, pela tua família, pelo teu país, pela Igreja... E mil motivos mais” (21).
Francisco Fernández-Carvajal
============================
1. A Páscoa, – principal festa dos judeus, pois nela o povo recordava a libertação da escravidão do Egito, – reunia na cidade de Jerusalém uma multidão de peregrinos. O povo vinha para celebrar o Deus da libertação e as lideranças religiosas e políticas se aproveitavam para explorar ainda mais o povo. Contraste gritante: a Páscoa não é mais a festa do povo que celebra e revive a libertação, mas a festa das lideranças exploradoras, que se aproveitam do momento para oprimir mais ainda o povo. Pior ainda: parece que Deus está de acordo com tudo isso.
2. Jesus não concorda com essa situação. “No templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. Então, fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, junto com as ovelhas e bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas” (vv. 14-15).
3. Ao mostrar Jesus usando um chicote, João recorda o que fora anunciado por Zacarias: “nesse dia não haverá mais comerciantes dentro do templo de Javé dos exércitos” (Zc. 14,21). Com esse gesto, Jesus inaugura a era do Messias. Zacarias previa um tempo em que o culto seria isento de exploração do povo. Para João, esse dia chegou com Jesus: não é mais possível culto ou religião conivente com a exploração do povo.
4. Para aprofundar esse aspecto é preciso ter presente a situação econômica daquele tempo. Nessa época, as terras da Palestina estavam nas mãos dos latifundiários (= elite religiosa de sumos sacerdotes e anciãos), que moravam em Jerusalém. O sumo sacerdote era o presidente do sinédrio, o supremo tribunal que condenará Jesus à morte. Três semanas antes da Páscoa os arredores do templo se tornavam um grande mercado. O sumo sacerdote se enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos cambistas e vendedores. Os animais (criados nos latifúndios) eram levados a Jerusalém e vendidos a preços, (nessas ocasiões), exorbitantes.
5. Todo judeu maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o templo.
Moeda do templo: o templo adotara a moeda tíria (cunhada em Tiro, cidade pagã) como moeda oficial, pois ela não se desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. Grande ironia (!): a Lei proibia o ingresso de moedas pagãs no templo. Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas faziam a troca das moedas “impuras” (= as moedas inflacionadas de quem morava na Palestina ou fora dela) pela moeda “pura” e por seu trabalho, cobravam altas taxas (8%).
6. Atitudes de Jesus. Jesus expulsou do templo bois, ovelhas, pombas, animais usados nos sacrifícios que o povo oferecia a Deus. Expulsando-os do templo, Jesus declara inválidos todos esses sacrifícios, bem como o culto que se sustentava graças à exploração do povo.
7. Os vendedores de pombas são os mais visados por Jesus: “Tirem isso daqui. Não façam da casa de meu Pai um comércio” (v.16). Os pobres – não tendo condições de oferecer a Deus ovelhas ou bois, – sacrificavam pombas para os ritos de expiação e purificação, bem como para os holocaustos de propiciação (cf. Lv. 5,7; 14,22.30s). Pobres desses pobres! Além de nada terem, até Deus parecia estar distante deles. A teologia veiculada pelo templo de Jerusalém é extremamente conservadora, isso porque os dirigentes do templo estão por trás de todo comércio que nele se desenvolve.
8. Culto x lucro! “O culto proporcionava enormes riquezas à cidade. Sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do templo. O gesto de Jesus toca, portanto, o ponto nevrálgico: o sistema econômico do templo, com seu enorme afluxo de dinheiro procedente do mundo todo conhecido … era outra forma de exploração” (J.Mateos-J.Barreto, o Evangelho de João, p.150). Nas grandes festas o preço das pombas (= sacrifício dos pobres) ia às nuvens fortalecendo a exploração dos ricos sobre os empobrecidos.
