.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

4º DOMINGO ADVENTO

4º DOMINGO ADVENTO

-MARIA DISSE SIM-José Salviano

 

21 de Dezembro de 2014
ANO   B

Evangelho - Lc 1,26-38


       Maria disse SIM. Deus, através do seu anjo, apresentou a Maria o seu projeto de salvação.  Maria, após  querer saber como isso seria possível, concordou com o Plano de Deus, ou seja, ela disse sim. E desde aquele momento, o Filho de Deus passou a habitar nela. Continua
============================
“EIAS AQUI  A SERVA DO SENHOR”... Olívia Coutinho

4º DOMINGO DO ADVENTO

Dia 21 de Dezembro  de 2014

Evangelho de Lc 1,26-38

O tempo se estreita e o nosso coração se alarga para acolher Jesus, que já está no meio de nós, mas que às vezes não o enxergamos por estarmos com o nosso olhar voltado para as coisas materiais!
É importante  conscientizarmos de que mais do que uma festa, em que se  partilha  presentes, o Natal é a presença viva de Jesus em nós!
 Em todos os anos, o Natal é sempre o mesmo, novo, diferente, deve ser as nossas atitudes, o nosso olhar para a face de  Jesus estampada nos rostos desfigurados de tantos  irmãos!
Este tempo de preparação para o Natal, deve nos levar a uma revisão  de vida, para que  possamos nos  apresentar  a Deus  renovados,  com o firme propósito de dar a Ele  o nosso  "Sim" de fidelidade a sua proposta, como fez Maria, logo após o anuncio do Anjo de que ela seria a mãe de Jesus!
 A liturgia de hoje nos apresenta mais uma vez, a doce figura de Maria! Maria nos ensina com o seu exemplo, como aproveitar bem estes últimos dias que antecedem a  grande  festa do amor, como transformar o nosso coração em manjedoura para acolher Jesus, que escolheu o  coração humano para fazer sua morada!
O Natal é de Jesus, mas  a festa é  de todos, é a festa da vida, que  será tanto maior quanto melhor para quem  se  preparou ao longo destes dias, se espelhando  em Maria, que tão bem preparou para que o Natal de Jesus acontecesse na vida de todos!
Inspirados no “SIM” de Maria, não teremos dificuldades em sair de nós mesmos, para nos banhar do amor de Deus, deixando Jesus entrar na nossa vida e modificar o rumo da nossa história!
A história da salvação começa com o SIM de Maria logo após a  saudação do anjo, uma saudação que surpreendeu aquela humilde jovenzinha de Nazaré, um povoado  entre as montanhas da Galileia! Maria, na sua simplicidade, estava longe de compreender o projeto de Deus  a se realizar através  dela, o que lhe fora comunicado  pelo Anjo, era grande demais para o seu entendimento, mas  mesmo sem entender, ela não hesitou em dar o seu “SIM” a Deus! Um sim, que além de marcar o início de uma nova era,  abriu para Maria uma perspectiva nova diante a promessa revelada pelo Anjo, de que o Espírito Santo lhe daria total assistência no mistério da encarnação. A partir desta revelação, Maria sentiu-se totalmente segura, na certeza de que o Espírito Santo lhe daria a força necessária que lhe permitiria levar em frente a missão divina  que O Pai lhe confiara!
Com a proximidade do Natal o nosso coração vislumbra a plenitude com mais fé, na certeza de que uma nova vida começa a desabrochar dentro de nós!
Que as alegrias do Natal não se resuma na comemoração de um só dia, que ela  perdure por dias da nossa vida!
Façamos da nossa vida um eterno Natal vivendo o amor a justiça e o perdão!

