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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

26º DOMINGO TEMPO COMUM-C

26º DOMINGO TEMPO COMUM


25 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Am 6,1a.4-7

Salmo 145

2ª Leitura - 1Tm 6,11-16


Evangelho - Lc 16,19-31


26º DOMINGO TEMPO COMUM


25 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Am 6,1a.4-7

Salmo 145

2ª Leitura - 1Tm 6,11-16


Evangelho - Lc 16,19-31




  
Jesus não poupou esforços para nos alertar contra a ganância, a usura, a opulência, e principalmente contra o desprezo pelos pobres.
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IGNORAR O POBRE É IGNORAR O PRÓPRIO JESUS! - Olívia Coutinho

 

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Dia 25 de Setembro  de 2016

Evangelho – Lc 16,19-31

A palavra de Deus, está sempre chamando a nossa atenção para o cuidado que devemos ter,  para com o que é de Deus! Como seguidores de Jesus, não podemos fechar os olhos a esta triste realidade que aí está: irmãos nossos, vivendo às margens da sociedade, sobrevivendo  das migalhas que caem da mesa daqueles que tomam para si, o que deveria ser de todos! 
Somos chamados a contemplar o rosto desfigurado de Jesus, estampado no semblante destes irmãos, ceifados até mesmo do direito à vida! Ignorá-los, é ignorar o próprio Jesus, que quer contar conosco na construção de um mundo melhor, de um mundo mais justo, mais fraterno  onde todos tenham o direito a uma  vida digna.
Como filhos e filhas  do mesmo Pai, somos corresponsáveis pela vida do nosso irmão, não podemos transferir para outros,  a responsabilidade que é nossa, devemos ser  amparo para os que sofrem! Precisamos  aprender a olhar o irmão com o olhar de Jesus,  um olhar que  não apenas constata  a sua  necessidade, mas que nos  leve a ajudá-lo.
O Evangelho de hoje, narra a parábola do rico e do Lázaro! Através de uma história, Jesus chama a nossa atenção, sobre a importância de cuidarmos dos pobres, são eles, os amigos de Deus, os  que abrirão a porta do céu para nós!
Podemos perceber nesta parábola, que Jesus não cita o nome do rico, somente o nome  do pobre, que se chamava Lázaro, com isso Ele reafirma  a sua  predileção para com os pobres, os pobres, Jesus os conhece pelo nome! 
 O rico desta parábola, não maltratava Lázaro, ele simplesmente o ignorava, perdendo assim, a oportunidade de alcançar, através da caridade, a vida eterna. A sua  condenação,  não foi pelo fato dele  ser rico de bens materiais  e sim, pelo bem que ele deixou de fazer!
Podemos comparar o rico desta história, com a elite da sociedade de hoje  e  também, com muitos de nós,  que se diz cristão, mas  que ignora o que é de mais precioso para Deus: os pequeninos, os pobres, fazendo de conta que está tudo bem, que a desigualdade não existe!
O Lázaro representa o povo ignorado, sofrido e oprimido! Com existem  Lázaros espalhados mundo afora! Pessoas  passando fome, sedentos de amor, morrendo nas portas dos hospitais sem atendimento médico, e o pior, diante os olhares insensíveis daqueles que tem o dever de possibilitá-los uma vida digna.  
Outra coisa que deve  chamar a nossa atenção nesta história: Lázaro, mesmo sendo pobre, sobrevivendo das migalhas que caía da mesa do rico, não reclamava da vida, o que nos mostra, que ele tinha total confiança  na promessa de Deus, promessa, que se concretizou com o seu acolhimento no céu!
A parábola nos diz claramente, que é impossível transpor o abismo que separa o inferno do paraíso! A ponte que nos liga ao céu, deve ser construída aqui na terra, no aqui e no agora, através de  gestos concretos de amor ao próximo, depois que partirmos deste mundo, será tarde demais!
Não esperemos,  que o pobre venha até a nós, para que possamos ajudá-lo, a exemplo de Jesus,  devemos ir até ele, certificar de suas necessidades, conhecer a sua história, demonstrar interesse por ele, a sua  fome, nem  sempre é só  de pão, muitas  vezes,  é fome  de amor!
O conceito de pobre e rico para Jesus é diferente do nosso, para nós, pobre, é todo aquele que não possui bens, e rico, é todo aquele que possui muitos bens! Enquanto que para Jesus, podre, é todo aquele que se esvazia de si mesmo para se tornar dependente da graça de  Deus, independente dele possuir ou não, bens materiais!
 Já o rico, para Jesus, é todo aquele que acumula bens, que se fecha em si mesmo, que não partilham, os que não sentem necessitado de Deus! Por tanto, aos olhos de Jesus, existem pobres de bens materiais que são ricos em ganância em soberba, e ricos, que  são pobres, porque se esvaziam de si mesmos  para se tornarem dependentes de Deus.
 É bom tomarmos consciência de que no nosso julgamento final, seremos muito mais cobrados, pelo bem que deixamos de fazer, do que pelos nossos erros.
No pobre está estampado o semblante de Jesus, ignorá-lo, é ignorar o próprio Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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As leituras deste domingo estão em sintonia com aquelas do domingo anterior, quando reforçam o tema da economia na ótica da justiça social. Amós tece duras críticas contra a classe dominante, os ricos de Israel e de Judá. A comunidade de Lucas faz memória do ensinamento de Jesus sobre o rico avarento e o pobre Lázaro. Dois opostos insuportáveis aos olhos de Deus, e isso deve ser a nossa bússola de orientação nesses dias que antecedem as eleições. Saber escolher os nossos governantes é fundamental para a realização de uma sociedade justa e fraterna.
Neste último domingo do mês de setembro, também não podemos nos esquecer do dia dedicado à Bíblia. Ela que é a carta magna da fé judaica e cristã. O substantivo Bíblia nos remete a um outro, biblioteca. É isso mesmo. A Bíblia é uma biblioteca composta de livros, os quais fazem parte de uma literatura que levou séculos para ser escrita. Parafraseando o grande mestre da leitura popular da Bíblia, frei Carlos Mesters, a Bíblia nasceu da vontade de o povo ser fiel a Deus e a si mesmo. Nasceu da preocupação de transmitir aos outros e a nós essa fidelidade. Ela nasceu sem rótulo. Só mais tarde, o próprio povo descobriu nela a expressão da vontade e da presença real de uma Palavra Santa (Bíblia, livro feito em mutirão -  Paulus, 1986, p. 8).
Divididos em Primeiro e Segundo Testamentos, os livros da Bíblia estão organizados em forma de uma grande inclusão (forma literária em que uma palavra, uma frase ou um conceito presente no início reaparece no fim e funciona como um enquadramento, que delimita e encerra tudo o que ficou “incluído” entre eles, como em um sanduíche); no início (Gênesis) e no fim (Apocalipse), encontramos referência ao Éden, o paraíso da economia vivida na liberdade e na fraternidade entre homens e mulheres. No centro, nos livros de Malaquias e Mateus, temos duas personagens ímpares do judaísmo e cristianismo, Elias e Jesus. Elias voltará e Jesus veio para nos propor, na inspiração da fé judaica, o Reino de Deus, que tem como baliza fundamental a opção pelos pobres e oprimidos de ontem e de hoje. É o que veremos nos textos das leituras que passamos a comentar.
1º leitura (Am. 6,1a.4-7)
Punição para os nobres corruptos
Amós se volta de forma drástica contra os ricos governantes de Israel e Judá – as críticas se dirigem, de fato, aos nobres da Samaria, capital político-administrativa do Reino do Norte. O texto foi modificado para referir-se a Sião/Jerusalém (Reino do Sul), os nobres da primeira das nações: governantes, cortesãos, oficiais e latifundiários. O motivo é simples: eles vivem tranquilos e seguros na capital e nas montanhas, os seus leitos são de marfim, possuem divãs, se alimentam de cordeiros e novilhos, fazem festas orgiásticas ao som de harpa e com vinhos finos. E o que é pior: eles não estão nem aí para os pobres do país que estão ao seu lado. Eles usufruíam o bem-estar das minorias, advindo das conquistas de Jeroboão II, bem como esperavam o dia de Javé, que seria a redenção de Israel. Amós dirá que esses homens são os verdadeiros responsáveis pela violência social e econômica do seu povo. A vida luxuosa deles era fruto da opressão dos pobres, do roubo e da corrupção (Am 3,9-10; 2,6-8; 4,1-3; 5,10-12). Tendo que manter essa situação, como não criar injustiças? Esses ricos viviam numa situação de orgia (v. 7b), alicerçados numa falsa intuição de que toda aquela situação era de bênção de Deus.
A semelhança dessa situação com os nossos dias é mera coincidência? Não. As classes dirigentes parecem mudar somente os figurantes. Os mensalões e os “panetones de Brasília” continuam a se repetir. Infelizmente, a classe política brasileira deixou se levar pela corrupção.
O que diria o profeta Amós? Vocês, os nobres, serão exilados, vão puxar a fila dos deportados para uma terra estrangeira. E foi isso mesmo que ocorreu anos depois, em 722 a.E.C., quando os dominadores assírios chegaram e destruíram a capital de Israel, Samaria, e levaram todos para o exílio. E aí o ai do profeta já não mais pode surtir efeito. Não tinha mais como voltar atrás. Deus tinha dado o seu veredicto.
Evangelho (Lc. 16,19-31)
O rico injusto escolhe a própria condenação
O texto que antecede essa parábola é o que vimos na semana anterior, “não é possível servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16,13), ensinamento central do capítulo. A parábola, modo de ensinar de forma comparativa, muito utilizada por Jesus, tem como seu público-alvo os fariseus, chamados de amigos do dinheiro (16,14). Ela faz parte da grande viagem de Jesus a Jerusalém, chamada também a viagem lucana (9,51-19,27), de cunho teológico-catequético. Quem acompanha a trajetória de Jesus vai entendendo os desafios e as condições para ser um cristão, um seguidor do mestre Jesus de Nazaré.
O evangelho de hoje tem forte relação com a primeira leitura. É um modo encontrado por Jesus para ensinar a tradição da fé judaica: é preciso fazer esmola, isto é, fazer justiça. Em hebraico, esmola se diz Tzedakáh e justiça, Tzedek. Esmola deriva de justiça. Fazer esmola, como ensinam os judeus, significa cumprir a Torá (Bíblia), isto é, fazer justiça. Quando um judeu pobre gritava pelas ruas Tzedakáh, todos entendiam: “Faça justiça! Cumpra a Torá!”. E esse grito incomodava qualquer judeu piedoso. A Torá, a Lei de Deus, não estava sendo cumprida, o que implicava estar fora do caminho de Deus. O judaísmo conclama os seus adeptos a fazer esmola. E fazer esmola (Tzedakáh) é agir com justiça no que diz respeito a como cada judeu ganha, gasta e compartilha suas riquezas. No pensamento judaico, esmola não tem um sentido religioso moral cristão de “dar esmola”. Esmola é um modo de ser, mais que oferecer ou dar. Tzedakáh é mais que caridade, expressão de fé piedosa diante do sofrimento do outro. Viver de modo justo na relação com as pessoas é fazer Tzedakáh. A esmola não pode ser em função da vanglória daquele que dá esmola, mas deve ser um gesto de solidariedade e justiça. Fazer esmola, fazer justiça, é melhor que dar esmola. Nisso, sou mais judeu que cristão.
A cena do evangelho, nessa perspectiva do fazer esmola, é simples. De um lado, um rico epulão e bem-vestido, com púrpura e linho – material importado da Fenícia e do Egito, e, do outro, um pobre de nome Lázaro que jazia à sua porta, esperando comer as migalhas de seus banquetes. Lázaro significa “aquele que vem em ajuda de”. Ele espera ser ajudado com obras de justiça, de divisão dos bens.
Com elementos da fé dos antepassados: inferno, céu e o Patriarca Abraão, a parábola relata a cena que paira na cabeça de muitos: os bons estão no céu e os maus, no inferno, separados por um abismo. Tranquilidade e banquete de um lado, tormento e fogo do outro. A Bíblia nos oferece muitas imagens do inferno (Jacir de Freitas Faria - O outro Pedro e a outra Madalena. Uma leitura de gênero. 3 ed. Petrópolis - Vozes, p. 76-102): uma delas é essa da parábola de hoje: um lugar do desespero e do pavor. Receber a pena do inferno é o mesmo que entrar em pânico. É saber que um lugar sombrio me espera. Jesus usa a imagem do choro e do ranger os dentes dos que forem para o inferno (Lc. 13,28). Ele também compara o inferno com o verme que não morre (Mc. 9,48), bem como à Geena, lixão da cidade de Jerusalém. As imagens usadas na Bíblia para descrever o inferno são todas simbólicas. O fogo que devora simboliza a absoluta frustração humana e o seu total distanciamento de Deus (Leonardo Boff, Vida para além da morte. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 90). Diante de tal situação, só resta ao ser humano chorar e ranger os seus dentes, na escuridão de uma vida sem utopias, no exílio de opção feita por ele mesmo. É o que ocorre com o rico da parábola de hoje. Ele implora ao pai Abraão que Lázaro venha lhe trazer água, que vá até à casa de seus cinco irmãos para avisá-los da sua situação desesperadora e que mudem de vida. Nenhum desses pedidos pode ser atendido. A situação estava posta por opção do rico, o ser humano opressor. O número citado, cinco, relembra o Pentateuco; Moisés, toda a lei e os profetas. Isso quer dizer que o rico e seus cinco irmãos tinham e têm a Palavra de Deus (Bíblia) para observar e mudar de vida. Se assim não o fazem, mesmo que um morto, Lázaro, ressuscite para ensinar-lhes o caminho, eles não o fariam. Os judeus não acreditavam em sinais, milagres. Jesus fez muitos deles, e, mesmo assim, eles não se converteram. O fim é trágico, mas é fruto da opção que fazemos, assim como os ricos da primeira leitura.
2ª leitura (1Tm. 6,11-16)
Viver como homem de Deus
Ao escrever ao amigo Timóteo, Paulo o exorta a viver como homem de Deus, isto é: seguir a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão, combater o bom combate da fé, conquistar a vida eterna, guardar o mandamento de Jesus até o dia de sua Aparição. Antes disso, que o cristão professe a fé e testemunhe Jesus ressuscitado (vv. 12-13).
Ser homem de Deus é ser profeta, assim como Elias e Eliseu que receberam esse título por terem deixado o palácio e se aproximado do povo. Com eles, o rei, se precisasse de um profeta, teria de ir aonde o profeta estava, no meio do povo. Muitos cristãos da comunidade de Éfeso estavam fazendo da pregação do evangelho uma fonte de lucro. Atitude parecida com a de muitos cristãos de hoje. Abrir uma igreja é o mesmo que abrir negócio, uma empresa lucrativa. Paulo é claro no ensinamento: “Fuja dessas coisas” (v. 11). A fé não é para ser debatida, sobretudo de forma fundamentalista, mas vivenciada.
Paulo termina com uma doxologia (vv. 15-16): a Deus honra e poder eterno. É um hino litúrgico de origem judaica. Ele ensina que o cristão deve prestar culto somente a Jesus, pois ele possui a imortalidade, a vida plena. Viver o projeto apresentado por Jesus é encontrar Deus (vv. 11-12).
Essa breve leitura reforça o ensinamento das outras leituras deste domingo, mostrando que o cristão é aquele que segue os ensinamentos de Jesus e não anda conforme as injustiças dos seres humanos deste mundo. O seu combate está em outra esfera. Ele luta como atleta para chegar ao Reino pregado por Jesus, e este já começa aqui.
Pistas para reflexão
Chamar atenção para o dia da Bíblia e suas interpretações a partir das leituras deste domingo. Dar um destaque para a Bíblia na celebração.
Fazer uma análise da situação econômica do país, dando destaque para as eleições e tendo como pistas de reflexão a questão da riqueza e seu uso indevido pelos governantes. Mostrar que quem faz opção de servir ao Dinheiro acabará perdendo a vida.
Perguntar pelos sinais de solidariedade que a comunidade demonstra na relação entre rico e pobre. Ela está a serviço dos pobres e contra a pobreza? Ou existe um abismo, um fosso, entre ela e os pobres? A comunidade se preocupa em dar ou fazer esmola?
frei Jacir de Freitas Farias, ofm