9. Deus, – o aliado dos sofredores empobrecidos, – sempre denunciou, ( através dos profetas), a exploração da religião. O gesto de expulsar os comerciantes do templo suscita duas reações:
1ª dos discípulos: para eles, Jesus seria um reformador da instituição. E até citam a Bíblia: “o zelo por tua casa me consome” (v. 17; cf. Sl. 69,10). Logo adiante (vv. 21-22) João afirma que os discípulos, – após a ressurreição de Jesus, – redimensionam seus conceitos a respeito de Jesus. Ele não é um reformador do templo, mas aquele que o substitui. Ele não reforma, ele substitui, ele traz o novo.
2ª dos dirigentes: exatamente os que se sentem lesados pelo gesto de Jesus (gesto de acabar com o comércio, com o lucro deles no templo). Eles o ameaçam, querem intimidar: ”Que sinal nos mostras para agires assim?” (v. 18). Jesus responde que sua morte e ressurreição serão o grande sinal: “destruam este templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). Temos aqui o centro do evangelho deste dia. Jesus não só aboliu os sacrifícios no templo de Jerusalém, Ele decretou que o fim do templo já chegou. Aboliu os sacrifícios e o templo! De agora a em diante, será através de seu corpo, – morto e ressuscitado, – que o povo se reencontrará com Deus para celebrar a Páscoa da libertação. (A essa altura o evangelho de João já aponta para os responsáveis pela morte de Jesus).
10. Os vv. 23-25 iniciam novo assunto. Servem de introdução ao diálogo de Jesus com Nicodemos (ev. do próximo domingo). Parece estranho que Jesus não confie nas pessoas. “Jesus não confiava neles, pois conhecia a todos. Ele não precisava do testemunho de ninguém, porque conhecia o homem por dentro”. Ele não confiava porque as pessoas viam nele um reformador das velhas instituições, e não aquele que vem trazer o vinho novo (cf. 2,10). Além disso, no evangelho de João, as pessoas são convidadas, – a partir dos sinais que Jesus realiza (v. 23), – a descobrir a realidade para a qual apontam (o que o sinal quer dizer, e não parar no sinal), mas que permanece oculta a quem não dá, pela fé, sua incondicional adesão a Jesus.
1ª leitura: Ex. 20,1-3.7-8.12-17
11. O DEUS DA VIDA quer a vida antes de tudo e acima de tudo. O Decálogo privilegia a vida, propondo-a como valor ímpar. Estudos recentes afirmam que o eixo das Dez Palavras é o versículo 13: “não matarás”. A vida, portanto, é o núcleo da constituição do povo de Deus. Ao preservar ou ao promover a vida, Israel está sendo fiel ao Deus da Aliança que o libertou (=salvou a vida) da escravidão do Egito.
12. O v. 2 (Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito) funciona como introdução. Ele recorda quem é Deus. É aquele que ouve  os clamores do povo e o liberta. É o Deus do povo que clama.
13. Egito: o Egito é símbolo de todas as opressões infligidas às pessoas.
- Javé: Sendo aquele que preserva e promove a vida, Javé se alia aos que sofrem, libertando-os de todos os “lugares de escravidão”.
- v. 2: Esse versículo (- porta de entrada do Decálogo – ), serve de ponto de referência, ou seja, Israel irá, (através de uma legislação justa) , construir uma sociedade totalmente diferente do Egito, onde a vida não valia nada e as pessoas eram tratadas como objetos.
14. 1º mandamento. O primeiro mandamento (3-6) proíbe a idolatria: “não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti ídolos… não te prostrarás diante deles, nem os servirás, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”.
a. Israel não pode fabricar “interpretações” do Deus que preserva e promove a vida, pois uma vez que pudesse ser representado por imagem ou figura, já estaria sendo manipulado por pessoas. Ao Deus da Vida as pessoas respondem com adesão única e incondicional (fé monoteísta).
b. Se Israel quiser se aproximar e ver o Deus que preserva e promove a vida, deve buscá-lo no irmão, feito à imagem e semelhança de Deus” (cf. Gn. 1,27), e não nos ídolos que não preservam a vida das pessoas. O verdadeiro culto que se presta ao Deus vivo e verdadeiro é a defesa e a promoção da Vida.