DO FUNDO DO CORAÇÃO DESEJO A TODOS UM FELIZ E SANTO NATAL!
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:
============================
Eis! Estamos no último dos quatro domingos do santo Advento! Estamos já em plena Semana Santa do Natal, iniciada no dia 17 de dezembro. A Igreja, a gora, é toda atenção, toda contemplação do mistério da encarnação, preparando-separa celebrar o Natal do Senhor. Sua vinda é a nossa salvação, sua chegada é o anúncio da esperança a todos os povos, a toda a humanidade, a anual celebração do seu Natal recorda-nos que nosso Deus não é de longe, mas de perto, de pertinho da humanidade toda e de cada um de nós. O Filho eterno de Pai fez-se homem para encher de Vida divina a nossa existência humana. É esta o Mistério de que fala são Paulo na segunda leitura da Missa de hoje: “Mistério mantido em sigilo desde sempre. Agora, este mistério dói manifestado e... conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé!” Antes, parecia que Deus era Deus somente de Israel, esquecendo os outros povos, a grande massa da humanidade. Agora, não! Com a aproximação do Santo Natal, contemplamos a benevolência de Deus para toda a humanidade: no segredo do seu coração havia um amoroso e misterioso projeto: salvar toda a humanidade pelo fruto que haveria de vir da raça de Israel, da tribo de Judá, da Casa de Davi.
O que nos deve encantar neste domingo, não é somente a grandiosidade desse mistério, dessa surpresa de um Deus que, desde sempre, preocupou-se com todos, com toda a humanidade e não só com Israel... o que nos deve encantar é também o modo como o Senhor realiza o seu desígnio: ele age nos escondido da história humana, no pequenininho de nossas vidas, nas humildes decisões de nossa existência. Pensemos bem! Primeiro, o rei Davi, humilde pastor de Belém, mais novo dos muitos filhos do velho Jessé. E Deus o escolheu: para rei e para dele fazer uma dinastia da qual nasceria o Santo Messias. Davi, que desejava humildemente construir uma casa, um templo para o Senhor, fica sabendo que é Deus quem lhe construirá uma Casa, isto é, uma dinastia, uma descendência, da qual nascerá Aquele bendito Descendente que enche de alegria o nosso coração: “O Senhor te anuncia que te fará uma casa. Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realiza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre!” Eis a bondade do Senhor, que de um simples pastorzinho fará nascer o Salvador que reina para sempre. Depois, podemos pensar em José, naquele que tinha recebido como prometida em casamento uma virgem mocinha chamada Maria... José, homem simples, moço de Deus. Membro pobre da família real de Davi, simples artesão. Moço de Deus, que vivia na justiça do Senhor, praticando a Lei do Deus de Israel. E o Senhor, misteriosamente o escolhe para ser o esposo daquela na qual se cumprirão as palavras do Senhor. Recordemo-nos do Evangelho segundo Mateus: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt. 1,20-21). Pobre José! Bendito José! Jamais esperaria tal coisa, tal gesto imprevisto do Santo de Israel! Ele, um simples carpinteiro, cuidador, tutor, guardador, de um filho que não seria seu filho! Ele escutaria, doravante, o Filho eterno do eterno Pai, chamá-lo de pai!
Finalmente, pensemos em Maria. Aqui a surpresa de Deus chega ao máximo. Uma jovenzinha pobre, uma virgem sem nome importante, perdida nas montanhas do norte da Terra Santa, em Nazaré da Galiléia. E o Senhor Deus lhe dirige a palavra, faz-lhe a mais estonteante proposta que um pobre filho de Eva jamais escutara: ser, virginalmente, a mãe do Messias, a Mãe do Filho de Deus, a Terra bendita e santa na qual brotaria a Raiz de Jessé, o Rebento prometido; ser a doce a Aurora do Dia sem fim, ser a Estrela d’Alva que prenuncia o Sol eterno! “Alegra-te, Cheia de Graça! O Senhor é contigo, Virgem Maria! Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!”.
São Bernardo de Claraval, no século XII, imaginando este encontro inaudito, entre a Virgem e o anjo, diz a Nossa Senhora: “Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem, mas do Espírito Santo. O anjo espera tua resposta. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres; com uma breve resposta tua seremos chamados à vida! Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés. E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça. Apressa-te, ó virgem, em dar a tua resposta! Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe! Abre, Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. ‘Eis aqui a serva do Senhor, diz a Virgem; faça-se e mim segundo a tua palavra’!”
Tão grande plano de Deus, tão grande salvação, deu-se na simplicidade de vidas humanas que foram dizendo sim ao Senhor, que foram se abrindo para ele nas pequenas e escondidas ocasiões da vida: Maria, a Virgem, José, o pobre descendente de Davi, Davi, o pastor que se tornou rei... E agora – ainda agora – o Senhor vem e nos convida a nós – a mim e a você – a que abramos nossa vida, nosso pequeno cotidiano, para a sua presença. Através de cada um de nós ele deseja continuar a obra de sua salvação, a marca da sua presença neste mundo enfermo e cansado.
Virgem Maria, Mãe de Deus, são José, esposo da virgem, são Davi, rei e profeta, intercedei por nós, para que sejamos dóceis e úteis instrumentos da salvação que Deus hoje quer revelar e atuar no coração dos homens e do mundo. Que através de nossa pobre vida, vivida com disponibilidade, o Senhor Jesus seja visto no nosso mundo tão confuso, tão disperso, tão superficial e ameaçado por tantas trevas.
dom Henrique Soares da Costa
============================
No sim de Maria, o sim da humanidade
Aproxima-se o Natal do Senhor. Ao longo do Advento a comunidade cristã foi-se preparando para viver o mistério do Nascimento de Jesus. As comunidades cristãs multiplicaram tempos de reflexão, viveram celebrações de reconciliação, prepararam-se para celebrar a memória de um acontecimento que, vivido há mais de dois mil anos, continua a motivar os crentes para uma vida marcada pelos valores do Evangelho. A liturgia deste IV Domingo do Advento está dominada por três idéias-chave: o “sim” de Maria, a construção do templo, a glória de Deus. O “sim” de Maria convida ao sim de todos os cristãos. Dizer sim a Deus e aos homens significa uma generosidade total para entrar no plano de Deus. Qualquer cristão podia hoje perguntar-se: Senhor que queres que eu faça? (Evangelho). Construir um templo não é fácil. O templo de David e o templo de Salomão foram obras reveladoras da fé do povo de Israel. Há porém um templo mais fácil de edificar que é o próprio “coração humano”. É aí que Jesus deve nascer como nasceu em Belém. (1ª leitura). Mas o grande objetivo de todas as celebrações natalícias é afirmar a glória do Nosso Deus. Se o mundo de hoje anda longe da prática do Evangelho é cada cristão que tem o dever de anunciar Jesus Cristo, porque só nele se revela o poder e a glória do nosso Deus.
1. A Anunciação do Anjo Gabriel
O que surpreende mais nesta narrativa do Evangelho são as seis atitudes de Maria. Interpelada pelo Anjo, como reage? Revela que está atenta ao que dizem as Escrituras. Maria sabe pela leitura de Isaías que uma virgem conceberá e dará à luz um filho. Não pensava porém ser ela a escolhida (1). Porém reage com um discernimento extraordinário. Ela sabe que não pode conceber um filho porque não vive com qualquer homem. Quer ser esclarecida e entende pelas palavras do Anjo que para Deus não há impossíveis (2). Tem consciência de que vai levantar muitos problemas que poderão inclusivamente marginalizá-la na comunidade de Nazaré. José foi o primeiro a reagir e o Anjo teve que lhe dar a explicação (3). Foi então que Maria disse um sim sem condições “servirei o Senhor como Ele quiser” (4). Motivada pela presença de Jesus em si, sente a urgência da caridade e vai ao encontro de Isabel, “o próximo mais próximo” (5). Finalmente e com Isabel entoa uma oração de ação de graças, o Magnificat (6). Estas seis atitudes de Maria são reveladoras das linhas de ação novas que os cristãos devem viver quando interpelados pelo projeto de Deus. Deus pede sempre e o cristão deve saber dizer sim com consciência e com responsabilidade.
2. A construção do templo
A história de David é feita de fidelidades e infidelidades, mas Deus não deixa nunca de protegê-lo. Tirou-o dos campos onde pastoreava os rebanhos, esteve com ele em todo o lado, deu-lhe um nome grande que o prestigiou no seu tempo, preparou um lugar para se apresentar como rei. Toda esta proteção de Deus exigia a construção de um templo, um palácio onde o Senhor habitaria. Deus foi para David um pai, e ele foi para Deus um filho. Porém, só o descendente de David iria construir o grande templo que se tornaria referência para todo o povo: o templo de Salomão. Compreende-se este texto em vésperas de Natal porque enquanto David e Salomão viveram em palácios reais, Jesus vai nascer numa gruta de Belém. O coração do cristão será como a gruta de Belém que na simplicidade e pobreza se dispõe a acolher Jesus Salvador.
3. Só a Deus glória e poder
É diferente a perspectiva da mensagem cristã no mundo de hoje. Atualmente todos procuram ser conhecidos, ser protagonistas, ter resultados, ser considerados, ter poder. Jesus, ao nascer num presépio, apresenta-se na maior das humildades. Vem de uma cidade pobre, Nazaré, a família vai ser recenseada em Belém, vai nascer numa gruta perto dos animais, vai ser adorado pelos pastores e pela gente humilde. Só Deus tem uma leitura diferente para este Menino que vai nascer, por isso, os anjos irão cantar “glória a Deus nas alturas e a paz aos homens de boa vontade”. Será Jesus a revelar, pelos tempos fora, a glória e o poder de Deus.
monsenhor Vitor Feytor Pinto in “Revista de Liturgia Diária”