O pobre Lázaro ontem e hoje
José Antônio Pagola (1) vai nos ajudar a refletir a respeito da famosa parábola de Lucas sobre o pobre Lázaro e o rico epulão.
“A parábola parece narrada para nós. Jesus fala de um “rico” poderoso. Suas vestes de púrpura e linho indicam  luxo e ostentação. Sua vida é uma festa contínua. Sem dúvida pertence a este segmento privilegiado quem vivem em Tiberíades, em Séforis, ou no bairro rico de Jerusalém. São os que possuem riqueza, têm poder e desfrutam de uma vida luxuosa.
Bem perto, junto à porta da mansão, está estendido um “mendigo”. Não está coberto de linho e púrpura, mas de feridas repugnantes. Não sabe o que é um banquete. Não lhe dão do que cai da mesa do rico. Só os cães da rua se aproximam  para lamber-lhe as feridas. Não possui nada a não ser um nome, “Lázaro” ou Eliézer, que significa “Meu Deus é ajuda”.
A cena é insuportável. O “rico” tem tudo. Não precisa de nenhuma ajuda de Deus. Não vê o pobre. Sente-se seguro. Vive na inconsciência. Não se parece conosco? Lázaro, por sua vez, é um exemplo de pobreza total: doente, faminto, excluído, ignorado pelos que o poderiam ajudar.  Sua única esperança é Deus. Não se parece com tantos milhões de homens e mulheres mergulhados na miséria?
O olhar penetrante de Jesus está desmascarando a realidade. As classes mais poderosas e os estratos  mais miseráveis parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico nunca atravessa para aproximar-se de Lázaro.
Jesus não pronuncia nenhuma palavra de condenação. Basta desmascarar a realidade. Deus não pode tolerar que as coisas fiquem assim para sempre. É inevitável a inversão de tal situação. Essa barreira que separa os ricos dos pobres pode transformar-se num abismo intransponível e definitivo.
O obstáculo para construir um mundo mais justo somos nós os ricos, que levantamos barreiras cada vez mais seguras para que os pobres não entrem nosso país, nem cheguem às nossas residências, nem batam à nossa porta. Felizes os seguidores de Jesus  que rompem barreiras, atravessam portas, abrem caminhos e se aproximam dos últimos. Eles encarnam o Deus que ajuda os pobres”.

(1) José Antonio Pagola – O caminho aberto por Jesus – Lucas – Vozes, p. 272





Viver é sempre um desafio. Vivemos e convivemos. Por vezes simplesmente vivemos. Em outros momentos damo-nos conta que não basta apenas viver, mas dar uma formatação densa e profunda aos nossos dias. Temos que viver densa, profunda e responsavelmente. Há os que são questionados pela voz da consciência que fala no fundo de seus corações.
Verdade que não poucos deixaram seu interior endurecer e não tiveram coragem ou vontade de ouvir essa voz rouca ou forte de suas consciências. Há os que encontraram também com o Cristo ressuscitado na estrada de suas histórias. Este arrancou de seus um sim no seu seguimento. Voz delicada da consciência e chamamento para o seguimento de Cristo dão uma cor diferente aos nossos dias.  Assim, somos chamados a fazer opções e escolhas que influenciam o amanhã de nossos dias e nos fazem chegar ao termo da viagem com a profunda alegria de viver e depois, da passagem da morte, podermos nos assentar na mesa do Reino, no seio de Abraão.
Ele tinha tudo. Vestia-se com roupas finas e comia pratos requintados. A vida e a sorte lhe sorriram. Como tantas pessoas em nossos dias. Quantos e quantas fazem uma opção por seu sucesso, seus negócios, suas coisas. Comem, fazem festanças, viajam, gastam e esquecem que há outro sentido de vida do que o girar em torno de si. Não existem para os outros, mas para si mesmos.
De outro há esse outro trapo humano que a parábola designa de pobre Lázaro, “cheio de feridas”, com os cachorros lambendo suas feridas.  Não vem ao caso saber se esse é culpado de sua miséria. Fato é que ele está aí e precisava ser alimentado e cuidado.
A parábola continua dizendo que,no momento da morte, o pobre foi levado para o seio de Abraão. O rico, por sua vez, foi conduzido à região dos mortos em meio a tormentos.
Conhecemos os pormenores. O rico queria passar para o outro lado do abismo. Não havia meios. Ele fora indiferente ao pobre ser que vivia à sua porta.  Durante a vida fez uma escolha que não pode ser mudada.
Que conclusões tiramos? Vivemos uma sociedade de gastança,de consumo, de indiferença.  Insisto na palavra indiferença. No casamento e na família, no governo e na política os interesses individuais e financeiros passam por cima de histórias humanas. Os que assim agem não podem ter a pretensão de assentar-se no banquete da sala de Abraão.
Cristãos e não cristãos não podem ser enganados. A verdadeira segurança não está nas casas que se tem, nos celeiros aumentados nem em dinheiro.  Com esta filosofia estamos arruinando a vida de nossos familiares.
Lucas fala com carinho do pobre Lázaro dando a entender que  Deus é o Deus que escolhe os pobres.
Sim, na vida será preciso escolher e escolher bem. Nossas escolhas repercutem no amanhã e nesse tempo que não é tempo e se chama eternidade.
frei Almir Ribeiro Guimarães