15. 2º. Mandamento. O segundo mandamento (v. 7) proíbe pronunciar o nome de Deus em vão, “porque o Senhor não deixará de punir quem pronunciar seu nome em vão”. O Deus da vida e da liberdade não pode ser usado para acobertar a morte e a escravidão.
16. 3º mandamento. O terceiro mandamento (vv. 8-11) diz respeito ao sábado. No Egito não havia respeito pela pessoa, pois o que se fazia aí era trabalho escravo. A proibição do trabalho em dia de sábado é um freio à ganância e exploração de uma pessoa sobre a outra. O descanso no sábado permite que a pessoa se sinta viva e livre e tome consciência de todos os aspectos que envolvem sua vida (trabalho, lazer, fruição da vida).
17. 4º mandamento. O quarto mandamento (v. 12) manda honrar pai e mãe, a fonte da vida. No Egito, onde o povo de Deus viveu escravo, a honra e a vida eram atribuídas ao Faraó e suas divindades. Israel tem os pés no chão. O Deus que preserva e promove a vida manda honrar os pais, pois foi a partir deles que a vida de cada pessoa começou a existir.
18. 5º. Mandamento. O quinto mandamento (v. 13) é o eixo do Decálogo. Ele se opõe ao sistema social que vigorava no Egito, o lugar da escravidão. Aí fora decretada a extinção do povo de Deus. Israel, para ser fiel ao Deus que preserva e promove a vida, deverá pôr a vida como valor absoluto.
19. 6º mandamento. O sexto mandamento (v. 14) focaliza a preservação e a promoção da vida na família: “não cometerás adultério”. O adultério destrói a relação familiar.
20. 7º mandamento. O sétimo mandamento (v. 15) ordena: “não roubarás”. Vários estudiosos afirmam que o verbo “roubar”, neste caso, está relacionado com escravização e privação da liberdade de alguém. Neste caso, não se trata simplesmente de tirar algum objeto que pertence a outra pessoa. A questão é mais profunda. Trata-se de não escravizar as pessoas, pois esse era o sistema social que vigorava no Egito, onde a vida não era preservada nem promovida.
21. 8º mandamento. O oitavo mandamento (v.16) diz respeito à vida a ser preservada e promovida através de julgamento e sentenças justas: “não levantarás falso testemunho contra o próximo”. Se os pobres e os fracos não encontram quem lhes faça justiça, a sociedade se torna um novo Egito, cheio de clamores e opressões, pois a impunidade da injustiça é a pior escola numa sociedade corrupta.
22. 9º e 10º mandamento. Os dois últimos mandamentos (v. 17) proíbem a cobiça (casa, mulher, escravo, boi, jumento) fonte e origem de toda a injustiça social, pois o desejo do acúmulo é o pai de todos os males. Isso acontecia no Egito, onde o Faraó concentrava tudo em suas mãos: terras, poder, bens, riquezas. Para construir uma sociedade alternativa, Israel precisa aprender a justiça e a partilha.
2ª leitura: 1Cor. 1,22–25
23. Uma religião escandalosa e louca. Uns pedem sinais… outros sabedoria… e nós pregamos Cristo crucificado… escândalo para uns… insensatez para outros! Mas para nós poder de Deus e sabedoria de Deus!
24. A comunidade de Corinto. A comunidade de Corinto era composta, em sua maioria, por pessoas pobres e escravas: “entre vocês não há muitos intelectuais, nem muitos poderosos, nem muitos de alta sociedade” (1,26). Essa gente trabalhava nos cais dos portos, transportando cargas pesadas, levando vida de verdadeiros “crucificados” da sociedade.
25. Paulo chegou a Corinto e foi anunciar a esses crucificados a vitória de um crucificado como eles. Se dermos crédito a Lucas, nos Atos dos Apóstolos, a opção preferencial de Paulo pelos pobres deu-se sobretudo depois do fracasso diante das elites de Atenas.
26. Não é possível falar de Deus aos crucificados (de ontem e de hoje) a não ser falando da cruz de Cristo, ou seja, falando de um Deus “escandaloso” e de uma religião “louca”, pois Deus assumiu em Jesus esse risco.
