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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 4 de julho de 2017

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM-Ano A

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Ano-A
9 de Julho de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 11,25-30

·         Jesus disse que a revelação das coisas do Reino dos Céus aos pequeninos, é do agrado do Pai.
·     Leia mais.


Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer:
25'Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos
e as revelaste aos pequeninos.
26Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.
27Tudo me foi entregue por meu Pai,
e ninguém conhece o Filho, senão o Pai,
e ninguém conhece o Pai, senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28Vinde a mim todos vós que estais cansados
e fatigados sob o peso dos vossos fardos,
e eu vos darei descanso.
29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração,
e vós encontrareis descanso.
30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Palavra da Salvação.(CNBB).

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O profeta cristão deve ser um pequenino: a eficácia de sua mensagem se confirma na reação de bondade gratuita que ele provoca no coração dos que recebem a mensagem. No evangelho de hoje, contemplamos o modelo deste tipo de profeta: Jesus. Não apenas como mensageiro, mas como detentor de tudo o que o Pai lhe deu nas mãos, ele é humilde e livre de toda forma de violência (militar, política, intelectual, religiosa e cultural). Nele reconhecemos a plena realização da figura de Zc. 9,9-10 (1ª leitura), o Messias humilde, que troca o cavalo militar por um jumentinho.
1ª leitura (Zc. 9,9-10)
A primeira leitura apresenta o rei messiânico é humilde. É tirada da segunda parte do livro de Zacarias (Zc. 9-14), que contém pregações do século IV a.C. Naquele tempo, os judeus já não tinham rei próprio. Os direitos régios, naquele tempo, estavam nas mãos de reis estrangeiros, Alexandre Magno e seu sucessores. Zacarias exprime a “saudade do futuro”, o anseio por um rei não violento e opressor, um rei que fosse justo e não recorresse à violência (é isso que o termo “manso” quer dizer). O profeta imagina este Esperado de Deus, o Messias, como um rei diferente: em vez de entrar na cidade sentado num cavalo guerreiro, está sentado num jumento, animal que simboliza, ao mesmo tempo, a mansidão e a paz, pois, sendo animal de carga, serve para o bem-estar do povo e não para a destruição. Esse rei acabará com os carros e os arcos de guerra e estenderá, como outrora Davi, um império de paz de um mar (o Mediterrâneo) a outro (o golfo de Ácaba). Este rei está na mesma linha que o justo oprimido por seu próprio povo (cf. Zc. 12,10; 13,7-9), assim como, anteriormente, o Servo Padecente de Deus (cf. Is. 42,1-4; 52,13-53,12). Ele é justo e dedicado a Deus, que o ajuda e faz dele o salvador do povo que tinha sido dispersado pelo exílio babilônico e por outras violências.
Evangelho (Mt. 11,25-30)
O evangelho de hoje sugere que Jesus é quem leva à plenitude o “messianismo diferente” presente em Zc. 9 (1ª leitura). Com maior clareza ainda, encontraremos essa realização da profecia de Zacarias em outro cenário do evangelho: a entrada de Jesus em Jerusalém, situada, significativamente, no começo da semana da Paixão (cf. Mt. 21,1-10 e paralelos). Quanto ao evangelho de hoje, sua relação com o texto de Zc. 9 está, sobretudo, no tema da mansidão. Jesus acolhe os humildes e revela a eles – e não aos sábios e entendidos – algo que não vem de instância humana, mas do Pai (cf. Mt. 11,25-27). E, por causa de sua mansidão, seu “jugo” (= sua doutrina e orientação) é leve e suave (cf. Mt. 11,28-30, festa do Sagrado Coração).
O contexto em que a leitura do evangelho de hoje se situa é o seguinte: Jesus acaba de censurar as cidades da Galileia por causa de sua autossuficiência e orgulho (cf. Mt. 11,20-24). Em oposição a esse orgulho, surge a figura do mestre humilde, do revelador de Deus que se dirige aos simples e “pequenos” (apelido aplicado aos discípulos-missionários cristãos). Aqui, o que vale não são os critérios de grandeza humana, mas o puro dom gratuito de Deus: Jesus é o Filho, aquele que conhece o Pai por dentro e pode dispor de tudo o que é do Pai (cf. Mt. 11,25-27, o “júbilo de Jesus”).
Concatenada com essas palavras de júbilo, segue outra sentença (v. 28-30): um convite aos humildes para que acolham o “jugo” do mestre humilde. Jesus é um mestre diferente. Seu jugo, à diferença do de outros rabinos, não pesa nem machuca: é suave, dá paz e descanso às almas. Jesus é o mestre humilde e manso de coração, porém não no estilo “água com açúcar”. Para compreender melhor o que se quer dizer com humildade e mansidão, veja-se o que é o contrário. O contrário da humildade (literalmente, “estado baixo”) são o orgulho e a ostentação, que caracterizam os “grandes” de todos os tempos. E o contrário da mansidão (ou mansuetude) de Jesus é a violência. Ora, se a missão de Jesus e do missionário cristão é abrir as portas dos corações, para que serviria a violência?
A violência não converte ninguém. Da violência não se pode esperar resultado válido e duradouro. Mesmo que, às vezes, a ética nos obrigue a usar de pressão ou força (por exemplo, para proteger a vida de um inocente contra um criminoso), nunca se recorrerá à violência para comunicar uma convicção ou, como o fazia a Inquisição, impor a fé! Antes pelo contrário: na violência que se lhe opõe, o coração violento encontrará uma justificativa para si! Só a “mansidão” (no sentido de firmeza permanente) desmancha os argumentos da violência – lição do grande Mahatma Gandhi e, sobretudo, de Jesus crucificado.
