.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 21 de julho de 2017

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM-Ano A

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
23 de Julho de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 13,24-43


·     Os nossos pais, nossos avós, semearam em nossas mentes a palavra de Deus enquanto éramos pequenos. Eles nos ensinaram a respeitar os mais velhos, a sermos justos, e temer a Deus.  CONTINUAR LENDO


=================================
“ENTÃO OS JUSTOS BRILHARÃO COMO O SOL..." – Olivia Coutinho

16° DOMINGO DO TEMPO COMUM.

Dia 23 de Julho de 2017

Evangelho de Mt13,24-43

Quem não observa as coisas simples, tem dificuldades para entender as parábolas de Jesus. O Mestre de todos os mestres serviu-se de meios bem simples para nos falar da grandiosidade do Reino dos céus! 
No evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, Jesus, com três parábolas, vem clarear a nossa mente, apresentando-nos características próprias do Reino dos céus: ele é algo dinâmico, que cresce silenciosamente dentro de nós, através de um processo lento, imperceptível aos nossos olhos, mas que sentimos o seu efeito, seus benefícios em nossa vida!
Com essas parábolas, Jesus responde as indagações de muitos de nós, que ainda tem muitas duvidas à respeito do Reino dos céus, por imaginá-lo fora do nosso alcance. 
Jesus não compara o Reino dos céus, com algo extraordinário, e sim, com plantas que conseguem crescer juntas com as ervas daninhas, sem se contaminarem, com uma pequena semente de aparência frágil e com o efeito de uma porção de fermento no meio da massa.
A primeira parábola, que nos é apresentada, é a parábola do joio, que nos faz lembrar a criação! Deus nos criou perfeitos, Ele nos moldou na fôrma do seu amor, deixando centelhas Dele em nós, mas o mal, disfarçado do bem, assim, como o joio no meio do trigo, encontrou brecha no nosso coração, ameaçando destruir a criação de Deus! 
Com esta parábola, Jesus vem nos dizer que o bem e o mal estão misturados, até mesmo dentro de nós, mas que é possível vivermos lado a lado, sem nos deixar contaminar pelo o mal, aniquilando-o, com o bem! 
O joio, na fase de crescimento, é semelhante ao trigo, assim também é o mal, o mal aproxima de nós, com a aparência do bem, é o Espírito Santo, que nos faz discernir o que é do bem e o que é do mal. Esta parábola, nos fala também, da tolerância de Deus, Deus não desiste de nós, Ele nos dá tempo para que possamos rever a nossa vida e buscar a conversão.
Na segunda parábola, Jesus compara o Reino dos céus com uma pequena semente de mostarda, querendo nos dizer, que a grandeza do Reino dos céus, não se mede geograficamente.
Comparando o Reino dos céus com uma minúscula semente, Jesus afirma que o crescimento do Reino, começa a partir de pequenas iniciativas!
Assim, como a força de uma pequena semente, que consegue romper a terra para trazer vida, abrigo para os pássaros, o Reino dos céus, ganha força no coração de quem acolhe a palavra de Deus e a transforma em mais vida para o outro!
Na terceira parábola, Jesus compara do Reino dos céus com o fermento misturado em três porções de farinha. Com esta comparação, Ele quer nos dizer, que o reino dos céus é construído com um pouco de cada um de nós. O que importa, não é a quantidade do que colocamos nesta construção, e sim, a qualidade desta oferta, que deve ser uma oferta de amor!
No final do Evangelho, Jesus explica detalhadamente aos discípulos, a parábola do joio. Uma explicação clara, que deve chegar até nós, como uma alerta, para que estejamos sempre vigilantes, para não corrermos o risco de cairmos nas armadilhas do inimigo que está a todo tempo nos espreitando. 
É fácil ser bom, vivendo onde só impera o bem, o desafio mesmo, é ser bom, onde o bem e o mal se misturam.
É no confronto com o maligno, que provamos a nossa adesão à Jesus, é aí, que damos testemunho da solidez da nossa fé. 
É na pessoa de Jesus, que o Reino dos céus se faz presente no meio de nós! Para vivermos intensamente as alegrias deste Reino, temos que romper definitivamente com as estruturas que geram morte, com os Reinos fantasiosos deste mundo, para nos envolvermos numa construção segura, uma construção que gera vida, que tem o AMOR como pilar central!
Estejamos certos: se o mal está ganhando força no mundo, e até mesmo dentro de nós, é sinal de que não estamos cultivando o bem que Deus plantou nos nossos corações!
O mal nunca sobreporá o bem, se estivermos embebidos no amor do Pai, enxertados no Filho e fortalecidos no Espírito Santo.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook

==================================



Continuamos a escutar o Senhor que, sentado na barca, nos fala do Reino dos Céus... Permanecemos atentos, como aquela multidão em pé, à beira-mar, embevecida: "Nunca nenhum homem falou assim..."
Hoje, o Senhor nos apresenta três parábolas: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa... É assim o Reino dos Céus!
As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria que nos dá a capacidade de acolher os tempos e modos de Deus! Mas, vamos às parábolas.
Primeiro, a do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar? Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: "Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!" Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e com amor vela por suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e homens bombas, fome, mortes e mensalões, Deus está presente, Deus cuida de nós! Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós infelizmente há o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo nome! Não mascare, irmão, irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência! Esse mal não vem de Deus; vem do antigo inimigo, do diabo que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem ao que é mal – mal semeado pelo maligno! Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta pra você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem! Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o seu modo de agir no mundo. O querido Bento XVI, na sua homilia de início de pontificado, falava da paciência de Deus que salva e da impaciência nossa que coloca a perder... Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na sua ação e nos seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. A tua força é princípio da tua justiça e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. Dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores".
Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário... Pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!
Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, "pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!" Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais do Reino, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança... Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde tem "Venha o teu Reino" aparece "Venha o teu Espírito"! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por ele, pois "o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!"
Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos sua palavra. Se formos fiéis e perseverarmos até o fim, escutaremos cheios de esperança sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: "... então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!"
dom Henrique Soares da Costa