============================

Neste quarto e último domingo do Advento, a liturgia da Palavra apresenta Natan comunicando ao rei Davi a recusa de Deus ao suntuoso templo que queria construir para Ele habitar (1ª leitura).
Maria, por sua vez, responde às palavras do anjo, numa atitude receptiva, dizendo que se faça nela o que Deus quiser (evangelho). Desta forma, a humildade de Maria a transforma no melhor santuário de Deus. Na História da Salvação é sempre assim: Deus se revela aos simples e humildes, mas resiste os orgulhosos.Finalmente, Paulo se faz portador da revelação do mistério de Deus (2ª leitura) que se concretiza em Jesus Cristo.
Nossa Senhora é a protagonista deste 4º domingo. Ela conhece o segredo da esperança. Ninguém como ela soube esperar e preparar a vinda do Senhor.
1ª leitura: 2 Samuel 7,1-5.8b-11.16
Deus não é propriedade de ninguém. Por isso não aceita a idéia de estar recluso dentro do templo que Davi queria construir. A presença d'Ele não pode estar limitada pelo tempo e o espaço. Sua presença enche o universo. Além do mais, Ele já está presente, de modo especial, no meio do povo que luta pela vida e a liberdade porque o verdadeiro templo de Deus é a humanidade que Ele se uniu pela encarnação do Filho.
Ao contrário do que o rei pensava, é Deus quem vai dar a Davi uma casa (uma dinastia ). Dela nascerá o Messias (o “Ungido” de Deus, descendente de Davi) que libertará o povo e o fará viver conforme a justiça e o direito (Isaías 11,1-9).
O Novo Testamento vê na pessoa de Jesus (descendente de Davi) a realização desta promessa (Cristo = Ungido = Messias). É assim que o anjo Gabriel se refere a Ele na anunciação: ”E o Senhor dará a ele o trono de seu pai Davi”. A partir da sua presença transformadora no mundo e da sua mensagem é que os homens de boa vontade poderão construir um mundo novo, onde todas as realidades possam coexistir, reconciliadas entre si (Colosenses 1,20).
2ª leitura: Romanos 16,25-27
Para o apóstolo Paulo, aquele Deus que se manifestou, inicialmente no Antigo Testamento é o mesmo que se manifesta agora, plenamente, na pessoa e na mensagem de Jesus. Pois tudo o que lemos no Antigo Testamento deve ser avaliado e interpretado à luz de Jesus Cristo. Desta forma, tudo começa e termina em Cristo. Seu poder é suficiente para manter firmes os que acreditam n'Ele pela fé.
O evangelho confiado a Paulo está centrado em Jesus Cristo e contém a revelação do mistério escondido, que é o plano de Deus para a salvação da humanidade.
Evangelho: Lucas 1,26-38
O texto do evangelho oferece-nos elementos que nos ajudam a compreender alguns aspectos da teologia da História da Salvação.
A Palavra de Deus é sempre uma Boa Nova. Por isso o anjo saúda Maria com uma expressão de alegria («Alegre-se»), que traduzimos por “Ave, Maria”. O entusiasmo da saudação tem por finalidade preparar o ânimo de Maria para ser receptiva à mensagem que lhe vai transmitir. Por isso acrescenta «Cheia de graça!», que significa uma pessoa já transformada anteriormente num ser agradável a Deus pela ação da sua graça. Finalmente conclui dizendo «O Senhor está com você!», porque toda missão dada por Deus tem a garantia do seu auxílio e da sua presença.
Maria escuta e acolhe a Palavra como uma mensagem pessoal, para ela em particular, que exige uma resposta, embora ficasse “preocupada, e perguntava a si mesma o que a saudação queria dizer”. Com serenidade e simplicidade, faz a pergunta fundamental («Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?») porque a proposta de ter “um filho (que)... será chamado Filho do Altíssimo” e grandioso demais para uma mulher simples como ela que, no entanto, quer ser fiel a Deus.
Do medo e da turbação iniciais Maria chega à entrega e disponibilidade total diante das palavras do anjo («O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus»). A resposta de Maria é a maior expressão de abertura, disponibilidade e generosidade («Eis a escrava do Senhor. Faça- se em mim segundo a tua palavra.»). Está disposta a colocar seu corpo, sua alma e sua vida, incondicionalmente, a serviço da vontade de Deus. Ela será o lugar abençoado do encontro entre Deus e a humanidade. O “sim” de Maria fez possível a chegada do Salvador para o bem de toda a humanidade.
Palavra de Deus na vida
A primeira leitura apresentava-nos o rei Davi preocupado em construir um templo onde Deus pudesse habitar no meio do seu povo, mas, no evangelho, o anúncio do anjo Gabriel a Maria mostra-nos que o modo por Deus escolhido, para se fazer presente entre nós, não é a frieza de um templo, mas o calor de um corpo humano e maternal como o de Maria. A sua vontade era mesmo habitar “no meio de nós”.
É esta uma presença não imposta. Ela passa pela aceitação e acolhida do ser humano, como aconteceu na resposta positiva de Maria diante da proposta de ser a mãe do Salvador. É a revelação do mistério escondido a que Paulo se refere na segunda leitura de hoje e que se manifesta na pessoa de Jesus.
Diante da pergunta de Maria: «Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?» a resposta do anjo mostra a ação criadora de Deus (“O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra”). O mistério da Encarnação consiste justamente nisto: o Espírito Santo agiu no seio virginal de Maria formando um corpo humano com seu corpo e sua alma. A este corpo e alma normais, se uniu a segunda pessoa da Santíssima Trindade (o Filho) de forma que, sendo homem, o Filho gerado por Maria fosse, também, o Filho de Deus.
Um mistério que foge à nossa capacidade de humana compreensão, como fugiu, certamente, à capacidade de compreensão de Maria. Mas ela o aceitou com a atitude fundamental de uma pessoa de fé (“Faça-se em mim segundo a tua palavra”). Ao contemplarmos Maria, grávida do Filho de Deus, entendemos melhor o porquê da saudação do anjo: ”Alegre-se, cheia de graça!”, que parece dizer “cheia de Deus” porque ela passou a ser portadora da esperança da humanidade que é Jesus, o Filho de Deus.
Não podemos por menos de relacionar isto com o significado da Arca da Antiga Aliança, sobre a qual permanecia a nuvem de Deus, e que o povo de Israel guardava com tanto respeito. Agora Maria, grávida de Jesus, será (como rezamos na ladainha do Santo Rosário) a Arca da Nova Aliança, sacrário do Espírito Santo, onde Deus está presente.
O fato de Maria conceber sem ainda estar morando com José indica que o nascimento do Messias é obra da intervenção de Deus que surge na história da humanidade de maneira totalmente nova. Deus entra na vida da humanidade, na vida da comunidade cristã, na vida de cada um de nós, sem forçar nada, sem demonstração de poder. Basta a aceitação e o acolhimento da proposta de vida nova que Deus nos faz.
A semente de uma nova vida, plantada em nós pelo Batismo, deve germinar e produzir frutos. A Igreja e a comunidade cristã, da qual fazemos parte, é o ambiente adequado para descobrir, manifestar e celebrar o “novo céu e a nova terra”, que a humanidade espera. A presença de Jesus entre nós, unida à nossa participação, pode fazer deste sonho uma realidade.
Pensando bem...
+ Assim como Maria, grávida de Jesus, deu à luz a Salvação do mundo, todos nós, pelo Batismo, recebemos a presença do Espírito Santo. Não estaríamos chamados a mostrar ao mundo Aquele que é a Luz da Salvação?
+ Nós, batizados, formamos a Igreja. A missão da Igreja, grávida de Jesus como Maria, não é outra que transmitir ao mundo a mensagem d'aquele que veio para nos salvar. Estamos conscientes disso?
Como estamos assumindo esta missão?
padre C. Madrigal
============================
"Alegra-te, cheia de graça, o senhor está contigo!"
Domingo de Maria grávida. Estamos bem próximos! É o Quarto Domingo do Advento. Neste Domingo, já se forma um clima de expectativa e preparação final.
Estamos reunidos com Maria, a "mulher cheia de graça", como ouvimos da boca do anjo! Com Maria ouvimos a Palavra. Com Maria celebramos a Eucaristia: memória da Páscoa de Jesus que deu sentido pleno ao Natal. Se não fosse a Páscoa, o Natal não seria o que é: tão importante para nós! Nem mesmo Maria seria o que ela é: tão importante para a humanidade como Mãe do Salvador e nossa mãe!
Lembrando a espera de Maria, preparemo-nos para a novidade de Deus que chega para nós neste Natal. Bendigamos o Pai pela manifestação do seu Filho em nossa vida, fazendo que toda a humanidade entre no dinamismo do seu amor e da sua fidelidade.