2ª leitura (Rm. 8,9.11-13)
Na segunda leitura, encontramos uma mensagem semelhante: viver conforme o Espírito. Fechado a Deus, o ser humano é “carne”, existência humana limitada, sem perspectiva. Se ele não se abre a Deus, também seu intelecto é “carnal”. Mas quem se abre ao Espírito (que vivificou o Cristo), até seu corpo se torna espiritual, destinado para a vida verdadeira. A oposição “carne-espírito” corresponde à oposição “morte-vida”. Toda a nossa vida – corporal, psicológica, intelectual – deve estar a serviço do Espírito; à “carne” (no sentido paulino de autossuficiência) não devemos nada.
Os critérios da vida nova em Cristo, ou seja, da vida espiritual, são bem diferentes dos da vida antiga, carnal. O Espírito é a força vivificadora e transformadora que nos é dada em Jesus Cristo e da qual sua ressurreição é o sinal (v. 11). Não devemos nada aos critérios estreitamente humanos, fechados no egoísmo. É difícil convencer-nos disso. Estamos sempre prestando contas a critérios humanos, que nos são impostos sem a mínima “razão razoável”: moda, consumo, aparência, ditadura, medo. Parece até que temos medo de não ter algum poder ao qual prestar contas. Temos medo da liberdade do Espírito, da liberdade dos filhos de Deus. Ora, não estamos devendo nada àquilo que, nesses critérios mundanos, se opõe à vontade de Deus. Quantas vezes participamos ativa ou passivamente de atitudes e juízos injustos, de pressões exercidas sobre outras pessoas, de “proveitos” injustos e de egoísmo grupal! A tudo isso, não estamos devendo nada. Nosso compromisso é outro.
padre Johan Konings, sj



O Messias humilde, não violento
No domingo anterior vimos por que o profeta cristão deve ser um pequenino: a eficácia de sua mensagem se confirma na reação de bondade gratuita que ele provoca no coração dos que recebem a mensagem. No evangelho de hoje contemplamos o modelo deste tipo de profeta: Jesus. Não apenas como mensageiro, mas como detentor de tudo o que o Pai lhe deu nas mãos, ele é humilde e livre de toda forma de violência (militar, política, intelectual, religiosa e cultural). Nele reconhecemos a plena realização da figura de Zc. 9,9-10 (1ª leitura) – o Messias humilde, que troca o cavalo militar por um jumentinho, que acaba com os carros e arcos de guerra e estende um império de paz de um mar (o Mediterrâneo) ao outro (o golfo de Ácaba). Num outro texto evangélico encontramos, em forma dramatizada, a realização dessa profecia: a entrada de Jesus em Jerusalém, significativamente no começo da semana da Paixão (Mt. 21,1-10 e par.).
O contexto em que o evangelho se situa é o seguinte: Jesus acaba de censurar as cidades da Galiléia por causa de sua auto-suficiência e orgulho (Mt. 11,20-24). Em oposição a esse orgulho, surge a figura do Messias humilde, do revelador de Deus que se dirige aos simples e “pequenos” (apelido dos profetas cristãos: cf. dom. passado). Aqui não valem os critérios de grandeza humana; vale o puro dom gratuito de Deus (11,27). Jesus é o Filho, aquele que conhece o Pai por dentro e pode dispor de tudo o que é dele. É esta a primeira parte do texto, o “júbilo” de Jesus (Mt. 11,25-27).
Encadeada nessas palavras, esta parte segue agora outra sentença, um convite aos humildes para aceitar seu “jugo”. A doutrina de um mestre ou rabino era chamada “jugo”. Jesus é um mestre diferente. Seu jugo é suave, dá paz e descanso às almas. Jesus é o mestre humilde e manso de coração, mas não no estilo água-com-açúcar. Olhemos só o que é o contrário destes termos. O contrário da “humildade” (literalmente, “baixeza”)(*) são o orgulho e a ostentação, que caracterizam os “grandes” de todos os tempos. E o contrário da “mansidão” ou mansuetude do Senhor é a violência, o uso da força. Ora, se a missão de Jesus e do missionário cristão é abrir as comportas do coração, para que serviria a violência? A violência não converte; resultado último não se deve esperar da violência. Por isso, mesmo se o cristão for forçado a usar de violência para proteger seu irmão, nunca a utilizará para transmitir sua mensagem. O coração violento encontra na violência que se lhe opõe uma justificativa! Só a “mansidão” (no sentido de firmeza permanente) desmancha os argumentos da violência (cf. Gandhi).
Na 2ª leitura temos uma mensagem semelhante. Os critérios da vida nova em Cristo são bem diferentes dos da vida antiga. É a oposição entre a “carne” (a humanidade auto-suficiente, fechada em si mesma) e o Espírito (a força vivificadora e transformadora que nos é dada em Jesus Crista e da qual sua ressurreição é o sinal) (Rm. 8,11). Aos critérios humanos não ficamos devendo nada, pois estes são os da força e do “salve-se quem puder!” É difícil convencer-se disso. Estamos sempre prestando contas a critérios humanos, que nos são impostos sem a mínima razão: moda, consumo, aparência, ditadura, medo. Parece até que a gente tem medo de não ter algum poder ao qual prestar contas. Temos medo da liberdade do Espírito, da liberdade dos filhos de Deus. Ora, não estamos devendo nada àquilo que, nesses critérios mundanos, se opõe á vontade de Deus. Quantas vezes participamos ativa ou passivamente de atitudes e juízos injustos, de pressão sobre outras pessoas, de “proveitos” injustos e de egoísmo grupal! A tudo isso não estamos devendo nada. Nosso beneficio vem de outras fontes.