A riqueza endurece o homem: avareza
O profeta Amós poderia figurar numa antologia de literatura irônica (p.ex., as “vacas de Basã”, Am. 4,1). Na semana passada, encontramo-lo revelando a ambigüidade dos ricos comerciantes da Samaria. Hoje, censura-lhes a irresponsabilidade (1ª leitura). Denuncia o luxo e a luxúria das classes dominantes, enquanto o povo é ameaçado pela catástrofe da injustiça social e da invasão assíria. Por isso, esses ricaços sairão ao exílio na frente dos deportados... (Amós evoca ironicamente a gloriosa história antiga: os ricos, porque têm uma cítara para tocar, acham que são cantores como Davi... Samaria é a “casa de José”, mas José distribuía alimento aos de sua casa...)
A insensibilidade pelo sofrimento do pobre é também o tema inicial da parábola do rico e Lázaro, Lc. 16,19-31 (evangelho). As sobras da mesa do rico não vão para o pobre, mas para o cachorro. Parece atualidade. Porém, vem a morte, igual para os dois. O quadro se inverte. Lázaro vai ao seio de Abraão, o rico para o inferno. Há entre os dois um abismo intransponível, de modo que Lázaro nem poderia dar-lhe um dedinho de água para aliviar o calor infernal. Este abismo já existia, no fundo, antes da morte, mas com a morte se tomou intransponível. Então, o rico pede que seus irmãos sejam avisados por Lázaro. Mas Abraão responde: “Eles têm Moisés e os profetas. Nem mesmo em alguém voltando dos mortos acreditarão”: alusão a Cristo.
Dureza, isolamento, incredulidade: eis as conseqüências de viver para o dinheiro. Podemos verificar esse diagnóstico em redor de nós, cada dia, e, provavelmente, também em nós mesmos. Porque a pessoa só tem um coração; se ele se afeiçoa ao dinheiro, fecha-se ao irmão.
Os ricos são infelizes porque se rodeiam de bens como de uma fortaleza (cf. os condomínios fechados). São “incomunicáveis”. Vivem defendendo-se a si e a suas riquezas. Os pobres não têm nada a perder. Por isso, “as mãos mais pobres são que mais se abrem para tudo dar”.
Em nosso mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza é vista não como “gerência” daquilo que deve servir para todos, mas como conquista e expressão de status. Tal atitude marca a riqueza financeira (capitalização sem distribuição), a riqueza cultural (saber não para servir, mas para sobrepujar) e riqueza afetiva (possessividade, sem verdadeira comunhão). Considera-se a riqueza recebida como posse em vez de “economia” (palavra grega que significa: gerência da casa). Não se imagina o tamanho deste mal numa sociedade que proclamou o lucro e a competição como seus dinamismos fundamentais. Até a afetividade transforma-se em posse. As pessoas não se sentem satisfeitas enquanto não possuem o objeto de seu desejo, e, quando o possuem, não sabem o que fazer com ele, passando a desejar outro... Pois não sabem entrar em comunhão. Assim, a parábola de hoje é um comentário do “ai de vós, ricos” (Lc. 6,24).
Merece atenção a 2ª leitura. Pelo estilo, é o “testamento literário” de Paulo. O testemunho de Cristo neste mundo não é nada pacífico. É uma luta: o bom combate. Devemos travá-lo até o fim, para que vivamos para sempre com aquele que possui o fim da História. Poderíamos acrescentar à leitura os versículos que seguem (1Tm. 6,17-19): uma lição do que o cristão deve fazer com seus bens.
Johan Konings "Liturgia dominical"






Parábola do rico e Lázaro
O Evangelho de hoje descreve duas situações contrastantes, uma inversão da sorte. Jesus, falando aos fariseus, chama-lhes a atenção sobre o louvor feito da boca para fora e a vivência superficial da Lei, que significa que não estão ouvindo e vivendo a Palavra de Deus.
De um lado, Ele apresenta o rico, cujas preocupações se limitam a comer muito bem todos os dias, esbanjar luxo e requinte em roupas finas e elegantes, sem se preocupar com as necessidades do pobre à sua porta, uma importante oportunidade na preparação do seu futuro; e de outro lado Lázaro, que mendiga à entrada da casa do rico, numa situação de total marginalidade, faminto e cheio de feridas no corpo e na sua dignidade. O homem pobre, totalmente excluído, encontra solidariedade em Deus, e é o único em todas as parábolas a ter nome, Lázaro significa “Deus ajuda”.
A morte nivela todos. Lázaro foi levado após a sua morte, para junto de Abraão pelos anjos, enquanto o rico enterrado depois da morte, em tormentos, está num lugar totalmente separado do lugar da felicidade com Abraão. Ali, ele faz dois pedidos como se Lázaro ainda lhe fosse submisso: o primeiro é apenas um pouco de água para saciar sua sede – para quem estava acostumado a tantos banquetes, basta agora uma gota d’água! Mas, Abraão recusa o pedido, pois quem creu em Deus e Nele confiou, Nele terá a sua eterna herança. Quem se entregou ao prazer, comportando-se como se Deus não existisse, permanecerá eternamente separado Dele. O segundo pedido é que Lázaro seja enviado aos cinco irmãos do rico como testemunho, para que os mesmos não tenham o mesmo fim. Ele se preocupa com seus irmãos, mas é muito tarde para isso! Abraão responde dizendo que as Leis e os Profetas deverão convencê-los, ou seja, a Palavra de Deus proclamada através dos séculos deveria bastar, e que não é necessário que ninguém ressuscite para que eles creiam.
Embora o homem rico chame Abraão de pai, ele é considerado filho apenas por laços de sangue, não pelo verdadeiro caminho que leva à salvação.
O rico, nesta parábola, nos mostra como a prosperidade e a riqueza, frequentemente, tornam o homem orgulhoso e faz com que despreze a Deus e aos bens eternos.
A opção de Deus pelos pobres pode ser entendida como a razão de se viver uma verdadeira comunidade cristã. É preciso ter discernimento cristão diante do uso dos bens, pois o cristão deve prestar culto somente a Deus. Ele é o único Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Pequeninos do Senhor



Apelo à conversão
A parábola do rico e do pobre Lázaro comporta um apelo à conversão, especialmente dirigido a quem está tão preocupado com os prazeres desta vida, a ponto de se tornar insensível às carências de seus semelhantes, mormente, os mais pobres.
A primeira cena exibe o rico, cujo nome é omitido, gozando os prazeres da vida, vestindo roupas caras e banqueteando-se esplendidamente. À sua porta, jaz um mendigo doente, de nome Lázaro, que significa "Deus ajuda", coberto de feridas. Nada lhe chega da mesa do rico que possa saciar-lhe a fome. Suas chagas são lambidas por cães vagabundos, os quais Lázaro não tem força para afastar.
A morte, porém, inverte as posições. Lázaro recebe a ajuda de Deus, por quem é acolhido. O rico, porém, é brindado com um destino de tormentos indizíveis, no inferno. Só, então, dá-se conta do quanto fora insensato, despreocupando-se com a própria salvação. Era tarde demais! O rico havia desperdiçado o tempo posto à sua disposição, escolhendo um modo de vida egoísta e folgazão. Caminho igualmente escolhido por seus cinco irmãos. Também eles recusavam-se a dar ouvido às Escrituras. Nem mesmo um milagre espetacular, como a ressurreição de um morto, seria suficiente para chamá-los à sensatez. Logo, estavam escolhendo a mesma sorte do irmão defunto, se não se convertessem imediatamente.
padre Jaldemir Vitório





Quais os meios para entrar no Reino de Deus?
Os versículos 14 a 18 do capítulo 16 fazem a transição da parábola do administrador desonesto para o do rico e Lázaro.
Estes versículos nos deixam a impressão de que os fariseus amam o dinheiro (cf. v. 14) e exaltam em seus corações o que é detestável (até mesmo idolátrico) aos olhos de Deus (cf. v. 15). O que é um momento pobre para os fariseus é, na verdade, um grande momento, pois é um tempo em que todo homem se esforça por entrar no Reino de Deus (cf. v. 16), pela obediência à Lei (cf. v. 17). O que Jesus está tentando fazer ver aos fariseus é que, num tempo onde os meios para entrar no Reino de Deus estão na Lei de Deus, eles correm o risco de abraçar não a Lei, mas o que é abominável aos olhos de Deus.
É sobre esse pano de fundo que Jesus conta a parábola do rico e de Lázaro, nosso evangelho de hoje, em que se vive a vida como se a Lei não impusesse obrigações com relação ao próximo, como: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv. 19,18). O desprezo pelo outro compromete o cumprimento dos mandamentos. Marcos no seu evangelho nos alerta para situação semelhante: “Abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos à tradição dos homens” (Mc. 7,8). Da região dos mortos (v. 23), o rico compreende que é a obediência à Lei o meio de entrar no Reino de Deus, por isso ele pede a Abraão que envie Lázaro ao seu irmão para alertá-lo (vv. 27-28). Mas Abraão insiste que eles já têm os meios: Moisés e os Profetas (v. 29.31), isto é, toda a Escritura, que é preciso ouvir (v. 29). Se eles rejeitam este meio, rejeitarão também Lázaro, ressuscitado dos mortos (cf. v. 31).
Cabe a eles, como também a nós, buscar os meios adequados, não quaisquer meios, mas os consignados na Escritura, para entrar no Reino de Deus. A Lei e os Profetas são dados para esta vida em vista do Reino de Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj



Antes de entrar no tema próprio da Palavra de Deus deste domingo, convém chamar atenção para três idéias do Evangelho que desmentem três erros que se pregam por aí a fora:
(1) Jesus hoje desmente os que afirmam que os mortos estão dormindo. É verdade que, antes do Exílio de Babilônia, quando ainda não se sabia em Israel que havia ressurreição, os judeus e seus textos bíblicos diziam que quem morria ia dormir junto com os pais no sheol. Tal idéia foi superada já no próprio Antigo Testamento, quando Israel compreendeu que o Senhor nos reserva a ressurreição. Então, os judeus pensavam que quem morresse, ficava bem vivo, na mansão dos mortos, à espera do Julgamento Final. Já aí, havia uma mansão dos mortos de refrigério e paz e uma mansão dos mortos de tormento. É esta crença que Jesus supõe ao contar a parábola do mau rico e do pobre Lázaro. Então, nem mesmo para os judeus, que não conheciam o Messias, os mortos ficavam dormindo! Quanto mais para nós, cristãos, que sabemos que “nem a morte nem a vida nos poderão separar do amor de Cristo” (Rm 8,38-39). Afirmar que os mortos em Cristo ficam dormindo é desconhecer o poder da ressurreição de Nosso Senhor. Muito pelo contrário, como para São Paulo, o desejo do cristão é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Deus nos livre da miséria de pensar que os mortos em Cristo ficam presos no sono da morte!
(2) Outro erro que a parábola corrige é o de quem prega que o inferno não é eterno. Muitas vezes nas Escrituras – e aqui também – Jesus deixou claro que o céu e o inferno são por toda a eternidade. Na parábola, aparece claro que “há um grande abismo” entre um e outro! Assim, cuidemos bem de viver unidos ao Senhor nesta única vida que temos, pois “é um fato que os homens devem morrer uma só vez, depois do que vem um julgamento” (Hb 9,27). Que ninguém se iluda com falsas esperanças e vãs ilusões, como a reencarnação!
(3) Note-se também como os mortos não podem voltar, para se comunicarem com os vivos. O cristão deve viver orientado pela Palavra de Deus e não pela doutrina dos mortos! Morto não tem doutrina, morto não volta, morto não se comunica com os vivos! Além do mais, os judeus não pensavam que os espíritos se comunicassem com os vivos. Observe-se que o que o rico pede é que Lázaro ressuscite, não que apareça aos vivos como um espírito desencarnado. Daí, a resposta de Jesus: “Eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”!
Com estes esclarecimentos, vamos à mensagem da Palavra para este hoje. Jesus continua o tema de domingo passado, quando nos exortou a fazer amigos com o dinheiro injusto. Este é o pecado do rico do Evangelho de hoje: não fez amigos com suas riquezas. Se tivesse aberto o coração para Lázaro, teria um amigo a recebê-lo no céu! É importante notar que esse rico não roubou, não ganhou seu dinheiro matando ou fazendo mal aos outros. Seu pecado foi unicamente viver somente para si: “se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias”. Ele foi incapaz de enxergar o “pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava no chão”, à sua porta. “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”. O rico nunca se incomodou com aquele pobre, nunca perguntou o seu nome, nunca procurou saber sua história, nunca abriu a mão para ajudá-lo, nunca deu-lhe um pouco de seu tempo. O rico jamais pensou que aquele pobre, cujo nome ninguém importante conhecia, era conhecido e amado por Deus. Não deixa de ser impressionante que Jesus chama o miserável pelo nome, mas ignora o nome do rico! É que o Senhor se inclina para o pobre, mas olha o rico de longe! Afinal, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos!
É esta falta de compaixão e de solidariedade que Jesus não suporta, sobretudo nos seus discípulos; não suporta em nós. Já no Antigo Testamento, Deus recrimina duramente os ricos de Israel: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião, os que s e sentem seguros nas alturas de Samaria! Os que dormem em camas de marfim, deitam-se em almofadas, comendo cordeiros do rebanho; os que cantam ao som da harpa, bebem vinho em taças, se perfumam com os mais finos ungüentos e não se preocupam com a ruína de José”. É necessário que compreendamos isso: não podemos ser cristãos sem nos dar conta da dor dos irmãos, seja em âmbito pessoal seja em âmbito social. Olhemos em volta: a enorme parábola do mau rico e do pobre Lázaro se repetindo nos tantos e tantos pobres do nosso País, do nosso Estado, da nossa Cidade, muitas vezes bem ao lado da nossa indiferença. Como o mau rico, estamos nos acostumando com os meninos de rua, com os cheira-colas, com os miseráveis e os favelados, com o assassinato dos moradores de rua... A advertência do Senhor é duríssima: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião... e não se preocupam com a ruína de José!”
Talvez, ouvindo essas palavras, alguém pergunte: mas, que posso eu fazer? Pois eu digo: comece por votar com vergonha nestas eleições municipais! Não vote nos ladrões, não vote por interesse, não vote nos corruptos, não vote nos descomprometidos com os mais fracos, não vote em que não tem nada além de palavras e promessas vazias! Vote com sua consciência, vote buscando o bem comum. Dê-se ao trabalho de escolher com cuidado seus candidatos, dê-se ao trabalho, por amor aos pobres, de pensar bem em quem votar! Só isso? Não! Olhe quem está ao seu lado: no trabalho, na rua, no sinal de trânsito, no seu caminho. Olhe quem precisa de você: abra o coração, abra os olhos, abras as mãos, faça-se próximo do seu irmão e ele o receberá nas moradas eternas.
Durante dois domingos seguidos o Senhor nos alertou para nosso modo de usar nossos bens. Fomos avisados! Um dia, ele nos pedirá contas! Que pela sua graça, nós tenhamos, um dia, amigos que nos recebam nas moradas eternas.
dom Henrique Soares da Costa


sábado, 17 de setembro de 2016

25º DOMINGO TEMPO COMUM-C

25º DOMINGO TEMPO COMUM

18 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Am 8,4-7

Salmo 112

2ª Leitura - 1Tm 2,1-8

Evangelho - Lc 16,1-13


É IMPOSSÍVEL SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO



Aquele administrador infiel, porém, muito esperto, ao saber que seria despedido, diminuiu as dívidas dos devedores do patrão, para que estes o ajudassem depois em retribuição à sua falsa generosidade. –Ncontinuar lendo


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“VÓS NÃO PODEIS SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO.”- Olivia Coutinho