A liturgia da Palavra de hoje tem seu centro no reino de Deus, em sua definição e no modo como ele é realizado no meio de nós. Várias são as possibilidades de interpretação: o reino é semelhante ao trigo, à mostarda e ao fermento ou semelhante ao joio, ao pé de mostarda e à mulher? A pergunta parece ser ousada, mas veremos como os vários modos de interpretação se complementam.
1ª leitura (Sb. 12,13.16-19)
Ser sábio é aprender de Deus: rei, humano e misericordioso
As palavras de sabedoria da primeira leitura de hoje são permeadas de esperança para o povo judeu, que vivia em meio à cultura e dominação gregas, sobretudo na cidade de Alexandria, onde esse livro foi composto, entre os anos 50 e 60 antes da Era Comum (a.C.). O judaísmo era desafiado pelos valores gregos do ser. Os judeus se perguntavam: como se adaptar à nova realidade sem perder a fé no Deus dos pais e da libertação do Egito? A resposta era simples: testemunhar que o Deus de Israel era diferente. E foi isso que o piedoso judeu e autor do livro da Sabedoria quis mostrar, diferentemente de outros judeus, seus antecessores, que apresentavam Deus forte, violento para com os inimigos. Deus, no livro da Sabedoria, é o cuidador de todos (v. 13), que julga com justiça (v. 13), perdoa e governa com indulgência (v. 18). Por ser assim, Deus não deixa de ser menos poderoso que os deuses dos pagãos. E, mais do que isso, o ser humano é convocado a ser como Deus, misericordioso. Deus é humano no seu proceder. E ao ser humano, aprendendo de Deus, resta também governar e agir com justiça, misericórdia e solidariedade. Eis o nosso grande desafio: aprender da pedagogia de Deus.
Evangelho (Mt. 13,24-43)
A dinâmica do reino
Dando continuidade ao discurso de Jesus em forma de parábolas com a devida explicação alegórica, encontramo-nos diante de três modos de Jesus definir o sentido do reino de Deus, que nos questionam: o reino é semelhante ao trigo ou ao joio? Ao fermento ou à mulher? À semente de mostarda ou ao pé de mostarda? Vejamos uma por uma. Ah! Outro detalhe importante: se a primeira leitura falou do proceder de Deus rei, agora faz sentido falar do reino.
a) O reino é apocalíptico e como o trigo. A comparação parece simples. O trigo é semeado. Vem alguém e semeia o joio. O que fazer? Arrancá-lo para não sufocar o trigo? Não. Basta esperar o crescimento de ambos até que o tempo da colheita chegue, quando o joio será queimado e o trigo recolhido em celeiros (v. 24-30). Essa é a única parábola explicada de forma apocalíptica por Jesus. Trata-se do fim dos tempos: aqueles que praticam a injustiça serão queimados na fornalha ardente e os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai. A menção de diabo – o inimigo que semeou o joio – e do Filho do homem – aquele que semeia a boa semente no campo (mundo) – evoca a urgência apocalíptica da realização dos ensinamentos de Jesus pela comunidade de Mateus. Somos herdeiros desta que se tornou a tradicional interpretação da parábola: o joio foi identificado como elemento ruim que impede o reino de crescer e por isso, no fim dos tempos, será arrancado e queimado. Em outras palavras: o mal deve crescer junto com o bem, o reino, representado pelo trigo.
b) O reino de Deus tem a ver com o cultivo. A comunidade de Mateus releu a parábola no contexto escatológico. E o fez muito bem! No entanto, considerando o contexto agrário e de confronto com o império romano, no qual essa parábola foi criada, podemos definir o reino de Deus de três modos. A erva daninha, chamada de joio, é uma graminha que cresce anualmente e é muito comum nos países do Mediterrâneo oriental. É uma erva venenosa, seus grãos possuem toxina. O gado que a come morre. O joio não cresce em terrenos a mais de 550 metros de altitude. Nos anos chuvosos, ele cresce mais que o trigo. A experiência campesina aprendeu, desde cedo, que colher o joio junto com o trigo é desaconselhável, pois ele contaminará o trigo. Daí o conselho que aparece no final de ambos os textos. Mas, então, como definir de três modos o reino de Deus nessa parábola? Ele pode ser comparado ao joio, ao fazendeiro próspero ou ao agricultor sem-terra. O reino é como o joio, essa erva daninha que cresce em qualquer lugar, sem pedir licença. O reino é assim, chega e se espraia, independentemente da vontade das pessoas, seja ele um rico fazendeiro, seja ele um pobre sem-terra. Ninguém pode impedi-lo. Assim aconteceu, mais tarde, com o império romano: ele teve de aceitar o cristianismo como religião. O reino é como um fazendeiro próspero que possui uma rica plantação de trigo e não pode impedir que cresça o joio (reino de Deus) jogado na sua plantação pelo inimigo. Por fim, o reino é como o agricultor que não tem terra, que não pode se livrar do grande fazendeiro que tirou as suas terras. O reino está dentro de cada um de nós. Mesmo sendo arrancado e queimado, ele cresce em outro lugar (cf. Faria, 2003, p. 117-119).
c) O reino é como a semente de mostarda, uma árvore ou pé de mostarda. A outra parábola do evangelho de hoje encontra-se também em Mc 4,30-32 e Lc 13,18-19. Vale a pena ler as narrativas, comparando-as para perceber as mudanças recebidas ao longo da transmissão: de terra para campo e horta, de ramo para árvores etc. Considere que a linha histórica é: Tomé (anos 50), Marcos, Mateus e Lucas (entre os anos 60, 70 e 80, respectivamente). Estamos diante de uma parábola que, ao ser transmitida, recebeu algumas modificações. Analisemos essa passagem à luz das seguintes questões: qual seria a intenção de Jesus ao contar essa parábola? Onde está o centro da parábola? Interpretações tradicionais insistem em mostrar o reino como uma semente pequena que cresce e fica grande. Vejamos três modos possíveis de ler a parábola da semente de mostarda com base em seu centro. Centro da parábola: semente. Compreendido desse modo, o enfoque desse texto está na passagem do pequeno para o grande. A pequena semente de mostarda é o novo Israel, isto é, os seguidores de Jesus, que se tornarão “grandes árvores”. Tomé, Marcos e Mateus, com exceção de Lucas, falam de algo menor que se torna grande. Não acreditamos ser essa a melhor interpretação. Não obstante, há que considerar que cada seguidor do reino é chamado a lavrar constantemente o seu interior para deixar a semente do reino crescer e produzir abundantes frutos. O centro da parábola é a árvore apocalíptica. Nesse sentido, o pequeno Israel tornar-se-ia uma grande árvore apocalíptica. Textos do Primeiro Testamento falam do cedro do Líbano como árvore apocalíptica (Sl. 104,12; Ez. 31,3.6; Dn. 4,10-12). E é nessa grande árvore que os pássaros fazem os seus ninhos. Acreditamos que, se Jesus, de fato, quisesse referir-se a uma árvore apocalíptica, teria mencionado o cedro e não a mostarda. Não, esse não pode ser o centro da parábola. Centro da parábola: pé de mostarda. A mostarda é uma planta medicinal e culinária que chega a medir no máximo 1 metro e meio de altura. Ela se desenvolve melhor ao ser transplantada. Depois de plantada, torna-se uma erva daninha. Temos dois tipos de mostarda, a selvagem e a culinária. Por ser uma planta impura, o código deuteronômico (Dt. 22,9) proíbe a sua plantação. O centro da parábola está, portanto, no pé de mostarda, seja ele doméstico ou selvagem. Assim é o reino de Deus, ele chega e se esparrama. Não pode ser controlado, torna-se abundante como a nossa tiririca. Atrai pássaros, inimigos de qualquer agricultor. O reino, depois de semeado, perde o controle, toma conta do terreno todo. Assim como o reino, a mostarda é motivo de escândalo para muitos. O reino é indesejável e violador das regras de santidade. Essas interpretações nos ajudam a compreender o valor do reino (Crossan, 1994, p. 313-318).
d) O reino é semelhante à mulher que usa o fermento. O simples fato de a parábola comparar o reino à mulher que usa o fermento é significativo. A interpretação tradicional dessa passagem considerou o fermento como ponto crucial na sua compreensão. Ousamos perguntar se, de fato, nisso estaria o centro desse texto. Comecemos por compreender as simbologias utilizadas. Mulher: representa a fertilidade e a impureza religiosa. Suas regras deviam ser controladas pelos sacerdotes. Dessa forma, o sagrado estaria também sob controle. Por outro lado, mulher e a Torá (lei, caminho, conduta) eram os bens preciosos dos judeus. Sem elas, a vida não se multiplicaria. Fermento: símbolo também da impureza e da corrupção moral. O fermento era feito com base na putrefação da batata, escondida por vários dias em um lugar escuro. O fermento cheirava mal e era detestado por judeus piedosos e escrupulosos. O medo de tocar em coisas impuras e tornar-se uma delas levava os judeus a estabelecer regras de contato com coisas e pessoas impuras. O código da santidade (Lv. 17-26) é exemplo claro desse modo de pensar judaico. Sede santos como eu sou santo (Lv. 19,2) passou a ser símbolo de pureza moral. Três medidas: o fato de o fermento ser colocado em três medidas de farinha pode não significar nada em absoluto, pois uma mulher não necessitaria fazer 40 quilos de pão. Essa quantidade demonstra a abundância do reino e o três relembra o Shemá Israel (Escuta, ó Israel), profissão de fé israelita baseada no amor vivido com o coração, o ser e as posses (Dt. 6,4-9). Em vários textos bíblicos do Segundo Testamento encontramos alusão ao Shemá (Faria, 2001). Considerando a simbologia e as diferenças nos textos, suspeitamos que o centro da parábola de Tomé não está no fermento, mas no processo de sua fabricação. Ele é feito pela mulher, no escuro, é impuro e cheira mal. Assim também era considerada a mulher. Aceitar o reino é ir contra o que está ocorrendo de errado na sociedade, é não aceitar o erro tido como coisa normal. O reino ataca a estrutura má da sociedade. E, por mais insignificante que seja, ele contagia, produz “grandes pães” (cf. Faria, 2003, p. 113-116).
Como vimos acima, a definição do reino é ampla e muito nos tem a ensinar. Todas elas têm o seu mérito.
2ª leitura (Rm. 8,26-27)
Deus Pai e Deus Espírito estão em nós, na oração pelo Reino.
A reflexão feita por Paulo, nessa carta dirigida aos cristãos de Roma, aponta-nos a oração como caminho de construção do reino de Deus. Se não sabemos rezar, é o próprio Espírito que intercede, que reza por nós. Ele suplica a Deus em favor dos que lutam por justiça e paz, assim como vimos nas parábolas do evangelho de hoje. A oração é fonte de vida para o cristão. Jesus foi um homem de oração. Deus Pai e Deus Espírito se entendem e se encontram em nós, quando rezamos e lutamos na construção do reino de Deus.
PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Diante das várias possibilidades de interpretação das três parábolas do evangelho, esclarecer o valor de uma delas.
2. Fazer a comunidade perceber que a luta pela implantação do reino de Deus exige de cada um de nós um esforço constante. Vivemos em meio ao joio, plantando o trigo; fermentando pão, rodeados de injustiças sociais; sonhando com uma ação apocalíptica de Deus.
3. Levar a comunidade a se perguntar sobre o modo como ela exerce o seu poder na sociedade e na comunidade. Ela exerce a misericórdia? Age com justiça? Enfim, segue a pedagogia divina? A faina do cristão consiste em plantar a semente do reino, ser um incômodo constante diante dos reinos de morte, permanecer na oração, tendo a certeza de que o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.
frei Jacir de Freitas Faria, ofm