Enquanto a oração do dia sintoniza melhor com a mensagem de Paulo, o canto da comunhão (opção II) é um eco puro da leitura do evangelho. Para sublinhar o paradoxo do Messias que, por sua humilhação, levanta consigo toda a humanidade, sugerimos o prefácio comum I.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"



O texto do Evangelho de hoje expressa a profunda intimidade entre Jesus e o Pai. O fato de Jesus chamar a Deus de Pai (Aba) reflete a confiança e aproximação que tinha com Ele. O Pai conhece o Filho em profundidade e esta revelação é feita em dois momentos significativos na vida de Jesus: no Batismo e na Transfiguração quando se ouve do céu a voz divina que revela a condição de filho único e amado.
Jesus louva o Pai por ter revelado o seu projeto aos mais simples, aos pobres e o esconde dos sábios, dos poderosos e inteligentes que, apesar de todo o conhecimento que julgam possuir são incapazes de perceber a presença do Reino e sua justiça na pessoa de Jesus.
Ele manifesta a sua alegria porque os simples desfavorecidos é que conseguem entender o verdadeiro sentido da sua ação, reconhecem-no como o libertador, que os livrará de suas dores e de seu sofrimento.
Com Jesus os mais simples aprendem que Deus, na sua infinita bondade, está do lado deles e, dessa forma, se abrem à compreensão do Evangelho: permitem se evangelizar e partirão para a evangelização.
Mateus exorta os cristãos de sua época a acolherem Jesus com simplicidade e a viverem unidos a Ele, tendo-o como mestre e modelo.
Hoje nós é que somos os discípulos de Jesus. Ele nos enviou seu Espírito Santo para que nós também o ajudássemos em Sua missão. A missão Dele se tornou a nossa missão.
E para que estejamos alimentados e fortalecidos para espalhar Sua mensagem, darmos exemplo com nossa vida, precisamos nos aproximar da Igreja, e principalmente de Jesus. Orando, agradecendo a Ele nossa vida, conversando com Ele como conversamos com um grande amigo. Assim estaremos prontos para ajudá-lo em Sua grande tarefa de espalhar o amor ao próximo.
Nas palavras de Jesus, o Pai aparece  como Senhor absoluto de tudo (céu e terra).Os marginalizados e os pequeninos aceitam Jesus, e abraçam o projeto divino, encontrando a vida. A única autoridade verdadeira é a de Jesus, e ele a exerce como serviço em favor dos pequeninos. O Pai se revela na ação do Filho e este, por sua ação, dá a conhecer o Pai. Jesus revela o Pai a partir dos acontecimentos, a partir de suas ações libertadoras. Jesus é capaz de fazer de nosso fardo, um fardo leve, pois Ele traz o novo modo de viver: a verdadeira justiça de Deus, que se revela no amor e na misericórdia.
Jesus age em primeiro lugar abrindo as portas da misericórdia, revela a justiça de Deus aos pobres e pequeninos, para depois convidá-lo a viver na justiça e na misericórdia que procedem dele e do Pai.
Pequeninos do Senhor




Mansidão e humildade
Ao se apresentar como modelo para os seus discípulos: “Aprendam de mim!”, Jesus frisou duas posturas pelas quais pautava a sua vida: a mansidão e a humildade. Elas são o reflexo das bem-aventuranças, as quais sempre buscou praticar.
A mansidão de Jesus expressou-se no trato paciente com os pobres e pequeninos, na acolhida dispensada aos marginalizados, na atitude benévola em relação aos pecadores, na valorização de quem era desprezado, no respeito pelos estrangeiros. Nada, em seu comportamento, denotava arrogância, superioridade. Aliás, seus adversários, chocados com seu modo fraterno e próximo de estar com as pessoas, taxavam-no de “comilão, beberrão, amigos dos pecadores e das pessoas de má fama”.
A opção de Jesus pela mansidão não o impedia de ser severo, quando se fazia necessário. Seus adversários, sempre cheios de malícia e de segundas intenções, experimentaram a dureza de suas palavras e a intransigência de suas posturas.
A humildade de Jesus manifestou-se especialmente em sua relação com o Pai. Jamais teve a pretensão de ocupar uma posição que não lhe pertencia. Antes, tinha consciência de ser o enviado do Pai, e de estar a serviço dele. Tudo quanto fazia tinha o objetivo de reconciliar as pessoas com o Pai, cuja vontade era o imperativo de sua ação. Por isso, ao concluir seu ministério, Jesus pode afirmar: “Tudo está consumado!”, isto é, fiz tudo o que o Pai me incumbiu de fazer. A humildade levou-o à cruz!



Manso e humilde de coração
Mansidão e humildade foram duas virtudes postas em prática por Jesus, ao longo de seu ministério. Virtudes importantes para quem pretende ser Mestre, sem opressão nem arrogância em relação aos seus discípulos. Virtudes que o distinguiam de outros mestres que transformavam a religião num amontoado de prescrições rígidas e minuciosas, de difícil cumprimento. Virtudes necessárias para quem se reconhece enviado, com a missão de fazer a salvação acontecer na vida do povo, sem a intenção de se colocar no lugar do Pai.
Por ser manso e humilde, o relacionamento de Jesus com os fracos e pequeninos caracterizou-se pela paciência e pela benevolência, pelo respeito ao ritmo e ao momento de cada um. Ele sabia descer até as pessoas para solidarizar-se com suas dores e sofrimentos. Com os marginalizados, recusava-se a agir de maneira preconceituosa e arbitrária, por reconhecer-lhes a dignidade de seres humanos. Com os doentes e atribulados pelos maus espíritos, fazia-se próximo, infundindo neles a esperança de cura.