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Dia 18 de Setembro de 2016

Evangelho de  Lc 16,1-13

Num mundo, onde impera o individualismo, a cultura do descarte, tudo gira em torno do dinheiro, a pessoa não é vista pelo o que é, e sim, pelo o que tem!
Se não ficarmos atentos quanto as nossas escolhas, corremos o risco de nos contaminar por esta sociedade materialista que valoriza o ter e não o ser, que assimila a falta de dinheiro como causa do seu não êxito na vida!
Em meio a tantos adversários do projeto de Deus, Jesus vem nos trazer algo inovador, uma proposta de vida nova, que ao contrário do mundo, tem como prioridade o “ser”!
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, nos alerta sobre o perigo de nos tornar reféns do dinheiro!
O dinheiro nos induz ao consumismo que é o motor alimentador deste sistema capitalista gerador de excluídos, um sistema, que descarta aqueles que não produzem os que não dão lucro, e que penaliza aqueles que não se deixam corromper.
O ensinamento que Jesus nos passa no dia de hoje é desafiador, principalmente para muitos de nós, que não consegue libertar da escravidão do consumismo!
O texto nos apresenta a parábola do administrador desonesto. Através desta história, Jesus faz uma constatação: Os filhos do mundo, são mais espertos do que os filhos da Luz e em seguida Ele nos exorta: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos...
Jesus colocou um administrador desonesto entre os “filhos deste mundo”, em contraste com os “filhos da Luz”. Entretanto, ele apresentou a esperteza deste filho do mundo, (administrador) como modelo para nós, para que usemos também de muita astúcia para transformar este mundo em Reino de Deus!
Não podemos interpretar o texto ao pé da letra, se assim fizermos, vamos chamar Jesus de incoerente. Pensar que Jesus elogia a desonestidade, é sem dúvida, desconhecê-Lo, afinal, como explicar a justiça tão apregoada por Ele?
É importante termos a clareza de que Jesus não elogia a desonestidade, o que Ele elogia, é a astúcia, de alguém que busca meios tão rápidos, para não perder a sua vida!
A lição que fora passada para os discípulos e hoje para nós, deve nos conscientizar de que nós, filhos da Luz, não podemos viver na passividade e nem sermos morosos em nossas decisões, principalmente em se tratando da prática da justiça.
Jesus elogiou a agilidade de uma pessoa determinada a sair rapidamente de uma situação que lhes era desfavorável, é essa atitude que nós, os filhos da Luz, devemos ter, principalmente em relação ao pecado, temos que ser rápidos para sairmos de uma situação de pecado.
“Usai o dinheiro injusto para fazer amigos.”  A princípio, estas palavras de Jesus, nos assustam, mas não é difícil entende-las se meditadas dentro do contexto. 
Dinheiro injusto é aquele dinheiro que acumulamos, que vai além das nossas necessidades, ainda que ele seja adquirido com honestidade. Este dinheiro é traiçoeiro, ele nos leva ao consumismo, a colocarmos a nossa segurança nele e não em Deus!
Portanto, é um dinheiro injusto, ele nos rouba de Deus, nos escraviza, nos leva a injustiça de dar-lhe a honra que é devida somente a Deus! Quando colocamos o dinheiro, como o senhor da nossa vida, ele acaba nos tirando a vida, causando a nossa ruína.
Jesus nos ensina a darmos um destino justo a este dinheiro injusto, a aplicá-lo numa conta bem rentável, fazendo amigos com ele, colocando-o não somente ao nosso serviço, como também, a serviço do outro, especialmente dos mais empobrecidos. 
O administrador desonesto transformou, ainda que por interesse, um dinheiro injusto, num bem para o outro. Ao trocar os bens passageiros pelos bens duráveis, ele deu um passo certeiro na vida.
Fica claro, que ele agiu com esperteza, mas se olharmos por outro lado, vamos perceber que ao ser convertido pela razão, ele dá o primeiro passo para a conversão do coração! Antes, ele trocava as pessoas pelo dinheiro, depois que se vê em apuros, aquele administrador faz o inverso, troca o dinheiro pelas pessoas, por conveniência é claro! É esta rapidez de raciocínio, que Jesus gostaria que nós, como filhos da luz, tivéssemos! 
Não sejamos ingênuos de achar que Jesus condena o dinheiro, Jesus não condena o dinheiro, afinal, precisamos dele para a nossa sobrevivência. O que Jesus condena, é o mau uso do dinheiro, o lugar que o colocamos na nossa vida e a forma ilícita de adquiri-lo. 
Jesus nos convida a sermos agentes de um mundo novo, de um mundo alicerçado na justiça que é a base sólida sobre a qual construímos a nossa morada no céu!  Atendamos a este convite de Jesus, trocando os bens do mundo, pelos os bens duráveis, os bens eternos!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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O bom uso das riquezas: desapego
Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro (cf. Lc. 16,13). Há pessoas que observam as prescrições do culto, mas interiormente estão longe de Deus (cf. Is 29,13). Observam a “lua nova” - festa religiosa tradicional no antigo Israel - e o sábado, mas interiormente pensam em como explorar os pobres e os oprimidos, com uma avareza sem fim: até o refugo do trigo sabem converter em lucro (Am. 8,6; 1ª leitura).
Não adiantam cultos e orações: Deus não o esquecerá (8,7)! E, quanto aos oprimidos, Deus os levantará (salmo responsorial).
As palavras de Amós nos advertem a respeito do vazio da riqueza procurada por si mesma. A riqueza não apenas não nos acompanha (cf. Lc. 13,16-21), ela pode tornar-se causa de nossa condenação. E que dizer de uma sociedade que coloca tudo a serviço do lucro? O evangelho narra uma destas parábolas escandalosas de Jesus: um homem que, diante da iminente demissão por causa de má administração, comete umas pequenas (?) fraudes a favor dos devedores de seu patrão, para poder contar com o apoio deles na hora em que for posto para a rua. Será um exemplo? Num certo sentido, sim: era um homem que enxergava mais longe que seu nariz. Não o devemos imitar na sua injustiça, mas na sua previdência. Ele sabia - melhor que aquele fazendeiro de Lc. 12,16-21 - que sua posição era precária, e tomou providências. Jesus observa que os “filhos das trevas” - com isso qualifica a imoralidade desse homem - são geralmente mais espertos que os filhos da luz. Ter consciência da precariedade das riquezas e utilizar as últimas chances para ganhar amigos para o futuro, eis o que Jesus quis ensinar.
O grande amigo que devemos ganhar para o futuro é Deus mesmo (“ser rico perante Deus”, Lc. 12,21). Ganhamo-lo através de pequenos amigos: seus filhos. A iminência do juízo (Lc. tomava isso bastante literalmente) nos deve levar à prática da caridade. Entenda-se bem: não fazer caridade para “comprar o céu”, mas, com os olhos fitos na realidade definitiva que é Deus, Pai de bondade, transformar nossa vida numa atitude que combine com ele, configurar-nos com ele (cf. Lc. 6,35b-36). Sabemos o que é definitivo. Ajamos em conformidade: sejamos misericordiosos como Deus.
O encontro com os amigos das “moradas eternas” inclui os de Lc. 14,12-14.15-24: coxos, cegos, estropiados, os pobres em geral, os que são convidados para o banquete eterno. Temos amplas oportunidades de usar o “vil dinheiro” para conquistar esses amigos. Será que o dinheiro é vil? Não há dúvida. Não há um dólar que não seja manchado de opressão e exploração. Através dos bancos que investem minha aplicação compulsória do imposto de renda, estou investindo em indústria bélica.., O dinheiro participa do sistema que o gera. O fato de eu poder “comer como um padre” participa de uma estrutura em que muitos não podem isso. Então, alimentado como um padre, devo pelo menos fazer tudo o que posso para que os outros possam alimentar-se assim também. Ou não mais me alimentar como um padre, pois esta não é a realidade definitiva. A caridade, pelo contrário, é definitiva e não perece nunca (cf. 1Cor. 13).
Na 2ª leitura continua a reflexão de Paulo em torno do anúncio da reconciliação, que lhe foi incumbido entre os gentios. Neste espírito, insiste na oração da comunidade, oração de agradecimento e intercessão por todos os homens. Nós devemos traduzir nossa busca de unidade e reconciliação, tornando-nos mediadores de todos, assim como Cristo reconciliou a todos, tornando-se mediador, por sua morte salvadora. A última frase (2,8) pode servir também de motivação para que a comunidade reze, por exemplo, o Pai-nosso com as mãos elevadas ao céu, “sem ira nem rancor”.
Johan Konings "Liturgia dominical




Sejamos autênticos filhos da luz
Este trecho do Evangelho nos faz refletir sobre a dura realidade do mundo, sempre imerso numa crise de valores, e nos leva a comprovar como a Palavra de Deus é sempre atual e eficaz.
Através de uma parábola Jesus ensina seus discípulos, e a nós hoje, a fazer tudo o que é necessário para viver uma vida repleta de sentido e de esperança, de fidelidade a Deus e de amor ao próximo.
Parábola do administrador infiel (v. 1-8): O administrador infiel, ante a iminência de ser despedido, age com a sabedoria do mundo, procurando granjear amigos à custa dos bens do patrão. “E o patrão louvou o administrador infiel por ter agido com sagacidade”, ao providenciar, enquanto ainda era tempo, seu bem estar futuro. O patrão admira seu empregado pela atitude ousada e decidida em face de sua situação crítica, mas condena sua infidelidade na administração.
“Pois os filhos deste mundo são mais prudentes, nas relações com os seus, do que os filhos da luz” (v. 8).
“Filhos do mundo…” Alheios a Deus, sob a influência e domínio de satanás, são mais espertos em fazer o mal do que os bons em fazer o bem. Têm em vista os bens meramente terrenos e imediatos, servindo-se das riquezas somente em benefício próprio.
“Filhos da luz…” Os cristãos são filhos da luz (cf. 1Ts. 5,5). Deixemo-nos guiar em nosso pensar e agir pela “Luz que é Deus”. Um dia, prestaremos contas a Deus do bom uso das riquezas, por isso devemos agir com tino, decisão e firmeza, com o olhar sempre voltado para Deus, para o mundo futuro, para a Vida Eterna.
“Granjeai amigos com as riquezas da iniqüidade, para que, quando estas vos faltarem, eles vos recebam nos tabernáculos eternos” (v. 9). O dono absoluto de nossos bens é Deus; somos apenas administradores desses bens. “Os amigos” são as boas obras em que empregamos esses bens, principalmente os pobres a quem socorremos. “Com as riquezas da iniqüidade”, diz Jesus, enquanto elas provêm da iniqüidade ou a ela conduzem. Jesus quer transformar as riquezas em merecimentos, para que, na hora de nossa morte, quando os bens terrenos perdem todo seu valor, as boas obras nos recebam “nos tabernáculos eternos”: no céu.
O amor de Deus e a cobiça dos bens terrenos são incompatíveis. “Nenhum servo pode servir a dois senhores: não podeis servir a Deus e as riquezas” (v. 13).  Deus é grandeza sem concorrência…
* Pai, já que é vosso tudo o que somos e temos, para vós se oriente todo o nosso viver para que haja no mundo mais justiça e amor.
* * *
Que ensinamento traz a parábola do administrador infiel?... Onde está teu coração?... No serviço a Deus, ou no serviço ao dinheiro?... O que fazer para colocar Deus no centro de meu viver, pensar e agir?... Alguma vez tive de fazer a escolha entre Deus e o dinheiro?... Procuro ser fiel a Deus na administração dos bens terrenos, bem como dos dons recebidos?
frei Floriano Surian, ofm



O reto uso da riqueza é o tema deste Evangelho, chamado “parábola do administrador infiel”. Naquela época o administrador tinha direito de conceder empréstimos com os bens do seu senhor e, como não era remunerado, ele se beneficiava aumentando o valor do empréstimo no recibo. Assim, na hora do reembolso ficava com a diferença.
Na história que Jesus contou, o administrador abriu mão de todos os seus lucros (reduzindo as dívidas dos clientes do patrão) para conquistar amigos, e caso fosse despedido, teria quem o acolhesse na própria casa. É importante notar a mudança que ele faz em sua vida! E ainda ganhou um elogio do patrão!
Jesus não pretende louvar a desonestidade do administrador, mas o que Ele quer é realçar-lhe a esperteza em garantir o futuro. Este exemplo nos ensina como o cristão deve servir-se de suas riquezas em função da vida eterna. O dinheiro, chamado por Jesus de “riqueza da iniquidade”, por que muitas vezes é fruto de lucros desonestos, deve ser usado com cuidado para que não seja obstáculo para a salvação, mas ajude a consegui-la, como acontece quando é empregado em benefício dos necessitados.
Se o homem não for desapegado do interesse do dinheiro, quer como patrão ou como administrador, poderá acabar escravo dele, que não deixa nenhuma liberdade, nem a de servir a Deus.
Segundo Lucas, a atitude do administrador é uma forma de ser discípulo e participar do Reino. Cabe aqui uma denúncia e um anúncio, que mostram as exigências de ser cristão e os leva a um posicionamento em favor do próximo: ter opção fundamental por Cristo e rejeitar a ambição do acúmulo e da ganância para criar novas relações sociais de justiça e fraternidade.
Pequeninos do Senhor