27. De fato,
- para um judeu a cruz é o que existe de mais horrendo, pois a própria Lei considera maldito quem foi crucificado (cf. Dt. 21,23; Gl. 3,13). Os judeus exigem uma religião de sinais prodigiosos para acreditar. Em outras palavras, uma religião sem riscos (“arroz-com-feijão”).
- Os gregos procuram sabedoria (v. 22), ou seja, uma religião que não se encarna jamais, puramente racional e científica, uma religião de laboratório.
28. Jesus escolheu o caminho do escândalo e da loucura, pois a cruz é símbolo do fracasso, fraqueza, vergonha e maldição, mas, ao mesmo tempo, é símbolo da encarnação do Filho de Deus em nossa realidade mais concreta. Morrendo na cruz Jesus nos libertou. É aí que reside o poder de Deus e sua sabedoria, pois Jesus é a revelação máxima do projeto e do amor de Deus.
R e f l e t i n d o
1. O tema central de hoje é a adoração de Deus, o que no AT se entende por ”temor de Deus”: não um medo infantil diante de um “Deus policial”, mas submissão e receptividade diante do mistério. Israel não pode “temer” (= submeter-se e acolher) outros deuses (2Rs. 17.7.35). Só a amizade (“graça”) do Senhor vale a pena.
2. Tal “temor de Deus” se expressa, antes de tudo, na lei do Sinai (cujo resumo são as dez Palavras). O Decálogo se inicia com o mandamento do temor de Javé. Só a Javé se deve adorar, pois é um Deus que age: tirou o povo do Egito. Mas esse temor de Deus diz respeito também ao relacionamento com o próximo. Javé não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o culto (= veneração de Deus) implica direta e imediatamente num “ethos” (= critério de comportamento).
3. No espírito dos israelitas, o Decálogo era algo como um pacto feudal. Javé era o suserano, que fornecia força e proteção, mas esperava da parte do vassalo, Israel, colaboração e “temor”, a adoração de Javé e o relacionamento fraterno entre o povo. Sem estas condições Israel não seria “povo de Javé”. Em termos atuais: para servir para Deus, não basta ser piedoso, é preciso “ser gente” no relacionamento com os irmãos.
4. Jesus veio nos ensinar, não tanto por suas palavras, mas sobretudo, por seu gesto de doação total, o que é obedecer a Deus e ser irmão dos homens. Seu gesto é mais eloqüente que qualquer decálogo. Doravante, a adoração de Deus não mais se chama temor, mas amor a Deus (1Jo 4,18). Por que? Porque em Jesus Deus não se revela mais como guerreiro (tempo do Êxodo), mas como “meu Pai e nosso Pai” (Jo 20,18). Por isso, Jesus é agora o verdadeiro lugar de adoração a Deus. “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores não mais adorarão no templo de Jerusalém ou no monte Garizim, na Samaria, mas em espírito e verdade “, isto é, naquilo que Jesus nos comunica (Jo 4,22-25).
5. Jesus é o novo templo, lugar da manifestação da glória (cf. 2,11), sobretudo, na ”hora” da morte (12,23.28; 13,31; 17,1). Por isso, quando João narra que Jesus purificou o templo de Jerusalém, destaca que expulsou até os animais do sacrifício; em outras palavras, pôs fim ao culto do templo; e no diálogo explicativo que segue (2,18-22), o corpo do Cristo ressuscitado e glorioso se revela ser o novo templo, que em três dias será erguido.
6. Neste contexto fica evidente o ardor de Paulo ao anunciar a cruz de Cristo. Escândalo para os judeus, porque a cruz é um instrumento indigno para a morte de um judeu. Loucura para os pagãos, com sua filosofia elitista (estóicos) ou hedonista. MAS para os chamados dentre todos os povos e nações é a revelação da força de Deus e de sua sabedoria. E nós sabemos por que? Porque Deus quer conquistar os corações que se convertem. Por isso o acesso a Deus acontece doravante no Cristo rejeitado, pois é nele que encontramos o gesto de reconciliação de Deus para conosco.