Todavia, o Jesus manso e humilde soube ser severo com os prepotentes e injustos, evidenciando sua opção pelo Reino. Embora certas atitudes e palavras do Mestre possam parecer chocantes, na verdade, são expressão de sua humildade e mansidão, por se tratarem de um recurso extremo para chamar as pessoas à conversão.
padre Jaldemir Vitório



É Jesus quem revela o Pai
O profeta Zacarias viveu no século VI a.C., depois do retorno a Judá dos exilados na Babilônia. O livro que leva o nome do profeta Zacarias tem, ao todo, quatorze capítulos. No entanto, o livro não pertence a um mesmo autor. Duas ou mais mãos o escreveram. É geralmente aceito que os oito primeiros capítulos pertencem ao profeta e o restante a outro ou vários outros autores. Os dois versículos de nosso texto falam da volta vitoriosa e triunfante do rei à sua cidade, Jerusalém. Não se trata de um monarca da descendência davídica. O rei de que se fala nesses versículos é o próprio Deus que combate em favor do seu povo, destruindo todos os instrumentos de guerra e violência para selar a paz entre todas as nações.
Teria sido, em certo sentido, surpreendente para Jesus experimentar que aqueles que se diziam sábios, conhecedores e intérpretes da Palavra de Deus fossem os que lhe fizessem oposição, engajando-se em fazê-lo perecer. O contexto da perícope de hoje é a crítica de Jesus às cidades vizinhas ao Mar da Galileia que, beneficiadas pelo ensinamento e pelos atos de poder de Jesus, não se converteram, não se abriram ao sopro de sua palavra nem aderiram à sua pessoa. O hino de louvor de Jesus dirigido ao Pai é uma clara oposição a essas cidades que não se converteram. O que é escondido aos que se pretendem sábios e entendidos e o que é revelado aos “pobres de espírito”? O que está dito no v. 27 pode ser compreendido nesses termos: é Jesus quem revela o Pai. Somente quem se abre para reconhecer e aceitar Jesus como enviado do Pai é que pode conhecer a relação filial que une profundamente Jesus e Deus (cf. Jo 14,10-11; Cl. 1,15). Jesus é não somente o Sábio, mas a “Sabedoria de Deus” que atrai todos a si e os instrui na Lei que o Senhor deu ao povo para preservar o dom da vida e da liberdade. O evangelho de hoje termina com um convite de Jesus àqueles que ainda estão fora do grupo dos seus discípulos. O “jugo” (ou fardo) era uma peça de madeira colocada sobre o pescoço do animal para equilibrar o peso que ele carregava. Na tradição bíblica, entre outros significados, ele se refere à Lei (Jr. 2,20; 5,5). Jesus critica os escribas e fariseus por amarrarem pesados fardos sobre os ombros dos outros (Mt. 23,4). Há um modo de interpretar a Lei e de pô-la em prática que tira a alegria e a vida, como se fosse um enorme peso a carregar. Ora, a Lei de Deus é para a vida e a liberdade, ela é um caminho para a vida e a felicidade (cf. Dt. 30,16). Jesus, manso e humilde, se oferece para aliviar tal peso. A lei do Senhor é a lei do amor (Jo 15,12). No amor não há temor nem amargura.
Carlos Alberto Contieri,sj



Neste XIV domingo comum, a Palavra de Deus apresenta-nos um Rei. Ei-Lo, como a primeira leitura no-Lo descreve: Ele é o Rei de Israel, que vem ao encontro do Seu Povo; é um novo Salomão, um novo Davi: vem montado num jumentinho, como o pacífico Salomão no dia da sua entronização: “O Rei Davi ordenou: ‘Fazei montar na minha mula o meu filho Salomão!” E o povo aclamou: “Como o Senhor esteve com o Senhor meu Rei, que Ele esteja com Salomão e que Ele exalte o seu trono mais do que o trono de Davi!” (1Rs. 1,33.37) Esse bendito Rei, esse Novo Salomão, maior que Davi, que vem ao encontro do Seu Povo, é justo, isto é, santo, é humilde, eliminará os carros de guerra porque é pacífico, anunciará a paz às nações e estenderá o Seu domínio até os confins da terra!
Quem é este Rei tão humilde e tão grande, tão pacífico e tão dominador? Certamente, caros irmãos, o Profeta Zacarias estava falando de um Rei que viria, está referindo-se ao Messias, o Ungido do Senhor, esperado, desejado de Israel! Então, prestai bem atenção: esse Rei é o nosso Jesus, novo Davi, verdadeiro Salomão, homem do Shalom, Príncipe da Paz! É Ele, Rei pacífico, o que no Evangelho de hoje declara solenemente: “Tudo Me foi entregue por Meu Pai!” Sim, Ele é o Senhor, igual ao Pai, Deus como o Pai, que com o Pai tem uma relação de reciprocidade, de igualdade: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai e ninguém conhece o Pai, senão o Filho!” É Ele, o nosso Jesus, potente até poder nos arrancar da morte e dá-nos Vida plena neste mundo e por toda a Eternidade!
Tão grande, tão santo, tão Deus e, no entanto, Ele nos convida: “Vinde a Mim! Aprendei de Mim! Eu sou manso e humilde de coração! Vós encontrareis descanso, pois o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve!”
Jesus é sim o Messias-Senhor, Jesus é sim o Deus vivo e verdadeiro que por nós Se fez homem, Jesus é sim o Rei que vem visitar o Seu povo, Seu novo Povo, que é a Igreja! Mas, atenção: Sua vinda é para salvar: Ele Se fez um de nós, um conosco: vem manso e humilde de coração, compreensivo de nossas misérias, pronto para nos acolher no aconchego do Seu Coração e nos redimir e nos restaurar para que, Nele, sejamos novas criaturas!