Primeira leitura – 2 Samuel 7,1-5.8b-12.14
O Filho de Davi. O Deus que tirou Israel do Egito e fez com ele uma Aliança (Êxodo 20,2; 24,3-8), também estabeleceu Davi como rei, como "Servo" predileto (2Samuel 7,5). Quando Davi quer construir uma "casa" (= templo) para Deus, este manda Natã dizer que nunca precisou de casa alguma, mas acompanhou Israel numa tenda (7,6b), em todas as circunstâncias (7,9) Por isso, Deus construirá uma "casa" (= dinastia) para Davi, firme para sempre. Esta promessa é plenamente realizada em Jesus, Filho de Maria, na linguagem de Davi (cf. 1 Crônicas 17,1-15 – 2 Samuel 7,1-3 cf. Deuteronômio 12,9-10; Salmo 131/132,1-5 – 2 Samuel 7,8-11 cf. 1 Samuel 16,11; salmo 77/78,70-71; 88/89,4.28-30 – 2 Samuel 7,16 cf. 2 Samuel 23,5; Lucas 1,32-33).
Na verdade a tradição primitiva teve que responder à dupla apreensão de Davi: o futuro de sua dinastia, e o futuro de seu povo. Sabemos que Davi não é rei de uma nação homogênea: suas sucessivas unções no Sul (2 Samuel 2,1-4), no Norte (2 Samuel 5,1-3) e depois em Jerusalém (2 Samuel 5,6-10) demonstram, claramente, que sua realeza ainda era feita de fragmentos e porções.
Toda a passagem (7,1-16) está moldada de um jogo de palavras. O versículo 5: "Eis o que diz o Senhor: Não és Tu quem me edificará uma casa para eu habitar"; versículo 11: "O Senhor anuncia-te que Ele quer fazer-te uma casa"; versículo 16: "Tua casa e teu reino estão estabelecidos para sempre diante de Mim". Casa significa alternadamente templo, descendência e dinastia. Todo este jogo de palavras é usado para ensinar, de um lado, que Deus é totalmente independente da dinastia davídica, a partir de seu fundador (cf. versículos 8-9), é totalmente dependente de Deus. Deus não precisa de uma casa ou de um templo para estar presente no meio de seu povo ou para manifestar essa presença. Sua ação na história não está ligada a um lugar santo e não é de nenhum modo geograficamente limitada. Um templo não servirá a título nenhum de garantia da presença de Deus, nem de meio de pressão para obrigá-Lo a agir (cf. 1Reis 8,27; Isaias 66,1ss; Atos 7,48).
Estas intuições teológicas chega ao seu auge em textos do Novo Testamento como João 1,14: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós", isto é armou a sua tenda entre nós; João 2,21: "O templo do qual Jesus falava era o seu próprio corpo (ressuscitado)"; cf. João 4,20-26; 1Coríntios 3,16-17). Em Cristo todos são assumidos na Aliança filial entre Deus e as pessoas, que Nele, o descendente de Davi por excelência, se tornam Pai e filhos e morada de Deus viva.
Salmo responsorial - Salmo 88/89,2-5.27.29
O Salmo reflete uma liturgia de louvor no Templo de Jerusalém. O termo e tema central é sem dúvida o de "rei da glória" (versículos 7-8). Mas a fórmula assumirá significado profundamente novo em Belém: aí o cenário será simples e muito humano. É considerado um Salmo real ou régio.
O hino começa com uma introdução (vs. 2-5) Aí aparecem as duas palavras-chave deste Salmo: "amor e fidelidade de Deus". Afirma-se que o amor foi construído para sempre e a fidelidade é mais firme que o céu (v. 3). Essas duas palavras aparecem, respectivamente, sete e dez vezes ao longo dos 53 versículos do Salmo. Estão em jogo o "amor e a fidelidade" divinos, traduzidos na história do povo como "Aliança" feita ao rei Davi. Em outras palavras, o amor e a fidelidade de Deus aliado produziram uma dinastia para o Povo de Deus: Davi terá sempre um descendente no trono.
O rei é considerado filho primogênito de Deus, Altíssimo sobre os reis da terra (vs. 27-28). Deus lhe mantém para sempre seu amor e fidelidade na Aliança (v. 29), também quando os descendentes dele ocuparem seu lugar no trono.
Qual o rosto de Deus no Salmo 88/99? O Salmo revela um Deus aliado que caminha com seu povo. Israel se orgulha de ser o escolhido de Deus, Senhor do universo e da história. É o Deus do amor e da fidelidade que produzem justiça e direito. Indiretamente, o Salmo aponta também para a função da autoridade política: ser agente da justiça e do direito que Deus quer na sociedade. Portanto, o Deus deste Salmo tem os pés no chão e faz história com seu povo.
Jesus Cristo é a expressão máxima do amor e da fidelidade de Deus (João 1,17), palavras que atravessam de ponta a ponta todo o Salmo 88/89. O tema da Aliança encontra também em Jesus seu ponto alto. A nova e eterna Aliança é selada no sangue de Cristo. O tema da unção está presente no batismo de Jesus e em toda a sua vida. O Espírito está sobre Ele para dar início à grande utopia do reinado de Deus na história. Jesus é o Messias.
Cantemos ao Senhor de todo coração porque se revela fiel às suas promessas e ao seu amor por nós para sempre.
Segunda leitura - Romanos 16,25-27
O Mistério de Deus revelado em Jesus Cristo e a fé universal. No hino final de Romanos, aparece o poder salvador de Deus, que confirma a comunidade nascida do Evangelho. O sentido daquilo que, como um germe, estava escondido nas antigas Escrituras, fica agora visível, e isso, para todas as nações. Porém, esta manifestação não se impõe pela força, mas exige a fé em Jesus Cristo e sua obra (cf. Efésios 3,20-21; 1 Coríntios 1,8; Colossenses 2,7; 1,26-27; Efésios 3,3-12).
A revelação do Mistério é o cerne desta doxologia de Paulo. Este Mistério. Em geral, na literatura paulina, é o do acesso dos pagãos à salvação, no raiar dos últimos tempos (v. 26); cf. Efésios 3,8-9; Romanos 11,25; Colossenses 1,25-27). Este Mistério é concebido pela sabedoria de Deus, e "sábio por excelência" (versículo 27), que pode prever o desfecho de uma história além dos séculos, no século futuro (mesmo sentido em Daniel 2,20-28).
Este Mistério estava antes escondido no tempo (versículo 25b); cf. 1 Coríntios 2,6-8), mas agora foi manifestado, primeiro por Jesus Cristo e sua morte por toda a humanidade (tema essencial da Carta aos Romanos), em seguida por Paulo e pelo Evangelho que ele deve proclamar ao mundo (tema do começo da carta: Romanos 1,5).
O Mistério também é o segredo do mundo por vir, a constituição de uma humanidade reconciliada com Deus e consigo mesmo. A sabedoria de Deus realiza este Mistério na Cruz de Cristo; os Apóstolos Dele são as testemunhas e os realizadores.
O desígnio de Deus é sempre o mesmo, salvar todas as pessoas (cf. 1Timóteo 2,4), pois Deus é fiel. Essa realidade, Paulo chama de Mistério. O Mistério corresponde à Sabedoria de Deus (v. 27); 1Coríntios 2,7; Efésios 3,9; Colossenses 2,2-3) escondido e agora revelado (v. 25; 1Coríntios 2,7; Efésios 3,5.9s; Colossenses 1,26).
Agora, este Mistério de Deus, isto é, sua vontade salvífica para com judeus e pagãos, que sendo revelada e comunicada revela a própria pessoa de Deus em Cristo, tornou-se conhecido das pessoas. As pessoas poderão então andar na "luz do Mistério" revelado por Deus em Cristo, isto é, viver na esperança-certeza de que Deus quer salvar todas as pessoas, viver na fé, que sendo resposta ao Evangelho engaja a pessoa humana toda e por isso é sempre obediente, obediência que é fé.
Diante do Mistério revelado, só há aceitação ou rejeição, não há meio termo. E a decisão deve ser tomada agora, não pode ser deixada para amanhã. Cristo, chave da história e do destino das pessoas, coloca toda a cada pessoa em crise, quando tem de se decidir a favor ou contra Ele.
Evangelho - Lucas 1,26-38. Maria faz parte da comunidade dos pobres que esperavam a libertação de Deus. Mas jamais esperava que podia ser ela a mãe do Salvador, pois não tinha ainda se casado. Por isso ela ficou sem entender... Ficou pensando no coração o sentido daquele anúncio... ficou confusa...
É preciso entender o quadro e o contexto histórico dos versículos 26-27. A aparição do Anjo Gabriel situa a cena da Anunciação e a situa no seu contexto profético e escatológico. Desde Daniel 8,16; 9,21.24-26, Gabriel era considerado como o depositário do segredo do computo das "setenta semanas", fixadas antes do estabelecimento do Reino definitivo.
O anjo aparece, inicialmente em Lucas 1,17 no Templo a Zacarias; seis meses depois (180 dias) a Maria (Lucas 1,26), após nove meses (270 dias) Cristo nasce, e 40 dias mais tarde é apresentado no Templo de Jerusalém. Ora, esses números perfazem um total de 490 dias ou "setenta semanas!". Cada etapa é, aliás, assinalada pela expressão "completados os dias..." (Lucas 1,23; 2,6; 2,22), que dá aos eventos a significação de cumprimento profético.