7. Jesus renovou a primeira Aliança (a de Moisés e da Lei) no dom de sua própria vida. Este dom é agora o centro da nossa religião , de nossa busca de Deus. Uma vida que não vai em direção da cruz não chega a Deus.
8. Quaresma é tempo de preparação batismal ou renovação batismal. Para instruir os fiéis a liturgia apresenta as Dez Palavras, os Dez Mandamentos. Mais que “preceitos” são critérios de conduta, de comportamento de vida. São baliza-dores da construção da vida dos filhos de Deus.
9. Mas como aparecem esses “mandamentos”? São fruto do amor de Deus. Do Deus da Vida que toma a iniciativa de fazer Aliança com suas criaturas, ou melhor, seus filhos. E para que tenhamos clareza do que faz, o nosso Deus já se declara de início como o Deus da Vida, o Deus que liberta da escravidão, o Deus que leva para a liberdade. O Deus da Vida só quer Vida para seus filhos: por isso ele desce dos céus e diz as Palavras (as dez Palavras) que garantem, que conduzem, que defendem, que promovem a Vida.
10. Ser cristão = ser pela vida, ser a favor da vida. Ano após ano, Israel ia a Jerusalém celebrar a Páscoa. Ano após ano, nós também vimos aqui para celebrar a Páscoa. Este é um gesto consciente ou automático, meramente repetitivo, sem muito conteúdo ou o “memorial” do Senhor Jesus. …Se o Cristo se apresentasse hoje poderia estar feliz com nosso modo de preparar, de celebrar e de viver a sua Páscoa (porque celebramos a Páscoa dele, não a nossa, então tem que ser do jeito dele!).
11. Não buscamos nós também sinais (como os judeus) ou raciocínios explicativos (como os gregos) para tentar entender a cruz da Redenção? Ela é e sempre será um paradoxo! Deus é tão grande, que pode realizar a sua obra na mais profunda aniquilação. Nosso caminho não vai do compreender para crer, mas do crer (da fé) para compreender o mistério da ação de Deus na nossa história humana.
prof. Ângelo Vitório Zambon
============================
“A substituição do templo de Jerusalém”
Em virtude da proximidade da tradicional festa da páscoa judaica, Jesus foi a Jerusalém e ficou indignado ao perceber que o Templo local de oração estava sendo usado para a exploração comercial. Com um chicote expulsou os vendilhões que estavam explorando os peregrinos vindos de várias regiões para os festejos. A reação das lideranças religiosas e políticas foram imediatas: “Que sinal nos apresentas para procederes deste modo”? Jesus respondeu: “Destruí vos este Templo e eu o reerguerei em três dias”. As lideranças retrucaram dizendo: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção e tu o levantarás em três dias”? Com este gesto Jesus ensina que o templo material será suplantado, fala de si mesmo, de sua pessoa, pois é em torno de Jesus que se reunirão futuramente os verdadeiros crentes e adoradores de Deus. Até mesmo os discípulos compreenderam esta passagem somente na Ressurreição de Jesus no 3º dia.
No texto do Evangelho (João 2,13-25) aparece a expressão “purificação do templo”. Poderíamos usar a expressão “a substituição do templo”, considerando que Jesus é o Novo Templo, o novo culto, lugar do encontro do homem com Deus. Cristo Jesus em comunhão com as pessoas da comunidade cristã forma o novo santuário no qual se elevam a Deus louvores e incensos. Ao expulsar com autoridade os exploradores do Templo, Jesus quer nos trazer de volta ao essencial que é Deus, chama a atenção para o “zelo” que devemos ter com as coisas de Deus. Ao designar o Templo como a casa de Deus, Jesus se apresenta como o Filho que tem autoridade no Templo e sobre ele. Devemos desprezar a idéia da sociedade capitalista de que tudo pode ser comprado e refletir sobre as leituras de hoje que nos ensinam que Deus não está à venda. Ao desmascarar mais uma vez a deturpação da religião por parte das lideranças religiosas de Jerusalém, o conflito de Jesus com o poder político e religioso vai se agravando. O resultado deste conflito veremos nas próximas reflexões.