Mas, atenção! Aqui não se trata de umas ideias melosas, sentimentais! Não! Quando o Senhor nos convida a encontrar descanso Nele, está nos chamando à conversão à Sua Pessoa, a confiar Nele e a Ele entregar a nossa vida. Por isso mesmo, afirma: “Escondeste, Pai, estas coisas aos sábios e entendidos”, isto é, aos autossuficientes, ao que pensam que se bastam e podem fazer do seu jeito, vivendo a vida como se Deus não existisse, como se de Deus não precisassem, os que são mundanos no seu modo de viver, mundanos no seu velho orgulho, mundanos na teimosia de querer viver e fazer do seu próprio modo! Os verdadeiros “pequeninos” que aceitam Jesus e correm para repousar no Seu Coração são aqueles que, apesar da humana fraqueza e das feridas da vida, desejam romper com a situação de pecado, vivendo a vida nova de filhos de Deus no Filho Jesus! Desses, São Paulo afirma na Segunda Leitura: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito”, pois tendes o Espírito Santo de Jesus! E vede, Irmãos meus, a sentença clara do Apóstolo: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo – isto é, não vive segundo o Santo Espírito de Cristo, deixando-se por Ele guiar – não pertence a Cristo!”
Portanto, nada de sentimentalismo meloso e condescendente com o pecado, nada de uma misericórdia desfibrada, descomprometida com a conversão: “Temos uma dívida não para com a carne – isto é, o pecado, o espírito do mundo, o viver segundo a nossa lógica -, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” a Vida nova no regaço do Coração do Rei manso e humilde!
Vamos a Jesus que veio a nós como Rei pacífico! Que seja Ele o nosso Mestre, que seja o Seu Evangelho a nossa luz, que seja o Seu caminho a nossa verdade! Não podemos tranquilamente nos dizer cristãos vivendo segundo uma mentalidade mundana ou mesmo vivendo segundo a nossa lógica! Ser discípulo do Senhor, ir até Ele, que nos convida “Vinde a Mim!”, exige – exigirá sempre! – o trabalhoso e constante processo de conversão! Seria um triste engano, seria uma mentira pensar que alguém pode ser cristão desrespeitando os preceitos do Senhor, vivendo de modo contrário à norma recebida Daquele que é manso e humilde de Coração. Duvidais disto? Então ouvi: “Se Me amais, observareis Meus mandamentos! Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai o amará e a ele viremos e Nele estabeleceremos morada!” (Jo 14,15.23) Que fique claro: não é qualquer amor que é cristão, não é uma conversa mole de um amor qualquer que nos faz discípulos de Cristo! Amor verdadeiramente cristão, que nos une ao Senhor e aos irmãos, é aquele que brota do amor ao Cristo Jesus e do compromisso com Seus preceitos num constante caminho de conversão de toda a vida! Isto é viver segundo o Espírito, isto é estar aberto para o Senhor, isto é correr a corrida da vida para repousar no Seu Coração!
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia deste domingo ensina-nos onde encontrar Deus. Garante-nos que Deus não Se revela na arrogância, no orgulho, na prepotência, mas sim na simplicidade, na humildade, na pobreza, na pequenez.
A primeira leitura apresenta-nos um enviado de Deus que vem ao encontro dos homens na pobreza, na humildade, na simplicidade; e é dessa forma que elimina os instrumentos de guerra e de morte e instaura a paz definitiva.
No Evangelho, Jesus louva o Pai porque a proposta de salvação que Deus faz aos homens (e que foi rejeitada pelos “sábios e inteligentes”) encontrou acolhimento no coração dos “pequeninos”. Os “grandes”, instalados no seu orgulho e auto-suficiência, não têm tempo nem disponibilidade para os desafios de Deus; mas os “pequenos”, na sua pobreza e simplicidade, estão sempre disponíveis para acolher a novidade libertadora de Deus.
Na segunda leitura, Paulo convida os crentes – comprometidos com Jesus desde o dia do Batismo – a viverem “segundo o Espírito” e não “segundo a carne”. A vida “segundo a carne” é a vida daqueles que se instalam no egoísmo, orgulho e auto-suficiência; a vida “segundo o Espírito” é a vida daqueles que aceitam acolher as propostas de Deus.
1ª leitura: Zc. 9,9-10 - AMBIENTE
O livro de Zacarias é um livro profético com catorze capítulos. Atualmente, os estudiosos da Bíblia são unânimes em reconhecer que entre os oito primeiros capítulos e os restantes há uma diferença tão grande em contextos, estilo, vocabulário e temática, que devemos falar de dois livros em um e de dois autores diversos. Dado que não conhecemos o nome do autor do segundo livro (capítulos 9-14), convencionou-se chamar-lhe o “Deutero-Zacarias”. É ao “Deutero-Zacarias” que pertence este texto que hoje nos é proposto.
Em que época foram escritos esses textos atribuídos ao Deutero-Zacarias? As opiniões são divergentes; no entanto, a maioria dos comentadores coloca estes oráculos no final do séc. IV ou princípios do séc. III a.C.. O ambiente é claramente pós-exílico. O contexto parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedônia, quando o Povo de Deus estava integrado no império helênico.
O livro do “segundo Zacarias” está marcado por um forte acento messiânico. Refere-se, com frequência, à figura do Messias, apresentado como rei, como pastor e como servo do Senhor. Na primeira parte (cf. Zc. 9,1-11,7), o profeta anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo, na figura do Messias; na segunda parte (cf. Zc. 12,1-14,21), os oráculos descrevem a salvação e a glória futura de Jerusalém.
MENSAGEM
O Deutero-Zacarias descreve, neste oráculo, o regresso do rei vitorioso a Jerusalém. A cidade é convidada a alegrar-se e regozijar-se pois o seu rei, “justo e salvador”, chegou.