Cristo é, portanto, o Messias previsto em Daniel 9, ao mesmo tempo Messias humano e misterioso Filho do homem, de origem quase divina (Daniel 7,13).
A Cena de desenrola numa pequenina casa da Galiléia, região desprezada (João 1,46; 7,41), em sensível contraste com a grandiosa cena da anunciação do Batista, no Templo de Jerusalém (Lucas 1,5-25): já se insinua aqui a oposição entre Maria e Jerusalém. Define-se desde a saudação do anjo. Este produz, com efeito, a saudação de Sofonias 3,16 e Zacarias 9,9 que faziam de Jerusalém uma saudação messiânica, destinada a anunciar-lhe a próxima vinda do Senhor "em seu seio" (sentido literal da fórmula de Sofonias 3,16). O ano Gabriel transpõe, portanto, para a Virgem, os privilégios até então atribuídos a Jerusalém.
A expressão "cheia de graça" na fórmula de Lucas indica que a Virgem era "graciosa" como Rute de Booz (Rute 2,2; 10,13), Ester perante Assuero (Ester 2,9,15,17; 5,2,8; 7,3; 8,5), como qualquer mulher aos olhos de seu marido (Provérbios 5,19; 7,5; 18,22; Cântico dos Cânticos 8,10). Esse contexto matrimonial é, pois, profundamente evocativo: há muito Deus procura uma esposa que Lhe seja fiel. Interpelada por uma expressão freqüente  nas relações entre esposos, Maria compreende que Deus vai realizar, com ela, o mistério dos esponsais prometidos no Primeiro Testamento. Esse mistério atingirá mesmo um realismo inédito, pois as duas naturezas - divina e humana - vão unir-se na pessoa de Jesus.
O anjo não exige que a Virgem imponha a seu Filho o nome de Emanuel, previsto em Isaias 7,14. Nenhuma tradição, entretanto, pensava em "Jesus", que significa "Javé nosso salvador". Este nome evoca dois personagens do Primeiro Testamento: determinaram importantes ocorrências de salvação na história do povo: Josué, "salvador" do deserto (Eclesiástico 46,1-2) e Jesus, sacerdote por ocasião de Babilônia (Zacarias 3,1-10; Ageu 2,1-9). Jesus Cristo realizará uma salvação bem mais decisiva quando ocupar o primeiro lugar da fileira, através do sofrimento e da morte, para obter a salvação da humanidade inteira.
A criança que vai nascer será fruto de uma intervenção especial de Deus; pertencerá àquele mundo divino e celeste que a nuvem geralmente simboliza (v. 35).
É importante refletir que um Messias que não fosse homem não poderia associar a humanidade na obra da salvação; um Messias que não fosse Filho de Deus não poderia nos ensinar a única via possível de salvação: a filial adesão ao Pai.
A Palavra vivida celebrada no cotidiano da vida
Queremos acolher e viver a Palavra de hoje, assim como Maria a acolheu e viveu. Com Maria, queremos "dar à luz" Jesus e sua mensagem para o mundo, onde há milhões de pobres excluídos, na expectativa de um futuro mais humano para todos. "a missão do anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo tem destinação universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho" (Documento de Aparecida, 380).
Maria aceita com fé a proposta divina e declara-se a serva do Senhor. Ela é modelo do discípulo cristão e mãe da humanidade. "Com sua fé, Maria chega a ser o primeiro membro da comunidade dos que crêem em Cristo, e também se faz colaboradora no renascimento espiritual dos discípulos. Sua figura de mulher livre e forte emerge do Evangelho, conscientemente orientada para o verdadeiro seguimento de Cristo. Ela viveu completamente toda a peregrinação da fé como Mãe de Cristo e depois dos discípulos, sem estar livre da incompreensão e da busca constante do projeto do Pai" (Documento de Aparecida, 266).
O Evangelho de hoje pode ser lido como a concretização perfeita e definitiva da promessa feita a Davi na primeira leitura. Os dois textos revelam a gratuidade da ação de Deus ao escolher Davi e Maria e, através deles, realizar suas maravilhas. Davi, um simples pastor de rebanhos, é ungido para ser chefe do povo de Israel; Maria, moradora de uma aldeia sem importância, torna-se a Mãe do Filho de Deus, Aquele que herdará o trono de Davi e reinará para sempre. O Deus de Israel cumpre as promessas feitas aos patriarcas, a Davi, a Maria. Davi e Maria experimentam a gratuidade da ação de Deus.
Por isso, pedimos no início da Missa: "Derramai, ó Deus, a vossa graça em nossos corações para que, conhecendo a encarnação do vosso Filho, cheguemos, por sua paixão e cruz, à glória da ressurreição".
A Palavra se faz celebração
"Cumpra-se em mim tua Palavra"
A Palavra da Salvação se faz gente no ventre da Mãe Maria. A fé cristã entende que, em Jesus, Deus realiza aquilo que desde a criação guardou para Israel e foi revelando pelo trabalho dos reis, pela voz dos profetas e pela lira dos cantores. No boca de Maria, imagem do povo de Israel em aliança com seu Senhor, ícone da fidelidade ao pacto que seus antepassados aceitaram de Deus, ressoa o sim às suas promessas. Não por outro motivo, ela é chamada Arca da Aliança, uma referência clara à "shechinah" (divina presença) que peregrina em meio ao povo, guardada em seu interior. É imagem da Igreja, ainda por ser claramente "Casa da Palavra", pois em seu seio está o Verbo feito carne. Conseqüentemente se torna "Bet-Lehem", Casa do Pão, pois o Verbo feito carne deu a si mesmo como alimento, para que vivamos a vida que o anima.
Ao celebrar Palavra, proclamando as narrativas e cantando os hinos das Escrituras, a comunidade cristã ocupa o seu lugar e se reconhece não somente grávida do Verbo, mas, sobretudo, lugar onde Ele se torna história, na concretude da vida no mundo.
O mesmo Espírito nos santifica na caminhada.
A Liturgia celebrada é interpretação cultual e existencial das Escrituras. Nesse sentido, aquilo que é "dito" nos textos é "visto e vivido" nos ritos. Podemos notar esse "procedimento" na oração sobre as oferendas, que reza: "(...) o mesmo Espírito que trouxe a vida ao seio de Maria, santifique estas colocadas sobre o vosso altar" e poderíamos completar com a epiclese sobre os comungantes: "afim de que participando co Corpo e Sangue de Cristo sejamos reunidos pelo (mesmo) Espírito Santo num só corpo". Quando nos reunimos, portanto, no amor de Cristo, faz-se a passagem do "antigo" para o "novo", não só dos "Testamentos", passagem essa em que reconhecemos o Novo realizando o Antigo se florescendo no Novo, mas, sobretudo, da velha criatura que rejuvenesce e volta à condição de parceira fiel de Deus.
Ligando a Palavra com a ação eucarística
Neste quarto domingo do Advento, vivemos este grande mistério: a Igreja está grávida de Cristo. Ela está para dar à luz Jesus, no hoje do nosso tempo: Deus que vem morar entre os empobrecidos; encarnar-se neles para salvá-los. Seria interessante retomar o número 401 do Documento de Aparecida, que apresenta os "novos rostos pobres", "os novos excluídos", frutos da globalização em que vivemos.
Em cada Eucaristia que celebramos tornamo-nos, em Cristo, corpo dado, dispostos a colocar-nos a serviço dos necessitados, a exemplo de Maria modelo do discípulo e da discípula.
É precisamente celebrando a Eucaristia que sentimos a salvação nascer dos pobres que Maria tão bem representa. Por isso, na oração eucarística louvamos, bendizemos e glorificamos a Deus pelo mistério da Virgem Maria, Mãe de Deus.
Celebrando a Eucaristia, entramos em comunhão com o Pobre mais pobre de todos os pobres: O Verbo eterno do Pai, que, nascido Ca virgem Maria, viveu em tudo a condição humana (menos o pecado!), morreu e ressuscitou pela salvação de todos, e agora, na condição humilde de pão e vinho, se torna Corpo entregue e Sangue derramado. Comungando deste Corpo entregue e deste Sangue derramado, assimilamos, dentro de nós, o Pobre que Cristo é, para que com Ele sejamos também servos uns dos outros na construção de uma sociedade nova, onde reinem a justiça, a comunhão e a paz. É isso que Deus quer de nós ao celebrarmos o Natal do Senhor.
Por isso, depois da comunhão, quem preside reza em nome de todos: "Ó Deus todo-poderoso, tendo recebido hoje o penhor da eterna redenção (o Corpo de Cristo entregue por nós!), fazei que, ao aproximar-se a festa da salvação, nos preparemos com maior empenho para celebrar dignamente o mistério do vosso Filho, que vive e reina para sempre.
padre Benedito Mazeti