As coisas do mundo novo chamado reino
Neste domingo ouvimos parábolas que descrevem, através de coisas do cotidiano, o projeto que o Pai quer concretizar no meio do mundo através de Jesus, o grande pregador do Reino dos céus.
Reino quer dizer uma ordem nova de coisas,  um mundo a ser feito e refeito com uma força nova e insuspeitada que atua no coração das coisas envelhecidas. Jesus é o mensageiro do Reino. Mais do que isso. Ele é o próprio Reino, o mundo novo que ocupa o lugar das coisas velhas marcadas pelo desejo do homem e por seus desregramentos. Trata-se de um empreendimento a longo prazo. Esse mundo novo que  foi  inaugurado pela vida, paixão, morte e ressurreição, está em andamento. A Igreja, a comunidade deixada por  Jesus, existe para acelerar a implantação desse mundo novo de transparência, de beleza, de harmonia, de fraternidade e de justiça. 
Essa Igreja, santa e pecadora, se sente serva do Reino. Na vida da mesma Igreja há luzes e sombras, claridades e trevas. O texto de Mateus, redigido em volta dos anos 70, procura mostrar algumas leis do Reino.  O Jesus de Mateus, através de parábolas, nos leva a conhecer e compreender certas “lentidões” que presenciamos na vida da Igreja e do mundo.
No mundo (e na Igreja), nesses tempos que são os penúltimos, joio e trigo, se misturam. O agricultor pode ter a tentação de arrancar o joio,  na impaciência e no zelo pelo bom êxito. Virtudes e vícios coexistirão. Há um tempo do crescimento do reino em que não se faz a separação de  um e de outro. Temos que ter paciência. Na família há membros que honram a pequena célula. Por vezes, acontece o contrário. Não se pode precipitar as coisas. Nas comunidades cristãs coexistem a bondade e a perversidade.
Esse mundo novo que se chama Reino não acontece da noite para o dia.  Seus começos são modestos e quase insignificantes. O Reino se assemelha a uma ínfima sementinha de mostarda. Ninguém por ela dá nada. Mas quando lançada à terra faz brotar uma planta sem proporções aos seus começos. Ele é semelhante a um punhadinho de fermento que uma mulher  coloca numa força de  farinha e que leveda a massa toda.
Aí estão nossas comunidades cristãs. Muitas delas estão implantadas em espaços de gente simples, dedicada. Lá vemos esses agentes de pastoral cheios de fogo e de força e que, na simplicidade de suas vidas, preparam as pessoas para os sacramentos, visitam os doentes, promovem os mais abandonados e excluídos. Ali está uma pessoa que foi profundamente ofendida e que conseguiu dar o perdão. Comunidades cristãs, grupos de pessoas que levam vida reta e justa, pessoas isoladas que vão se configurando a Cristo  Jesus.  É o Reino em andamento.
Aquele que inaugurou o Reino nada tinha de pompa. Nasceu num canto minúsculo do Oriente, não tinha títulos, nem casa, nem propriedades, chegou mesmo a lavar os pés de seus companheiros, morreu sozinho na solidão da cruz, morreu dando a vida pelos seus e assim mostrou que a grandeza do  Reino que deve acontecer na plenitude dos tempos quando o Reino chegará à sua plena realização. Ele foi com um punhadinho de fermento que uma mulher coloca na massa. Quando o tempo passa a massa fermenta e acontecem prenúncios e antecipações do Reino.
frei Almir Ribeiro Guimarães