A entrada triunfal desse rei justo e vitorioso é, no entanto, humilde e pacífica: ele não cavalgará um cavalo de guerra (símbolo do militarismo), mas um “jumentinho, filho de uma jumenta”. A atitude deste “rei” contrasta claramente com as exibições de força, de poder, de agressividade dos grandes do mundo…
No entanto, paradoxalmente, este “rei” humilde e pacífico terá a força para destruir a guerra (ele aniquilará os instrumentos de morte – os carros de combate, os cavalos de guerra, os arcos de guerra) e para proclamar a paz universal. O seu “reino” irá “de um mar ao outro mar” e do “rio” (Eufrates) “até aos confins da terra” (isto é, abarcará a totalidade do mundo antigo).
ATUALIZAÇÃO
• Em primeiro lugar, o Deutero-Zacarias deixa clara a preocupação de Deus com a salvação do seu Povo. Na fase em que o profeta leva a cabo a sua missão, o Povo de Deus conhece uma relativa tranquilidade; mas é um Povo subjugado, manipulado, impedido de escolher livremente o seu destino e de construir o seu futuro. É nesse contexto que o profeta anuncia a chegada de um rei “justo e salvador”, que vem ao encontro do Povo para libertá-lo e para lhe oferecer a paz (“shalom” – no sentido de harmonia, bem estar, felicidade plena). Ora, Deus não perdeu qualidades, nem mudou a sua essência. O Deus que assim atuou ontem é o Deus que assim atua hoje e que assim atuará sempre. Ao longo da nossa caminhada de todos os dias, fazemos frequentemente a experiência do desencanto, da frustração, da privação de liberdade. Sentimo-nos, tantas vezes, perdidos, sem esperança, incapazes de tomar nas mãos o nosso futuro e de dar um sentido à nossa vida… Nessas circunstâncias, somos convidados a redescobrir esse Deus que vem ao nosso encontro, que restaura a nossa esperança e nos oferece a paz.
Uma certa visão “americanizada” do mundo e da vida defende a necessidade de armar exércitos formidáveis, de gastar uma considerável fatia do orçamento das nações em instrumentos de morte cada vez mais sofisticados, para impor, pela força e pelo medo, a paz e a segurança do mundo. O Deutero-Zacarias diz-nos que a lógica de Deus é outra: Ele chega desarmado, pacífico, humilde, sem arrogância e é, dessa forma, que Ele salva e liberta os homens. Para mim, qual faz mais sentido: a lógica desarmada de Deus ou a lógica musculada dos senhores do mundo?
A história da salvação mostrou, muitas vezes, que é através dos pequenos, dos humildes, dos pobres, dos insignificantes que Deus atua no mundo e o transforma. Deus está mais na viúva que lança no tesouro do Templo umas pobres moedas do que no capitalista que preenche um cheque chorado para pagar os vitrais da nova igreja da paróquia; Deus está mais no gesto simples do pacifista que oferece uma flor a um soldado do que na violência daqueles que lutam de armas na mão contra os “maus”; Deus está mais no olhar límpido de uma criança do que na palavra poderosa de um pregador inflamado que “sabe tudo” sobre Deus… Já aprendi a descobrir esse Deus que se manifesta na humildade, na pobreza, na simplicidade?
2ª leitura: Romanos 8,9.11-13 - AMBIENTE
Continuamos a ler a carta aos Romanos. Ela apresenta-nos um Paulo amadurecido que, depois de vários anos de incansável trabalho missionário, expõe, de forma serena, a sua reflexão sobre a salvação (numa altura em que a questão da salvação era uma questão teológica “quente”: os judeo-cristãos acreditavam que, para chegar à salvação, era preciso continuar a cumprir a Lei de Moisés; e os judeo-pagãos não manifestavam nenhuma vontade de se submeter aos ritos da Lei judaica).
Na perspectiva de Paulo, a salvação é um dom não merecido (porque todos vivem mergulhados no pecado – cf. Rm. 1,18-3,20), que Deus oferece por pura bondade aos homens, a todos os homens (cf. Rm. 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rm. 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito (cf. Rm. 8,1-39).
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos (o projeto salvador de Deus em favor dos homens; a ação libertadora de Cristo, através da sua vida de doação, da sua morte e da sua ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus) se cruzam aqui.
O Espírito aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projeto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual Paulo não se cansa de dar testemunho.
MENSAGEM
Jesus, o Deus/Homem, gastou a vida a cumprir o projeto do Pai de dar vida ao homem. A sua ação acabou por chocar com os interesses dos senhores do mundo, e Ele foi morto na cruz.
No entanto, essa morte na cruz não foi o “fim da linha”: o Espírito de Deus, sempre presente em Jesus, ressuscitou-O (pois, no projeto de Deus, o oferecer a vida para concretizar o plano do Pai não pode gerar morte, mas vida plena e definitiva).
Ora, Jesus ofereceu aos seus discípulos o mesmo Espírito. Os discípulos têm de estar conscientes de que, se viverem como Jesus e se fizerem da vida um dom a Deus e aos irmãos, receberão essa mesma vida nova e definitiva que o Espírito deu a Jesus.
Sobretudo, Paulo convida os cristãos a tirarem as conclusões práticas desta realidade: se viverem “segundo a carne”, morrerão (isto é, não encontrarão a vida definitiva); mas se viverem segundo o Espírito, ressuscitarão para a vida nova.
Temos aqui uma das mais interessantes e sugestivas antíteses paulinas: a “carne” e o “Espírito”. Viver “segundo a carne” é, na perspectiva de Paulo, viver em oposição a Deus – ou seja, viver fechado a Deus, numa vida de egoísmo, de autismo, de auto-suficiência que leva o homem a prescindir dos mandamentos, das propostas e dos valores de Deus; “viver segundo o Espírito” é, na perspectiva de Paulo, viver em relação com Deus, escutando as suas propostas e sugestões, na obediência aos projetos de Deus e na doação da própria vida aos homens.