Pedro Scherer
============================
O zelo por tua casa me devora
Em João, Jesus já adulto sobe muito cedo a Jerusalém, com um destino bem definido: o templo. O fato aqui narrado aparece nos outros evangelhos no momento em que se aproximava a Paixão de Jesus. Aqui é narrado no contexto de início de ministério, em seguida ao primeiro sinal realizado em Caná. Curiosamente a conclusão dos dois fatos é idêntica: os discípulos creram nele.
Jesus encontra aqui bois, ovelhas e pombas, com os cambistas. Um Templo bem povoado. João dá sua interpretação num contexto diferente dos demais. E vai buscar inspiração no Antigo Testamento, onde aparece já desde o tempo de Neemias, por ocasião da reconstrução  do Templo após o Exílio,  uma tendência de aproveitadores que privatizavam os bens de todos em proveito próprio, causando indignação de Neemias. Sabe-se, pelo texto de Ne. 13 quem era o aproveitador das ofertas.
A inspiração que leva a transmitir uma imagem irada de Jesus vem também de Lv 12,7 - 8, onde se distingue e se classifica os níveis de ofertas próprias a cada classe. Aos pobres se faz uma concessão à sua pobreza. Um destaque importante que prepara a própria apresentação de Jesus cujos pais seguem à risca a concessão feita à sua classe (Lc. 1,23-24) quando da sua apresentação no Templo. O que fora uma concessão misericordiosa da Lei, passou a ser com o tempo uma verdadeira humilhação e desclassificação dos pobres, de um lado, e de envaidecimento dos ricos, de outro. Quem vendia e quem comprava saía sempre ganhando: os primeiros pelo lucro e os últimos pela exibição. Quem mais lucrava com todo este comércio eram os sumo sacerdotes com os membros do Sinédrio, Conselho Supremo da nação, uma espécie de Banco Central da época com forte influência política. Os fariseus piedosos não ficavam muito atrás do aproveitamento da situação. Em Mateus 23 Jesus censura sua malícia na  manipulação da Lei em proveito próprio e na exploração das viúvas no Templo. Mas o principal alvo da indignação de Jesus foram os vendedores de pombas. A eles e só a eles dirige a palavra.
"Tirem isto daqui!". A razão mais simples era que sendo vendedores de pombas eram os mais procurados pelos pobres. Centralizavam assim o foco de exploração da inocência do povo mistificando a ideologia do ganho sob capa de oferenda sagrada. Sintomática é a citação do Salmo 69 na ocasião. Este salmo é forte reminiscência do AT  bem presente em várias ocasiões no NT. Aqui no texto, o versículo citado por completo é este:
O zelo por tua casa me devora; as injúrias dos que vos ultrajam caíram sobre mim" (Sl. 69,10).
Retrata  o justo perseguido e rejeitado que Jesus encarna por seu engajamento como pobre junto dos pobres. No contexto transparece com clareza tratar-se do início do  ministério de Jesus que assume os riscos de sua encarnação (O Verbo se fez carne - Jo 1,14). O fato de sua encarnação no meio de um povo manipulado pela ideologia dos donos do poder e do Templo provoca de si mesmo uma tempestade e uma ânsia de matar por parte desses  donos bem sucedidos enquanto durar a exploração. Encarnando-se, Jesus assume a vergonha dos humilhados. Esta é a memória que a Comunidade do Discípulo Amado em João quer transmitir. Uma memória bem comprometedora e atual.
O Êxodo enumera no Decálogo a tendência de querer avançar no que é dos outros. O texto colocado aqui situa como a comunidade dos crentes pode se deixar contagiar pela cultura da cobiça e do ter sem limites. Nem sempre o fato de ser pobre limita a ambição. Não é raro um pobre encontrar uma oportunidade de subir na vida e reproduzir o que antes negava.
"Os judeus perguntaram a Jesus: Que sinal nos apresentas para agires assim? Jesus lhes respondeu: "Destruí este Templo e em três dias o reerguerei! Disseram-lhe os judeus: este Templo foi edificado em quarenta e seis anos e tu em três dias o reerguerás? Ele porém falava do Templo de seu corpo. Quando ele ressuscitou dos mortos seus discípulos lembraram  que ele havia dito isto e  creram na Escritura e na palavra de Jesus".