A paciência de Deus
Em sua pregação aos camponeses da Palestina, na linguagem campestre deles, Jesus aborda hoje o tema da condenação (evangelho). Já vimos, no domingo passado, que ninguém conhece a profundeza do pensamento de Deus.Incredulidade não significa necessariamente perdição. Como ainda muitos “bons cristãos” hoje, também os antigos judeus se admiravam de que Deus deixasse coexistir fé e incredulidade, justos e injustos. Mas Deus não precisa prestar contas a ninguém. Sua grandeza, ele a mostra julgando com benignidade, pois ele tem suficiente poder; Deus não é escravo de sua própria força (Sb. 12,18; 1ª leitura)! O salmo responsorial (Sl. 86/85), aparentado à revelação de Deus a Moisés em Ex. 34,5-6, acentua o tema da magnanimidade de Deus.
Contrariando nossa impaciência e intolerância, Deus aguarda que talvez o injusto ainda se converta (12,19; cf. Lc. 13,6-9). Sobre este tema Jesus bordou uma de suas mais eloqüentes parábolas: quando num campo se encontra joio no meio do trigo, é muito imprudente extirpar apressadamente o joio, pois se poderia arrancar também o trigo. Melhor é ter paciência, deixar tudo amadurecer e, no fim, conservar o que serve e queimar a cizânia. Deus é tão grande, que no seu Reino tem espaço até para a paciência com os incrédulos e injustos. Ele é quem julga.
A essa parábola são encadeadas algumas outras, de semelhante inspiração campestre (Mt. 13,31-33), bem como uma consideração sobre a “pedagogia” das parábolas. Depois, Jesus explica a parábola do joio. As parábolas intermediárias (do grão de mostarda e do fermento) referem-se ao incrível crescimento do Reino de Deus. Há, porém, diferenças no acento. Na parábola do grão de mostarda, o enorme crescimento do Reino, incomparável com seu humilde início, dá uma impressão de amplidão, de expansão, de espaço; na parábola do fermento, é a força interior que é acentuada: um pouco de fermento dá gosto ao todo.
Nos v. 34-35, o evangelista faz uma observação sobre a pedagogia de Jesus. Ele não fala por meio de parábolas para confundir o povo, mas sua pregação confunde, de fato, os que acham que sabem tudo (cf. Mt. 13,12-15). Ora, para quem quiser escutar, cumpre-se, nesta pedagogia de Jesus, o que o salmista já anunciara há muito tempo: a revelação das coisas escondidas desde a formação do mundo.
O tema principal para hoje é, pois, a grandeza de Deus, que tem lugar para todos, inclusive os pecadores, até o momento em que eles terão de decidir se aceitam a sua graça, sim ou não. Isso nos ensina também algo sobre o pecado: com o tempo, o pecado se transforma, ou em arrependimento, ou em orgulho “infernal”, ao qual cabe o destino que finalmente é dado ao joio.
E como viver num mundo onde coexistem fé e incredulidade, justiça e pecado (muitas vezes, dentro da mesma pessoa, dentro da Igreja também)? Como aceitar pessoas, sem aceitar seu pecado nem a estrutura pecaminosa de nosso mundo? São perguntas candentes, que podem ser meditadas à luz da paciência, não tanto “histórica”, mas antes escatológica, de Deus.
A 2ª leitura nos ensina algo fundamental sobre a “espiritualidade”. Para muita gente, espiritualidade é uma espécie de conquista de si mesmo, um treinamento, uma ascese – tanto que, antigamente, “ascese e espiritualidade” eram estudadas no mesmo tratado. Ora, espiritualidade cristã existe quando o Espírito do Cristo vive em nós, toma conta de nós. Isso nada tem a ver com ascetismo, uma vez que o Espírito adota até a nossa fraqueza. Nós nem sabemos rezar como convém, mas “o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm. 8,26). Portanto, o importante é deixar-se envolver por esse Espírito e não expulsá-lo pela auto-suficiência de nosso próprio espírito. O Espírito do Cristo é que consegue dar conta da nossa fraqueza; o nosso, dificilmente...
padre Johan Konings "Liturgia dominical"