É preciso sair do comodismo; o Reino de Deus exige empenho,
inteligência, discernimento.
Esta parábola do início do capítulo 16 de Lucas dá continuidade ao capítulo precedente. Em que consiste esta conexão entre os capítulos 15 e 16? É o que podemos chamar de “elemento destoante”. O filho mais jovem admite a seu pai que ele pecou (vv. 18.21) e reconhece não ser mais digno de ser chamado “seu filho” (vv. 19.21). No entanto, sua motivação para voltar para a casa do pai é o desejo da própria preservação. Sua motivação não é estar de novo com o seu pai, mas ter o pão dos empregados do seu pai (cf. v. 17). O capítulo 16 continua o discurso do capítulo 15, mas o auditório é outro; agora se trata dos discípulos (cf. v. 1).
É outra história, a do “administrador injusto ou desonesto” (cf. v. 8). É preciso cuidado para interpretar bem o que a parábola diz, do contrário poderia induzir a erro, considerando que Jesus elogia a desonestidade do administrador. O que é louvada nesta parábola é a habilidade de uma pessoa de empregar meios para alcançar determinado fim; ele utiliza sua inteligência para encontrar o meio de assegurar sua felicidade.
O que preocupa Jesus são os meios para entrar no Reino de Deus – é exatamente isso que a parábola enfatiza. Não quaisquer meios, pois é preciso entrar pela “porta estreita”. A porta que dá acesso ao Reino de Deus é o próprio Jesus. Jesus urge para os discípulos deixarem a passividade e empreenderem tal “sabedoria” a fim de alcançar o seu objetivo, a saber, entrar no Reino de Deus. Assim como o filho mais novo da parábola do pai misericordioso escolhe os meios para salvar a própria vida, da mesma forma o administrador desonesto é louvado por ter-se aplicado em encontrar os meios pelos quais poderia ter a sua vida salva. Não é, reiteramos, elogio à desonestidade, mas ao esforço de buscar os meios para ter a vida salva. Esta é a lição dada aos discípulos e ao leitor do evangelho: é preciso sair do comodismo; o Reino de Deus exige empenho, inteligência, discernimento. A máxima de Santo Inácio de Loyola nos parece bem adequada aqui: “Fazei tudo como se tudo dependesse de nós e espera tudo como se tudo dependesse de Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj




O sentido do Evangelho de hoje encontra-se numa constatação e num conselho de Jesus. Primeiro, a constatação: “Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios que os filhos da luz”. Depois, o conselho, que, na verdade, é uma exortação: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Que significam estas palavras?
A constatação de Jesus é tristemente real: os pecadores são mais espertos e mais dispostos para o mal, que os cristãos para o bem. Pecadores entusiasmados com o pecado, apóstolos do pecado, divulgadores do pecado... Cristãos sem entusiasmo pelo Evangelho, sem ânimo para a virtude, sem criatividade para crescer no caminho de Deus! Pecadores motivados, cristãos cansados e preguiçosos! Que vergonha! Hoje, como ontem, a constatação de Jesus é verdadeira. Olhemo-nos, olhemos uns para os outros, olhemos para esta Comunidade que, dominicalmente, se reúne para escutar a Palavra e nutrir-se do Corpo do Senhor... Somos dignos da Eucaristia? Sê-lo-emos se nos tornamos testemunhas entusiasmadas e convictas daquele que aqui escutamos, daquele por quem aqui somos alimentados!
Da constatação triste do Senhor, brota sua exortação grave: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Palavras estranhas; à primeira vista, escandalosas... Que significam? Jesus chama o dinheiro de “injusto”. Isto porque o dinheiro, a riqueza, os bens materiais e os bens da inteligência, do sucesso, da fama, ainda que adquiridos com honestidade, são sempre traiçoeiros, sempre perigosos, sempre na iminência de escravizar nosso coração e nos fazer seus prisioneiros. Dinheiro injusto porque sempre nos tenta à injustiça de dar-lhe a honra que é devida somente a Deus e de buscar nele a segurança que somente o Senhor nos pode garantir. Por isso, Jesus chama os bens deste mundo de “dinheiro injusto”... Sempre injusto, porque sempre traiçoeiro, sempre traiçoeiro, porque sempre sedutor! Constantemente corremos o risco de nos embebedar com ele, fazendo dele o fim de nossa existência, nossa segurança e nosso deus... Mas, os bens materiais, em geral, e o dinheiro, em particular, não são maus de modo absolutos... Eles podem ser usados para o bem. Por isso Jesus nos exorta a fazer amigos com eles... Fazemos amigos com nossos bens materiais ou espirituais quando os colocamos não somente ao nosso serviço, mas também ao serviço do crescimento dos irmãos, sobretudo dos mais necessitados. Aí, o dinheiro se torna motivo de libertação, de alegria e de vida para os outros... Aí, então, tornamo-nos amigos dos pobres, que nos receberão de braços abertos na Casa do Pai! Bendito dinheiro, quando nos faz amigos dos pobres e, por meio deles, amigos de Deus! Que o digam os cristãos que foram ricos e se fizeram amigos de Deus porque foram amigos dos pobres! Que o digam santa Brígida da Suécia, santo Henrique da Baviera, são Luís de França, os santos Isabel e Estevão, reis da Hungria, santa Isabel de Portugal e tantos outros, que souberam colocar seus bens a serviço de Deus e dos irmãos! Uma coisa é certa: é impossível ser amigo de Deus não sendo amigo dos pobres. Sobre isso o Senhor nos adverte duramente na primeira leitura: ai dos que celebram as festas religiosas dos sábados e das luas novas em honra do Senhor com o pensamento de, no dia seguinte, roubar, explorar o pobre e pisar o fraco! Maldita prática religiosa, esta! A queixa do Senhor é profunda, sua sentença é terrível. Ouçamos o que ele diz, e tremamos:“Por causa da soberba de Jacó, o Senhor jurou: ‘Nunca mais esquecerei o que eles fizeram!’” A verdade é que não podemos usar nossos bens como se Deus não existisse e não nos mostrasse os irmãos necessitados, como também não podemos adorar a Deus como se não tivéssemos dinheiro e outros bens materiais ou da inteligência, bens que devem ser colocados debaixo do senhorio de Cristo! Não se pode separar nossa relação com Deus do modo como usamos os nossos bens! Ou as duas vão juntas, ou a nossa religião é falsa! Por isso, perguntemo-nos hoje: como uso os bens materiais, como uso meus talentos, como uso minha inteligência? Somente para mim? Ou sei colocar-me a serviço, fazendo de minha vida uma partilha, tornando outros felizes e o nome de Deus honrado?
Os bens deste mundo são pouco, em relação com os bens eternos que o Senhor nos promete para sempre. Pois bem, escutemos o que diz o nosso Salvador:“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é fiel nas grandes. Se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso?" Em outras palavras, para que ninguém tenha a desculpa de dizer que não compreendeu o que o Senhor quis dizer: Quem é fiel nas coisas pequenas deste mundo, será fiel nas coisas grandes que o Pai dará no céu. Se vós não sois fiéis no uso dos bens desta vida, como Deus vos confiará a vida eterna, que é o verdadeiro bem? E se não sois fiéis nos bens que não são vossos para sempre, como Deus vos confiará aquilo que é o verdadeiro bem, a vida eterna, que será vossa para sempre?
Olhemos nós, que o modo de nos relacionarmos com o dinheiro e demais bens diz muito do que nós somos, afinal o nosso tesouro está onde está nosso coração! Dizei-me onde anda o vosso coração, o vosso apego, a vossa preocupação, e eu vos direi qual é o tesouro da vossa vida! Tristes de nós quando o nosso tesouro não for unicamente Deus! Tristes de nós quando, por amor ao que passa, perdemos a Deus, o único Bem que não passa! Uma coisa é certa: a advertência duríssima de Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podereis servir a Deus e ao dinheiro!”
Que nos converta a misericórdia de Deus, que sendo tão bom, “quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”. A ele a glória para sempre.
dom Henrique Soares da Costa