Os cristãos são, portanto, veementemente exortados por Paulo a fazerem a sua escolha. Sobretudo, Paulo está interessado em demonstrar aos crentes que só o seguimento de Cristo garante ao homem a vida definitiva.
ATUALIZAÇÃO
• À luz dos critérios que hoje presidem à construção do mundo, a vida de Jesus foi um rotundo fracasso. Ele nunca desempenhou qualquer cargo público nem teve jamais conta num banco qualquer; mas viveu na simplicidade, na humildade, no serviço, sem ter para si próprio uma pedra onde reclinar a cabeça. Ele nunca foi apoiado pelas “cabeças pensantes” da sua terra; apenas foi escutado pela gente humilde, marginalizada, condenada a uma situação de escravidão, de pobreza, de debilidade. Ele nunca se proclamou chefe de um movimento popular; apenas ensinou, àqueles que O seguiam, que Deus os ama e que quer fazer deles seus filhos. Ele nunca se sentou num trono, a dar ordens e a distribuir benesses; mas foi abandonado por todos, condenado a uma morte infame e pregado numa cruz. No entanto, Ele venceu a morte e recebeu de Deus a vida plena e definitiva. Paulo diz aos crentes a quem escreve: não vos preocupeis com aqueles valores a que o mundo chama êxito, realização, felicidade; mas tende a coragem de gastar a vida do mesmo jeito de Jesus, a fim de encontrardes a vossa realização plena, a vida definitiva.
• Paulo ensina que a vida “segundo a carne” gera morte; e que a vida “segundo o Espírito” gera vida. O que é viver “segundo a carne”? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida “segundo a carne”? O que é viver “segundo o Espírito”? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida “segundo o Espírito”?
• O cristão tem de viver “segundo o Espírito”. É desse jeito que eu vivo? Estou aberto à ação renovadora e libertadora do Espírito que recebi no dia do meu Batismo?
Evangelho - Mateus 11,25-30 - AMBIENTE
Após o “discurso da missão” e o envio dos discípulos ao mundo para continuarem a obra libertadora de Jesus (cf. Mt. 9,36-11,1), Mateus coloca no seu esquema de Evangelho uma secção sobre as reações e as atitudes que as várias pessoas e grupos tomam frente a Jesus e à sua proposta de “Reino” (cf. Mt. 11,2-12,50). O nosso texto integra esta secção.
Nos versículos anteriores ao texto que nos é hoje proposto (cf. Mt 11,20-24), Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), porque foram testemunhas da sua proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes. Estavam demasiado cheios de si próprios, instalados nas suas certezas, calcificados nos seus preconceitos e não aceitavam questionar-se, a fim de abrir o coração à novidade de Deus.
Agora, Jesus manifesta-Se convicto de que essa proposta rejeitada pelos habitantes das cidades do lago encontrará acolhimento entre os pobres e marginalizados, desiludidos com a religião “oficial” e que anseiam pela libertação que Deus tem para lhes oferecer.
O nosso texto consta de três “sentenças” que, provavelmente, foram pronunciadas em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta. Dois desses “ditos” (cf. Mt. 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc. 10,21-22) e devem provir de um documento que reuniu os “ditos” de Jesus e que tanto Mateus como Lucas utilizaram na composição dos seus evangelhos. O terceiro (cf. Mt. 11,28-30) é exclusivo de Mateus e deve provir de uma fonte própria.
MENSAGEM
A primeira sentença (cf. Mt. 11,25-26) é uma oração de louvor que Jesus dirige ao Pai, porque Ele escondeu “estas coisas” aos “sábios e inteligentes” e as revelou aos “pequeninos”.
Os “sábios e inteligentes” são certamente esses “fariseus” e “doutores da Lei”, que absolutizavam a Lei, que se consideravam justos e dignos de salvação porque cumpriam escrupulosamente a Lei, que não estavam dispostos a deixar pôr em causa esse sistema religioso em que se tinham instalado e que – na sua perspectiva – lhes garantia automaticamente a salvação. Os “pequeninos” são os discípulos, os primeiros a responder positivamente à oferta do “Reino”; e são também esses pobres e marginalizados (os doentes, os publicanos, as mulheres de má vida, o “povo da terra”) que Jesus encontrava todos os dias pelos caminhos da Galileia, considerados malditos pela Lei, mas que acolhiam, com alegria e entusiasmo, a proposta libertadora de Jesus.
A segunda sentença (cf. Mt. 11,27) relaciona-se com a anterior e explica o que é que foi escondido aos “sábios e inteligentes” e revelado aos “pequeninos”. Trata-se, nem mais nem menos, do “conhecimento” (quer dizer, uma “experiência profunda e íntima”) de Deus.
Os “sábios e inteligentes” (fariseus e doutores da Lei) estavam convencidos de que o conhecimento da Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era uma espécie de “linha direta” para Deus, através da qual eles ficavam a conhecer Deus, a sua vontade, os seus projetos para o mundo e para os homens; por isso, apresentavam-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.
Jesus deixa claro que quem quiser fazer uma experiência profunda e íntima de Deus tem de aceitar Jesus e segui-l’O. Ele é “o Filho” e só Ele tem uma experiência profunda de intimidade e de comunhão com o Pai. Quem rejeitar Jesus não poderá “conhecer” Deus: quando muito, encontrará imagens distorcidas de Deus e aplicá-las-á depois para julgar o mundo e os homens. Mas quem aceitar Jesus e O seguir, aprenderá a viver em comunhão com Deus, na obediência total aos seus projetos e na aceitação incondicional dos seus planos.