As pessoas apresentam dificuldades em entender o mistério do Reino do Céu escondido na história desde o início dos tempos. Por essa razão, Jesus ensina através de parábolas.
No Evangelho de hoje, Jesus usa uma sequência de três parábolas para explicar com simplicidade a dinâmica do Reino do Céu.
Primeiro, Ele compara o Reino a uma plantação de trigo onde o inimigo semeia joio, que é uma erva daninha muito semelhante ao trigo e que, em algumas regiões, é conhecido como “falso trigo”. Para distinguir o joio na plantação de trigo é preciso paciência, esperar que ambos tenham tempo para crescer, e só depois colher o bom furo.
Nesta parábola, Jesus lança mão de uma cena comum do cotidiano do povo de Israel: o dono do campo que manda semear, o inimigo que procura prejudicá-lo e a surpreendente reação do primeiro ao ordenar que ambas as sementes cresçam juntas. Essa parábola pode ser compreendida à luz do ministério de Jesus que não reuniu uma comunidade só de justos e bons, mas que anunciou a sua mensagem também aos pecadores que deverão ter o tempo, dado por Deus, para o arrependimento e a conversão.
Esta parábola nos ensina que, na luta pela justiça não cabe aos empregados que farão a colheita, ou seja os seguidores de Jesus, fazer a separação entre bons e maus, pois, a semelhança entre o joio e o trigo é enorme, e só Deus, no momento certo, na hora da colheita, pode realizar tal julgamento.
Na segunda e terceira parábolas contadas por Jesus, Ele mostra como na luta pela justiça pode também acontecer a tentação do desânimo tendo em vista a oposição dos maus. As parábolas da semente de mostarda e do fermento na massa mostram que pequenas atitudes têm o poder de realizar grandes transformações, levando a refletir sobre a necessidade de perseverar. O contraste entre a ação inicial e o resultado final é usado por Jesus para deixar o Seu recado: Não desanimem!
Uma pequena semente é capaz de dar origem a uma grande árvore, e o mesmo ocorre com o fermento, onde uma pequena quantidade tem a capacidade de levedar muita massa.
Jesus instaurou um novo Reino dentro da história que é vivida por bons e maus, justos e injustos. A vinda do Reino, ou seja, Jesus entra em luta contra o espírito do mal e conduz os justos à vitória final.
Pequeninos do Senhor



Suportando a contradição
A parábola do joio e do trigo mostra como devemos, na vida, suportar a coexistência do bem e do mal. É impossível realizar uma clara separação entre eles. A ação concomitante do senhor do campo, semeando a boa semente, e a do seu inimigo, semeando a erva daninha, é inevitável. É preciso contar com esta eventualidade!
Os discípulos foram alertados quanto à tentação de querer arrancar a erva daninha, deixando crescer somente o trigo. Seria arriscado, pois juntamente com a erva má, arrancar-se-ia também a boa. O prejuízo desaconselha uma tal providência.
Diante desta situação, a atitude correta consiste em ter paciência, misericórdia e esperança. Paciência, porque, no final das contas, ficará patente a identidade do bem e do mal, embora, num determinado momento, parecessem semelhantes. Além disto, fica sempre aberta a possibilidade de conversão do pecado para a graça, pois a ação de Deus, no coração humano, supera o nosso entendimento. Misericórdia, porque o discípulo do Reino é chamado a acolher os pecadores, com a mesma benevolência do Pai, sem pretender excluí-los dos benefícios do Reino. Trata-se de uma luta constante para libertá-los da escravidão à qual foram reduzidos pelo pecado. Sem misericórdia, este processo de aproximação será inviável. Esperança, porque o mal está fadado a ser derrotado. Pela força de Deus, o bem terá a última palavra na história humana.
padre Jaldemir Vitório