A liturgia sugere-nos, hoje, uma reflexão sobre o lugar que o dinheiro e os outros bens materiais devem assumir na nossa vida. De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, os discípulos de Jesus devem evitar que a ganância ou o desejo imoderado do lucro manipulem as suas vidas e condicionem as suas opções; em contrapartida, são convidados a procurar os valores do “Reino”.
Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em ampliar sempre mais as suas riquezas, que apenas pensam em explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. Amós avisa: Deus não está do lado de quem, por causa da obsessão do lucro, escraviza os irmãos. A exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus.
O Evangelho apresenta a parábola do administrador astuto. Nela, Jesus oferece aos discípulos o exemplo de um homem que percebeu como os bens deste mundo eram caducos e precários e que os usou para assegurar valores mais duradouros e consistentes… Jesus avisa os seus discípulos para fazerem o mesmo.
Na segunda leitura, o autor da primeira carta a Timóteo convida os crentes a fazerem do seu diálogo com Deus uma oração universal, onde caibam as preocupações e as angústias de todos os nossos irmãos, sem exceção. O tema não se liga, diretamente, com a questão da riqueza (que é o tema fundamental da liturgia deste domingo); mas o convite a não ficar fechado em si próprio e a preocupar-se com as dores e esperanças de todos os irmãos, situa-nos no mesmo campo: o discípulo é convidado a sair do seu egoísmo para assumir os valores duradouros do amor, da partilha, da fraternidade.
1º leitura: Am. 8,4-7 - AMBIENTE
Amós exerceu o seu ministério profético no reino do Norte (Israel) em meados do séc. VIII a.C., durante o reinado de Jeroboão II. É uma época de prosperidade econômica e de tranquilidade política: as conquistas de Jeroboão II alargaram consideravelmente os limites do reino e permitiram a entrada de tributos dos povos vencidos; o comércio e a indústria (mineira e têxtil) desenvolveram-se significativamente.
A prosperidade e o bem-estar das classes favorecidas contrastavam, porém, com a miséria das classes baixas. O sistema de distribuição estava nas mãos de comerciantes sem escrúpulos que, aproveitando o bem-estar econômico, especulavam com os preços. Com o aumento dos preços dos bens essenciais, as famílias de menores recursos endividavam-se e acabavam por se ver espoliadas das suas terras. A classe dirigente, rica e poderosa, dominava os tribunais e subornava os juízes, impedindo que o tribunal fizesse justiça aos mais pobres e defendesse os direitos dos menos poderosos.
É neste contexto que aparece o profeta Amós. Natural de Técua (uma pequena aldeia situada no deserto de Judá), Amós não é profeta profissional; mas, chamado por Deus, deixa a sua terra e parte para o reino vizinho para gritar a sua denúncia profética. A rudeza do seu discurso, aliada à integridade e afoiteza da sua fé, traz algo do ambiente duro do deserto e contrasta com a indolência e o luxo da sociedade israelita da época.
MENSAGEM
O oráculo que nos é proposto é uma denúncia das actividades desses que “espezinham o pobre” e querem “eliminar os humildes da terra”. Quem são, em concreto, esses que o profeta denuncia? Trata-se de comerciantes sem escrúpulos, dominados pelo espírito do lucro, em cujos olhos só brilham cifrões. Eles compram aos agricultores os produtos da terra a preços irrisórios e revendem-nos aos pobres a preços exorbitantes, especulando com as necessidades dos humildes; roubam os clientes pobres, usando pesos, medidas e balanças falsas; aldrabam a qualidade dos produtos, misturando as cascas com o trigo; nos dias de sábado e de lua nova (dias sagrados, em que as atividades lucrativas eram suspensas), em lugar de se preocuparem com o louvor de Deus, eles estão ansiosos por recomeçarem os seus negócios de especulação e de exploração do pobre, a fim de aumentarem os seus lucros.
Que é que Deus tem a ver com isto? Tudo isto configura uma violação grosseira dos mandamentos da aliança. Jahwéh não está disposto a ser cúmplice da injustiça e da exploração do pobre. Qualquer crime cometido contra os pobres é um crime contra Deus… Por isso, Amós anuncia que Deus não esquece (quer dizer, não deixa passar em claro) este comportamento; ora, dizer que Deus não esquece significa que Deus vai intervir e acabar com a exploração e a injustiça. A fórmula solene de juramento (“o Senhor jura pelo orgulho de Jacob” – v. 7) exprime o caráter irrevogável da decisão de Deus.
2º leitura: 1Tm. 2,1-8v - AMBIENTE
Continuamos a ler a primeira carta a Timóteo. Recordamos aquilo que já dissemos no passado domingo: este Timóteo, nascido em Listra, de pai grego e de mãe judeocristã, é um companheiro inseparável de Paulo, a quem Paulo confiou importantes missões e a quem encarregou da responsabilidade pastoral das Igrejas da Ásia Menor. Segundo a tradição, foi o primeiro bispo da comunidade cristã de Éfeso.
MENSAGEM
Nos versículos que hoje nos são propostos, o autor da carta dá a Timóteo normas sobre a oração litúrgica. Começa com um convite a rezar por todos os homens (v. 1), particularmente pelos que estão investidos de autoridade: deles depende o bem-estar social e a paz, condições necessárias para que os cristãos possam viver com tranquilidade, na fidelidade à sua fé (v. 2).
De resto, a oração dos cristãos deve ser universal, pois é universal a proposta da salvação que Deus oferece: todos – judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres, maus e bons – são convidados por Deus a fazer parte da comunidade da salvação (vs. 3-4). Duas razões apóiam este universalismo: a unicidade de Deus, criador de todos e a mediação universal de Cristo, que derramou o seu sangue por todos… A propósito, o autor da carta insere uma fórmula (vs. 5-6a) que parece reproduzir uma confissão de fé, em uso na comunidade primitiva, e que proclama essas verdades (há um só Deus, e Cristo – o único mediador entre Deus e os homens – trouxe, pela sua morte, a redenção a todos).
Dando-Se em redenção por todos, Jesus deu testemunho do projecto de salvação que Deus tem e que se destina a todos os homens; e Paulo sente que foi escolhido por Deus para continuar a anunciar aos homens esse testemunho que Jesus deu (vs. 6b-7).
O texto termina com um apelo a que esta oração universal se faça em todo o lugar onde o Evangelho é anunciado, “erguendo para o céu as mãos santas, sem cólera nem disputa” (v. 8) – o que pode fazer referência a uma condição que, na perspectiva de Jesus, era necessária para rezar: estar em paz com todos, estar verdadeiramente reconciliado com os irmãos (“se fores apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai, primeiro, reconciliar-te com o teu irmão; depois volta, para apresentar a tua oferta” – Mt. 5,23-24).
ATUALIZAÇÃO
O autor da primeira carta a Timóteo deixa claro que a oração não pode ser a expressão de uma vida vivida em “circuito fechado”, em que o crente apresenta a Deus, exclusivamente, os seus problemas, as suas questões, os seus desejos, os seus pedidos, e em que, eventualmente, lembra a Deus aqueles que lhe são próximos; mas a oração tem de ser a expressão da comunhão e da solidariedade do crente com todos os irmãos espalhados pelo mundo inteiro – conhecidos e desconhecidos, amigos e inimigos, bons e maus, negros e brancos… Todo o crente, no seu diálogo com Deus, tem de deixar transparecer a ilimitada capacidade de amar e de ser solidário com todos os homens. É assim a nossa oração?
A oração só faz sentido se for a expressão de uma vida de comunhão – comunhão com Deus e comunhão com os irmãos. Portanto, não é impossível rezar e, ao mesmo tempo, cultivar sentimentos de ódio, de intolerância, de racismo, de divisão. Como me situo face a isto?
Também fica claro, neste texto, que a salvação não é monopólio ou privilégio de alguns, mas um dom universal que Deus oferece a todos os homens, sem excepção. Esta universalidade acentua a nossa ligação a todos os homens, a nossa solidariedade com todos. Sinto-me, verdadeiramente, irmão de todos, responsável por todos? As dores e as esperanças de todos os homens – mesmo aqueles que eu nunca vi – são as minhas dores e esperanças?
Evangelho: Lc. 16,1-13 - AMBIENTE
O Evangelho que nos é proposto apresenta-nos mais um passo do “caminho para Jerusalém”. Desta vez, Jesus não se dirige aos fariseus, mas aos discípulos e, através deles, aos crentes de todos os tempos. Com uma história que apresenta contornos de caso real, tirado da vida, Jesus instrui os discípulos acerca da forma como se hão-de situar face aos bens deste mundo.
MENSAGEM
A mensagem essencial aqui apresentada gira, portanto, à volta da sábia utilização dos bens deste mundo: eles devem servir para garantir outros bens, mais duradouros.
Na primeira parte do nosso texto (vs. 1-9) apresenta-se a parábola de um administrador sagaz. A parábola conta-nos a história de um homem que é acusado de administrar de forma incompetente (possivelmente desonesta) os bens do patrão.
Chamado a contas e despedido, este homem tem a preocupação de assegurar o futuro. Chama os devedores do patrão e reduz-lhes consideravelmente as quantias em dívida. Dessa forma – supõe ele – os devedores beneficiados não esquecerão a sua generosidade e, mais tarde, manifestar-lhe-ão a sua gratidão e acolhê-lo-ão em sua casa. Como justificar o proceder deste administrador, que assegura o futuro à custa dos bens do seu senhor? Porque é que o senhor, prejudicado nos seus interesses, não tem uma palavra de reprovação ao inteirar-se do prejuízo recebido? Como pode Jesus dar como exemplo aos discípulos as aldrabices de um tal administrador? Estas dificuldades desaparecem se entendemos esta história tendo em conta as leis e costumes da Palestina nos tempos de Jesus. O administrador de uma propriedade atuava em nome e em lugar do seu senhor; como não recebia remuneração, podia ressarcir-se dos seus gastos a expensas dos devedores.
Habitualmente, ele fornecia um determinado número de bens, mas o devedor ficava a dever muito mais; a diferença era a “comissão” do administrador. Deve ser isso que serve de base à nossa história. Dos cem “baths” de azeite (uns 3.700 litros) consignados no recibo (v. 6), só uns cinqüenta haviam sido, na realidade, emprestados; os outros cinqüenta constituíam o reembolso dos gastos do administrador e a exorbitante “comissão” que lhe devia ser paga pela operação.
Provavelmente, o que este administrador sagaz fez foi renunciar ao lucro que lhe era devido, a fim de assegurar a gratidão dos devedores: renunciou a um lucro imediato, a fim de assegurar o seu futuro. Este administrador (se ele é chamado “desonesto” – v. 8 – não o é por este gesto, mas pelos atos anteriores, que até levaram o patrão a despedi-lo) é um exemplo pela sua habilidade e sagacidade: ele sabe que o dinheiro tem um valor relativo e troca-o por outros valores mais significativos – a amizade, a gratidão. Jesus conclui a história convidando os discípulos a serem tão hábeis como este administrador (v. 9): os discípulos devem usar os bens deste mundo, não como um fim em si mesmo, mas para conseguir algo mais importante e mais duradouro (o que, na lógica de Jesus, tem a ver com os valores do “Reino”).
Na segunda parte do texto (vs. 10-13), Lucas apresenta-nos uma série de “sentenças” de Jesus sobre o uso do dinheiro (originariamente, estas “sentenças” não tinham nada a ver com o contexto desta parábola). No geral, essas “sentenças” avisam os discípulos para o bom uso dos bens materiais: se sabemos utilizá-los tendo em conta as exigências do “Reino”, seremos dignos de receber o verdadeiro bem, quando nos encontrarmos definitivamente com o Senhor ressuscitado.
ATUALIZAÇÃO
O mundo em que vivemos decidiu que o dinheiro é o deus fundamental e que tudo deixa de ter importância, desde que se possam acrescentar mais uns números à conta bancária. Para ganhar mais dinheiro, há quem trabalhe doze ou quinze horas por dia, num ritmo de escravo, e prescinda da família e dos amigos; por dinheiro, há quem sacrifique a sua dignidade e apareça a expor, diante de uma câmara de televisão, a sua intimidade e a sua privacidade; por dinheiro, há quem venda a sua consciência e renuncie a princípios em que acredita; por dinheiro, há quem não tenha escrúpulos em sacrificar a vida dos seus irmãos e venda drogas e armas que matam; por dinheiro, há quem seja injusto, explore os seus operários, se recuse a pagar o salário do mês porque o trabalhador é ilegal e não se pode queixar às autoridades. Que pensamos disto? Ser escravo dos bens é algo que só acontece aos outros? Talvez não cheguemos, nunca, a estes casos extremos; mas até onde seríamos capazes de ir por causa do dinheiro?
Jesus avisa os discípulos de que a aposta obsessiva no “deus dinheiro” não é o caminho mais seguro para construir valores duradouros, geradores de vida plena e de felicidade. É preciso – sugere Ele – que saibamos aquilo em que devemos apostar. O que é, para nós, mais importante: os valores do “Reino” ou o dinheiro? Na nossa atividade profissional, o que é que nos move: o dinheiro, ou o serviço que prestamos e a ajuda que damos aos nossos irmãos? O que é que nos torna mais livres, mais humanos e mais felizes: a escravidão dos bens ou o amor e a partilha?
Todo este discurso não significa que o dinheiro seja uma coisa desprezível e imoral, do qual devamos fugir a todo o custo. O dinheiro (é preciso ter os pés bem assentes na terra) é algo imprescindível para vivermos neste mundo e para termos uma vida com qualidade e dignidade. No entanto, Jesus recomenda que o dinheiro não se torne uma obsessão, uma escravidão, pois Ele não nos assegura (e muitas vezes até perturba) a conquista dos valores duradouros e da vida plena.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho




Os filhos da luz
I. A primeira leitura da missa (1) faz ressoar aos nossos ouvidos as fortes censuras dirigidas pelo profeta Amós aos comerciantes que se enriquecem à custa dos pobres: alteram o peso, vendem mercadorias deterioradas, fazem subir os preços aproveitando momentos de necessidade... São inúmeros os meios injustos de que se servem para fazer prosperar os seus negócios.
No Evangelho da missa (2), o Senhor serve‑se de uma parábola para falar da habilidade de um administrador que é chamado a prestar contas da sua gestão, e que é acusado de malversar os bens do seu senhor. O administrador pôs‑se a refletir sobre o que o esperava: Cavar não posso, de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei de fazer, para que haja quem me receba em sua casa quando for removido da administração. Chamou os devedores do seu amo e fez com eles um acordo que os favorecia. Ao primeiro que se apresentou, disse‑lhe: Quanto deves ao meu senhor? Ele respondeu: Cem medidas de azeite. Então disse‑lhe: Toma a tua obrigação, senta‑te depressa e escreve cinqüenta. Depois disse a outro: E tu quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. Disse‑lhe o feitor: Toma as tuas letras e escreve oitenta.
O dono teve notícia do que o administrador tinha feito e louvou‑o pela sua sagacidade. E Jesus, talvez com um pouco de tristeza, acrescentou: Os filhos deste mundo são mais hábeis nas suas coisas do que os filhos da luz. O Senhor não louva a imoralidade desse intendente que, no pouco tempo que lhe restava, preparou uns amigos que depois o recebessem e ajudassem. “Por que o Senhor narrou esta parábola? – pergunta santo Agostinho –. Não porque aquele servo fosse um exemplo a ser imitado, mas porque foi previdente em relação ao futuro, a fim de que se envergonhe o cristão que não tenha essa determinação”3; louvou‑lhe o empenho, a decisão, a astúcia, a capacidade de sobrepor‑se e resolver uma situação difícil, sem se deixar levar pelo desânimo.
Podemos observar com freqüência como é grande o esforço e os inúmeros sacrifícios que muitas pessoas fazem para conseguir mais dinheiro, para subir na escala social... Noutros casos, ficamos espantados até com os meios que empregam para fazer o mal: imprensa, editoras, televisão, projetos de todo o tipo... E nós, cristãos, devemos pôr ao menos esse mesmo empenho em servir a Deus, multiplicando os meios humanos para fazê‑los render em favor dos mais necessitados: em atividades de ensino, de assistência, de beneficência... O interesse que os outros têm nos seus afazeres terrenos, devemos nós tê‑lo em ganhar o Céu, em lutar contra o que nos separa de Cristo.
“Que empenho põem os homens nos seus assuntos terrenos!: sonhos de honras, ambição de riquezas, preocupações de sensualidade. – Eles e elas, ricos e pobres, velhos e homens feitos e moços e até crianças; todos a mesma coisa.
“– Quando tu e eu pusermos o mesmo empenho nos assuntos da nossa alma, teremos uma fé viva e operante; e não haverá obstáculo que não vençamos nos nossos empreendimentos apostólicos” (4).
II. Os filhos do mundo parecem às vezes mais conseqüentes com a sua forma de pensar. Vivem como se só existisse este mundo e labutam nele sem freio nem medida. O Senhor deseja que ponhamos nas coisas que lhe dizem respeito – a santidade pessoal e o apostolado – ao menos o mesmo empenho que os outros põem nos seus negócios terrenos; quer que nos devotemos aos assuntos da alma e do reinado de Cristo com interesse, com alegria, com entusiasmo, e que encaminhemos todas as coisas para esse fim, que é o único que realmente vale a pena. Nenhum ideal é comparável ao de servir a Cristo, utilizando os dons recebidos como meio para um fim que ultrapassa este mundo passageiro.
Ao terminar a parábola, o Senhor recorda‑nos: Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se afeiçoará àquele e desprezará este. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Temos apenas um Senhor, e devemos servi‑lo com todo o nosso coração, com os talentos que Ele mesmo nos deu, empregando nesse serviço todos os meios lícitos, a vida inteira. Temos de orientar para Deus, sem exceção, todos os atos da nossa vida: o trabalho, os negócios, o descanso... O cristão não tem um tempo para Deus e outro para os assuntos deste mundo: estes devem converter‑se em serviço a Deus pela retidão de intenção. “É uma questão de segundos... Pensa antes de começar qualquer trabalho: – Que quer Deus de mim neste assunto? – E, com a graça divina, faze‑o” (5).
Para ser bom administrador dos talentos que recebeu, dos bens de que deve prestar contas, o cristão deve saber ainda, como manifestação e contraprova do seu amor a Deus, dirigir as suas ações para a promoção do bem comum, encontrando para isso as soluções adequadas, com engenho, com “profissionalismo”, levando adiante ou colaborando em empreendimentos ou obras boas a serviço dos outros, tendo a convicção de que valem mais a pena que o negócio mais atraente. São os leigos “quem deve intervir nas grandes questões que afetam a presença direta da Igreja no mundo tais como a educação, a defesa da vida e do meio ambiente, o pleno exercício da liberdade religiosa, a presença da mensagem cristã nos meios de comunicação social. Nestas questões, devem ser os próprios leigos cristãos, enquanto cidadãos e através dos canais a que têm legítimo acesso no desenvolvimento da vida pública, quem faça ouvir a sua voz e prevalecer os seus justos direitos”6. Assim serviremos a Deus no meio do mundo.
Mobilizando todos os meios ao nosso alcance, temos de trabalhar, “com um entusiasmo e energia renovados, por refazer o que foi destruído por uma cultura materialista e hedonista, e por avivar o que existe apenas debilmente. Não se trata já de revigorar as raízes. Em não poucos casos, em não poucos ambientes, trata‑se de começar desde o princípio, quase a partir do zero. Por isso é possível falar hoje de uma nova evangelização” (7). A tarefa que o Senhor nos confia – através do seu Vigário na terra8 – é imensa. Não deixemos de empenhar nela o nosso tempo, o prestígio profissional, a ajuda material...
“Já o disse o Mestre: oxalá nós, os filhos da luz, ponhamos, em fazer o bem, pelo menos o mesmo empenho e a obstinação com que se dedicam às suas ações os filhos das trevas!
“Não te queixes: trabalha antes para afogar o mal em abundância de bem” (9).
III. Ainda que seja a graça que transforma os corações, o Senhor quer que utilizemos meios humanos na nossa ação apostólica, todos os que estiverem ao nosso alcance. São Tomás de Aquino ensina10 que seria tentar a Deus não fazer aquilo que podemos e esperar tudo dEle. Este princípio também se aplica à atividade apostólica, em que o Senhor espera dos seus discípulos uma cooperação sábia, efetiva e abnegada. Não somos instrumentos inertes. Os filhos da luz devem ser tão hábeis como os filhos deste mundo, e acrescentar aos meios sobrenaturais os talentos humanos, os dons de simpatia e comunicabilidade, a arte da persuasão, a fim de conquistarem uma alma para Cristo.
E nas obras apostólicas de formação, de ensino... serão necessários ainda os meios econômicos, como o próprio Senhor indicou: Quando eu vos mandei sem bolsa, e sem alforje, e sem sandálias, faltou‑vos porventura alguma coisa? Eles disseram: Nada. Disse‑lhes pois: Mas agora quem tem bolsa, tome‑a, e também alforje, e quem não tem espada, venda a sua túnica e compre uma (11). O próprio Jesus, para realizar a sua missão divina, quis servir‑se muitas vezes de meios terrenos: cinco pães e dois peixes, um pouco de barro, os bens de umas piedosas mulheres...
Sabemos muito bem que a missão apostólica a que o Senhor nos chama ultrapassa a capacidade dos meios humanos ao nosso dispor, e por isso nunca deixaremos de lado os sobrenaturais, como se fossem secundários. Não poremos a nossa confiança na sagacidade pessoal, no poder de persuasão da nossa palavra, nos bens que são o suporte material de um empreendimento apostólico, mas na graça divina, que fará milagres com esses meios. Esta confiança no poder divino levar‑nos‑á, entre outras coisas, a não esperar ter à mão todos os meios humanos necessários (talvez nunca cheguemos a tê‑los) para começar a agir, e menos ainda a desistir de continuar certos trabalhos ou de começar outros novos: “Começa‑se como se pode” (12). E pediremos a Jesus o que nos falta e atuaremos com a liberdade e audácia que nos dá a absoluta confiança em Deus.
“Achei graça à tua veemência. Perante a falta de meios materiais de trabalho e sem a ajuda de outros, comentavas: «Eu só tenho dois braços, mas às vezes sinto a impaciência de ser um monstro de cinqüenta, para semear e apanhar a colheita».
“Pede ao Espírito Santo essa eficácia... Ele ta concederá!” (13)
Francisco Fernández-Carvajal