A terceira sentença (cf. Mt. 11,28-30) é um convite a ir ao encontro de Jesus e a aceitar a sua proposta: “vinde a Mim”; “tomai sobre vós o meu jugo…”.
Entre os fariseus do tempo de Jesus, a imagem do “jugo” era aplicada à Lei de Deus (cf. Si. 6,24-30; 51,26-27) – a suprema norma de vida. Para os fariseus, por exemplo, a Lei não era um “jugo” pesado, mas um “jugo” glorioso, que devia ser carregado com alegria.
Na realidade, tratava-se de um “jugo” pesadíssimo. A impossibilidade de cumprir, no dia a dia, os 613 mandamentos da Lei escrita e oral, criava consciências pesadas e atormentadas. Os crentes, incapazes de estar em regra com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da salvação. A Lei aprisionava em lugar de libertar e afastava os homens de Deus em lugar de conduzi-los para a comunhão com Deus.
Jesus veio libertar o homem da escravidão da Lei. A sua proposta de libertação plena dirige-se aos doentes (na perspectiva da teologia oficial, vítimas de um castigo de Deus), aos pecadores (os publicanos, as mulheres de má vida, todos aqueles que tinham publicamente comportamentos política, social ou religiosamente incorretos), ao povo simples do país (que, pela dureza da vida que levava, não podia cumprir escrupulosamente todos os ritos da Lei), a todos aqueles que a Lei exclui e amaldiçoa. Jesus garante-lhes que Deus não os exclui nem amaldiçoa e convida-os a integrar o mundo novo do “Reino”. É nessa nova dinâmica proposta por Jesus que eles encontrarão a alegria e a felicidade que a Lei recusa dar-lhes.
A proposta do “Reino” será uma proposta reservada a uma classe determinada (os pobres, os débeis, os marginalizados) em detrimento de outra (os ricos, os poderosos, os da “situação”)? Não. A proposta do “Reino” destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção… No entanto, são os pobres e débeis aqueles que já desesperaram do socorro humano, que têm o coração mais disponível para acolher a proposta de Jesus. Os outros (os ricos, os poderosos) estão demasiado cheios de si próprios, dos seus interesses, dos seus esquemas organizados, para aceitar arriscar na novidade de Deus.
Acolhendo a proposta de Jesus e seguindo-O, os pobres e oprimidos encontrarão o Pai, tornar-se-ão “filhos de Deus” e descobrirão a vida plena, a salvação definitiva, a felicidade total.
ATUALIZAÇÃO
• Na verdade, os critérios de Deus são bem estranhos, vistos de cá de baixo, com as lentes do mundo… Nós, homens, admiramos e incensamos os sábios, os inteligentes, os intelectuais, os ricos, os poderosos, os bonitos e queremos que sejam eles (“os melhores”) a dirigir o mundo, a fazer as leis que nos governam, a ditar a moda ou as ideias, a definir o que é correto ou não é correto. Mas Deus diz que as coisas essenciais são muito mais depressa percebidas pelo “pequeninos”: são eles que estão sempre disponíveis para acolher Deus e os seus valores e para arriscar nos desafios do “Reino”. Quantas vezes os pobres, os pequenos, os humildes são ridicularizados, tratados como incapazes, pelos nossos “iluminados” fazedores de opinião, que tudo sabem e que procuram impor ao mundo e aos outros as suas visões pessoais e os seus pseudo-valores… A Palavra de Deus ensina: a sabedoria e a inteligência não garantem a posse da verdade; o que garante a posse da verdade é ter um coração aberto a Deus e às suas propostas (e com frequência, com muita frequência, são os pobres, os humildes, os pequenos que “sintonizam” com Deus e que acolhem essa verdade que Ele quer oferecer aos homens para os levar à vida em plenitude).
• Como é que chegamos a Deus? Como percebemos o seu “rosto”? Como fazemos uma experiência íntima e profunda de Deus? É através da filosofia? É através de um discurso racional coerente? É passando todo o tempo disponível na igreja a mudar as toalhas dos altares? O Evangelho responde: “conhecemos” Deus através de Jesus. Jesus é “o Filho” que “conhece” o Pai; só quem segue Jesus e procura viver como Ele (no cumprimento total dos planos de Deus) pode chegar à comunhão com o Pai. Há crentes que, por terem feito catequese, por irem à missa ao domingo e por fazerem parte do conselho pastoral da paróquia, acham que conhecem Deus (isto é, que têm com Ele uma relação estreita de intimidade e comunhão)… Atenção: só “conhece” Deus quem é simples e humilde e está disposto a seguir Jesus no caminho da entrega a Deus e da doação da vida aos homens. É no seguimento de Jesus – e só aí – que nos tornamos “filhos” de Deus.
• Como nos situamos face a Deus e à proposta que Ele nos apresenta em Jesus? Ficamos fechados no nosso comodismo e instalação, no nosso orgulho e auto-suficiência, sem vontade de arriscar e de pôr em causa as nossas seguranças, ou estamos abertos e atentos à novidade de Deus, a fim de perceber as suas propostas e seguir os seus caminhos?
• Cristo quis oferecer aos pobres, aos marginalizados, aos pequenos, a todos aqueles que a Lei escravizava e oprimia, a libertação e a esperança. Os pobres, os débeis, os marginalizados, aqueles que não encontram lugar à mesa do banquete onde se reúnem os ricos e poderosos, continuam a encontrar – no testemunho dos discípulos de Jesus – essa proposta de libertação e de esperança? A Igreja dá testemunho da proposta libertadora de Jesus para os pobres? Como é que os pequenos e humildes são acolhidos nas nossas comunidades? Como é que acolhemos aqueles que têm comportamentos social ou religiosamente incorretos?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho





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