Agora, o desfecho. O Templo já não conta. Jesus o põe em discussão e o texto conduz para a substituição do edifício pela pessoa de Jesus, o verdadeiro Templo. Uma linguagem que está longe de ser entendida pelos dominadores e até pelos discípulos antes da ressurreição. Estes, só tardiamente irão entender não sem duras penas. Saberão então de que Templo Jesus falava e que a Escritura pressentia, ou seja, um templo futuro não feito por mãos humanas. Os judeus, ao contrário, reagirão reafirmando na estreita medida do espaço físico do Templo que não pode ser questionado e desautoriza toda alternativa. Pensar diferente é incorrer em blasfêmia e heresia, passível de morte, como de fato aconteceu com Estevão (At. 6,13-14).
E hoje? De que templo se fala? Que profecia dos seguidores e seguidoras de Jesus?
O Templo atual é totalmente secularizado e profano.Mas conserva uma ideologia religiosa que frequentemente é assumida por cristãos e cristãs despreparados. Comparado com os templos até hoje erigidos por mãos humanas, o atual é incomparavelmente mais onipresente e centralizador. Seu clero é bem mais preparado para os novos tempos. As suas vítimas, porém, são as mesmas de sempre: os mais pobres. A abrangência do templo atual e de seus deuses penetra todas as dimensões da vida humana e ninguém se sente segura ou fora de seu alcance e influência. Este templo, digamos seu nome, é a economia de mercado. Como no tempo do Apocalipse, não se compra nem se vende sem ter sua marca (Ap. 13,17). Seus templos menores são os grandes centros de consumo, shoppings, os focos do narcotráfico, o chamado sacronegócio e todos os meganegócios que privatizam os lucros e excluem as massas, com seus profetas mídia e religiões de sentimentos.
No momento atual o templo vê rasgado o seu véu e dá para entrever o seu santo dos santos, suas entradas secretas. Assim como a besta, consegue sobreviver com uma das sete cabeças ferida. Tem seus dias contados, mas surpreendentemente resiste.
A profecia atual dos seguidores e seguidoras de Jesus convida a duas atitudes: com a mesma indignação, é preciso denunciar a malícia, desmistificando suas manifestações cavilosas. E tomar atitudes diferentes no ato de escolher o que comprar.Isto significa vencer por todos os meios o consumismo e optar por uma vida em comum com outras pessoas para resistir e viver em regime de austeridade, testemunhando que a maior alegria não é ter mas repartir. E preparar-se para a humilhação que advirá. É o caminho da luz que se anuncia.Outro é pura iluisão.
João Batista Magalhães Sales
============================
O evangelista João, cujo texto ilumina a liturgia desse terceiro domingo da quaresma, tem características próprias e profundas. É o evangelista dos sinais, dos conceitos teológicos e da catequese mistagógica (mistagogia é uma forma de educação na fé que leva o cristão a viver o que aprende e celebra).  Sua mensagem penetra nossa vida e nos faz tomar atitudes de conversão.
O título que antecipa a mensagem desse domingo é tirado do próprio Evangelho no versículo 24 que mostra a onisciência de Jesus. Ou seja, Jesus para o evangelista é aquele que tudo vê que tudo sabe que conhece nossas misérias e nossas disposições interiores para mudança.
O episódio que é contado por todos os evangelistas é de suma importância para o crescimento da comunidade cristã. Jesus toma uma atitude inusitada e inesperada por seus seguidores e para muitos de nós ainda hoje. Estamos acostumados com a imagem de um Jesus dócil, paciente e fazendo milagres. E na maioria das vezes é essa imagem que nos agrada. Mas hoje Jesus age com violência e rigidez. Como entender e conciliar o que Jesus quer nos dizer e o que pensamos dele?
No tempo de Jesus, o segundo templo que havia sido reconstruído depois do exílio por volta do ano 537 a.C. tinha se tornado o centro religioso e social para todos os judeus. Isso era bom, mas ao mesmo tempo o templo tinha se tornado o lugar que justificava toda exploração. Jesus como todo judeu piedoso também vai ao templo para rezar, mas ao entrar em contato com o comércio que a casa de Deus tinha virado fica irritado e toma a atitude que tomou.