============================
A acolhida necessária para gerar o filho de Deus
Neste 4º e último domingo do Advento, meditamos sobre a anunciação do Senhor, conforme relata o Evangelho de Lucas. O Salvador encarna-se no mundo pela via não oficial. Ele é concebido no seio de Maria, camponesa de uma pequena cidade sem importância de uma região marginalizada: Nazaré da Galileia. O Espírito Santo de Deus encontra em Maria a acolhida necessária para gerar o Filho de Deus: “Eu sou a serva do Senhor...”. Jesus é da descendência de Davi, conforme a promessa feita por Deus por meio do profeta Natã. Davi foi escolhido por Deus para pastorear o povo, e não para projetar-se mediante magníficas construções. Não precisa construir um templo para Deus, e sim adorá-lo pela fidelidade à missão recebida. É a vida das pessoas que interessa a Deus. Ele as liberta e as protege. Por isso, prefere morar no meio do povo (I leitura). Jesus é o extravasamento do amor divino derramado sobre todos os povos. Ele nos foi dado a conhecer pelos anúncios proféticos e pela bondade e sabedoria de Deus, a quem queremos glorificar eternamente (II leitura). Entrando na semana do Natal, na mesma disposição de Maria, a mãe de Jesus e nossa, queremos acolher o Salvador e dizer-lhe com o coração e com a vida: “Eis aqui os servos e as servas do Senhor...”.
1ª leitura 2Sm. 7,1-5.8b-12.14a.16: A tenda de Deus
A história de Davi, ao longo da Bíblia, vai sendo contada e recontada pelas sucessivas gerações. Ao redor dessa personagem cria-se verdadeiro movimento. O regime da monarquia produziu uma realidade de marginalização para muita gente. A memória de Davi como rei-pastor funciona, para as vítimas do poder monárquico, como resistência e esperança do estabelecimento de um reino de justiça e de paz.
A 1ª leitura deste domingo consiste numa denúncia à situação privilegiada em que se encontra Davi. Depois de uma trajetória de inúmeras lutas e conflitos, ele se torna rei de Israel, constrói para si uma casa luxuosa e pretende construir um templo magnífico para Deus. Por meio do profeta Natã, porém, Deus lembra a Davi que jamais precisou de uma casa, pois desde o nascimento de Israel sempre morou em tenda, a fim de caminhar com o seu povo, protegê-lo e libertá-lo.
O nó da questão é que Davi, ao conquistar o poder, tende a esquecer-se de suas origens humildes e de sua vocação de pastorear o povo. O projeto de construir um templo para o Senhor revela a intenção de projetar-se politicamente, firmar seu poder e perenizar sua memória. Não é para isso que Deus o chamou, e sim para cuidar da vida do povo. Um templo material para o Senhor revela a pretensão de “apropriar-se” do sagrado e “legitimar” o domínio monárquico sobre o povo, como vai acontecer a partir de Salomão. A habitação em que Deus prefere morar não é a feita de cedro, pois isso significaria afastamento do lugar social onde vivem as pessoas comuns. A habitação humilde em que Deus quer morar é o chão onde se encontra o povo.
Deus, então, indica que a perenidade do reino de Davi se dará por outro caminho. De sua descendência virá o Messias. Seu reino, porém, não será monárquico nem atenderá à expectativa dos dominantes. O messianismo de Jesus revela-se transgressor desde o anúncio do seu nascimento.
Evangelho Lc. 1,26-38: A anunciação do Messias
Segundo o Evangelho de Lucas, o anúncio do nascimento de Jesus se dá no “sexto mês” a contar da concepção de João Batista. É evidente a ligação com o “sexto dia” da criação, quando Deus criou o ser humano. Jesus inaugura nova humanidade. O anúncio se dá em Nazaré da Galileia. No Primeiro Testamento não encontramos referência a essa cidade, o que indica ser um lugar sem importância. Ninguém poderia supor que a promessa do Messias seria cumprida por meio de uma jovem camponesa de Nazaré.
Lucas tem clara intenção de contrapor a instituição religiosa oficial localizada em Jerusalém com a cidadezinha de Nazaré, de onde não se esperava nada de bom (cf. Jo. 1,46). Maria está comprometida em casamento com José, da descendência de Davi. Cumpre-se a promessa divina conforme o anúncio profético. No evangelho, encontramos várias vezes a expressão “filho de Davi”. Assim, Jesus foi reconhecido pelas multidões como o Messias que, segundo a crença comum, deveria pertencer à linhagem davídica. No entanto, ele é “grande” não por ser “filho de Davi”, e sim por ser “Filho do Altíssimo”. Por isso, “o seu reinado não terá fim”. O reino de Jesus é universal e eterno, não se ancora no poder temporal nem age com a força de nenhum exército. Seu programa está contido em seu nome: Jesus = “Deus salva”.
Com relação a Maria, Lucas não menciona sua ascendência. É uma mulher comum a quem o anjo anuncia que será a mãe de Jesus. A graça de Deus está nela, e conceberá o “Filho de Deus” com o poder do Espírito Santo. A “sombra” que cobre Maria lembra a “nuvem” que simbolizava a presença de Deus no meio do seu povo em caminhada pelo deserto rumo à terra prometida. O livro do Êxodo relata também: “A nuvem cobriu a tenda da reunião e a glória do Senhor encheu a habitação” (Ex. 40,34).
Maria é a nova habitação de Deus. O anjo Gabriel, mensageiro divino (cujo nome significa “Deus é forte”), anuncia: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra”. Ela é escolhida e agraciada como “sinal” salvífico de Deus, conforme anunciara o profeta Isaías (7,14): “O Senhor vos dará um sinal: eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel”. As expressões: “agraciada” e “encontraste graça diante de Deus” revelam que o anúncio se refere à intervenção gratuita e salvadora de Deus em favor da humanidade. Um sinal dessa intervenção já estava em andamento no seio de sua parenta Isabel: uma mulher velha e estéril é capaz de gerar a vida, pois “para Deus nada é impossível”.
A receptividade de Maria ao anúncio do anjo Gabriel não tem nada a ver com passividade. O seu consentimento de fé liga-se com a atitude de serviço. Ao fazer-se serva de Deus, permite que sua Palavra se faça carne nela. Por essa sua atitude de humildade e de entrega ao plano divino, recebemos a graça do Salvador e Maria torna-se modelo para todos nós.
2ª leitura Rm. 16,25-27: Jesus é a revelação de Deus ao mundo
Paulo encerra sua carta aos Romanos com um solene hino de louvor. É a expressão de fé e de louvor das comunidades cristãs primitivas, maravilhadas com a bondade divina revelada pela encarnação de Jesus Cristo. Elas se percebem privilegiadas pelo fato de estarem vivenciando em seu tempo a realização da promessa do Messias salvador, conforme anunciada pelos profetas.
Jesus Cristo é a revelação do mistério de Deus “envolvido em silêncio desde os séculos eternos”. É como se Deus abrisse o coração para que todas as nações pudessem conhecer o seu desígnio de amor e salvação. Agora tudo foi revelado e fica evidente o sentido das Escrituras Sagradas no que se refere ao Messias: é dom de Deus para a salvação universal.
O louvor é para “aquele que tem o poder de confirmar” o evangelho de Jesus Cristo anunciado por Paulo e pelas demais testemunhas oculares. A compreensão verdadeira da pessoa e da obra redentora de Jesus Cristo não se dá meramente pelo esforço humano, tanto de quem anuncia como de quem ouve, e sim pela ação do Espírito Santo. O louvor é para Deus, “o único sábio”, que se dispôs a derramar sua sabedoria sobre todos os povos e redimi-los em Jesus Cristo, mediante a “obediência da fé”.
Pistas para reflexão
- A tenda de Deus. Por meio do profeta Natã, Deus esclarece a Davi que sua morada predileta é no meio do povo. Não lhe agrada a construção de um templo magnífico. Desde o início da história do povo de Israel, Deus “desceu” para caminhar com ele. Deus é reconhecido não pelas grandes construções feitas em sua homenagem, pois atrás delas podem se esconder intenções políticas de legitimação do domínio de alguns sobre a maioria. Deus é reconhecido pela fidelidade à sua aliança de amor. Davi não pode se esquecer de sua missão de pastor junto ao povo. Da linhagem desse Davi, pastor humilde, nascerá o Messias, não conforme a expectativa oficial, mas a partir do corpo e do lugar social das pessoas simples e abertas ao amor de Deus...
- Maria, a serva de Deus. A anunciação do anjo Gabriel a Maria refere-se ao dom maior de Deus à humanidade: Jesus Cristo, o salvador do mundo. Deus intervém gratuitamente e de modo soberano. Não foi por meio do templo de Jerusalém nem foi com o aval da religião oficial que o Salvador veio ao mundo, e sim por meio do corpo de uma humilde jovem de Nazaré da Galileia. Nela Deus fez a sua tenda. Por ela Deus revela o seu poder e a sua glória. Em seu seio é gerado o Filho de Deus, o Messias, da descendência de Davi, conforme a promessa feita por meio dos profetas. Pela obediência da fé de Maria, a palavra divina torna-se eficaz. A vocação da mãe de Deus ilumina a nossa: também a nós, pelo mesmo Espírito Santo, nos é dado conceber a Jesus, de forma que se torne conhecido e amado no mundo. Inspirados pelo exemplo de Maria, pedimos a Deus que nos transforme em seus servos e servas... Qual concepção temos de Deus: é a de Davi, preocupado em homenageá-lo com obras materiais magníficas, ou a de Maria, que acolhe a sua vontade e se faz sua serva?
- Demos glória a Deus! O coração de Deus abriu-se definitivamente para revelar o seu desígnio de salvação por meio de Jesus Cristo. Todos os povos são contemplados. Todos são agraciados. É o extravasamento do amor divino derramado sobre cada um de nós e sobre toda a criação. Como as primeiras comunidades cristãs, glorificamos a Deus pela plenitude de seu amor, que ele nos concedeu em Jesus Cristo... O que significa louvar a Deus por meio da obediência da fé?
Celso Loraschi