Por que da criação boa de Deus surgiu o mal?
O texto do evangelho é uma sequência de três parábolas, mais a explicação da parábola do joio e do trigo. Todo o texto está situado no capítulo treze de Mateus, que, muitos comentaristas, dizem ser o capítulo central do primeiro evangelho. Esse longo ensinamento em parábolas, às multidões e aos discípulos, visa fazer compreender a natureza do Reino dos Céus, a sua situação neste mundo, o seu desenvolvimento e as exigências que ele impõe aos que aderem a ele. O ensinamento de Jesus em parábolas divide o auditório. Na resposta à pergunta dos discípulos sobre o motivo do ensinamento em parábolas às multidões, Jesus faz uma distinção entre eles e as multidões (Mt. 13,10-11). Não se trata de discriminação ou exclusão, mas de uma constatação: há os que aderem ao Reino (os discípulos) e os que o rejeitam. Para os discípulos o ensinamento de Jesus dá acesso ao mistério de Deus; para os outros, ele é um enigma. No entanto, essa distinção só existe porque Deus permite, isto é, Deus respeita profundamente a liberdade do ser humano. O Reino dos Céus cuja realidade Jesus revela só pode ser acolhido na liberdade. As três parábolas supramencionadas têm em comum que exigem um engajamento pessoal. A parábola do joio e do trigo é uma releitura dos três primeiros capítulos do livro do Gênesis. No campo de Deus, ele semeou a boa semente. O campo é o jardim de Deus onde ele colocou o ser humano, para que na comunhão com o seu Criador ele pudesse ser feliz (Gn 2,8-15). A boa semente que se desenvolve e dá fruto é o ser humano que Deus criou à sua imagem e semelhança e colocou em seu jardim. A pergunta do homem de ontem continua sendo a mesma da do homem de hoje: Por que da criação boa de Deus surgiu o mal? Se Deus semeou somente a boa semente do trigo em seu campo, de onde veio o joio? A resposta: o inimigo de Deus e do ser humano foi quem o fez. O trigo que germina no meio do joio parece vulnerável, como a existência humana ameaçada pelo mal. No entanto, aos olhos de Deus, nossa existência é portadora do projeto de Deus e dará fruto no tempo certo. O Reino de Deus sofre violência, neste mundo, e bem e mal estão mesclados no mesmo campo. No entanto, o dono do campo não renuncia à colheita, ele espera pacientemente.
Carlos Alberto Contieri,sj



O projeto de Deus se realizará no mundo
Mateus, conforme o estilo catequético de seu evangelho, reúne no capítulo 13 uma coletânea com sete parábolas. No trecho de hoje, temos três delas, sendo a parábola do trigo e do joio explicada no estilo de uma alegoria. A parábola do joio e do trigo destaca que a missão não está em combater o inimigo, mas em cultivar os valores do Reino. Fica removida, assim, a obsessiva idéia do "inimigo", muito presente no Primeiro Testamento, de modo particular nos Salmos.
As parábolas do grão de mostarda e do fermento fortalecem os discípulos na esperança. As duas são elaboradas a partir de imagens do ambiente familiar: um homem em seu campo e uma mulher em sua casa preparando o pão. Na primeira parábola são relativizadas as esperanças messiânicas de Israel como poderoso dominador das nações, tomando-se como referência o pequeno grão de mostarda plantado por um camponês. Na segunda, com a mulher que coloca o discreto fermento na massa de farinha, levedando-a, temos o fermento do amor, que se diferencia do fermento da hipocrisia dos fariseus, sobre o qual Jesus adverte seus discípulos (Mt. 12,1). Em ambas, revela-se o Reino de Deus, realmente presente no mundo, na sua dimensão de humildade e simplicidade. Não como afirmação de poder, mas pela transformação dos corações e das relações pessoais, no amor e na justiça, fundamentos da nova sociedade possível.
A explicação alegórica da parábola do trigo e do joio é própria de Mateus. Com freqüência Mateus recorre à expressão apocalíptica do juízo final como forma de pressão para que a comunidade desperte para a obediência à palavra de Jesus. Aqui é o tema da colheita final, quando o joio será queimado, bem como os que praticam o mal, jogados na fornalha de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes. Esta expressão, cruel, é característica de Mateus que a repete por seis vezes no seu evangelho. Acolhendo a todos com a clemência de Deus (primeira leitura) abrem-se as portas da verdadeira esperança e comunica-se a vida e o amor, sem discriminações. Deixando-se conduzir pelo Espírito, o projeto de Deus se realizará no mundo.
José Raimundo Oliva