Jerusalém era comandada nessa época por algumas famílias muito poderosas que detinha muitas terras. A família do sumo sacerdote e outros que usufruíam da peregrinação religiosa do povo. Todo judeu piedoso ia ao templo para oferecer seu sacrifício pela expiação dos pecados pelo menos uma vez na vida e tinham de levar seus animais. Os sacerdotes é que escolhiam os animais para serem oferecidos e na maioria das vezes encontravam um defeito nos que eram trazidos.
O judeu piedoso se via na situação que tinha de vender seu animal a um preço barato e comprar por um preço exorbitante um animal pertencente a essa família.  Existia uma única moeda que era aceita no templo, por isso os cambistas tinham ali sua função. Os ricos ofereciam um boi, os mais pobres um carneiro ou cabrito e os pobres um casal de pombo. A exploração era feita em todos esses âmbitos.
A grande revolta de Jesus era com os que vendiam pombas ("Tirem isso daqui" Jo 2,16). O comercio, a exploração irritou Jesus que tomou uma atitude severa. O chicote de cortas que era utilizado para tanger os animais encontrou uma nova função na mão de Jesus, expulsou os comerciantes exploradores. Dá para se imaginar o tumulto que foi essa cena dentro do templo lotado de fiéis.
Os discípulos não entenderam e nem os judeus o que Jesus queria dizer com isso. Sua resposta é enigmática e esclarecedora só compreendida depois da ressurreição. Jesus falava no templo de seu corpo que se tornaria o lugar do mais perfeito louvor. João quer nos ensinar que a adoração após a ressurreição não se dá mais em um lugar físico, mas na presença de Jesus ressuscitado. Lugar esse que não condiz mais com nenhuma exploração, com nenhuma ação que vai contra a dignidade do ser humano.
Se olharmos hoje a vivência de nossa fé, os “santuários” que recebem migrações de todas as regiões poderíamos pensar em como Jesus agiria nesses ambientes. É assim que chegamos ao eixo de nossa reflexão: “nenhum louvor ou celebração que se baseiam na exploração e na alienação do ser humano chega até Deus e é rigidamente reprovado por Jesus”.
Lembrando de como o evangelista percebe a figura do messias no final do Evangelho sabemos que Deus vê a disposição de nosso coração. Sabe o quanto o ser humano é frágil em sua fé e espera nossa conversão. Jesus percebe que muitos que vêem os sinais aderem a fé, mas não se entusiasma com isso porque conhece o homem por dentro, profundamente. Sabe que a adesão entusiasmada pode ser desfeita na primeira dificuldade.
Jesus conhece nossa oração, nossa disposição em segui-lo, o porquê da nossa presença nas celebrações e nas peregrinações nos santuários. Por isso não leva em conta o que nós fazemos e o que fazem com a religião porque nos conhece, conhece o ser humano profundamente.
Pelo fato de conhecer a religiosidade interesseira, ele vem ao nosso encontro nesse terceiro domingo da quaresma, tempo de conversão e penitência. O mundo, a religião, o louvor, todos nós precisamos de conversão. Precisamos aprender celebrar, aprender louvar, aprender dar a Jesus a importância que ele tem em nossas vidas. Foi por isso que Jesus morreu e ressuscitou.
Não podemos mais ficar de braços cruzados ou compactuando com todo tipo de exploração. Jesus é o cordeiro imolado e, para nós, basta compreender isso. O Deus que nos conhece nos dá uma nova chance. Que nossa fé a partir dessa quaresma não seja mais de alienação, mas de louvo autêntico e compromisso com o mestre da vida.
É do interior do ser humano que saem todas as maquinações e crimes. Jesus conhece esse interior, por isso precisamos de conversão (Mc. 2,14-23). A quaresma é essa chance. Como são nossas celebrações, nossas peregrinações? O que vamos buscar nos santuários?
padre Reginaldo AntonioGhergolet