============================
Uma casa para Deus morar
Dentro de uma semana estaremos celebrando a solenidade do nascimento do Verbo na terra dos homens. Vivemos ainda o tempo de espera, o tempo de advento.  Hoje temos como guia e mestra do advento a figura de Maria de Nazaré, daquela que abrigou o Verbo com seu sim e tornou-se a Mãe do desejado das colinas eternas.  Deus procurou uma carne humana para nela fazer sua habitação. A cena da anunciação já foi representada incontáveis vezes em pinturas, esculturas e decantada em peças musicais de rara beleza.
O mensageiro de Deus é enviado a uma moça toda transparente  da cidadezinha de Nazaré. Essa Mariam, Miriam de Nazaré estava prometida em casamento a José. Seu esposo era da casa e da descendência de Davi. Tudo indica que Maria pertencia ao resto fiel de Israel, a esse grupo de pessoas retas que não perdia a esperança na realização das promessas que haviam sido feitas aos seus pais na fé.
Há uma comunicação  da parte de Deus. “Maria, o Senhor pousa o seu olhar sobre ti… Tu tens a plenitude da graça. Nada em ti é desordem.  O Senhor quer que tu possas ser dele e aceites acolhê-lo em tua mais profunda verdade.  Alegra-te, porque és a cheia de graça”.
O coração de Maria dá voltas e voltas no peito.  Tudo lhe parece grande e grandioso.  Ela se sente pequena.  O texto de Lucas fala de um menino que dela vai nascer, que será fruto da sombra do Espírito de Deus que sobre ela pousará, de um menino que tem a ver com Davi e sua descendência, ele que será  Filho do Altíssimo. Maria hesita,  mas escuta o que lhe foi dito com os ouvidos da fé: “O Espírito virá sobre ti  e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer de ti se chamará  Filho do Altíssimo”.
Maria aceita o convite. Diz seu sim. Ficará fiel a este sim.  Apresenta-se diante do Senhor como sendo a serva do Altíssimo. O consentimento de Maria  abre as cortinas para o amanhã do projeto de Deus e dos dias da humanidade. Ela aceita ser morada de Deus para fazer com que o Altíssimo impregne com sua presença a humanidade toda.
“Deus coloca  sua morada entre os homens e faz da humanidade seu templo: as pedras que o constituem são  os homens do “sim” incondicional a Deus. Maria é  a primeira pedra viva da casa de Deus entre os homens. Depois José: disponível ao plano de Deus, assegura ao menino, que nascerá de Maria, por obra do Espirito Santo, a descendência real da estirpe de Davi. Maria, em sua absoluta disponibilidade ao plano de Deus, se torna mãe do Messias prometido. O Filho de Deus, que “terá o trono de Davi” e “seu reino não terá fim”.  Pelo “sim” de pessoas tão humildes, pobres, atentas à vontade de Deus.  Jesus, filho de Davi, entra na história do mundo. Esta é a sua casa, o seu templo”  (Missal Dominical da Paulus,  p. 48).
frei Almir Ribeiro Guimarães