O trigo e o joio
Com 3 parábolas, Jesus apresenta no Evangelho a situação da Igreja no mundo. A parábola do grão de mostarda que se converte em uma árvore indica o crescimento do Reino, não tanto em extensão, mas em intensidade; indica a força transformadora do Evangelho, que «aumenta» a massa e a prepara para converter-se em pão.
Os discípulos compreenderam facilmente estas duas parábolas; mas isso não aconteceu com a terceira, a do trigo e do joio, e Jesus teve de explicá-la à parte.
O semeador, disse, era ele mesmo; a boa semente, os filhos do Reino; o joio, os filhos do maligno; o campo, o mundo; e a colheita, o fim do mundo.
Esta parábola de Jesus, na antigüidade, foi objeto de uma memorável disputa que é muito importante levar em consideração também hoje. Havia espíritos sectários, donatistas, que resolviam a questão de maneira simplista: por um lado, está a Igreja (sua igreja!), constituída somente por pessoas perfeitas; por outro, o mundo, repleto de filhos do maligno, sem esperança de salvação. A estes se opôs Santo Agostinho: o campo, explicava ele, certamente é o mundo, mas também na Igreja, lugar em que vivem juntos santos e pecadores e em que existe lugar para crescer e converter-se. «Os maus – dizia ele – estão no mundo ou para converter-se, ou para que por meio deles os bons exerçam a paciência.»
Os escândalos que de vez em quando atingem a Igreja, portanto, devem nos entristecer, mas não surpreender. A Igreja está composta de pessoas humanas, não somente de santos. Além disso, também existe joio dentro de cada um de nós, não somente no mundo e na Igreja, e isso deveria eliminar de nós a propensão a apontar com o dedo os demais. Erasmo de Rotterdam respondeu a Lutero, que o reprovava por sua permanência na Igreja Católica apesar de sua corrupção: «Suporto esta Igreja com a esperança de que seja melhor, pois ela também está obrigada a suportar-me esperando que eu seja melhor».
Mas talvez o principal tema da parábola não seja o trigo nem o joio, e sim a paciência de Deus. A liturgia destaca isso com a escolha da 1ª leitura, que é um hino à força de Deus, que se manifesta sob a forma de paciência e indulgência. Deus não tem simples paciência, isto é, não espera o dia do juízo para depois castigar mais severamente. Trata-se de magnanimidade, misericórdia, vontade de salvar.
A parábola do trigo e do joio permite uma reflexão de maior alcance. Um dos maiores motivos do mal-estar para os fiéis e da rejeição de Deus sempre foi a «desordem» que existe no mundo. O livro bíblico do Eclesiastes, que tantas vezes se faz porta-voz das razões dos que duvidam e dos céticos, escrevia: «Tudo acontece igualmente ao justo e ao ímpio... Sob o sol, ao invés do direito, está a iniqüidade, e ao invés da justiça, a impiedade» (Ecle 3,16; 9,2). Em todas as épocas se viu que a iniqüidade triunfa e que a inocência é humilhada. «Mas – como dizia o grande orador Bossuet – para que não se acredite que no mundo existe algo fixo e seguro, às vezes se vê o contrário, isto é, a inocência no trono e a iniqüidade no patíbulo.»
O autor do Eclesiastes já havia encontrado a resposta a esse escândalo: «Eu disse em meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio, pois lá existe um tempo para cada coisa e para toda obra» (Ecle. 3,17). É o que Jesus chama na parábola de «tempo da colheita». Trata-se, em outras palavras, de encontrar o ponto de observação adequado diante da realidade, de ver as coisas à luz da eternidade.
É o que acontece com alguns quadros modernos que, se forem vistos de perto, parecem uma mistura de cores sem ordem nem sentido, mas se forem observados da distância adequada, convertem-se em uma imagem bela e poderosa.
Não se trata de permanecer com os braços cruzados diante do mal e da injustiça, mas de lutar com todos os meios lícitos para promover a justiça e reprimir a injustiça e a violência. A esse esforço, que todos os homens de boa vontade realizam, a fé acrescenta uma ajuda e um apoio de valor inestimável: a certeza de que a vitória final não será da injustiça, nem da prepotência, mas da inocência.
Para o homem moderno, é difícil aceitar a idéia de um juízo final de Deus sobre o mundo e a história, mas dessa forma ele se contradiz, pois ele mesmo se rebela com a idéia de que a injustiça tenha a última palavra. Em muitos milênios de vida sobre a terra, o homem se acostumou com tudo; adaptou-se a todo clima, imune a muitas doenças. Existe algo ao qual ele nunca se acostumou: a injustiça. Já não somente será querido por Deus, mas também pelos homens e, paradoxalmente, também pelos ímpios. «No dia do juízo universal – diz o poeta Paul Claudel –, não somente virá do céu o Juiz, mas se precipitará ao seu redor toda a terra.»
Como mudam as vicissitudes humanas quando são vistas desde este ponto de vista, incluídas as que acontecem no mundo de hoje! Tomemos o exemplo que tanto humilha e entristece a nós, italianos: o crime organizado, a máfia..., e que com outros nomes está presente em muitos países. Recentemente, o livro «Gomorra», de Roberto Saviano, e o filme que foi feito sobre ele documentaram o nível de ódio e de desprezo alcançado pelos chefes dessas organizações, assim como o sentimento de impotência e quase de resignação da sociedade diante desse fenômeno.
No passado, vimos pessoas da máfia, que foram acusadas de crimes horrorosos, defender-se com um sorriso nos lábios, colocar em xeque juízes e tribunais, rir diante da falta de provas – como se, livrando-se dos juízes humanos, tivessem resolvido tudo. Se eu pudesse me dirigir a eles, eu lhes diria: «Não se iludam, pobres desgraçados; vocês não conseguiram nada! O verdadeiro juízo ainda deve começar. Ainda que vocês terminem seus dias em liberdade, temidos, honrados, e inclusive com um funeral religioso espetacular, depois de ter oferecido grandes quantias a obras de piedade, não terão conseguido nada. O verdadeiro Juiz os espera detrás da porta, e não é possível enganá-lo. Deus não se deixa corromper».
Deveria ser, portanto, motivo de consolo para as vítimas e de saudável susto para os violentos o que Jesus diz ao concluir sua explicação sobre a parábola do joio: «Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no final dos tempos: o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai».
fr. Raniero Cantalamessa, ofmcap - tradução: Aline Banchieri





Nenhum comentário:

Postar um comentário