============================
A promessa de Deus e o “sim” do homem
Com o 4° domingo, o Advento chega ao auge. O evangelho traz o pleno cumprimento de todos os sinais que anunciam a vinda do Salvador. A promessa feita a Davi, de que sua descendência teria seu trono firmado para sempre (2Sm. 7; cf. 1ª leitura), realiza-se no filho de Maria, juridicamente inserida, através de seu noivo José (o noivado tinha força jurídica), na descendência de Davi (Lc. 1,27). A este filho, Deus dará - embora não do modo que se esperava - o trono de Davi, o governo da casa de Jacó (Israel) para sempre (cf. 2Sm. 7,16). Já aprendemos, por estas últimas palavras, que as profecias se cumprem de um modo que a inteligência humana desconhece (1). O modo de Jesus ser o Cristo que reinará para sempre, e o modo em que a casa de Israel se tomará um povo universal, nenhum contemporâneo de Maria o podia imaginar, e mesmo Maria só o vislumbrava como Mistério de Deus. As profecias não são programas a serem executados. São sinais da obra inesperada que Deus está realizando, sinais que a gente só entende plenamente depois da obra realizada.
Outro sinal que a gente reconhece ao reler o A.T. à luz do Evento de Jesus Cristo é a profecia de Is. 7,14. Embora o rei Acaz não gostasse de que Deus se intrometesse nos seus negócios políticos, Deus lhe deu um sinal: o nascimento de um filho de uma mulher nova (“virgem”, traduz a versão grega do A.T., usada pelos primeiros cristãos). Esse filho seria chamado Emanuel, “Deus conosco” (cf. Mt. 1,23; 4° dom. Adv. A). No tempo de Is, isso significava: nos dias de catástrofe que hão de vir (722 a.C.: destruição do Norte e invasão do Sul pelos assírios), este rapaz de nome Emanuel, nascido como que por ordem de Deus, lembrará que Deus está com o povo. Mas, para quem conhece a história de Jesus, esse sinal reveste um sentido novo. Prefigura o mistério de Deus, a obra de seu “sopro” ou “espírito” vivificador (cf. Gn. 2,7; Ez. 37,9; Sl 104[l03],29-30) em Maria, suscitando nela um filho que não é fruto da geração humana (Lc 1,34; cf. Mt 1,18-24), mas um presente de Deus à humanidade: sendo obra do Espírito Santo, que veio sobre Maria, este filho é chamado “Santo” e “filho do Altíssimo” (Lc. 1,36; cf. as atribuições do filho real em Is. 9,5-6; 11,1-5), o filho em que Deus investe todo seu bem-querer (Lc. 3,22), enviado e ungido com seu Espírito (4,18). É o verdadeiro e definitivo “Deus conosco”.
Mas o sinal por excelência da realização da promessa é o próprio nascimento do precursor de Cristo, do seio de Isabel, que tinha a fama de ser estéril (1,36). João Batista é “sinal” no sentido mais pleno imaginável: seu nascimento mostra a força do Altíssimo gerando o Salvador; sua missão prepara o caminho para este Salvador; sua pregação anuncia o Reino que o Cristo inaugura.
Ora, a obra de Deus através da História, assinalada pelos referidos sinais, anunciada como plenificando-se na alegre saudação do Anjo, que proclama a plenitude da graça de Deus em Maria (Lc. 1,28-30; cf. Sf. 3,14-15; Zc. 2,14 etc.), só se toma fecunda para o homem se este o quiser. Daí, a importância de dizer: “Sim”. Maria, respondendo ao Anjo (representando Deus mesmo) seu Fiat (“Faça-se em mim segundo a tua palavra”; Lc. 1,38), colocando-se, como serva, a serviço do Senhor, é a primeira de todos os que, pela adesão da fé, “dão chances” à obra definitiva de Deus em Jesus Cristo. O Fiat de Maria representa a fé da humanidade e a disponibilidade com que a Igreja quer assumir o Mistério de Natal (cf. oração final).
Diante de todos esses sinais, na história de Israel e de Maria, devemos afirmar o que Paulo nos diz na 2ª leitura: em Cristo se toma manifesto o que, desde séculos, as Escrituras, ao mesmo tempo que o assinalavam, escondiam: o Mistério de Deus (Rm. 1,25-26; cf. Mt. 13,35). Os autores escriturísticos vislumbravam uma presença fiel de Deus nos fatos provisórios da História. Vistos a partir de Jesus Cristo, estes fatos tornam-se indícios do que se manifesta, em plena clareza, nele mesmo, e isto, para todos os povos, ao menos, quando conduzidos pela auscultação da fé (Rm 1,26) Por isso, podemos louvar e agradecer (1,27).
(1.) 0 “recado” de Natã a Davi, de que sua descendência estaria firme para sempre (2Sm. 7,16), foi entendido, originariamente, como a certeza de que Israel sempre teria um rei da dinastia davídica, e o nascimento de um filho real é saudado, em Is. 9,6, como sendo a confirmação desta promessa. Depois que o Exílio (586-535 a.C.) abolira o reinado, o “para sempre” foi interpretado como significando “de novo”. Israel (reduzido a um pequeno resto, ou seja, a população de Judá, no sul do pais) teria um novo rei (davídico), um novo “ungido” (Messias ou Cristo). Mas o que é anunciado a Maria ultrapassa de longe o que os judeus depois do exílio esperavam.
Johan Konings "Liturgia dominical"
============================